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The problem with architects

If you like fantasy and you want to be the next Tolkien, don’t read big Tolkienesque fantasies – Tolkien didn’t read big Tolkienesque fantasies, he read books on Finnish philology. Go and read outside of your comfort zone, go and learn stuff.

— Neil Gaiman, Nerdist podcast, 2011. Via Brain Pickings.

The problem with architects is that they care too much about architecture. We spend way too much time and energy talking about architecture, reading architecture books and magazines, visiting architecture blogs and websites, nurturing a monocultural viewpoint on the world that surrounds us.

Architecture is a field of knowledge that spreads into many different areas of life. It’s not just about material buildings, it’s not just about light or about the art of drawing or whatever fantasy you’ve been told in college. It’s about the interaction of things in the inhabited world.

The most difficult thing in creating good architecture or urban design is that there’s a lot of complexity going on, there are too many layers. Everytime you look at things from a different point of view you see different things. If you’re considering structure, for example, thinking about the right balance between material resources and the needs of the building, you will assess a number of interrogations. But if you’re thinking about daylight or rain, about the air flow, about electricity and a myriad infrastructures, about garbage disposal or sewage draining, you will see other things.

And if you widen that thought process to areas like, say, energy consumption or sociology, or economy, or history, you will see even more things you didn’t consider in the first place.

So when some architect says that projects are “born” on a napkin drawing, what can you say? Can you put that amount of thought in a sketch made over a cup of coffee? Do you think a good work of architecture is born from a moment of inspiration? Well, I don’t.

These thoughts came to me as I was watching S G Collins, director of Postwar Media, talking in his latest video, Return to Civilization.



Now, here’s the thing. I’m not saying I agree with everything he’s saying – although I can’t help identifying with his tongue-in-cheek sense of humour. But that’s not really the point. No, the most interesting thing is that here is a non-architect talking about architectural issues, and doing so by presenting different questions. By addressing the multi-layered complexity of architecture and urbanism that is often missing in the monocultural discourse architects tend to surround their profession with.

The problem with architects is that we need to change the way we question, think and execute our work. We need to go outside of our comfort zone. Monocultural thinking is our greatest enemy.

Last House Standing





Last House Standing is a photographic essay by Ben Marcin.

As casas também resistem. Ben Marcin, fotógrafo americano de origem germânica, registou imagens de casas “em banda” que hoje permanecem isoladas. O autor faz notar que, em muitos casos, estas últimas habitações se encontram ocupadas. Falam-nos, mais do que sobre elas mesmas, de como a vida pode persistir à disfunção da cidade que as rodeia. Via Sound + Vision, Feature Shoot.

Um post que também é sobre liberdade




O 100Ideias é um excelente blogue, cheio de bons conselhos e com uma atitude muito mãos-na-massa. Recentemente, a propósito de um trabalho de recuperação, a Sofia Pinheiro publicou estas fotografias de caixas de correio antigas, obsoletizadas por não serem conformes com as medidas actualmente exigidas pela lei.
Talvez o caso não tenha muita importância. São apenas objectos caducos, caixas de correio mortas que se perderão no tempo e depois na memória. Mas talvez nos contem uma história sobre nós próprios, de como descartamos aqui e ali parte do nosso património com a ligeireza com que se publicam regulamentos e decretos-lei. O passado é proibido.
Para desanuviar, no outro lado do mundo parece que é assim.

Momento geek




Calma, não se trata de uma pré-visualização do pós-‘troika’. São apenas imagens promocionais de um jogo de vídeo, neste caso com uma Lisboa pós-apocalíptica entre várias cidades destruídas.

Mais do que quatro paredes







Talvez por ter formação interdisciplinar, tendo como ponto de partida a arte, para se debruçar depois sobre o mundo do design e da arquitectura, os projectos de Rosan Bosch sejam tão estimulantes. Os trabalhos do estúdio que dirige, sediado em Copenhaga, não se perdem na formalização de cascos notáveis, de grandes obras-de-arte de betão armado ou em soluções conceptuais em que o objecto-arquitectura se torna consumidor desproporcionado dos meios disponíveis para o todo da obra.
Pelo contrário, nela encontramos a paixão pela vivência plena dos espaços, pelo detalhe e pelo design como veículo para a interacção entre as pessoas e os edifícios.

A escola Vittra Telefonplan, localizada em Estocolmo, é bom exemplo dessas características propondo soluções inovadoras para um espaço educativo sem paredes. A ideia convencional de sala de aula é abandonada optando por criar ambientes com grande interactividade e sentido de convivência onde as crianças podem aprender, estudar e brincar em conjunto.
O que ali se revela é uma forma diferente de encarar a escola, um lugar constituído por espaços de aprendizagem multifuncionais, interiores coloridos, nichos para actividades de maior concentração ou espaços para contemplar o ambiente envolvente, pensados para o conforto tanto das crianças como dos adultos.

O sítio web oficial da instituição dá a conhecer mais detalhes sobre a filosofia que orienta a concepção das suas escolas. Via Arquitetura da Convivência.

Negativos




Folhas embutidas em superfície de betão. Detalhe da escola de Mzamba, na África do Sul, em construção com o apoio da Bauen für Orange Farm. Via Designboom (com mais imagens).

Morro da Providência



No morro da Providência, uma das mais antigas favelas do Rio de Janeiro, está em curso uma vasta operação urbana de que resultará a demolição de centenas de pequenas casas da encosta. O street artist português Alexandre Farto, mais conhecido como Vhils, passou várias semanas junto daquela comunidade gravando murais com os rostos dos antigos residentes nas paredes restantes das suas casas.
Descascando a superfície, um pequeno filme dirigido por João Pedro Moreira, dá a conhecer este projecto artístico. Uma história de expropriação colectiva contada pelas muitas faces do morro, são as dores de crescimento de uma cidade em mudança que parece não saber como crescer sem expulsar as suas próprias pessoas.

The Pigs





The Pigs is a photographic essay by Carlos Spottorno.

Carlos Spottorno é um fotógrafo de origem Húngara que vive e trabalha actualmente em Madrid. Colaborou em diversas publicações de renome internacional tais como a National Geographic, o Le Monde, o El País e o The New York Times. Entre os vários prémios que recebeu ao longo da sua carreira encontra-se um prestigiado prémio World Press Photo pela imagem de um voluntário de limpeza, captada durante os trabalhos de recuperação ambiental da maré negra que atingiu a costa da Galiza após derrame de óleo do petroleiro Prestige em 2002.

The Pigs é o seu mais recente trabalho de foto-reportagem documental. Ensaio sobre uma visão estereotipada do conjunto de países do Sul da Europa, formado por Portugal, Itália, Grécia e Espanha, agrupados num termo pejorativo originário do meio financeiro anglo-saxónico. O título é reproduzido numa alusão ao design gráfico do logotipo da revista The Economist, fazendo eco desse olhar parcial sobre a nossa realidade. Suponho que é assim que os economistas nos vêm – desabafa o autor.

Esta é, no entanto, também a história de uma viagem interior. Partindo em busca dessa visão preconceituosa sobre os países do Sul, Spottorno viu-se confrontado com uma realidade que nos é incómoda. Como lidar com esse mundo desgostante que nos envergonha, que não consta dos guias turísticos, esses despojos do naufrágio de um conjunto de grandes nações da civilização ocidental? Teriam os economistas, afinal, razão? A resposta chegou na última paragem, na ilha grega de Naxos, a meio caminho entre a recolha de fotografias e o trabalho de reflexão que se seguiria. Spottorno afirma que estamos amarrados a uma visão estreita do mundo, reféns de uma visão idealizada do passado e das fracas fundações em que se suporta o nosso presente.

Os Pigs, afirma Carlos Spottorno, são a personificação de um paradoxo; entre a imagem desproporcionada da sua própria relevância e o complexo de inferioridade que se manifesta entre os seus desejos de grandeza e a realidade da sua situação. Por isso, os Pigs são velhos, cínicos e individualistas. O sentido de comunidade, tão encastrado na cultura nórdica, é fraco nestes países que carregam séculos de uma estrutura social fortemente hierárquica, acostumados a governos autoritários e corruptos. E assim as expectativas do povo já só se exteriorizam enquanto anseio de bem-estar pessoal, uma mais-valia de sobrevivência que acaba por se revelar um entrave ao progresso conjunto da nossa sociedade.

A legislação mais avançada do mundo



Por ser uma área que sempre me interessou reuni, ao longo dos anos, uma bibliografia vasta sobre arquitectura escolar. Pesquisei e recolhi muito material gráfico de projectos de referência, exemplos de boas-práticas levadas a cabo um pouco por todo o mundo, e nunca vi em qualquer uma dessas escolas tectos forrados a tubos como aqueles que temos vindo a edificar com o nosso Programa de Modernização do Parque Escolar.
É uma observação empírica e vale o que vale, mas uma coisa é certa: independentemente de existir ou não um erro de dimensionamento no Regulamento dos Sistemas Energéticos de Climatização em Edifícios (RSECE) os parâmetros de ventilação utilizados são muito elevados quando comparados com outras recomendações internacionais.

Ao contrário do que acontece na generalidade das outras legislações estrangeiras analisadas, em que as especificidades, em termos da rotina diária de ocupação e das características antropométricas da população ocupante, foram tidas em conta na fixação dos caudais mínimos de ar novo, isso não se passa com a legislação portuguesa. Na generalidade dessas legislações, os valores dos caudais de ar novo por ocupante nas escolas situam-se na ordem de 60% a 70% do prescrito pelo RSECE (…).
Fraga Carneiro, Implicações do RSECE nos projectos: custo inicial, de manutenção e exploração.

Olhemos bem para estes números. Tomando por base o estudo apresentado pelo Eng. Fraga Cardoso o RSECE define caudais de ventilação de ar inflacionados, num factor de uma vez e meia, quando comparados com os valores utilizados em outras legislações estrangeiras.
Outro aspecto importante a ter em conta prende-se com o impacto que a aplicação de ventilação natural tem na gestão energética dos edifícios. A ventilação natural permitiria alcançar uma redução das necessidades de ventilação mecânica superior a 50%, ou seja, uma poupança notável ao nível dos custos de obra (em equipamentos e instalações técnicas) e de gestão futura (em consumo e potência instalada). No entanto, como a legislação nacional parametrizou apenas o cálculo da ventilação mecânica, a ventilação natural e a ventilação híbrida têm sido liminarmente ignoradas nos projectos de engenharia da especialidade.

O esforço de recuperação dos edifícios escolares, pela grandeza da obra envolvida, merece uma reflexão cuidada, no sentido de evitar exageros no dimensionamento das instalações, não devendo soluções de engenharia como a ventilação natural ou a ventilação híbrida ser totalmente esquecidas ou ignoradas na fase de projecto pelo facto de a recente legislação nacional não as ter contemplado com o mesmo grau de detalhe que contemplou a ventilação puramente mecânica. Os custos futuros de funcionamento e manutenção das instalações devem claramente ser tidos em conta, assumindo-se que uma obra de engenharia deve representar o melhor compromisso relativamente a vários aspectos, nomeadamente a eficiência energética.
A opção pelos sistemas de ventilação exclusivamente mecânica não pode ser a única possibilidade aberta pelo enquadramento legislativo (…). Refira-se, por exemplo o facto de nos países escandinavos ser limitada a potência específica dos ventiladores instalados a um valor máximo de 2.5 kW por m3/s de caudal, de modo a incentivar, tanto quanto possível, o recurso aos processos de ventilação natural.

Fraga Carneiro, Implicações do RSECE nos projectos: custo inicial, de manutenção e exploração.

É importante que todos compreendam o que está aqui em causa. O sobredimensionamento dos sistemas mecânicos de ventilação de ar tem um efeito em cascata sobre os custos de construção e gestão de um edifício. Custos directos, por um lado, pela sobrecarga das instalações e equipamentos técnicos. Mas, acima de tudo, um acréscimo pesado de custos indirectos, tanto ao nível dos equipamentos de ar condicionado que vão garantir o controlo térmico daquela ventilação como da infraestrutura eléctrica e da potência instalada que vai assegurar o seu funcionamento. Tudo isto se traduz em gastos não apenas para a construção do edifício mas para a sua gestão corrente durante toda a sua restante vida útil.
Ao desprezarmos as soluções de ventilação natural e ventilação híbrida no interior dos edifícios, como temos feito até aqui, estamos a cometer um crime ambiental sem precedentes na política de obras públicas. Significa, sem meias palavras, que para efeitos de cálculo de renovação de ar estamos a projectar edifícios como se não tivessem janelas. Estas más práticas, associadas aos parâmetros de ventilação já de si inflacionados do RSECE, têm como consequência um desastre financeiro e energético inevitável.

Vale a pena retomar as palavras do Eng. Oliveira Fernandes, professor da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, que já em 2011 denunciava este problema numa reportagem do programa Biosfera sobre as obras do Parque Escolar:
Nas escolas em Portugal em 2010 aplicam-se conceitos que eram típicos dos Estados Unidos nos anos 60, que é uma vez que instalamos ar condicionado não deixamos abrir as janelas para não perturbar o funcionamento do sistema. E isto está a acontecer.
As gestões das escolas não vão ter recursos para ter esses sistemas a funcionar e como todo o espaço foi organizado em função daqueles equipamentos, o conforto e as condições sobretudo ambientais e de saúde para os cidadãos vão ser naturalmente piores do que as que eram nos edifícios antigos.
O que se esperaria, no momento em que se decide investir qualquer coisa como três pontes Vasco da Gama na remodelação das escolas, o que se exigiria era que se pusesse 5% ou 10% ao lado para garantir que essas escolas fossem as melhores escolas do mundo para os próximos 30 a 50 anos em Portugal, não na Finlândia. Nós não estamos a falar de climatizar igloos ou de pôr ar condicionado como se estivéssemos na Florida ou em Luanda.


Eis afinal o que temos feito, em nome, nada mais, nada menos, do que da eficiência energética.









Imagens via Implicações do RSECE nos projectos: custo inicial, de manutenção e exploração, Fraga Carneiro, 10.as Jornadas de Climatização – A Eficiência Energética, a Qualidade do Ar e a Climatização nas Escolas, Ordem dos Engenheiros, 2010.

O misterioso erro de dimensionamento do RSECE



Diz-se por aí à boca fechada que o RSECE (Regulamento dos Sistemas Energéticos de Climatização em Edifícios), publicado em Abril de 2006, poderá conter um “erro de dimensionamento” com efeito sobre os crítérios de ventilação interior dos edifícios. A ser verdade poderá estar em causa um erro de conversão de unidades de que resultarão exigências superiores ao triplo em relação aos parâmetros utilizados como referência, extraídos a partir de normas técnicas norte-americanas. Poderemos estar assim a impor a nós próprios exigências de ventilação erradas e grosseiramente inflacionadas, com consequências trágicas para o custo, gestão e manutenção de todos os edifícios projectados e construídos ao abrigo desta legislação, que continua em vigor.

O assunto é um verdadeiro mistério. Na revista Indústria e Ambiente (n.º64, Setembro/Outubro 2010) encontramos uma vaga alusão a este problema, tomando como exemplo o caso dos novos edifícios escolares:
Neste momento, têm exigências de entrada de ar novo brutais, muito superiores ao que é exigido nos restantes países europeus, porque houve um erro de sobredimensionamento. Isto faz com que seja preciso arrefecer e aquecer ainda muito mais as salas de aula. Se funcionar como está na lei, os custos de climatização nas escolas vão triplicar.

A ser verdade, repito, o que está em causa pode ser um verdadeiro desastre financeiro e ambiental. Em primeiro lugar porque estaremos a sobredimensionar os sistemas mecânicos de ventilação de ar, em equipamentos e tubagens, com resultado no aumento desnecessário dos custos de obra. Mas o problema não fica por aqui. Ao colocarmos mais ar ventilado no interior dos edifícios do que aquele que seria necessário, temos igualmente de garantir que esse ar é insuflado no intervalo de temperatura exigido por lei, logo estamos igualmente a inflacionar os sistemas centrais e equipamentos de ar condicionado.

Por outro lado, os projectos de AVAC têm uma incidência directa sobre os projectos de electricidade, tanto ao nível das redes como das potências previstas. Temos assim não apenas o facto das redes ficarem sobredimensionadas como resultarem também exigências de potência instalada muito inflacionadas ao nível dos quadros e postos de transformação.
A título de exemplo, temos escolas que funcionavam com PTs de 160 kVA que, depois de intervencionadas pela Parque Escolar, passaram a exigir PTs de 500kVA e 800kVA. Em situações desta natureza, desligar os equipamentos não garantirá sequer a poupança da despesa paga em energia uma vez que o fornecimento daquela potência instalada requer, por si só, um custo de contrato considerável que tem forçosamente de ser pago, quer os sistemas estejam ou não a funcionar – ou seja, quer aquela potência esteja a ser ou não utilizada.

O eventual “erro de dimensionamento” do RSECE, a confirmar-se, poderá traduzir-se num autêntico crime energético auto-inflingido pelo país, pela aplicação de uma lei criada exactamente em nome da eficiência energética. A ser verdade, teremos de nos perguntar como pode esta legislação estar em vigor, sem alteração, há sete anos.

A ser verdade, teremos de nos perguntar por que razão a entidade que tutela a política energética e a gestão do sistema de certificação dos edifícios, responsável pela credenciação dos peritos, nunca detectou esta falha grosseira das normas técnicas.

A ser verdade, teremos de nos perguntar qual o alcance deste erro em gastos financeiros, com incidência sobre promotores públicos e privados, e que medidas irá o país tomar para minimizar os danos entretanto consumados.

A ser verdade, teremos de nos perguntar quem são os responsáveis e por que motivo tarda a suspensão imediata das normas actualmente em vigor e a revisão desta legislação.

A ser verdade… Será verdade?

Expo 98: retratos de uma exposição (por Clara Azevedo)







Image credits: Clara Azevedo.

Revisitar, quinze anos depois, o território da Expo 98 pelas fotografias da Clara Azevedo. Da paisagem em decadência profunda para um tempo de optimismo em que acreditámos fazer parte de uma Europa mais cosmopolita. O que fazer hoje com estas memórias?

Crítica de arquitectura: disparar sobre o mensageiro

A ambiguidade que paira entre divulgação, opinião e crítica – esta última assente num trabalho mais profundo de investigação e contextualização, de referenciação da história, dos conteúdos e das ideias – é por certo um dos desafios que se coloca à expressão do pensamento erudito sobre o mundo que nos rodeia; a este respeito escrevi recentemente em Da arquitectura como narrativa política. O caso torna-se no entanto mais complicado quando essa indistinção parte dos próprios críticos, neste caso de arquitectura. No ensaio Os analfabetos do presente Pedro Levi Bismark enuncia o «últimas reportagens» como sintoma de um processo de desvalorização crítica da imagem, denunciando-lhe a ausência de critério arquitectónico, estético ou político.

Coloca-se, em primeiro lugar, um equívoco de partida. O exemplo em causa, como tantos outros sítios web de fotógrafos de arquitectura, tem explícita uma fundação empresarial. Estes profissionais são – tal como os arquitectos – prestadores de serviços e a sua presença na internet é uma extensão natural da sua imagem; algo que se traduz, no interface gráfico e nos conteúdos que divulgam, tanto no domínio corporativo como no campo criativo. É assim com Iwan Baan, Cristobal Palma, Hertha Hurnaus, Fernando Guerra, como com tantos outros.
Afirmar, em relação ao caso particular do fotógrafo português, que não pode ser esquecido de modo nenhum é que um site como este não é uma publicação de arquitectura, onde texto e fotografia se cruzam para construir uma crítica de obra é “disparar sobre o mensageiro” em nome de um equívoco que o próprio crítico parece alimentar.

Será indesmentível que a fotografia se tornou, no mundo da rede, um veículo poderoso de divulgação da arquitectura produzida – mais do que do seu “valor crítico”. Uma boa foto de arquitectura não é necessariamente consequência de um bom projecto nem o fim último de um edifício consiste em ser fotografado. A arquitectura, existindo para ser vivida, abre sobre o mundo um diálogo com o lugar, com o tempo, com a memória. A representação fotográfica é mais uma extensão desse diálogo, não sendo indiferente o discurso formal da própria imagem e o seu destinatário editorial. Uma fotografia comissionada por um arquitecto não tem os mesmos parâmetros estéticos de uma comissão para a Dwell, como esta diverge dos padrões editoriais de uma Wallpaper; e, no entanto, nestes como noutros exemplos mais, podemos estar a falar de um só edifício. Para a mesma arquitectura, muitas “imagens” possíveis.
O que é questionável é alimentar uma visão caricatural em que a chancela de um fotógrafo se traduz numa paródia de “selo de qualidade” da própria arquitectura. Como se o facto de obras de diferentes arquitectos serem fotografadas por Iwaan Baan ou Fernando Guerra as colocassem num mesmo patamar “crítico”. O caso torna-se mais grave quando se enuncia o caso particular de Álvaro Siza, merecedor de uma secção autónoma destacada no site do fotógrafo português, como estando lado a lado com um outro exemplo publicado numa rede social, ignorando o valor editorial dessa distinção.

O equívoco expresso por Pedro Levi Bismark torna-se ainda mais explícito quando coloca no mesmo plano o «últimas reportagens» com o «archdaily», este último o blogue de arquitectura mais visitado do mundo. Vale a pena reflectir sobre o que isso significa: qual o seu “valor crítico”. Resposta: nenhum. O «archdaily» não é um espaço de crítica de arquitectura e, no entanto, a sua política editorial não é de todo inócua. Ele concorre, com outros blogues semelhantes, pela publicação de conteúdos “em primeira mão”. Um press-release com imagens mais ou menos sensacionais de um projecto, enviado a dezenas ou centenas de emails de blogues, vê-se publicado em poucos minutos. Nesta blogosfera a novidade e a celeridade traduzem-se em hits, o que por sua vez se converte em fonte de revenue.

Não desenvolvendo sobre os projectos qualquer conteúdo crítico, a publicação num «archdaily» não se traduz por isso num valor qualitativo da obra. Um projecto não é bom ou mau por ser publicado na internet. No entanto, esta lógica de reciprocidade entre blogues e empresas de arquitectura tem uma consequência perversa quando dela se pretende extrair uma representatividade crítica; algo que o «archdaily» invocou por diversas vezes sob a forma de editorial. Como se a exposição de um projecto e a sua submissão ao “comentário” fossem em si mesmo uma forma de sujeição à “crítica” popular, o que por sua vez se traduziria num “valor” democrático. Ao fazê-lo, o «archdaily» alimenta os piores equívocos redutores da noção de crítica de arquitectura no espaço público.

Por muito que isso escandalize noções pueris de democraticidade que reinam na internet, a verdade é que a crítica de arquitectura será sempre uma actividade minoritária, de nicho. Trata-se, no entanto, de um espaço contido mas poderoso onde podemos encontrar coisas como o BLDGBLOG, o City of Sound, o Fantastic Journal, o Kosmograd, entre tantos outros, que desenvolvem o trabalho crítico de mapear os conteúdos – dos projectos, dos desenhos, dos textos, das fotografias – com o cruzamento de múltiplas referências.
O aspecto mais infeliz do texto do Pedro Levi Bismark é confundir estes diferentes planos na tábua rasa de uma generalização que alimenta esse mesmo olhar iletrado e indistinto sobre “as imagens” que hoje se abatem sobre nós num volume sem precedentes. O que ali se traduz é uma patologia recorrente na crítica escrita entre nós, pronta a disparar sobre o mensageiro de forma fácil mas que tantas vezes se demite de abordar os verdadeiros temas do nosso país em crise e do território sociológico em que vivemos. Nunca como hoje fez a crítica de arquitectura tanta falta, nem esteve tão ausente.

Identidade ARX



Visitei recentemente a exposição ARX ARQUIVO onde se dá a conhecer o percurso de duas décadas de trabalho da ARX Portugal. Uma viagem pelo processo de investigação que o atelier de Nuno e José Mateus leva a cabo em cada projecto de arquitectura, trata-se de uma apresentação de um espólio muito extenso de material de trabalho que se organiza como arquivo habitável, onde as maquetes ocupam um papel fundamental.
A exposição começa por conduzir-nos no tempo através de um painel de fotografias, desenhos e referências várias que fazem parte das suas origens, onde podemos reconhecer as influências da Morphosis de Thom Mayne, de Eisenman ou de Libeskind. Abre-se então o trajecto cronológico pelas obras da ARX, revelando como cedo se foram desvanecendo gestos mais formalistas de origem para assistirmos à consolidação da identidade ARX. É uma prática experimental que arrisca o desconhecido, exploratória, livre do espartilho de pressupostos fixos e linguagens pré-definidas, expondo o melhor sentido cosmopolita da academia de Lisboa.
ARX ARQUIVO estará patente no CCB até ao dia 21 de Julho. Ficam alguns instantâneos, recomendando a visita ao sítio web da ARX onde podem encontrar uma reportagem fotográfica mais completa e fiel ao ambiente da exposição, a não perder.









ARX, ARX ARCHIVE exhibition, Lisbon, Portugal, 2013.

Nova Utøya: construir para curar


Fantastic Norway, New Utøya, Utøya, Norway, 2013 (under development). Image credits: Fantastic Norway.

Como lidar com o território de uma tragédia? Em tantos casos a dimensão do trauma, bem presente na memória dos vivos, parece justificar apenas o vazio. Como se só o silêncio pudesse falar a dor que habita os sobreviventes e as famílias das vítimas.
Não podemos fazer juízos sobre esse silêncio profundo. No entanto, se há algo verdadeiramente extraordinário no projecto da Nova Utøya é a força e a vontade de ultrapassar o vazio e construir o futuro. O projecto, promovido pelo Labor Youth Party e desenhado pela Fantastic Norway, visa reestabelecer o campo de jovens da ilha de Utøya e fazer dela um símbolo de unidade e diversidade. A arquitectura como forma de construir democracia.



Via Daniel Gray.

Arquitectura do défice: da arquitectura como narrativa política

Uma obra estimada em 108 milhões de euros para construir em três anos. Mais de uma década passada, 400 milhões de euros depois, o parlamento Galego decidiu concluir o processo de construção da Cidade da Cultura de Galicia “tal como está”, com dois edifícios ainda por construir.
A notícia, agora partilhada por Edgar Gonzalez, confirma as perplexidades já abordadas pelo popular Jordi Évole no seu documentário Cuando éramos cultos. Um retrato severo da bolha cultural de Espanha de que agora restam cascos “sem uso nem conteúdo”, cronicamente deficitários e financeiramente insustentáveis.

Estamos perante um exemplo paradigmático de uma doença mais vasta que atinge o que tantas vezes se faz passar como "política pública de arquitectura". Que devaneios desta natureza tenham sido cometidos em nome do “apoio à cultura”, com a cumplicidade e a vassalagem de todos os agentes institucionais, é bem o retrato da corrosão ética e moral que conduziu à nossa sociedade à falência, em múltiplas formas.

Temos assim a arquitectura enquanto manifestação e veículo de narrativas políticas, uma arquitectura que não se move verdadeiramente por ideias e valores, que não traz consigo qualquer entusiasmo ou vontade de transformação do mundo, antes padece das mesmas debilidades que enfermam o discurso político corrente. Por isto mesmo são operações que se revestem de uma forte carga discursiva, ficções validadas pela chancela “notável” de autor onde confluem interesses e oportunismos geradores das maiores armadilhas financeiras. Que o interesse público, esse valor central da democracia, seja a primeira vítima destes processos é algo que não parece trazer consequência ou qualquer forma de resistência.

Trata-se de uma patologia cultural que afecta profundamente o espaço público das ideias. Tão grave quanto a actuação de políticos sem escrúpulos e sem responsabilidade é o modo como os agentes do meio arquitectónico contribuem activamente para sancionar aquela apropriação do “arquitecto” enquanto álibi da indiscutibilidade dos processos de promoção da obra pública e da sua validade programática.

Neste jogo de interesses a crítica de arquitectura representa um papel decisivo e, lamentavelmente, fatal. É certo que o exercício da crítica vive hoje refém de diversos mal entendidos pela indistinção entre informação, divulgação, opinião e esse outro trabalho maior de contextualização e confronto investigativo da história e das ideias. Também aqui a mediatização e os blogues deram tantas vezes um mau contributo, alimentando a confusão em nome de um falso debate “democrático” que mais não é do que a expressão do mínimo denominador comum do pensamento.

Mas a falência da crítica de arquitectura vai muito para lá dessa disfunção contemporânea. O que está em causa é a legitimidade da crítica enquanto suporte voluntário da construção de narrativas artificiosas, ausentes de qualquer frontalidade ou substância. Como se a obra de arquitectura fosse legitimável enquanto manifestação de si própria, divorciada do tecido financeiro, económico, social, político, cultural em que tem lugar. E como se o crítico pudesse sê-lo sem ser cidadão do seu tempo.

Se vivemos um tempo de narrativas é exactamente por habitarmos um território de não-crítica. O que testemunhamos são representações de crítica, vazias e rotundas, ensaiando ocasionalmente laivos de irreverência, sempre e invariavelmente atirando sobre alvos fáceis. Em boa verdade, mais não são do que exteriorizações de uma cultura falida e moribunda, animada apenas pelo momento de tempos passados, tal como estas arquitecturas.

Estas questões, previsivelmente, não se verão abordadas em qualquer conferência ou editorial.

André Chiote

São ilustrações representando alguns dos museus mais icónicos do mundo, traduzidos em imagens minimais numa fusão entre arquitectura e design gráfico. Um trabalho de André Chiote, arquitecto e ilustrador sediado no Porto. Sigam o link para conhecer toda a sua colecção.

Interesting set of architecture illustrations capturing some of the most iconic museums of the world, translated into strikingly minimalistic images. André Chiote is an architect and illustrator living in Oporto, Portugal.