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O passado através do futuro



Por fim o computador da nave revela que está a seguir instruções com o objectivo de trazer o monstro para a Terra, para que a Companhia o possa estudar em benefício da sua divisão de armamento. A tripulação é dispensável diz-nos, reproduzindo as suas ordens no mais devastador momento do filme. E Ash, o médico da tripulação, descobrimos de forma chocante, é também ele um computador...

– The Paris Review: HAL, Mother, and Father

HAL, Mother, and Father é um texto muito interessante que oferece um olhar sobre as décadas de sessenta e setenta do século passado através dos filmes 2001: Odisseia no Espaço e Alien – O 8º Passageiro. A reflexão tem como ponto de partida a relação cultural da sociedade com a tecnologia, em particular a evolução dos computadores e a sua ascensão no imaginário popular. HAL revelava-se como o monólito da evolução, a imagem gloriosa de um futuro possível que seria desvendado pela revolução da inteligência das máquinas.

Uma década depois o optimismo de 2001 seria substituído pela corrupção a bordo da Nostromo. A tripulação de Alien era formada por um grupo de operários espaciais numa viagem de longo curso ao serviço de uma misteriosa mega-corporação conhecida apenas como a Companhia. Toda a sua missão se fundava numa mentira. A equipa seria destacada para uma falsa operação de salvamento que serviria afinal de incursão exploratória a um sinal hostil de origem extraterrestre. O resultado revelar-se-ia trágico e implacável.

Alien é um filme nascido na ressaca da Guerra do Vietname, no dealbar de uma cultura narcisista que dominaria a América corporativa da década seguinte. Fala-nos de um tempo carregado de cinismo e descrença em todas as formas poder, um mundo onde os cidadãos são usados sem escrúpulo ao serviço de interesses inescrutáveis.



A sequela de Alien dirigida por James Cameron era um filme bem diferente. Um dos melhores filmes de acção da década de oitenta, Aliens chega-nos no auge da era Reagan em pleno crescendo da supremacia militar da América. Em Aliens somos apresentados a um grupo de poderosos Marines dotados do mais avançado armamento, prontos para enfrentar os mais temíveis inimigos. Indiscutivelmente bem treinados, cheios de confiança e arrogância, acabarão afinal por morrer todos.

Também aqui somos confrontados com uma reflexão sobre as contradições do seu tempo. A arrogância do poder esconde nada mais do que o desconhecimento profundo sobre aquilo que está para lá do nosso controle, esse território hostil e selvagem do desconhecido que se traduz na monstruosidade dos xenomorfos que habitam a colónia de Acheron.



Alien 3 encerra a história de Ellen Ripley. Um filme conturbado, fruto de um longo processo de produção, revelaria um realizador promissor que se viria a tornar um dos mais importantes cineastas americanos da sua geração. David Fincher mantém até hoje um distanciamento para com esta sua primeira longa-metragem. Ainda assim, para lá das controvérsias que continua a alimentar na comunidade cinéfila, é um dos mais interessantes filmes da série.

Um filme dos anos da Sida, Alien 3 é um objecto carregado de profundo desencanto. Encontramos a nossa heroína como nunca a tínhamos visto. Uma personagem vulnerável, “contaminada” pelo mal, rodeada por um mundo hostil e devastador. Náufraga do espaço profundo, resgatada num planeta-prisão, estabelece uma cautelosa empatia com o médico daquele estranho planeta. A sua intimidade traduz a mera procura de conforto fugaz, duas personagens marcadas que não se permitem gestos de romantismo, muito menos de ilusão.

A sombra da corporação volta a abater-se sobre os destinos de Ripley, mais ameaçadora do que nunca. Sabemos que o resgate vem a caminho, não sabemos a sua real intenção. A história confirmará a suposição de todos os medos. Que afinal a Companhia não vem para salvar os humanos, antes para os matar a todos e salvar o próprio monstro. Para Ellen Ripley restará uma derradeira escolha, solitária e redentora, que talvez possamos salvar o mundo mas não nos possamos salvar a nós próprios.

Eis apenas um exemplo de como a boa ficção científica nos fala, afinal, não de lugares distantes, de um futuro longínquo, mas do presente tão próximo. Que, por vezes, olhar para o futuro é apenas uma outra forma de descobrir o passado e interrogarmos o mundo em que vivemos.

2001 Redux



Os frequentadores de sites de cinema terão visto a notícia que explodiu ontem na internet. Steven Soderbergh deu a conhecer ao mundo uma reedição pessoal do filme 2001: Odisseia no Espaço. Um trabalho de remontagem da obra-prima de Stanley Kubrick que reduz a sua duração, de 160 para 110 minutos, introduzindo ainda manipulações pontuais da cor e da estruturação da banda sonora do filme original.

Nas mãos de um qualquer realizador tal ousadia seria considerada um sacrilégio cinéfilo. A Soderbergh permitimos-lhe a irreverência. Afinal, todos os motivos são bons para rever a cinematografia colossal daquela que é considerada quase unanimemente como a maior obra de ficção científica da história da sétima arte. Para ver a partir do blogue pessoal do realizador em alta-definição e grande ecrã.

Um grande actor é isto



Lou Bloom é um pequeno vigarista que descobre, por mero acaso, o negócio promissor que existe em torno da venda de imagens gravadas de acidentes ou crimes, em primeira-mão, junto das estações televisivas. Decide então embarcar nessa actividade como freelancer, dotado apenas de uma câmara portátil e um rádio capaz de captar as frequências de polícia. Assim se inicia a sua aventura ao estranho submundo do jornalismo sensacionalista que preenche grande parte do espaço mediático contemporâneo.

Bloom é um homem sem formação mas dotado de uma inteligência invulgar. A sua completa ausência de escrúpulos, a raiar os limites da psicopatia, torna-se um ingrediente importante na ascensão ao sucesso. E eis que, a pouco e pouco, parece esbater-se a fronteira entre o seu papel de observador e participante dos eventos que persegue, noite após noite.

Escrito e realizado por Dan Gilroy, Nightcrawler é um filme perturbador que confronta o papel da imagem no contexto do jornalismo televisivo – a imagem reduzida a uma voragem de violência e morte, para lá de qualquer contexto, matéria prima de uma guerra concorrencial pelo espectador onde tudo vale. É nesse ambiente social de aparente sofisticação mas dominado por um profundo cinismo que a progressão de Lou Bloom se revela inquietantemente reveladora.

Um estudioso autodidacta, Bloom torna-se um depositário de ideias feitas sobre empreendedorismo e gestão de carreira, com um discurso carregado de lugares comuns e noções frívolas de sucesso. Que uma frase banal sobre amizade, uma citação de Robert Louis Stevenson repetida à exaustão em mil e um postais ilustrados – um amigo é uma prenda que dás a ti próprio – se revele a expressão mais bizarra e ameaçadora que sai da boca da personagem, eis um testemunho do trabalho extraordinário de Jake Gyllenhaal. A sua representação, inesquecível e plena de complexidade, tem lugar garantido na corrida ao Óscar de melhor actor, contando ainda com a presença memorável dos veteranos Bill Paxton e Rene Russo.

Uma obra que parece estar a passar ao largo do radar da maioria das listas de melhor filme do ano, Nightcrawler é um autêntico Taxi Driver contemporâneo e um dos grandes títulos de 2014.

Uma vez na vida



Se há filmes que dificilmente se repetem, este é um deles. Um retrato da transição da infância para o início da idade adulta, Boyhood é um projecto cinematográfico concebido durante doze anos com filmagens que acompanharam o envelhecimento dos seus actores – com natural impacto na evolução física e psicológica das crianças através da adolescência que se desenrola à frente dos nossos olhos.

O registo segue os traços naturalistas próprios das obras recentes de Richard Linklater, sem arcos melodramáticos para levar o espectador pela mão em crescendos de narrativa e desenlaces finais. O resultado é um filme despojado, hiper-realista, profundamente adulto, sobre os efeitos da passagem do tempo na vida de cada uma das suas personagens.
Tão interessante quanto testemunhar a transformação das crianças é assim observar o ponto de partida e de chegada daqueles adultos e os curiosos, incertos e inexplicáveis caminhos que nos conduzem, cheios de erro e tentativa.

Linklater não perde tempo com figuras de estilo, distante dos estafados clichés que dão conta do ciclo das estações ou dos anos que passam. Vamos saltando apenas de uns anos para outros, sempre em frente, sempre sem retorno possível. A estrutura temporal de Boyhood resulta assim muito mais do que um mero artefacto experimental. Mais do que um somatório de momentos da vida, o filme é um pequeno milagre sobre a própria vida no tempo, sobre o que significa afinal crescer.

Boyhood é um filme de culto instantâneo, a obra-prima de Richard Linklater e um dos grandes feitos cinematográficos da década.

Um pouco como a Alice



– Imagino que te estejas a sentir um pouco como a Alice… Caindo na toca do coelho? Vejo-o nos teus olhos. Tens o olhar do homem que aceita aquilo que vê porque está à espera de acordar. Ironicamente, isto não está longe da verdade…
Deixa-me dizer-te porque estás aqui. Estás aqui porque sabes uma coisa. O que sabes não consegues explicar. Mas sente-lo. Sentiste-o toda a tua vida. Que há algo errado com o mundo. Não sabes o que é, mas está ali. Como uma farpa na tua mente, a enlouquecer-te. É este sentimento que te trouxe até mim. Sabes do que estou a falar?
– Da Matriz?
– Queres saber o que ela é?...
A Matriz está em todo o lado. Está à nossa volta, nesta mesma sala. Podes vê-la quando olhas pela janela ou quando ligas a tua televisão. Sente-la quando vais para o trabalho, ou à igreja, ou quando pagas os teus impostos.
A Matriz é o mundo que foi colocado à frente dos teus olhos para te cegar da verdade.
– Que verdade?
– Que tu és um escravo, Neo. Como todos os outros que te rodeiam, nasceste na escravatura, nasceste numa prisão que não consegues cheirar ou sentir ou tocar. Uma prisão… para a tua mente.

Momento geek



Em 1979 Ridley Scott revolucionou o cinema de ficção científica com a realização de Alien. O filme tornou-se uma referência de culto no género, em grande parte pela inovação conceptual e cenográfica que resultou da colaboração de artistas visionários como Ron Cobb e Chris Foss e, numa fase posterior, os míticos Moebius (Jean Giraud) e H. R. Giger.

Alien não seria o mesmo sem a colaboração do visionário Suiço que imprimiu aos seus estudos conceptuais a dimensão perturbante do hostil xenomorfo. Ridley Scott deve ao seu argumentista Dan O’Bannon a presença de Giger, por ter trazido até si o livro Necronomicon publicado pelo artista em 1977.
Foi também O’Bannon que referenciou os restantes artistas ao cineasta britânico. Da feliz colaboração de Ron Cobb e Chris Foss nasceria uma das mais icónicas naves espaciais da história do cinema: a célebre Nostromo.



O hiper-realismo aplicado por Stanley Kubrick à ficção científica uma década antes em 2001: Odisseia no Espaço tornara-se uma referência inescapável. Se até ali as naves espaciais pecavam pela falta de autenticidade, filmes como Silent Running (1972) e Dark Star (1974) procuravam já dar passos no sentido de exprimir uma funcionalidade aparente à sua dimensão cenográfica.
Seria no entanto Alien que ditaria, dali para a frente, as regras do que deveria ser uma nave espacial. Destacado para criar os interiores da Nostromo, Ron Cobb seria guiado pela sua procura obsessiva por um desenho fundado em ideias técnicas plausíveis no domínio da engenharia espacial. O design teria assim de servir a narrativa do argumento mas deveria de igual modo exprimir uma dimensão funcional credível, dentro das regras do seu universo ficcional.

A cenografia de Alien ficaria a cabo do director artístico Roger Christian. A partir das ideias de Dan O’Bannon e da arte conceptual de Ron Cobb, Christian deu forma aos interiores robustos e desgastados próprios de um cargueiro espacial de longo curso. Acima de tudo, a Nostromo deveria parecer usada e vivida, contrastando a brancura asséptica da ala médica e da câmara de híper-sono com a desarrumação da cantina e a sujidade das áreas técnicas do porão.



Trinta e cinco anos passados da estreia de Alien, um videojogo convida-nos a revisitar a sua atmosfera cenográfica com um detalhe sem precedentes. Alien: Isolation tomou como ponto de partida os desenhos conceptuais e os storyboards do filme para criar uma atmosfera rigorosamente fiel à da obra de Ridley Scott. A equipa de artistas de Isolation seguiu a sua visão futurista pré-digital, própria da ficção científica de finais da década de setenta, contando para tal com o acesso ilimitado a um avultado material de produção incluindo anotações de design e construção de adereços e cenários, fotografias e vídeos, bem como as gravações áudio de música e efeitos sonoros.
O resultado desse trabalho de investigação é verdadeiramente notável. Os espaços que servem de base à acção parecem extraídos das entranhas da Nostromo original, com alguns dos melhores ambientes de ficção científica alguma vez criados para um videojogo. Os corredores exibem uma robustez industrial, os gadgets são pesadamente mecânicos, os monitores são monocromáticos e apresentam gráficos ostensivamente arcaicos.



O aspecto mais interessante do jogo é revelar-se como um autêntico tributo ao talento visionário dos artistas de Alien. A sua expressão analógica demonstra resistir ao teste do tempo, parecendo adequar-se à natureza robusta e industrial própria de naves e estações espaciais criadas para durar muitas décadas no espaço longínquo.
Apesar da narrativa de Alien: Isolation ter lugar num cenário alternativo ao do filme – o porto espacial Sevastopol – os seus autores não quiseram deixar de homenagear os mestres por detrás da obra original oferecendo, como pequeno extra, uma viagem virtual à Nostromo, tal como foi imaginada e construída para o filme. Uma experiência obrigatória para todos os adeptos da sci-fi.


Vídeo: Other Places: USCSS Nostromo (Alien: Isolation) por Ultrabrilliant.

Simetria




Em cima, Boyhood, de 2014. Em baixo, Before Sunrise, de 1995. Dois filmes de Richard Linklater.

Às voltas no funil do amor



Este texto contém spoilers sobre o filme Only Lovers Left Alive de Jim Jarmusch.

Não será acidental o facto do sítio web oficial do filme Only Lovers Left Alive estar alojado no Tumblr, esse submundo alternativo de todos os nerdismos e fandoms da internet – entre os quais encontramos uma legião de adoradores de Tom Hiddleston, já designados no Urban Dictionary como Hiddlestoners. A opção assinala a dimensão desalinhada ou mesmo marginal da mais recente obra de Jim Jarmusch.

Talvez mais surpreendente seja reconhecer que Jarmusch, com o seu ar irreverente e eternamente jovem, é já um sexagenário; e no entanto o filme confirma-nos, passo a passo, a maturidade do seu autor. Only Lovers Left Alive declina vícios formais da pós-continuidade e outros compromissos rítmicos para entreter o espectador. Longe estamos dos Bayismos da indústria.
O filme é estilizado, planos calculados, tensos, com tempo para respirar. A influência underground é notória, com passagens hipnóticas, se não mesmo psicadélicas. Bem-vindos a um cinema orgulhosamente old-school.

Esta é a história de amor entre dois imortais. Adam e Eve são vampiros. Ela terá milhares de anos. Ele cerca de meio milénio. No presente ela vive em Tânger, ele na Detroit contemporânea. Não por acaso uma parte da história passa-se na colapsada cidade americana, representação de um mundo em declínio que é, ao mesmo tempo, abrigo de outras formas de vida.
Eve, protagonizada brilhantemente por Tilda Swinton, é uma personagem etérea e electrizante. Mas é Adam que merece maior fascínio. Um imortal deprimido, com pensamentos ocasionais de suicídio, que alimenta um olhar desiludido com o mundo dos homens. Refere-se à humanidade não-vampira como os “zombies”. No seu olhar somos nós os mortos-vivos, desesperados por sobreviver, incapazes de viver.

Adam é apaixonado pela cultura e pela música. Todo o seu modo de vida é uma colagem de retalhos de memória e de história. Compõe músicas vagamente hipnóticas, com instrumentos acústicos e velhos aparelhos electrónicos, que grava em fita analógica. A banda sonora reflecte o universo onírico da Detroit que Adam tanto gosta de atravessar pela noite dentro.
O mais interessante neste olhar negro e poético de Jim Jarmusch é oferecer-nos uma perspectiva sobre o tempo que paira sobre a regular experiência humana. Como veríamos o mundo se vivêssemos muitos séculos de vida? Como olharíamos então para as crises e os problemas da existência?

Só os amantes sobrevivem. Ou apenas os amantes são capazes de viver. Only Lovers Left Alive é, nas palavras do seu autor, uma meditação sobre a arte, a história, a memória, e os mistérios do amor imortal. A não perder.

Dois filmes com James Gandolfini




Dois filmes para revisitar o talento de James Gandolfini. Podemos vê-lo em Enough Said, um dos seus últimos trabalhos, contracenando com Julia Louis-Dreyfus. A história de uma mulher e de um homem que se conhecem numa fase desencantada das suas vidas, num tempo em que não persistem muitas ilusões sobre o amor. É um filme que se balança no limiar da comédia-dramática, esse território por vezes difícil de definir, tão anti-romântico quanto genuíno, questionando as formas como construímos a nossa visão dos outros e o que nos faz, afinal, procurar alguém.
Um pouco mais antigo mas absolutamente imperdível é Welcome to the Rileys, uma produção independente que nos revela Gandolfini na sua melhor forma. Um grande exemplo de underacting em contraste com o histrionismo de Kristen Stewart, numa prestação também surpreendente. Por aquele confronto de gerações se vai erguer uma cumplicidade improvável, tecido de fundo para uma bela história sobre o que nos liga uns aos outros e até onde estamos dispostos a ir para salvar alguém. Duas oportunidades para redescobrir um grande actor.

Deixar-te ir



Deram as mãos no momento de dizer adeus, olharam-se nos olhos e, por um breve instante, passou entre eles o sopro de tudo aquilo que poderia ter sido…

Begin Again, de John Carney, com Keira Knightley e Mark Ruffalo. Num género saturado de lugares-comuns, eis um filme que nos fala de cumplicidade e paixão pela música. De antologia a sequência em que ele a vê pela primeira vez, tocando e cantando a solo no palco de um bar, e compõe, na sua cabeça, toda uma orquestração em torno da sua voz. Simplesmente mágico.

Momento geek



Eis o tipo de aborrecimentos que pode acontecer quando se tenta deslocalizar um meteorito luzidio caído na obra com o auxílio de um bulldozer. É o horror no estaleiro. Operários da construção, engenheiros, arquitectos, temam pelas vossas vidas. Este é o… Killdozer! Via Through the Shattered Lens (onde podem ver na íntegra o telefilme original com data de 1974).

Here’s the kind of trouble you may get into while trying to relocate a glowing meteorite from your construction site with a bulldozer. Construction workers, engineers, architects, run for your lives! It’s… Killdozer. Via Through the Shattered Lens.

Momento geek




Revisitar os gloriosos efeitos visuais de O Caminho das Estrelas. Via The Silver Screen Kid Rides Again, viral no Tumblr.

O céu aos trambolhões



Há em Skyfall a antítese do clímax de acção, o confronto em que vilão é tradicionalmente soterrado pela queda de uma antena parabólica gigante. Aqui temos um James Bond na vertigem do enorme vazio da paisagem. De repente, estamos a ver um western. O confronto final virá, minimal, sem saltos súbitos post-mortem. O herói segue, mais uma vez só, em direcção ao horizonte. Quando o filme acaba, estamos a ver o Dr. No. Muito bom.
Imagem via Look At His Moustache.

E agora, monstros

E se falamos de monster movies temos de recordar essa obra-prima do género sci-fi horror que é The Thing. Realizado por John Carpenter em 1982 continua a ser considerado um dos filmes de terror mais grotescos de sempre.



The Thing fala-nos de um monstro capaz de absorver e replicar qualquer criatura com que entre em contacto físico, não apenas a sua forma orgânica mas a própria mente. Viajante da galáxia há milhares de anos, ele tem por único propósito a sobrevivência.
O derradeiro monstro não tem apenas a aptidão de absorver outras criaturas; ele é capaz de se metamorfosear misturando características de seres diferentes para se tornar num mutante híbrido mortal. Apropriando-se da mente das vítimas tornou-se também numa mistura de diferentes psicologias, com as suas instabilidades, os seus medos e os seus ódios. Este é o monstro absoluto.

O clássico de Carpenter não seria o mesmo sem a colaboração de Rob Bottin, especialista em efeitos especiais e criador das monstruosidades memoráveis que assombram o filme. Este artista conceptual viria a descrever o longo processo de produção de The Thing como uma viagem ao inferno. Fazendo uso de bonecos animados, esculturas de látex, toda uma miríade de viscosidades estranhas e técnicas de stop-motion, Bottin concebeu visões de horror e insanidade sem paralelo na história do cinema. O filme chocou audiências e mereceu, à data, o desdém da crítica. Fracassado na bilheteira, seriam necessários vários anos para ser reconhecido como uma referência do cinema de horror e se tornar num sucesso de vendas em DVD.

Quase trinta anos passados desde a sua estreia e eis que surgem na internet notícias de uma prequela com o mesmo título. Alguns remakes recentes de obras de Carpenter não fazem aguardar o filme com as maiores expectativas mas é com curiosidade que aguardo esta reaparição do extraterrestre enterrado no gelo da Antártida. Conseguirá o monstro analógico sobreviver à era digital? Saberemos no final do Verão. Por agora resta-nos o trailer.

Super 8



Super 8 é, entre outras coisas, um monster movie consumido pela tentação de mostrar o monstro. J.J. Abrams vai ainda mais longe cometendo o pecado de humanizar aquilo que deveria permanecer para sempre estranho, para sempre nas sombras da mente do espectador. Quantas vezes podemos ter na manga os xenomorfos de H. R. Giger ou as mutações loucas de Rob Bottin? Afinal, o monstro que imaginamos é bem mais interessante do que aquele que nos é dado a ver.

Nos seus bons momentos Super 8 é um belo filme, tributo a uma era do cinema americano vibrante de energia e imaginação. Longe estamos do blockbuster contemporâneo em que cada plano é um compósito chroma-key e cada sequência um money-shot, para reencontrarmos a ingenuidade de E.T., a jovialidade de Os Goonies e o crescendo de Encontros Imediatos. E temos um grupo de crianças que é o melhor do filme, com destaque inevitável para Elle Fanning, a jovem paixão dos heróis da aventura, e Riley Griffiths no papel do mais pequeno realizador de série B da história do cinema.

Antes de ser tudo isto, Super 8 é um filme sobre um tempo que já não existe. Passa por ali toda uma infância preenchida por modelos de aviões, soldados em miniatura e um imaginário de banda desenhada. Depois há uma máquina de filmar e um mundo de fantástico que apenas se pode desvendar a partir da penumbra da lente. O cinema, como a infância, em tempos foi assim.

Loucos e Fãs


Há uma cena muito boa no filme Fanboys. Não, não era desta que eu queria falar…

Há uma sequência genial no filme Fanboys. Queria dizer: vocês sabem qual é! Mas depois ocorre-me que os leitores eventuais deste blogue não são geeks como eu, facto que devo confessar me entristece bastante mais do que imaginam. Viver num país com poucos cromos, gente apaixonada por coisas genialmente improváveis que nos rodeiam a todo o momento e por toda a parte. Mas voltemos ao filme, quando Linus diz, a propósito da saga Star Wars, que é necessário manter as falhas, os efeitos foleiros, as marionetas. Que é isso que torna os filmes tão especiais. Questiono-me se será um pouco de saudosismo da minha parte. Mas ocorre-me pensar que havia qualquer coisa naquele tempo, mais pura e inocente, que entretanto se perdeu. Na forma como nos relacionávamos com os filmes, com a televisão. Como parávamos para ver o concurso de melhor bronzeado no programa da tarde de sábado com o Júlio Isidro. E não se trata apenas do cerco de consumo tornado cultura com que os media barricaram as novas gerações. Falo antes do cinismo com que encaramos tudo o que nos rodeia. Afinal, no mundo dos Big Brothers e da Casa-que-não-lembra-o-diabo já ninguém pode acreditar num programa de televisão.

Um outro lugar



Por estes dias vou preenchendo algum do meu tempo com a banda sonora de Hereafter, o último filme de Clint Eastwood. Todo o álbum se faz em torno de um mesmo tema, variações sobre uma composição do próprio realizador cuja inspiração recai, por sua vez, sobre o célebre Concerto para Piano nº 2 de Rachmaninov.

Descobri Clint Eastwood como realizador num filme do início da década de oitenta chamado Honkytonk Man (A Última Canção). Filme menosprezado, praticamente desconhecido, sobre um cantor em busca de redenção num momento decisivo da sua vida, é uma história marcada pela aspereza empoeirada típica de uma balada country. Uma obra estranha e anómala para um tempo em que o actor-realizador protagonizava regularmente como herói de acção, é no entanto um dos primeiros trabalhos em que encontramos tudo aquilo que viria a fazer dele um autor sem par na história do cinema americano contemporâneo.

Tenho para mim que os filmes de Eastwood se dividem em duas categorias. As obras-primas, passe a latitude da expressão, onde encontramos títulos como Unforgiven, A Perfect World, Mystic River, Million Dollar Baby e ainda a adaptação de The Bridges of Madison County – e quem não se comoveu com a sequência de despedida faça o favor de marcar desde já uma consulta de psiquiatria. A esta lista junto ainda, separadamente, o extraordinário Gran Torino, o seu filme-testamento que é toda uma filosofia de vida e uma das obras que marcará a leitura futura da cinematografia do grande Dirty Harry.

Hereafter não fará parte desta primeira divisão de obras de Eastwood mas é, ainda assim, um filme que vale a pena descobrir. Obra minimal sobre três personagens suspensos na fronteira da vida por motivos diversos, uma simples história da ligação entre pessoas que vivem no horizonte entre este e um outro lugar. O filme não deixa de criticar sem rodeios a profusão de impostura e charlatanice que rodeia o mundo do sobrenatural. Mas de igual modo nos desafia a questionar aquilo que temos por certo, aquilo que nos transcende. Seja como for, é um trabalho que nos mostra um dos últimos grandes humanistas do cinema americano, capaz de olhar para aquilo que não se vê para expor as fragilidades do que significa ser-se humano.

Um futuro imaginado



2019: A Future Imagined é um mini-documentário que dá a conhecer algumas ideias de Syd Mead sobre a natureza da criatividade e da evolução humana. Um dos mais importantes artistas conceptuais da actualidade, Syd Mead notabilizou-se pelas imagens especulativas que serviram de suporte a obras de ficção científica como Blade Runner, Aliens e Tron. Entre as suas paixões pessoais encontram-se o design de ambientes urbanos e modelos alternativos de transporte, desenvolvendo a sua visão prospectiva sobre futuros possíveis.
Dirigido por Joaquin Montalvan, autor do documentário Visual Futurist: The Art and Life of Syd Mead realizado em 2006. Via Archinect.

Só macacos


2001: Odisseia no Espaço. A primeira meia hora era só macacos.

Algures na secção de críticas da página do filme 2001: Odisseia no Espaço no IMDb, um utilizador zombeteiro comenta que «a primeira meia hora é só macacos». É uma frase que deveria ser desde já imortalizada numa T-shirt, um verdadeiro lema para os dias que correm.
Recordo-me de ver o clássico sci-fi de Kubrick pela primeira vez durante a adolescência, numa reposição em cinema, na grandeza do grande ecrã. À saída da sala uma senhora dizia outra frase inesquecível: «as cores eram muito bonitas». Tal como aquela senhora, também eu estava sem perceber grande parte do que ali se tinha passado.
Só anos mais tarde, ao ler o livro de Arthur C. Clarke, compreendi as razões bem objectivas que estavam por detrás da abstracção narrativa em que o filme mergulhava a caminho do grande final. Curiosamente essa explicação retirou para sempre alguma da magia que tinha apreendido do filme; algo que havia interpretado como uma representação da experiência de contacto com uma civilização extraterrestre avançada, em tudo o que tal teria de inexplicável e transcendente, ou noutra palavra, alienígena.

Ainda sobre abstracção em cinema, em particular no género especulativo da sci-fi, observamos hoje uma tendência irreversível para o hiper-realismo tornado possível pela tecnologia digital. A questão coloca-se no modo como se vão estabelecendo modelos formais e narrativos que abandonam conceitos passados de cinematografia enquanto lugar de celebração da subjectividade do olhar. Ocorre-me, sobre isto, o paradigmático Avatar. Pensar como para lá de uma overdose sensorial resta um filme que em nada enuncia algo novo; tudo ali é demasiado presente, demasiado familiar, no que representam aquelas personagens, aquelas simbologias, toda uma visão ideológica do mundo que é dos nossos dias, travestida que esteja em sedutora arte conceptual. No mundo da tridimensionalidade, da objectividade absoluta da imagem, haverá ainda disponibilidade do espectador para celebrar um olhar onírico do mundo, como nos traz Darren Aronofsky em The Fountain, por exemplo?

Imaginemos que poderíamos resgatar alguém a um passado distante. Trazer, por exemplo, um habitante da idade média até ao tempo presente e proporcionar-lhe a experiência de uma viagem a bordo de um automóvel, circulando de noite pelas estradas de uma qualquer cidade dos nossos dias. Como seria esmagadora a experiência, verdadeiramente incompreensível, daquela realidade, da velocidade, das luzes, dos sons, da escala do nosso mundo urbano.
Mais interessante ainda seria fazer regressar esse habitante ao seu tempo de origem e observar as suas descrições do sucedido, as suas interpretações daquilo que seria em grande parte uma abstracção inexplicável. E como outros tentariam representar essa mensagem, recriando imagens do indecifrável baseadas no conhecimento, na tecnologia, na imaginação do seu próprio tempo histórico. Como descrever aquilo que não tem forma, não tem narrativa, não tem ainda um sentido? Como explicar, afinal, o mundo de amanhã usando uma linguagem criada para o mundo de hoje?

Avatar, a crítica da crítica e os jogos de vídeo


O desembarque da Normandia no filme Saving Private Ryan.


Imagem do jogo Medal Of Honor – Allied Assault, produzido por Steven Spielberg.

Certos filmes, em particular quando tratamos de cinema popular, despertam discussões apaixonadas sobre a opinião dos “críticos”. É um fenómeno recorrente, em particular no meio interactivo da rede como no caso bem Português do Cinema 2000, e que agora se repete com Avatar tal como havia já acontecido em episódios anteriores como os de O Cavaleiro das Trevas, O Senhor dos Anéis ou Matrix.

Sobre este tipo de debate João Lopes tem produzido pontualmente reflexões bastante didácticas no seu blogue Sound + Vision. Não deixa de ser interessante observar a multiplicidade de olhares que uma obra pode gerar, da paixão ao ódio, nascidos do olhar subjectivo de cada um. É uma subjectividade que deveria ser, mais do que respeitada, celebrada por todos. E talvez resida aí um problema de partida: se encaramos a nossa verdade como algo que se sobrepõe a qualquer outra hipótese de leitura, ou se encaramos a nossa visão como parte de uma comunidade de pessoas que connosco podem partilhar as suas diferenças e as suas leituras possíveis. Se o debate se pretende como exercício de cidadania não deve então presumir-se como atestado de anulação do outro, remetendo para uma forma de fundamentalismo da opinião.

O exemplo de João Lopes (JL) é particularmente interessante por se tratar de alguém que se tem dedicado a motivar uma expressão didáctica do exercício da crítica. Pessoalmente, sei que mesmo na discordância terei algo a aprender com ele. Ilustro esta ideia com uma referência típica de JL em alguns filmes: quando diz, por exemplo, que determinada obra tem traços de “jogo de vídeo”. Sei que fala de uma construção formal que assenta na voragem do movimento pelo movimento. Uma dimensão gratuita de construção narrativa que depende exclusivamente do valor cinético da imagem. Ora, como apreciador de jogos de vídeo (hélas), identifico aqui um preconceito de partida. Pois que inúmeros jogos têm vindo a incorporar um enorme sentido de inovação ao nível da construção narrativa interna – poupo-me a partilhar exemplos, certo que a minha condição de “geek” estará já por certo assegurada.


Imagem do jogo Modern Warfare 2.

Como curiosidade apresento um trecho de uma análise de Tom Bissell no site Crispy Gamer, a propósito do recente jogo Modern Warfare 2, em particular quanto ao retrato de um episódio de um massacre de civis protagonizado pelo jogador:
This mission is asking you to take part in the morally outrageous slaughter of innocent people guilty only of attempting to make their connecting flights to Prague and London and Kiev. The game frames this act in terms of moral necessity, which is, of course, a convention of stories with a "deep cover" conceit. A film like "The Departed" requires two-and-a-half hours of finely modulated performances and superb writing and direction to make the moral anguish of being in deep cover clear, and even then the decisions Leonardo DiCaprio's character makes are ambiguous.

Trago aqui este exemplo para demonstrar como, mesmo no universo dos jogos de vídeo, as suas limitações intrínsecas e uma crescente exigência narrativa têm vindo a produzir alguns interessantes debates no próprio meio. Ora, no que se refere ao cinema, a expressão «jogo de vídeo» trazida por JL traz uma interpretação diversa. Sobre isto, e a propósito de Avatar, interrogava-me se a extensão de certas passagens, visualmente deslumbrantes se justificariam do ponto de vista meramente narrativo, se não estivessem suportadas por uma experiência sensorial tão avassaladora. E, no entanto, este tipo de sequência de acção pura é antiga como o próprio cinema: referir, por exemplo, as gloriosas perseguições dos velhos westerns, reformuladas por Spielberg nos Salteadores da Arca Perdida, numa sequência de perseguição a cavalo a camiões nazis, contendo um “stunt” que é referência directa às acrobacias de Yakima Canutt na década de 30.

A acção pela acção não será assim, em si mesmo, um mal. Mas revela-se um problema complexo de descodificar quando a construção cinética se torna parte da própria construção narrativa. Veja-se a overdose de montagem dos filmes de Michael Bay e compare-se com o exercício de uma acção dramática, como em Saving Private Ryan de Steven Spielberg, ou no recente District 9 de Neill Blomkamp. Ou no mais elaborado papel da acção em Seven de David Fincher, como momento de anunciação da natureza dramática do mal.

Avatar distingue-se de algum cinema blockbuster especialmente dirigido às camadas adolescentes, como a saga Transformers, para revelar uma preocupação com a integridade da sua estrutura formal e narrativa. Cameron partilha a paixão por esse sentido espacial do cinema que podemos reconhecer em Spielberg, pese embora não ser dotado do seu sentido de mise-en-scène. Estaremos ainda assim em Avatar próximos dessa dinâmica de jogo de vídeo, quando a viagem sensorial é a arquitectura do próprio filme? Para onde vai este cinema? – é uma justa perplexidade que, independentemente do gosto ou da opinião de cada um, merece uma reflexão atenta. Pois que não deverá o cinema deixar de ser, aqui ou na mais distante paisagem extraterrestre, um lugar para reflectir sobre as dimensões mais íntimas da experiência de se ser humano.