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Ellen van Loon (OMA): conferência Distância Crítica



Conferência de Ellen van Loon, arquitecta sénior da OMA, integrada no ciclo Distância Crítica organizado pela Trienal de Arquitectura de Lisboa. Gravado no dia 17 de Fevereiro de 2016. Os mais interessados não devem deixar de subscrever o canal da Trienal no YouTube.

Ellen van Loon, from OMA, at Critical Distance, Lisbon, February 17, 2016. Fast-forward to minute 4:45 to access Ellen’s lecture in English. Conference promoted by Lisbon Architecture Triennale.

Exposição Habitar Portugal



A exposição inaugural Habitar Portugal 12-14 está patente na Galeria Municipal do Porto. É a primeira de um conjunto de exposições que, até ao final de 2017, irá percorrer o país, dando a conhecer um registo arquitectónico representativo do período que ficaremos a conhecer como os anos da troika.

Com o provocativo tema “Está a arquitectura sob resgate?”, a iniciativa revela-nos de que formas a produção arquitectónica portuguesa se ressentiu dos impactos da crise. Os comissários do projecto, Luís Tavares Pereira, Bruno Baldaia e Magda Seifert, enfatizam o contexto social e cultural deste tempo: austeridade, escassez, desemprego, diminuição do poder de compra, crise do mercado imobiliário, são tópicos que não conseguimos dissociar de uma reflexão profunda que incide sobre as condições da construção e da arquitetura nos anos 2012, 2013 e 2014.



Com parceria entre a Ordem dos Arquitectos e a Câmara Municipal do Porto, a mostra em exibição na Galeria Municipal é de entrada livre e estará patente até ao dia 25 de Abril. Em simultâneo irá decorrer um programa paralelo com diversas actividades complementares, cujos detalhes podem ser conhecidos no sítio web oficial da iniciativa. Para ficar a par de todas as novidades vale a pena acompanhar a página do Habitar Portugal no Facebook.

Diogo Seixas Lopes (1972-2016)



É com enorme pesar que a Trienal comunica o falecimento, esta madrugada, de Diogo Seixas Lopes (1972), arquitecto e Curador Geral - em conjunto com André Tavares - de "The Form of Form", a 4ª edição da Trienal de Arquitectura de Lisboa.
Diogo Seixas Lopes desde muito cedo revelou uma personalidade rara que o viria a confirmar como um dos mais importantes pensadores da arquitectura portuguesa.
A enorme relevância e qualidade única da sua carreira tornou-se evidente ao longo da actividade multifacetada e brilhante enquanto projectista, curador, crítico, conferencista, e ganhou forma também através do profundo envolvimento com as causas da arquitectura e dos arquitectos.
Na sua trajectória profissional, Diogo Seixas Lopes cruzou-se por diversas vezes com a Trienal, culminando essa relação na 4ª edição a realizar este ano. O projecto curatorial de "The Form of Form", que se encontra praticamente concluído, será conduzido até ao final por André Tavares.
Hoje a arquitectura portuguesa está de luto por uma perda irreparável. Desapareceu um grande arquitecto e um ser humano de qualidades notáveis que tinha um futuro extraordinário diante de si.
À sua família e amigos, a Trienal dirige as mais sinceras condolências.


Via Trienal de Arquitectura de Lisboa.

A falsa recuperação do mercado imobiliário


Image credits: Matias Santa Maria.

Investimento imobiliário bate recorde à boleia de investidores estrangeiros, refere o Económico. Tomando por base dados da consultora Cushman & Wakefield, a notícia dá conta do bom momento que atravessa o mercado imobiliário em Portugal com um investimento da ordem dos 1,9 mil milhões de euros no ano passado; o dobro do valor registado em 2014.

Os analistas apontam, por um lado, a política de expansão quantitativa do BCE como um dos principais factores que motivam este desempenho positivo. A política de recompra de dívida por parte do banco central permitiu injectar um volume elevado de liquidez na banca, fomentando a oportunidade para novos investimentos na área do imobiliário. Por outro lado, várias entidades viram-se na contingência de vender o seu património, apontando-se, a título de exemplo, o caso do Novo Banco, bem como outras instituições que, não sendo forçadas a tal, entenderam estarmos perante uma conjuntura favorável para proceder a vendas.

Um dado importante na leitura da situação actual encontramos no facto de 90% do volume das transacções no ano passado estar afecta a investidores estrangeiros, em particular dos Estados Unidos, Espanha e Alemanha. O investimento em activos imobiliários por parte destes três países ascende a valores da ordem dos 1240 milhões de euros, com os EUA a totalizar cerca de 800 milhões. Esses investimentos centram-se, especialmente, em grandes superfícies comerciais, plataformas logísticas, retail parks, edifícios de escritórios e ainda alguns activos para reabilitação urbana.

A consultora refere a previsão de um bom comportamento do mercado imobiliário para este ano, sustentado em factores geopolíticos, na estabilidade e credibilidade da política económica, fiscal e financeira portuguesa e [porque] não temos espaço para mais desaires nos sectores bancário nacional e internacional. De resto, a tendência do mercado nacional reflecte uma tendência mundial, com o investimento em imobiliário comercial na Europa a recuperar a níveis anteriores à crise de 2007/2008.


Emissão de licenças de construção em Portugal (2007-2015). Via Trading Economics.

Se os dados do sector imobiliário são francamente positivos, é interessante verificar como essa prestação não tem correspondência no mercado da construção. A emissão de licenças para edificação continua estagnada em baixa, após a queda progressiva a que se assistiu no período que distou entre o início da crise e o ano de 2014. Por outro lado, conforme refere a Cushman & Wakefield, a parte mais expressiva dos resultados observados assenta na transacção de centros comerciais e espaços de localização privilegiada destinados ao chamado retalho de luxo.
Sendo certo que o investimento estrangeiro é benéfico para a economia do país, traduzindo-se em entrada de divisas e aumento da receita fiscal, não pode ignorar-se que a dinamização do imobiliário parece estar a repercutir factores de natureza financeira, mais do que de natureza económica.

Está em causa, em primeiro lugar, que a margem de liquidez introduzida no sistema bancário por acção do programa de expansão quantitativa do BCE está a ser canalizada primordialmente para a aquisição de activos, em vez de ser conduzida para sectores mais reprodutivos da economia. Esse fenómeno corresponde, de resto, a algo muito semelhante ao que sucedeu com o processo de QE levado a cabo pelo Banco de Inglaterra, motivando uma bolha inflaccionária do mercado imobiliário londrino.

Mas a isto acresce um outro factor de enorme importância: o efeito da grande instabilidade pressentida pelos mercados financeiros quanto à possibilidade de uma crise deflaccionária mundial, o que já motivou sérios avisos por parte de várias instituições bancárias. Após as quedas da bolsa chinesa e o prospecto negativo em áreas de grande peso económico – petrolíferas e gás, indústrias extractivas e maquinaria pesada, entre outras – assistimos agora novos receios perante a volatilidade crescente das acções dos bancos europeus.

São factores que favorecem a procura de activos seguros por parte de grandes fundos de investimento estrangeiro, nomeadamente na aquisição de bens imóveis, o que corresponde afinal a um processo de parqueamento de capitais perante o cenário de grande instabilidade que se está a verificar. Significa isto que a vivacidade momentaneamente sentida no sector imobiliário, como acontece também em Portugal, é tão só a consequência de um fenómeno conjuntural, e não estrutural, da economia.

Como refere Steve Keen, o fim das políticas de estímulo levadas a cabo pelos bancos centrais terá como consequência a deflacção dos bens financeiros que estas inflaccionaram em primeiro lugar – motivando eventualmente essas instituições a virem de novo em socorro dos bancos, montadas no seu Rocinante monetário.
E assim andará a economia, de bolha em bolha, à espera que os responsáveis políticos e líderes das instituições reguladoras resolvam confrontar as causas da crise, em vez de acorrerem simplesmente a ocultar os seus sintomas.

Sobre este tema ler também: Alguns dados para compreender a crise da construção em Portugal e Uma história de sobreaquecimento da economia.

The great architectural divide



The PC [politically correct] takeover of architecture is complete: the Pritzker Prize has mutated into a prize for humanitarian work. The role of the architect is now “to serve greater social and humanitarian needs”, and the new laureate is hailed for “tackling the global housing crisis” and for his concern for the underprivileged. Architecture loses its specific societal task and responsibility, architectural innovation is replaced by the demonstration of noble intentions and the discipline’s criteria of success and excellence dissolve in the vague do-good-feel-good pursuit of ‘social justice’.
I respect what Alejandro Aravena is doing and his "half a good house" developments are an intelligent response. However, this is not the frontier where architecture and urban design participate in advancing the next stage of our global high-density urban civilization.
I would not object to this year’s choice half as much if this safe and comforting validation of humanitarian concern was not part of a wider trend in contemporary architecture that in my view signals an unfortunate confusion, bad conscience, lack of confidence, vitality and courage about the discipline’s own unique contribution to the world.

Patrik Schumacher, via Facebook.

Patrik Schumacher’s very public reaction to this year’s Pritzker Prize announcement didn't exactly come as a surprise. The outspoken director of Zaha Hadid Architects seems to have a propensity for controversy and doesn’t shy away from a good altercation with strangers on the social web.
Despite the severity of his words or the platform used to convey them, it would be wise to avoid any temptation to personalize the discussion. There’s likely much more to consider than the mere clash of individual personalities or “styles”. In fact, however inadvertently, his stance portrays the greater divide that stands before the architectural profession in the 21st century.

At the core of this dispute stands a divergent understanding of the role architecture should play in society today. In his repeated affirmation of Parametricism as the paradigmatic style of our era, the forefront of architectural discourse and innovation in an age of globalization and market-led economies, Patrik Schumacher has emphasized the notion that architecture and politics shouldn't be associated.
Socially-engaged practices, such as the one recognized by this year’s Pritzker, stand on the opposite side of the barricade. Architecture should not only be politically engaged, it is inevitably an extension of a political discourse.


Image credits: Hufton + Crow.

The idea that Parametricism, both as a movement or a conceptual discipline, is devoid of politics seems to have correspondence with the neoliberal stance regarding the “amorality” of economic agents – an affirmation that is everything but neutral concerning “morality”. If anything, it is in fact a politically charged manifestation of the ideas of its time. Paradoxically, the term was officially “coined” by Patrik Schumacher in 2008, at the peak of the greatest financial crisis of our generation.
If Parametricism is indeed an architecture of its time, it seems to reflect the peak of an era of irrationalism, the product of forty years of credit-based monetary expansion. A financial, economic, political, social bubble. An architecture fitting for a culture of "non-crisis".

That era, as we know, began its demise in that same year of 2008. And, just as much, Parametricism runs the risk of becoming an architecture of the past, even in its forthcoming manifestations. What does the world of architecture, and architects around the world, have to learn from it? Hyper-structural buildings often characterized by a gross disproportion between the container and its contents, with an inversely proportional relation between the built and the lived; an architecture fiercely engaged in providing to the visitor the ecstasy before its own obesity.

As we are learning fast, bad politics will always result in bad architecture – and that’s something that not all the rhetoric in the world can hide.


Image credits: Vhils.

One question remains though: where is the forefront of architecture today? What epitomizes the vanguard? Aravena’s “half a good house” or the latest curvy condo in NY? If architecture is to affirm any kind of ethical commitment towards society, these interrogations should be acknowledged: do we really care about the cutting-edge skeletal residential tower by the beach in Copacabana, when you have over one million people living in favelas in the background?

By disregarding socially engaged architectural practices, Patrik Schumacher displays a tragic absence of understanding of the profound transformations that are likely to take place in this century. Having exhausted a financial model of debt-based-growth, beyond all sustainability, we are likely to witness unforeseen changes in our economic paradigm that will ultimately impact our professional landscape.

After the downfall of the CDO market and its worldwide ramifications, after the sovereign debt crisis instigated by the same rating agencies that were giving triple-A status to subprime mortgage-based CDOs right before the collapse, after the recession caused by misguided austerity policies that increased unemployment and poverty, we are now witnessing symptoms of an alarming shutdown of the global economy – impacting heavy industrial machinery enterprises, extracting industries, oil and gas companies, and now, financial markets around the world.

Making matters worse, we are simultaneously facing unquestionable signs of the impact of human activity on the planet. During this century, we are likely to face environmental transformations that will impact agriculture and other forms of human production. We will confront water shortage in several parts of the globe and a dramatic need to embrace more sustainable forms of energetic consumption.


Image credits: JR.

All these changes will impact our political and social landscape in ways we cannot yet perceive, but already we are faced with massive migrations, poverty and relentless inequality. And just as much, architecture too will be summoned to participate in the process of finding answers to these manifestations and the ways in which these will be expressed in the built environment. It's only by facing the prospect of these interconnected transformations that we can establish a true notion of what is critically relevant in our times.

This is the great architectural divide that stands upon us today. One may seek refuge in the ivory towers of globalized corporations, with these harsh realities far away from view, and find a comfortable living designing for the one percent. Just don't act surprised if your work is not particularly engaging, and least of all relevant, to the other ninety-nine.

2016 Pritzker Prize: Alejandro Aravena


Image credits: Cristobal Palma.

O arquitecto chileno Alejandro Aravena, a quem dediquei o meu texto de ontem, foi hoje anunciado como vencedor do Prémio Pritzker 2016.

Alejandro Arajena é director do estúdio de arquitectura ELEMENTAL, sediado em Santiago, que se tem destacado pelos seus projectos de interesse público e impacto social. Particularmente considerada é a sua intervenção no domínio habitacional, estando envolvido na concepção de mais de 2500 unidades de habitação de custos controlados na última década.

Um dos aspectos mais elogiados no trabalho da ELEMENTAL é a inclusão dos cidadãos em processos participados de projecto, levados a cabo em condições de grande proximidade entre os arquitectos e os futuros utilizadores. Como o próprio Aravena confessou aquando da sua conferência no fórum TED, tratam-se de processos muitas vezes conturbados e difíceis mas que podem conduzir a resultados surpreendentes, promovendo uma forte ligação entre o espaço construído final e os seus habitantes.

No anúncio oficial da atribuição do prémio, Thomas Pritzker refere que o Júri seleccionou um arquitecto que aprofunda a nossa compreensão do que é verdadeiramente um grande projecto. Alejandro Aravena é pioneiro de um tipo de prática colaborativa que produz trabalhos de arquitectura poderosos e que abordam os principais desafios do século XXI. O seu trabalho construído confere oportunidades económicas para os menos privilegiados, atenua os efeitos dos desastres naturais, reduz o consumo de energia e providencia espaços públicos acolhedores. Inovador e inspirador, ele revela-nos que a arquitectura, no seu melhor, pode melhorar a vida das pessoas.

Mais informação no sítio oficial do Prémio Pritzker, com destaque para o Media Kit e o Livro de Imagens, disponíveis em formato digital.

A arquitectura nas trincheiras do mundo



Não há nada pior do que responder correctamente à pergunta errada.

TED: Alejandro Aravena (My architectural philosophy? Bring the community into the process).

O tema da Exposição Internacional de Arquitectura da próxima Bienal de Veneza é dado por Alejandro Aravena, o homem forte da Elemental. Reporting from the front é o mote para questionar a vanguarda contemporânea num momento em que se começam a vislumbrar os contornos das transformações profundas –económico-financeiras, ambientais, sociais – que irão marcar a história deste século. Aravena propõe-nos afinal algo muito simples: que a linha da frente da prática e da crítica da arquitectura está na charneira da crise – ou dos múltiplos cenários de crise da nossa era.

O seu texto de abertura invoca sem ambiguidades o dever social da arquitectura, dando conta do número crescente de pessoas que busca uma melhor qualidade de vida num mundo cada vez mais incapaz de corresponder às carências emergentes. O futuro do ambiente construído é um lugar central nessa discussão que é tanto crítica quanto política. Está em causa, como escreve o curador da exposição, combater o business as usual e afrontar a inércia da realidade. Trata-se de identificar a “cultura da não-crise” como um dos verdadeiros inimigos deste tempo.



No repto que lança aos diversos parceiros do evento, arquitectos, sociedade civil e representantes nacionais, Aravena parece mais interessado em convocar os problemas com que estes se confrontam – as crises por resolver que habitam os seus territórios – do que fazer desfilar uma montra de soluções aparentes, pouco sujeitas à adversidade da experiência e de nenhuma consequência futura.
Paolo Baratta, presidente da Biennale, confirma esse desígnio sublinhando o afastamento entre uma arquitectura crescentemente preocupada em produzir edifícios espectaculares, reflexo celebratório do poder e das ambições dos clientes e, por outro lado, uma sociedade que lhe fica indiferente, desistindo de interrogar a Arquitectura.

Está dado o mote para um evento promissor que poderá redefinir a linha da frente da arquitectura como lugar de conflito e de crise, para lá de elaborações sobre desenho e edifício, questionando teorias de organização social e estratégias de envolvimento cívico. Importa afinal considerar a responsabilidade que transcende para lá dos edifícios que se desenham, das cidades que eles constroem, perante aqueles que as irão ocupar e a vida que neles irão fazer.
É esse também o território que Alejandro Aravena vem explorando nos últimos anos, ao leme da Elemental, através de um corpo de trabalho divergente e provocador que vale sempre a pena explorar. Ficam várias imagens de alguns dos seus projectos de intervenção social mais conhecidos, abaixo.

Distância Crítica: conferência com Ellen van Loon (OMA)



Ellen van Loon é actualmente uma das figuras de topo da OMA, a firma criada por Rem Koolhaas em 1975. Entre os projectos que dirigiu encontramos a notável torre De Rotterdam, a Casa da Música (Prémio RIBA 2007) e a Embaixada Holandesa em Berlim (Prémio Mies Van der Rohe 2005).
A arquitecta vai estar em Portugal no dia 17 de Fevereiro para participar numa conferência integrada no ciclo Distância Crítica, com produção da Trienal de Arquitectura de Lisboa. O evento terá lugar no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém. Os ingressos podem ser adquiridos através da Bilheteira do CCB e na Ticketline, com custo de 5 euros.

Denise Scott Brown on Architecture's Star System



Architecture is by far not all design, but the act of designing itself is not all design. Half of it is analysis. And there’s room for creativity in analysis. And if you haven’t been creative about analyzing your problem, you probably won’t be very creative about designing it either.

— The Architectural Review: Denise Scott Brown on Architecture’s Star System.

Em entrevista para a The Architectural Review, Denise Scott Brown reflecte sobre os efeitos que a opacidade do discurso da crítica tem na ascensão de um sistema de vedetas individuais e na importância de valorizar outras formas de participação na profissão, em particular através da criatividade colaborativa na arquitectura.

In an interview with The Architectural Review, Denise Scott Brown reflects on architecture’s star system as the product of an enclosed critical domain, reinforcing the importance of valuing collaborative creativity as a fundamental part of architectural practice.

O arquitecto descalço



Auto-retrato de Álvaro Siza. Via El Mundo, Afasia.

Peter Zumthor: Different Kinds of Silence



Entrevista muito recente de Peter Zumthor ao Louisiana Channel. O arquitecto Suíço fala do seu percurso pessoal, desde a sua infância aos estudos na cidade de Nova Iorque, abordando inúmeros aspectos do seu processo de trabalho e da sua forma de encarar a vida.

In a recent interview with the Louisiana Channel, Swiss architect Peter Zumthor talked about his personal journey, from the early days of childhood to his studies in NYC, sharing insights into his work process and his thoughts on life and architecture.

Diz que é um programa sobre economia



A Cor do Dinheiro, “programa semanal de debate sobre assuntos económicos e financeiros” da RTP Informação, dedicou o seu ultimo episódio ao tema da subida de preços no imobiliário. O jornalista e apresentador Camilo Lourenço deu a conhecer o enquadramento do tema interrogando-se sobre os eventuais efeitos da recuperação económica, da disponibilidade de emissão de crédito por parte da banca, da influência do turismo ou do interesse dos cidadãos estrangeiros em adquirir imóveis em território nacional.

Tendo como ponto de partida um diálogo com um consultor na área do imobiliário, o programa é um caso exemplar da superficialidade com que o fenómeno da construção é tratado nos meios da especialidade. De todo omisso está um olhar abrangente sobre a natureza sistémica que a crise de 2007/2008 teve sobre este sector da economia, em particular quanto aos mecanismos financeiros que sustentaram a evolução excepcional que se registou em Portugal desde 1970.
Igualmente ausente está uma qualquer reflexão sobre os efeitos que a injecção de liquidez resultante do programa de quantitative easing levado a cabo pelo BCE está a operar na banca comercial, favorecendo a valorização de activos no domínio imobiliário – a partir do qual poderíamos reflectir sobre a sustentabilidade da subida de preços enquanto reflexo de um efectivo crescimento económico.

Temos assim um diálogo travado com a desenvoltura própria dos “homens do meio”, um patamar acima de um vendedor de automóveis e muitos furos abaixo de um qualquer pensamento académico-científico sobre economia. Somos brindados com um chorrilho de lugares comuns, do país de brandos costumes – “que dá para controlar” (sic) – e do bom clima, culminando numa visão optimista assente em considerações dignas da sabedoria à Futre. Ao que parece estão a vir charters de Chineses da China para comprar casa em Portugal por causa desse grande pilar estratégico do nosso crescimento económico que são os vistos Gold.

De passagem, o consultor Pedro Santos refere um aspecto que vale a pena reter: em Lisboa, a procura de imóveis para investimentos no domínio da reabilitação parece estar a exceder a oferta disponível. Este facto devia motivar uma reflexão profunda, que fica igualmente por fazer, por dar conta do efeito que a paralesia do mercado da construção pode estar a ter no aumento do preço dos imóveis – revelando-nos, afinal, que tal fenómeno pode não decorrer de uma efectiva vitalidade do mercado mas antes dos efeitos inflacionários da compressão da oferta.
A verificar-se, estaremos a confundir com retoma aquilo que poderá não passar de uma distorção de preços, impeditiva para o seu ajustamento em baixa, lesiva para o futuro da economia da construção – aspecto particularmente grave para a aposta tão necessária no domínio da reabilitação urbana.

Sobre este tema ler também: Alguns dados para compreender a crise da construção em Portugal, A layer zero da arquitectura e do urbanismo (pensamentos sobre a criação de dinheiro e o problema das cidades) e Uma história de sobreaquecimento da economia.

Habitar Portugal 12-14



É hoje lançada uma nova edição do Habitar Portugal, uma iniciativa promovida pela Ordem dos Arquitectos que pretende dar a conhecer uma selecção de obras construídas por arquitectos portugueses que, pela sua relevância, sejam representativas do panorama da arquitectura em Portugal.
Esta edição irá acolher obras concluídas entre 1 de Janeiro de 2012 e 31 de Dezembro de 2014, em território nacional e também no estrangeiro.

Num tempo de crise interna profunda, em que os arquitectos são obrigados a repensar, tantas vezes em circunstâncias adversas, a sua forma de viver a profissão, torna-se ainda mais relevante fazer um retrato da arquitectura portuguesa contemporânea que faça reflectir os efeitos de uma tal conjuntura e o seu significado, presente e futuro. Este é também um tempo de esbatimento de fronteiras, marcado pela forte emigração dos mais jovens, que importa registar nas suas muitas dinâmicas, porventura contraditórias, mas que não deixarão de marcar a herança destes anos difíceis. Um retrato que não deixará de dramatizar o papel de resistência que continuará a marcar o trajecto dos arquitectos portugueses, dentro e fora do país.

O lançamento da edição Habitar Portugal 2012-14 é marcado pela abertura de um novo sítio web oficial, bem como pela sessão pública de apresentação que tem lugar hoje às 18h00 na Carpe Diem, Rua de O Século 79 (Bairro Alto), em Lisboa, com a presença do Presidente da Ordem dos Arquitectos João Santa-Rita e com os comissários da presente edição. A sessão será acompanhada por um debate que pretende colocar em perspectiva o momento que a arquitectura atravessa em Portugal e o modelo da iniciativa, através da reflexão e comparação pela voz de comissários de cada uma das edições desde 2003.

O Habitar Portugal 12-14 pretende ser um olhar sobre a produção arquitectónica portuguesa do último triénio a partir de um ponto de vista que articula duas ideias fundamentais. A primeira decorre do momento que o País vive a que, presumimos, a produção de arquitectura não será alheia. O tema proposto - está a arquitectura sob resgate? - estabelece desde logo um contexto onde situar as obras e um enquadramento para as poder ver e analisar. Acreditamos que este é o pano de fundo do espaço onde, ao longo deste tempo, acontecem as práticas arquitectónicas em Portugal cuja maior ou menor presença o HP vai tratar de analisar.
O Habitar Portugal é uma selecção, uma escolha das obras de arquitectura que, a partir de vários programas, lugares, escalas ou condições, se consideram desde o ponto de vista de cada um dos seus comissariados, exemplares, no seu tempo e na sua condição. Esta é a quinta edição do Habitar Portugal o que significa que esta iniciativa acumulou um acervo de cerca de 400 obras ao longo de 15 anos de existência que deve ser valorizado. Os registos desse acervo permitem-nos hoje estabelecer pontos de comparação com a situação actual, as potenciais transformações na prática projectual ou edificatória afectada pelas condições de austeridade e escassez provocadas pelo resgate da Troika. É essa a segunda ideia fundamental, trazer à luz um palimpsesto que resulta das obras que fizeram parte das quatro edições anteriores e assim encontrar os registos que o lastro que elas deixaram faz emergir em contraste ou continuidade com o momento que vivemos. Crise, resgate e palimpsesto são as marcas da condição actual, estão presentes no quotidiano e na paisagem do país onde hoje vivemos. Que impacto têm na arquitectura em Portugal?


Via Habitar Portugal.

Uma mulher chamada Lina Bo Bardi



Não podia ser mais oportuno o interesse renovado que vem suscitando a vida e a obra de Lina Bo Bardi, reflectido através de um vasto conjunto de sítios web de arquitectura e motivado pelo destaque dado à arquitecta italo-brasileira na exibição Latin America in Construction: Architecture 1955–1980 promovida pelo Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (MoMA), bem como pelo anúncio da chegada da exposição itinerante Lina Bo Bardi: Together ao território norte-americano no final deste mês.

Nascida em Roma no ano de 1914 Lina Bo Bardi tornar-se-ia uma activista dos princípios humanistas do Movimento Moderno, sendo hoje reconhecida como uma das grandes figuras da arquitectura do século XX. Nos seus trabalhos, que se estendem também ao domínio do desenho e da pintura, à edição gráfica, à joalharia e à cenografia, revela-se o encontro feliz entre as referências da sua formação Europeia com a espontaneidade da cultura Sul-Americana.
Abraçando o Brasil como sua pátria a partir da segunda metade da década de 1940 Lina viria a desenvolver uma obra muito diversa, vertendo nos seus textos críticos o seu pensamento enquanto defensora diligente da responsabilidade ética da arquitectura e da vontade de sensibilizar a sociedade para uma consciência mais profunda da História.



Se a casa de um arquitecto é a sua confissão, a casa de Lina no Morumbi revela-nos a sua sensibilidade estética de partida. Uma das suas primeiras obras construídas em território Brasileiro, a Casa de Vidro ostenta orgulhosamente a sua matriz modernista com uma frente suspensa sobre o parque: dois planos de betão armado assentes sobre pilotis e uma generosa envolvente envidraçada, aberta para a natureza.



A arquitetura é arte. É arte, só que não no sentido mofado das escolas de belas artes. Vejo a arquitetura profundamente vinculada com a ciência e a técnica. Na verdade não há diferença nenhuma.
A Tecnologia colocada em seu justo lugar nada pode causar de ruim, como impedir a Poesia, o Belo, até os sonhos bonitos.




A elevação e a transparência foram motivos que acompanharam alguns dos seus projectos mais notáveis, destacando-se a proposta para um Museu à Beira do Oceano, desenhada no mesmo ano de 1951, e aquela que é para muitos considerada a sua obra prima, o Museu de Arte de São Paulo, desenvolvido a partir de 1957.
Ícone da arquitectura Brasileira, o MASP é um exercício assumido de democracia e verdade construtiva. Um edifício suspenso sob uma híper-estrutura oferece um extenso espaço público ao nível da Avenida Paulista, bem como um prolongamento visual sobre o Parque Trianon. O volume-museu é todo ele generosamente envidraçado e a permeabilidade visual é acentuada pelos próprios suportes expositivos no interior, desenhados pela arquitecta, formados por lâminas de cristal temperado amparadas por singelos blocos de betão.



Acho que no Museu de Arte de São Paulo eliminei o esnobismo cultural tão querido pelos intelectuais (e os arquitetos de hoje), optando pelas soluções diretas, despidas. O concreto como sai das formas, o não acabamento, podem chocar toda uma categoria de pessoas.




A par com os seus projectos de cariz assumidamente moderno, Lina viria a ensaiar outros trabalhos de expressão mais vernacular, reflexo da sua sensibilidade artística e do seu fascínio pela cultura popular Brasileira. O seu descomprometimento gera, ainda hoje, alguns mal-entendidos naqueles que confundem com populismo a sua capacidade de abraçar com entusiasmo as contingências e os condicionalismos locais.
Em boa verdade, Lina Bo Bardi compreendia – e deixou disso testemunho escrito – o alcance do funcionalismo e da estandardização como instrumentos poderosos para democratizar o acesso à salubridade, ao conforto e à qualidade de vida das pessoas; enfim, à urbanidade – valores base da própria arquitectura moderna num tempo de profundas carências sociais.

Mas Lina tinha de igual modo consciência da necessidade de prover a uma experiência “espiritual” da vida, denunciando uma perda cultural que vinha a par com a especulação urbana e a massificação dos processos do fazer da cidade, dando lugar ao aparecimento de técnicos sem erudição e consciência ética que, nas suas palavras, iam reduzindo a vida humana a uma aventura sem fantasia, alheia à natureza, num divórcio que não pode ser normal, que contradiz as necessidades orgânicas, tendendo para uma arrogância suspeita, como que num desafio às origens das quais não podemos nos esquecer.




Para um arquiteto, o mais importante não é construir bem, mas saber como vive a maioria do povo.
O arquiteto é um mestre de vida, no sentido modesto de se apoderar desde como cozinhar o feijão, como fazer o fogão, ser obrigado a ver como funciona a privada, como tomar banho.
Ele tem o sonho poético, que é bonito, de uma arquitetura que dá um sentido de liberdade.
A arquitetura é profundamente ligada com a vivência, na medida que ela é tudo.





Obra de grande maturidade, que encerra o reencontro decisivo das suas múltiplas ideias e de todo um percurso de vida, encontramos no centro cultural SESC Pompéia projectado em 1977. Ali podemos descobrir uma arquitectura de contenção, de economia de desenho, de envolvimento social e de ética, dando corpo a um equipamento comunitário vibrante erguido sobre o casco de uma antiga unidade fabril.




Em Lina Bo Bardi encontramos alguém para quem a Modernidade foi, acima de tudo, um corpo de princípios, muito mais do que um depositário estilístico de formas e feitios. A sua obra afirma-se como um percurso de consciência cívica e de humildade, palavra tão ao gosto de Lina – uma humildade que nos serve de exemplo da força daqueles que, seguros de si próprios, não fazem de cada gesto autoral uma imposição sobre o espaço “do outro” mas antes uma oportunidade para participar generosamente no território da comunidade, na defesa intransigente de uma vivência rica e plena.
Por isso foi capaz de projectar obras profundamente modernistas, ousadas e híper-estruturais, ou dedicar-se com descomplexada sensibilidade artística a processos minuciosos e participativos, abertos a todas as influências, construídos no seio das maiores limitações materiais e humanas.
A arquitectura de Lina Bo Bardi é assim a antítese da starquitectura e é, também por isso, perene e contemporânea. Fala-nos do passado e continuará a transportar-nos para o futuro.

Lina Bo Bardi faleceu em 1992. Tinha 78 anos de idade. A sua obra vive e continua a ensinar-nos.



Mas o tempo linear é uma invenção do ocidente,
o tempo não é linear,
é um maravilhoso emaranhado onde,
a qualquer instante,
podem ser escolhidos pontos e inventadas soluções,
sem começo nem fim.

Irracionalismo



Uma esplanada composta por cadeiras de resina brancas – à venda no Leroy Merlin pela módica quantia de 4,49 euros cada – repousa num recanto da Cidade da Cultura da Galiza, obra que custou ao governo da região cerca de 400 milhões de euros. O cenário revela-se uma caricatura real das muitas perplexidades que se levantam perante estas arquitecturas mediáticas correntemente designadas como starchitecture.

Um artigo do The Architectural Review traça uma abordagem certeira sobre as contradições em que assenta o discurso “crítico” que tantas vezes se enuncia em torno destas obras – ler Empty gestures: Starchitecture’s swan song. São projectos que enfatizam o gesto híper-estrutural, marcados por uma grosseira desproporção entre o contentor e os seus conteúdos, com uma relação inversamente proporcional no que respeita ao investimento entre o construído e o vivido. Invariavelmente, são edifícios de exacerbada generosidade espacial para pouca ou nenhuma função – grandes átrios, extensos corredores, colossais escadarias; espaços onde persiste apenas o momento contemplativo. Uma arquitectura diligentemente empenhada em oferecer ao visitante o êxtase perante a sua própria obesidade.

O desalento que não podem deixar de nos provocar estas arquitecturas prenuncia a necessidade de revisitar uma história crítica da arquitectura contemporânea tendo presente o entendimento que hoje podemos ter quanto ao processo político e económico que conhecemos nas últimas quatro décadas. Estas são, em boa verdade, arquitecturas “do seu tempo” – de um tempo de irracionalismo que não deixará de invocar, como escreve Peter Buchanan, as maiores perplexidades junto das próximas gerações de arquitectos. E são também já arquitecturas do passado – mesmo nas suas manifestações vindouras. A sua espectacularidade só tem eco na sua profunda irrelevância. O mundo da arquitectura não tem hoje nada a aprender com estes exercícios de grande mediaticidade, presos que estão à singularidade dos seus contextos políticos e a uma visão hipertecnológica do processo construtivo.

A compreensão da singularidade que sustentou o fenómeno da starchitecture obrigará a reflectir sobre a sua fundação política e a efemeridade das circunstâncias económicas e sociais que a envolveram. Não podem nessa discussão os arquitectos julgarem-se espectadores inocentes da História ou fazer crer, como por vezes se ensaia, o papel amoral das suas investigações conceptuais – um discurso que só tem paralelo na retórica neoliberal em torno da pretensa amoralidade da actuação livre dos agentes económicos. Em si mesmo tal prerrogativa é já, ela mesma, uma afirmação carregada de “moralidade”.
O que está aqui em causa é, afinal, algo muito simples: que uma má política resultará sempre numa má arquitectura – eis algo que nem o mais sofisticado parametricismo consegue esconder.

Sobre este tema ler também: Arquitectura do défice: da arquitectura como narrativa política e Retratos da crise.

Arquitectura à Moda do Porto



Arquitectura à Moda do Porto é uma série que dá a conhecer um olhar irreverente sobre obras de arquitectura emblemáticas das últimas duas décadas da cidade invicta. São dez episódios para descobrir no sítio web deste projecto criado pelos arquitectos Filipa Figueira e Tiago Vieira, em colaboração com a Building Pictures.

A equipa pretende dar continuidade à iniciativa estando actualmente à procura de parceiros para estender o conceito a outras cidades. Uma forma interessante de estimular o interesse não só de arquitectos mas do público em geral pelo gosto da arquitectura através de pequenas curtas metragens, leves e divertidas, com uma forte relação com a música. Mais informações disponíveis através do Facebook.

Lembrete



É já depois de amanhã! Mais informações aqui.

Conferência com Smiljan Radić



A Trienal de Arquitectura de Lisboa lança a segunda edição do ciclo de grandes conferências – Distância Crítica – em co-produção com o CCB. O primeiro convidado deste ciclo que arranca a 22 de Janeiro é o arquitecto chileno Smiljan Radić, autor do pavilhão da Serpentine Gallery de 2014 e autor da instalação de abertura da exposição People Meet in Architecture para a 12ª Exposição Internacional de Arquitectura, La Biennale di Venezia comissariada por Kazujo Sejima.

Considerado “Melhor arquitecto com menos de 35 anos” pelo Colégio de Arquitectos do Chile em 2001, o seu trabalho integra programas tão diversos como o bairro de habitação de baixo custo em Concepción ou a ampliação do Museu de Arte Pré-colombiana. Pertencendo à primeira geração de arquitectos chilenos com uma presença global, Radić tem realizado exposições em diferentes pontos do mundo a partir de uma abordagem experimental que designa por "construções frágeis" como aconteceu no Museu de Arte Contemporânea de Hiroshima, no Kunsthaus Bregenz ou na Serpentine Gallery.

Após a apresentação do trabalho que Smiljan Radić tem vindo a desenvolver, segue-se uma conversa informal com Joaquim Moreno, crítico e curador da exposição Carlo Scarpa – Túmulo Brion Guido Guidi actualmente patente na Garagem Sul do CCB.


Via Trienal de Arquitectura de Lisboa.

Uma história de sobreaquecimento da economia

Image credits: André Pais.

O endividamento dos particulares – cidadãos e famílias portuguesas – ascende a 166 mil milhões de Euros, equivalente à totalidade do produto interno bruto nacional – dados de final de 2012. A dívida resultante do recurso ao crédito para compra de habitação compreende 70% desse valor, no total de 116 mil milhões de Euros.

Este fenómeno de endividamento teve na sua origem uma conjugação de diferentes factores, destacando-se um conjunto de alterações estruturais ocorridas no sistema bancário com o aumento das condições de emissão de crédito, o abaixamento progressivo das taxas de juro e os efeitos da convergência ao quadro da adesão ao Euro.

Tendo presente que no actual sistema monetário os bancos emitem crédito sobre a forma de novos depósitos electrónicos – criando dinheiro que antes não existia – importa agora ter em conta que o volume de crédito para habitação não só aumentou progressivamente ao longo das últimas décadas como duplicou desde 2001.
Perante um processo de crescimento do crédito tão espectacular, que se traduziu na canalização de avultados recursos financeiros sobre o sector da construção, poderíamos ser levados a inquirir por que motivo tal não repercutiu um aumento igualmente significativo da inflação no conjunto da economia. Essa inflação, na verdade, aconteceu, mas os seus efeitos foram circunscritos ao mercado imobiliário.

A massificação do acesso ao crédito em regimes cada vez mais agressivos teve como efeito o aumento da procura e uma correspondente subida de preços da edificação. Esta valorização obteve, da parte do sistema bancário, uma leitura positiva por assegurar a solidez das suas garantias sobre a forma de hipoteca em caso de incumprimento dos particulares. Por sua vez, este comportamento do mercado tornava mais favoráveis as condições para criação de novos créditos no sector, tidos como de baixo risco e elevado retorno.

Sucede também que o aumento global do preço do parque edificado não é considerado para efeitos do cálculo da inflação, apenas os custos correntes em rendas e outras despesas associadas à habitação. A isto acresce que o endividamento das famílias, obtido por via do crédito, implica a redução do seu rendimento disponível, tendo um efeito negativo no consumo e, correspondentemente, na inflação para o restante conjunto da economia.

Importa assim compreender que este processo de valorização crescente do imobiliário constituiu uma distorção do normal comportamento do mercado. Qualquer modelo de avaliação dos custos da construção tem por base a consideração de uma desvalorização gradual dos imóveis em função da idade. É isso que sucede em economias onde o sector da construção não teve uma expressão tão significativa, como no caso da Alemanha. Em Portugal, no entanto, como na Espanha e em outros países, instalou-se a expectativa generalizada quanto à tendência de valorização do preço das casas.

Tomou-se afinal como paradigma aquilo que não passou dos efeitos do próprio sobreaquecimento do mercado, resultante da canalização de avultadas quantidades de crédito pelo sistema bancário para este sector. Este ambiente especulativo foi não só lesivo para os cidadãos particulares, aumentando artificialmente os preços da habitação e o seu endividamento, como se traduziu numa forte pressão urbanística em todo o país.

Também aqui as dinâmicas de um mercado distorcido tiveram as suas consequências. Se algumas cidades foram a reboque do imobiliário, cedendo à expansão dos perímetros urbanos a uma velocidade sem precedentes, outras cidades que procuraram conter essa tendência viram-se fortemente prejudicadas pelos efeitos inflacionários decorrentes para o custo do solo urbano - com distorções de preços que, em muitos casos, a própria crise não resolveu.

Devemos agora compreender que tal paradigma foi, não apenas, errado, como é igualmente irrepetível. Passámos da era da construção para a era da gestão – mais um motivo para colocarmos a reabilitação, ainda tão deficitária, no centro do debate político.

A layer zero da arquitectura e do urbanismo: pensamentos sobre a criação de dinheiro e o problema das cidades

Image credits: John Brosio.

Quando urbanistas e arquitectos se debruçam sobre as dinâmicas da cidade contemporânea, no contexto das sociedades organizadas, tendem a ignorar o problema da cidade na sua dimensão financeira. Está em causa, muito concretamente, a desconsideração dos processos de produção de cidade enquanto materialização de instrumentos financeiros e, em particular, a dimensão que este processo teve no conjunto da política monetária levada a cabo pelas instituições bancárias nas últimas décadas.

Ao fazê-lo, urbanistas e arquitectos estão a debater fenómenos muito importantes como, por exemplo, a expansão urbanística, os movimentos pendulares e os seus efeitos sociais ou ambientais, muito a jusante dos factores que lhes estão na origem.

Temos assim que a nossa cultura teórica e profissional conduz-nos muitas vezes para a abordagem dos problemas na sua dimensão material, do mundo construído e das suas repercussões objectivas – ao nível da ocupação humana e das suas dinâmicas sociológicas, ou, por exemplo, dos transportes, das infra-estruturas, da gestão do património edificado. E acabamos por ignorar que fenómenos cruciais como a suburbanização das cidades foram, em primeiro lugar, o resultado da tradução em obra física de veículos de investimento financeiro.

Olhando para a vasta mancha urbana anónima e tantas vezes desqualificada que caracteriza esses subúrbios, sobre esta perspectiva, temos agora de nos interrogar quanto àquilo que ela efectivamente representa. Tendo presente princípios de reflexão estritamente urbanística e arquitectónica, estes territórios construídos representam o falhanço do planeamento perante a voragem do sector da construção civil e do imobiliário.
Correspondem, de alguma forma, a uma certa falência da capacidade de actuação do poder público, no domínio do urbanismo, sobre a actuação descontrolada do mercado.

No entanto, considerados enquanto manifestações de instrumentos financeiros, essa mesma cidade constitui um exemplo de optimização eficaz do objecto da construção tendo em vista o máximo retorno financeiro a partir do menor investimento possível. Assim se traduz essa cidade em áreas de máxima densidade de ocupação, menor infraestrutura pública e reduzida qualidade arquitectónica.

O resultado é um ambiente construído altamente ineficaz ao nível do conforto humano, da gestão ambiental e energética, dos fluxos de mobilidade e demais implicações urbanas. Pior, é não só um modelo de criação de cidade que permite ao agente privado extrair o máximo rendimento possível como implica uma posterior acção pública a diversos níveis – desde a necessidade de reforço de infraestruturas de transportes para viabilizar a deslocação pendular massiva dos habitantes, ao investimento na dotação de espaços públicos e equipamentos que assegurem a sua qualidade de vida – de que decorrem custos colectivos, e ainda os prejuízos de longo prazo de um modelo de ocupação ineficaz ao nível energético, com pesados consumos rodoviários e tempos dispendidos.

Ao termos presente que nas sociedades organizadas o volume de dinheiro (money stock) introduzido na economia sobre a forma de crédito por parte da banca privada, dirigido ao sector da construção, ascende a valores da ordem de um terço da quantidade total de moeda disponível, podemos compreender a dimensão deste fenómeno no conjunto da nossa vida económica.
O processo a que assistimos nas últimas quatro décadas não tem paralelo na história mundial. Se é certo que dele decorreu o sobreaquecimento da economia que assegurou, no curto prazo, uma melhoria generalizada da qualidade de vida, é também verdade que a herança que fica dos custos desta realidade e o peso que dela decorre no endividamento colectivo dos cidadãos será difícil de sustentar no futuro.

Decorre assim para urbanistas e arquitectos que queiram participar no fazer e gerir da cidade que não basta já reflectir sobre soluções inovadoras de urbanismo no sentido estrito, com ilusões irreverentes quanto ao poder do desenho, tornando-se necessário reflectir sobre os próprios mecanismos financeiros que estão na base da sua operacionalização. Se não o fizermos estaremos a actuar sobre um terreno comprometido à partida com decisões tomadas nos gabinetes de instituições financeiras para quem a cidade é, em primeiro lugar, um veículo para a obtenção de lucro, e de forma muito secundária, um território material onde vivem pessoas.