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Irracionalismo



Uma esplanada composta por cadeiras de resina brancas – à venda no Leroy Merlin pela módica quantia de 4,49 euros cada – repousa num recanto da Cidade da Cultura da Galiza, obra que custou ao governo da região cerca de 400 milhões de euros. O cenário revela-se uma caricatura real das muitas perplexidades que se levantam perante estas arquitecturas mediáticas correntemente designadas como starchitecture.

Um artigo do The Architectural Review traça uma abordagem certeira sobre as contradições em que assenta o discurso “crítico” que tantas vezes se enuncia em torno destas obras – ler Empty gestures: Starchitecture’s swan song. São projectos que enfatizam o gesto híper-estrutural, marcados por uma grosseira desproporção entre o contentor e os seus conteúdos, com uma relação inversamente proporcional no que respeita ao investimento entre o construído e o vivido. Invariavelmente, são edifícios de exacerbada generosidade espacial para pouca ou nenhuma função – grandes átrios, extensos corredores, colossais escadarias; espaços onde persiste apenas o momento contemplativo. Uma arquitectura diligentemente empenhada em oferecer ao visitante o êxtase perante a sua própria obesidade.

O desalento que não podem deixar de nos provocar estas arquitecturas prenuncia a necessidade de revisitar uma história crítica da arquitectura contemporânea tendo presente o entendimento que hoje podemos ter quanto ao processo político e económico que conhecemos nas últimas quatro décadas. Estas são, em boa verdade, arquitecturas “do seu tempo” – de um tempo de irracionalismo que não deixará de invocar, como escreve Peter Buchanan, as maiores perplexidades junto das próximas gerações de arquitectos. E são também já arquitecturas do passado – mesmo nas suas manifestações vindouras. A sua espectacularidade só tem eco na sua profunda irrelevância. O mundo da arquitectura não tem hoje nada a aprender com estes exercícios de grande mediaticidade, presos que estão à singularidade dos seus contextos políticos e a uma visão hipertecnológica do processo construtivo.

A compreensão da singularidade que sustentou o fenómeno da starchitecture obrigará a reflectir sobre a sua fundação política e a efemeridade das circunstâncias económicas e sociais que a envolveram. Não podem nessa discussão os arquitectos julgarem-se espectadores inocentes da História ou fazer crer, como por vezes se ensaia, o papel amoral das suas investigações conceptuais – um discurso que só tem paralelo na retórica neoliberal em torno da pretensa amoralidade da actuação livre dos agentes económicos. Em si mesmo tal prerrogativa é já, ela mesma, uma afirmação carregada de “moralidade”.
O que está aqui em causa é, afinal, algo muito simples: que uma má política resultará sempre numa má arquitectura – eis algo que nem o mais sofisticado parametricismo consegue esconder.

Sobre este tema ler também: Arquitectura do défice: da arquitectura como narrativa política e Retratos da crise.

A ler



A zona euro dedicou mais de um terço da sua vida a um ajustamento desequilibrado, que empobreceu toda a zona. Os custos desse ajustamento recaíram quase exclusivamente sobre os países mais pobres. (…)
Tendo identificado erradamente o cerne do problema com que a crise a confrontou, a forma como a zona euro com ela tem lidado revelou-se profundamente errada, porque se concentrou sobretudo nos sintomas mais visíveis ou nas ramificações do problema, descurando a sua raiz.

– Eurocrise: uma outra perspectiva, Vítor Bento, Observador.

Sabia que?...

Será que os nossos comentadores, jornalistas e directores de jornais sabem estes factos sobre o sistema bancário moderno? Eis algumas perguntas simples sobre economia.

Portugal do lado errado da História



Os governantes alinhados com a doutrina dominante na UE, entre os quais encontramos o Primeiro Ministro português, não querem sequer ouvir falar sobre a proposta do novo governo de Alexis Tsipras que gostaria de convocar uma grande conferência europeia sobre a dívida. Qualquer debate sobre estratégias e modelos alternativos de gestão das dívidas públicas é suprimido liminarmente. A palavra reestruturação, essa, tornou-se perigosa e é motivo de despudoradas campanhas de desinformação que procuram capturar os cidadãos no seu próprio pensar.

Jornalistas acorrem a questionar políticos sobre as suas posições a respeito de “intenções de reestruturação unilateral” das dívidas soberanas – uma discussão que simplesmente não existe e algo que ninguém propôs. As perguntas parecem saídas directamente de gabinetes de comunicação próximos do governo, prontas a serem replicadas por funcionários servis que há duas semanas não sabiam sequer quem era Varoufakis – muito menos conhecem as suas propostas.

No essencial, a Proposta Modesta avançada por Yanis Varoufakis e Stuart Holland e, numa posterior revisão, subscrita também por James Galbraith, assenta na transferência parcial (mas expressiva) de dívida para o domínio público, através do BCE, fazendo com que os títulos de dívida dos estados do Euro deixem de estar na dependência de financiamento junto da banca privada.

Tal possibilidade é também deturpada recorrentemente nos meios de comunicação por comentadores que alertam para os perigos que podem advir da criação de dinheiro “do nada” pelo BCE para a compra de dívida pública, ignorando, por desconhecimento ou com dolo, que é exactamente isso que faz o sistema financeiro privado através da banca comercial. No contexto Europeu, à semelhança do que se passa nos Estados Unidos, mais de 95% do money stock em circulação na economia foi criado pelos bancos através da concessão de crédito na forma de depósitos electrónicos. A este respeito tive a oportunidade de escrever aqui no blogue: ler A Grande Questão Política do Nosso Tempo.

Importa dizer que a transferência de dívida pública dos estados para o foro de gestão de um "Tesouro" europeu não significaria qualquer despesa adicional para os cidadãos da zona Euro – muito menos dos trabalhadores dos países mais ricos para os mais endividados. Pelo contrário, teria como principal efeito uma redução imediata de cash-flow da banca comercial em resultado da perda dos juros que esta faz incidir sobre a dívida pública, susceptíveis à influência das agências de rating – empresas igualmente ligadas ao sector financeiro.

Neste xadrez político, o Primeiro Ministro afirma-se contrário à hipótese de reestruturação – contrário até a que sobre o tema se venha a realizar qualquer debate. Assim sendo, importa interrogar qual a estratégia, qual o projecto que o actual governo tem a apresentar para Portugal.

A possibilidade de levar a cabo um processo de investimento público ao abrigo do Plano Juncker afigura-se praticamente vedada a Portugal. Tratando-se de um plano que tem subjacente a co-participação maioritária de fundos da banca comercial, tal significa actuar na dependência de mais endividamento público. Estando Portugal em endividamento excessivo e sobre o efeito de apertados limites orçamentais, a acção do Plano Juncker no nosso país só poderá assim ser residual.

Outra possibilidade seria esperar o relançamento do financiamento privado da economia, em resultado do reforço das reservas bancárias por via da acção de quantitative easing pelo BCE. No entanto, mesmo presumindo que tal reforço de reservas se viesse a traduzir na maior disponibilidade da banca para conceder crédito às empresas – o que de resto contraria a experiência já observada nos Estados Unidos e no Reino Unido – sucede que as empresas portuguesas e os particulares também se encontram numa circunstância de excessivo endividamento.
Incapazes de absorver mais crédito, com um mercado em contracção de consumo, tal via parece também não oferecer quaisquer perspectivas de sucesso.

Em que fica, então, o projecto do governo para Portugal? Sem reestruturação da dívida pública (ou uma alteração substancial do modelo de gestão de dívida dos estados da zona Euro), sem acesso significativo ao investimento europeu e sem viabilidade para financiar a economia privada no mesmo modelo de crédito que vigorou até aqui, só nos resta um resultado: definhar, lenta e inexoravelmente.

Torna-se claro que Pedro Passos Coelho, convergindo com a corrente dominante na União Europeia protagonizada por Angela Merkel, Mario Draghi e Jean-Claude Juncker, e avalizada por Christine Lagarde, não actua na defesa dos contribuintes europeus, muito menos dos portugueses. Ao negarem a possibilidade de instituir um sistema de gestão de dívida pública na zona Euro, os líderes da União estão a actuar em defesa da superestrutura financeira que vem controlando a política monetária, abusando do poder que lhe foi colocado à disposição para gerar uma insustentável bolha de crédito de crescimento exponencial nas últimas décadas.

É isto que está em causa. E é também por isso que qualquer debate sobre reestruturação, seja por via das propostas subscritas por Varoufakis, pelo plano de Wyplosz ou por qualquer outro, é abafado liminarmente do espaço público. Para não ver posto em causa o establishment de poder que vem ditando as regras do projecto Europeu.

Terra incognita



Se a Europa – isto é, a Alemanha – forçar o Governo de Tsipras a capitular, muita gente ficará feliz com o desfecho. Mas são inconscientes: estarão apenas a antecipar o fim da Europa. A capitulação e a humilhação da Grécia detonará, entre muitos povos da Europa, uma onda de ódio antialemão e de frustração com Bruxelas que será terra fértil para extremismos bem mais perigosos e incontroláveis. O desespero nunca foi bom conselheiro. A chancelerina Merkel devia meditar na célebre frase de Kennedy: “Os que tornam impossível a revolução pacífica tornam inevitável a revolução violenta”.

– Miguel Sousa Tavares: Se nós não somos a Grécia é porque somos parvos; Expresso

A imagem fica para a crónica destes tempos. A História desenrola-se em frente dos nossos olhos. Não sabemos ainda, em boa verdade, o que estamos a ver; a capitulação de um funcionário de Bruxelas ou o vôo de Ícaro de Varoufakis. O presente é sempre um espesso nevoeiro que tarda em passar. É a maldição de viver tempos interessantes. Ou tempos estranhos, estes, em que a estabilidade é uma certeza de agonia e na incerteza encontramos a única réstia de esperança.

Dinamite cerebral



Dos mesmos autores do documentário 97% Owned chega-nos agora o interessante Princes of the Yen: Central Banks and the Transformation of the Economy. O filme tem como ponto de partida uma análise da bolha monetária que teve lugar no Japão na segunda metade da década de oitenta em resultado de uma rápida expansão do crédito emitido pela banca privada. Esta política, fomentada pelo banco central do Japão, teve como resultado uma profunda recessão com pesadas consequências económicas e sociais. Um fenómeno que parece apresentar um paralelismo assustador com a situação que se vem desenvolvendo na Europa desde a crise financeira de 2008. O documentário é, acima de tudo, uma denúncia do papel desempenhado pelos bancos centrais na fragilização da soberania monetária das nações, em benefício do sector financeiro privado. Legendas presentemente disponíveis apenas em Inglês.

Uma história de sobreaquecimento da economia

Image credits: André Pais.

O endividamento dos particulares – cidadãos e famílias portuguesas – ascende a 166 mil milhões de Euros, equivalente à totalidade do produto interno bruto nacional – dados de final de 2012. A dívida resultante do recurso ao crédito para compra de habitação compreende 70% desse valor, no total de 116 mil milhões de Euros.

Este fenómeno de endividamento teve na sua origem uma conjugação de diferentes factores, destacando-se um conjunto de alterações estruturais ocorridas no sistema bancário com o aumento das condições de emissão de crédito, o abaixamento progressivo das taxas de juro e os efeitos da convergência ao quadro da adesão ao Euro.

Tendo presente que no actual sistema monetário os bancos emitem crédito sobre a forma de novos depósitos electrónicos – criando dinheiro que antes não existia – importa agora ter em conta que o volume de crédito para habitação não só aumentou progressivamente ao longo das últimas décadas como duplicou desde 2001.
Perante um processo de crescimento do crédito tão espectacular, que se traduziu na canalização de avultados recursos financeiros sobre o sector da construção, poderíamos ser levados a inquirir por que motivo tal não repercutiu um aumento igualmente significativo da inflação no conjunto da economia. Essa inflação, na verdade, aconteceu, mas os seus efeitos foram circunscritos ao mercado imobiliário.

A massificação do acesso ao crédito em regimes cada vez mais agressivos teve como efeito o aumento da procura e uma correspondente subida de preços da edificação. Esta valorização obteve, da parte do sistema bancário, uma leitura positiva por assegurar a solidez das suas garantias sobre a forma de hipoteca em caso de incumprimento dos particulares. Por sua vez, este comportamento do mercado tornava mais favoráveis as condições para criação de novos créditos no sector, tidos como de baixo risco e elevado retorno.

Sucede também que o aumento global do preço do parque edificado não é considerado para efeitos do cálculo da inflação, apenas os custos correntes em rendas e outras despesas associadas à habitação. A isto acresce que o endividamento das famílias, obtido por via do crédito, implica a redução do seu rendimento disponível, tendo um efeito negativo no consumo e, correspondentemente, na inflação para o restante conjunto da economia.

Importa assim compreender que este processo de valorização crescente do imobiliário constituiu uma distorção do normal comportamento do mercado. Qualquer modelo de avaliação dos custos da construção tem por base a consideração de uma desvalorização gradual dos imóveis em função da idade. É isso que sucede em economias onde o sector da construção não teve uma expressão tão significativa, como no caso da Alemanha. Em Portugal, no entanto, como na Espanha e em outros países, instalou-se a expectativa generalizada quanto à tendência de valorização do preço das casas.

Tomou-se afinal como paradigma aquilo que não passou dos efeitos do próprio sobreaquecimento do mercado, resultante da canalização de avultadas quantidades de crédito pelo sistema bancário para este sector. Este ambiente especulativo foi não só lesivo para os cidadãos particulares, aumentando artificialmente os preços da habitação e o seu endividamento, como se traduziu numa forte pressão urbanística em todo o país.

Também aqui as dinâmicas de um mercado distorcido tiveram as suas consequências. Se algumas cidades foram a reboque do imobiliário, cedendo à expansão dos perímetros urbanos a uma velocidade sem precedentes, outras cidades que procuraram conter essa tendência viram-se fortemente prejudicadas pelos efeitos inflacionários decorrentes para o custo do solo urbano - com distorções de preços que, em muitos casos, a própria crise não resolveu.

Devemos agora compreender que tal paradigma foi, não apenas, errado, como é igualmente irrepetível. Passámos da era da construção para a era da gestão – mais um motivo para colocarmos a reabilitação, ainda tão deficitária, no centro do debate político.

A grande questão política do nosso tempo



Tenho vindo a dedicar alguma atenção ao tema da economia e, em particular, à natureza do actual sistema monetário, ao real papel exercido pelos bancos comerciais e às profundas distorções sistémicas que um tal modelo faz incidir sobre a nossa sociedade em todos os aspectos da nossa vida. Acredito que esta é, no contexto das economias desenvolvidas, a questão política do nosso tempo.

No passado dia 20 de Novembro teve lugar no Parlamento Britânico um debate sobre a criação de dinheiro com o título Money Creation and Society. Em discussão esteve o facto de no actual sistema de moedas fiduciárias como a Libra, o Euro ou o Dólar, a esmagadora percentagem do money stock em circulação não ter sido criada pelos governos (ou pelos bancos centrais) mas por bancos comerciais através da concessão de crédito.

Em causa está o facto dos bancos criarem dinheiro do nada, electronicamente, sobre a forma de crédito e que o volume de dinheiro criado por essa via aumentou exponencialmente nas últimas décadas – ascendendo, no caso Britânico, a 97% da totalidade do money stock.

Tratou-se de um debate promovido por quatro parlamentares da Câmara dos Comuns, de cada uma quatro forças políticas ali representadas: Conservadores, Trabalhistas, Verdes e Ukip. A discussão assertiva que se gerou demonstrou bem que as preocupações em torno da reforma monetária não são apenas opiniões de um pequeno grupo com ideias alternativas sobre economia, mas antes apreensões fundamentadas de um vasto conjunto de pessoas com diferentes sensibilidades políticas.

Alheios à natureza do sistema monetário moderno muitos cidadãos são conduzidos por conceitos do senso comum que iludem a compreensão real dos problemas. Um exemplo imediato revela-se no modo como as pessoas entendem o significado de um “empréstimo” bancário. No entendimento de muitas pessoas um banco é uma instituição intermediária que tem à sua guarda os depósitos de outros cidadãos, redistribuindo-os através de empréstimos sobre os quais incidem juros que revertem a seu favor, de que depois beneficiam também os depositantes originais.

Sucede que a realidade é bem diversa. Quando um banco concede um crédito a um particular essa instituição assume uma responsabilidade desse valor mas a dívida deste é registada como um activo do banco. Ao fazê-lo, os bancos estão simultaneamente a criar dinheiro (electrónico) novo na conta do cliente, bem como a dívida que lhe é correspondente. O processo é descrito de forma detalhada num documento publicado pelo sítio web Positive Money que pode ser descarregado aqui – corroborado de forma inequívoca por uma outra publicação emitida pelo Banco de Inglaterra.

Significa isto que no contexto actual o principal objecto de actividade dos bancos não é mais aquilo que outrora entendemos como banking, fazendo recircular as poupanças na economia como crédito a novos investimentos, mas sim a criação de money stock através de crédito sobre a forma de novos depósitos electrónicos.

Decorrem deste processo vários aspectos a ter em conta. Faço referência ao exemplo Britânico pelo facto de conter documentação mais acessível mas valerá a pena lembrar que o Euro, pese embora ter tido uma gestão mais conservadora, opera segundo um paradigma idêntico.
No caso Britânico, com um money stock de 2.200 mil milhões de libras, apenas 8% foi concedido a empresas do sector não financeiro. O volume de crédito emitido a entidades financeiras é três vezes superior. E um terço daquele money stock foi canalizado para o sector imobiliário ou para empréstimos sobre hipoteca de casa.

Estamos perante um fenómeno que contradiz um princípio básico em que parecem acreditar muitos economistas: que, no actual sistema, o dinheiro não é neutral – facto muito enfatizado no debate da Câmara dos Comuns pelo Conservador Steve Baker. O dinheiro tem sido maioritariamente criado por bancos – sem correspondência com os seus activos e em valor que lhe é muito superior, ao abrigo das regras do fractional reserve banking – fazendo reverter em seu benefício os juros correspondentes e extraindo desse modo riqueza do todo da economia, empobrecendo gradualmente a sociedade.
Assistimos assim ao desenrolar de um desequilíbrio sistémico extremamente perigoso, por via do aumento exponencial do endividamento sobre economias de lento crescimento. E temos assim que o peso dos juros que tal volume de crédito faz agora incidir é de tal forma elevado que comprime a economia real e a sua possibilidade efectiva de crescimento.

De igual modo, os cidadãos têm vindo a ser iludidos quanto ao papel exercido pelos “Mercados”, maioritariamente representados por instituições financeiras que estão na primeira linha de acesso ao crédito, em condições de muito baixo custo de financiamento.

Perante estas circunstâncias afiguram-se pouco elaboradas as preocupações dedicadas por alguns economistas à possibilidade de criação de dinheiro pelo BCE e aos riscos que tal representa, tendo em conta que os bancos andaram a fazer isso mesmo de modo descontrolado nas últimas décadas. Na verdade, o recurso ao quantitative easing levado a cabo pelo BCE é um processo que continua a operar em benefício directo dos agentes financeiros e não da economia. E de novo a apresentação do Plano Juncker se apresenta como mais uma demonstração de como a Comissão Europeia prefere actuar no interesse dos bancos, introduzindo um mecanismo que volta a colocar os Estados na dependência de se financiarem através da banca privada, acumulando assim mais dívida ao sector privado emissor de crédito.

Coloca-se afinal a interrogação quanto aos motivos porque no contexto de moedas Fiat, como o Euro, os Estados se colocam na contingência de se financiarem em instituições privadas que beneficiam da criação de dinheiro sobre a forma de crédito, em vez de se financiarem, de forma necessariamente regulada, junto de instituições centrais de natureza pública.

A solução para um problema desta magnitude só pode passar por uma reforma monetária que faça transferir as dívidas públicas dos Estados para um organismo central Europeu, de que beneficiem os seus cidadãos e não os bancos que emprestaram aquilo que efectivamente não tinham, em proveito próprio. A não o fazer, continuaremos a viver ao abrigo de um sistema monetário que constitui uma imoralidade e uma distorção sistémica profunda das regras do próprio Capitalismo.

Sabia que os bancos criam dinheiro do nada?



Na passada quinta-feira, dia 20 de Novembro de 2014, pela primeira vez em 170 anos, o Parlamento Britânico promoveu um debate sobre a criação de dinheiro. Poucas pessoas sabem que, no actual sistema de moedas fiduciárias como a Libra, o Euro ou o Dólar, a esmagadora percentagem do money stock em circulação nas nossas economias não foi criado pelos governos (ou pelos bancos centrais) mas por bancos comerciais através da concessão de crédito.

A layer zero da arquitectura e do urbanismo: pensamentos sobre a criação de dinheiro e o problema das cidades

Image credits: John Brosio.

Quando urbanistas e arquitectos se debruçam sobre as dinâmicas da cidade contemporânea, no contexto das sociedades organizadas, tendem a ignorar o problema da cidade na sua dimensão financeira. Está em causa, muito concretamente, a desconsideração dos processos de produção de cidade enquanto materialização de instrumentos financeiros e, em particular, a dimensão que este processo teve no conjunto da política monetária levada a cabo pelas instituições bancárias nas últimas décadas.

Ao fazê-lo, urbanistas e arquitectos estão a debater fenómenos muito importantes como, por exemplo, a expansão urbanística, os movimentos pendulares e os seus efeitos sociais ou ambientais, muito a jusante dos factores que lhes estão na origem.

Temos assim que a nossa cultura teórica e profissional conduz-nos muitas vezes para a abordagem dos problemas na sua dimensão material, do mundo construído e das suas repercussões objectivas – ao nível da ocupação humana e das suas dinâmicas sociológicas, ou, por exemplo, dos transportes, das infra-estruturas, da gestão do património edificado. E acabamos por ignorar que fenómenos cruciais como a suburbanização das cidades foram, em primeiro lugar, o resultado da tradução em obra física de veículos de investimento financeiro.

Olhando para a vasta mancha urbana anónima e tantas vezes desqualificada que caracteriza esses subúrbios, sobre esta perspectiva, temos agora de nos interrogar quanto àquilo que ela efectivamente representa. Tendo presente princípios de reflexão estritamente urbanística e arquitectónica, estes territórios construídos representam o falhanço do planeamento perante a voragem do sector da construção civil e do imobiliário.
Correspondem, de alguma forma, a uma certa falência da capacidade de actuação do poder público, no domínio do urbanismo, sobre a actuação descontrolada do mercado.

No entanto, considerados enquanto manifestações de instrumentos financeiros, essa mesma cidade constitui um exemplo de optimização eficaz do objecto da construção tendo em vista o máximo retorno financeiro a partir do menor investimento possível. Assim se traduz essa cidade em áreas de máxima densidade de ocupação, menor infraestrutura pública e reduzida qualidade arquitectónica.

O resultado é um ambiente construído altamente ineficaz ao nível do conforto humano, da gestão ambiental e energética, dos fluxos de mobilidade e demais implicações urbanas. Pior, é não só um modelo de criação de cidade que permite ao agente privado extrair o máximo rendimento possível como implica uma posterior acção pública a diversos níveis – desde a necessidade de reforço de infraestruturas de transportes para viabilizar a deslocação pendular massiva dos habitantes, ao investimento na dotação de espaços públicos e equipamentos que assegurem a sua qualidade de vida – de que decorrem custos colectivos, e ainda os prejuízos de longo prazo de um modelo de ocupação ineficaz ao nível energético, com pesados consumos rodoviários e tempos dispendidos.

Ao termos presente que nas sociedades organizadas o volume de dinheiro (money stock) introduzido na economia sobre a forma de crédito por parte da banca privada, dirigido ao sector da construção, ascende a valores da ordem de um terço da quantidade total de moeda disponível, podemos compreender a dimensão deste fenómeno no conjunto da nossa vida económica.
O processo a que assistimos nas últimas quatro décadas não tem paralelo na história mundial. Se é certo que dele decorreu o sobreaquecimento da economia que assegurou, no curto prazo, uma melhoria generalizada da qualidade de vida, é também verdade que a herança que fica dos custos desta realidade e o peso que dela decorre no endividamento colectivo dos cidadãos será difícil de sustentar no futuro.

Decorre assim para urbanistas e arquitectos que queiram participar no fazer e gerir da cidade que não basta já reflectir sobre soluções inovadoras de urbanismo no sentido estrito, com ilusões irreverentes quanto ao poder do desenho, tornando-se necessário reflectir sobre os próprios mecanismos financeiros que estão na base da sua operacionalização. Se não o fizermos estaremos a actuar sobre um terreno comprometido à partida com decisões tomadas nos gabinetes de instituições financeiras para quem a cidade é, em primeiro lugar, um veículo para a obtenção de lucro, e de forma muito secundária, um território material onde vivem pessoas.

De onde vêm as dívidas

Amanhã, dia 20 de Novembro de 2014, será um dia histórico para o Reino Unido. O Parlamento Britânico vai discutir, pela primeira vez desde 1844, o modelo de criação de dinheiro do actual sistema monetário. O debate tem por título Money Creation and Society.

O sítio web da campanha Positive Money é um bom ponto de partida para conhecer este problema. Em causa está o facto de os bancos criarem dinheiro “do nada”, electronicamente, sobre a forma de crédito, e que o volume de dinheiro criado dessa forma aumentou exponencialmente nas últimas décadas – ascendendo, no caso britânico, a 97% da totalidade do dinheiro em circulação na economia.
Trata-se de uma trágica concessão de soberania das Nações a favor de agentes financeiros privados, com efeito em todos os aspectos da nossa vida económica.

Partilho um dos melhores vídeos que encontrei sobre este problema: uma palestra de Michael Rowbotham, gravada em 1999, onde aborda as muitas implicações que resultam de um sistema monetário baseado no endividamento. A qualidade da gravação é muito fraca mas o conteúdo é obrigatório. Legendas disponíveis em inglês.

Alguns dados para compreender a crise da construção em Portugal


Urban Development. Image credits: Thomas Dahlberg.

A partir da década de setenta do século passado o país conheceu um período de extraordinário crescimento do sector da construção que se traduziu na criação de mais de 800 mil fogos por década. Várias causas contribuíram para este fenómeno, tanto pela acção de agentes públicos como privados.

À escassez de oferta que resultou do período do Estado Novo seguiram-se políticas de apoio à edificação, directas e indirectas, pela promoção de habitação de custos controlados ou pela implementação de regimes de bonificação de acesso ao crédito.

Por outro lado, alterações estruturais do sistema bancário conduziram ao aumento do crédito disponível e ao abaixamento progressivo das taxas de juro, processo acentuado pela convergência das moedas nacionais no quadro da adesão ao Euro.



Imagem: Vítor Reis (IHRU), A reabilitação urbana e as mudanças que estão a ocorrer em Portugal (apresentação).

O efeito destes vários factores centrou-se essencialmente no mercado da venda, associado à obra nova. Não só o sector da reabilitação se manteve cronicamente abaixo da média europeia como os cidadãos foram incentivados à aquisição de imóvel, com a massificação do acesso ao crédito em regimes cada vez mais agressivos mesmo para famílias de menores rendimentos.

Este foi assim um ciclo em que o sector da construção repercutiu um peso excepcionalmente elevado para o produto interno, com o correspondente efeito redistributivo sobre indústrias produtivas que lhe são próximas e ainda sobre o emprego.



Imagem: Vítor Cóias (GECoRPA), Qualificação para a reabilitação (apresentação).

Ao contrário do que se possa pensar, a decadência da construção em Portugal começa a manifestar-se bem antes da denominada crise financeira de 2008. O número de fogos licenciados e concluídos em construções novas para habitação familiar começa a observar uma descida progressiva a partir de 2001. Esse fenómeno repercute também a perda de expressão do sector sobre o PIB, dado que se mantém até aos dias de hoje.

Sinal de que a banca portuguesa interiorizava já este processo era perceptível na implementação gradual de mecanismos versáteis de crédito: aumento de prazos de empréstimo no crédito-habitação, prorrogação parcial do crédito para o fim do empréstimo e produtos de crédito intercalar para troca de casa (permitindo adquirir casa nova e vender a antiga até o prazo máximo de três anos). Foram medidas que procuraram criar condições de sustentação do mercado num momento já frágil da nossa economia.


Imagem: Associação Lisbonense de Proprietários, Retrato da Habitação em Portugal, Características e Recomendações.

Pese embora todas estas medidas, a crise de 2008 veio estilhaçar a política bancária que serviu de motor a este ciclo extraordinário da construção civil em Portugal. Esta crise, que deflagrou nos Estados Unidos, teve subjacente a percepção de que o valor dos activos imobiliários que serviam de segurança ao crédito emitido pelas instituições bancárias – sobre a forma de hipoteca – se encontrava largamente sobrevalorizado.
A consciência dos elevados riscos associados, directa e indirectamente sobre um conjunto de derivados financeiros (e o pânico que se seguiu) traduziu-se na contracção do crédito para a habitação. Consequentemente o mercado viu-se incapaz de escoar a construção em curso, com a agravante de uma inundação secundária de mercado por produto resultante dos casos de incumprimento de pagamento de dívida por proprietários em dificuldades e, num segundo momento, pela própria banca.

Assistimos assim a um fenómeno internacional que tem subjacente uma desvalorização generalizada do parque imobiliário. Algumas vozes apontaram a necessidade de proceder a uma reavaliação dos activos que servem de segurança aos bancos, de modo a assegurar uma compreensão real do grau de solvabilidade do sistema bancário. Essas vozes, no entanto, cedo se calaram, certamente reflectindo a compreensão de que um tal processo tornaria claro o risco subjacente à nuvem de crédito criada em torno deste sector.

Explícita ou oculta, essa realidade não deixará de ser bem conhecida pelo sistema bancário. Para um país sufocado por uma violenta contracção do crédito disponível como o nosso esta circunstância é inescapável. O mercado da obra nova dificilmente conhecerá uma retoma próxima dos níveis de produção que viveu no passado. A crise da construção é estrutural.

Conscientes desta realidade, torna-se claro que o caminho a seguir deve orientar-se para o domínio da reabilitação onde, mesmo nestes anos de crise, se tem vindo a assistir a um crescimento consolidado. Esta via é no entanto dificultada por um conjunto de factores que importa confrontar.

O prédio jurídico vigente foi produzido no ciclo desta bolha imobiliária. O quadro legal foi estabelecido para o paradigma da obra nova. Pior, em muitos casos, as suas normas e regulamentos reflectem exigências que perderam de vista os parâmetros mínimos racionalmente exigíveis para passarem a impor critérios técnicos de duvidosa racionalidade. Os custos deste desajustamento, entre as normas, a boa arte e a própria capacidade económica do país, são inaceitáveis. Por outro lado, também a fileira de agentes intermédios, instituições certificadoras e custos impostos pelo Estado continuam a operar nos mesmos termos do passado.

Todos estes factores são inimigos da recuperação do sector da construção e particularmente pesados sobre esse domínio ainda mais frágil que é a reabilitação do parque antigo. Se o regime excepcional entretanto criado ao abrigo do Decreto-Lei n.º 53/2014 constitui uma forma de ganhar tempo, ainda que de âmbito parcial, importa levar a cabo uma profunda reforma do quadro normativo da edificação que tenha por base esta alteração do paradigma da construção.

Este processo moroso e difícil tem de ser conduzido de forma pública, aberta e participada, convocando o melhor dos saberes nas áreas do urbanismo, arquitecturas, engenharias e demais áreas envolvidas. É um processo para o qual todos os agentes têm de contribuir de forma colaborativa, sem que cada um se procure sobrepor aos outros – algo que parece distante da cultura institucional que vigorou no passado, traduzida na acção do Estado contra agentes privados e, tantas vezes, do Estado contra o próprio Estado.

A tarefa é enorme e convoca a todos. Certo é que, nesta como em outras áreas, o país não pode pagar o preço de nada fazer.

O lastro


Image credits: Michael Kerbow.

«Os bancos são, por excelência, os símbolos do capitalismo. A sua invenção foi um verdadeiro Ovo de Colombo: as pessoas depositam as suas economias numa instituição que põe esse dinheiro a circular e à custa disso obtém lucros, podendo pagar um juro ao depositante.»

Assim se descrevia num editorial publicado num jornal semanal português o modelo de funcionamento da banca. Pouco importa, para efeitos de reflexão, personalizar aquele ponto de vista; ele sintetiza, na sua ingenuidade, o entendimento que a maioria dos cidadãos tem sobre o que os bancos são e aquilo que fazem.

Este entendimento devia motivar-nos uma interrogação simples: se não conhecemos o mundo em que vivemos como poderemos extrair as conclusões certas sobre aquilo que nos rodeia? Se o diagnóstico está errado como poderemos alguma vez reconhecer a doença?

Não deixa de surpreender que aquela visão cândida, talvez aplicável aos idos de mil oitocentos, corresponda ainda hoje à convicção generalizadamente aceite pelos cidadãos sobre o que é o sistema bancário. Num mundo onde a informação se tornou tão rápida e acessível muitos desconhecem que mais de 90% do dinheiro existente nas economias desenvolvidas foi criado através da emissão de crédito por parte de instituições financeiras privadas. Desconhecem, afinal, que com mais ou menos regulação central, os bancos criam dinheiro do nada, electronicamente, sobre a forma de crédito, em valor muitas vezes superior às suas obrigações de solvabilidade, sejam depósitos ou outros activos reais.

A maior parte dos cidadãos desconhece afinal o que é o dinheiro. Ignora como ele se cria e se introduz na economia. Ignora que a emissão de crédito corresponde à criação de dinheiro novo (e não ao “empréstimo” de dinheiro já existente) e que o crédito aumentou geometricamente nas últimas quatro décadas em resultado da sucessiva desregulamentação do sistema bancário, naquela que constituiu uma trágica concessão de soberania financeira das nações. E, no entanto, é com base nessas pré-concepções erradas que as pessoas, todos os dias, formulam opinião e tomam partido sobre assuntos tão diversos como o resgate de uma instituição financeira privada ou a reestruturação da dívida pública.


O exemplo inglês; imagem via Positive Money.

A constatação desta realidade não traduz uma interpretação ideologicamente orientada, de esquerda ou de direita, sobre a realidade. Trata-se, tão só, de reconhecer os mecanismos financeiros em que assenta a sociedade em que vivemos, a partir dos quais não poderemos deixar de nos interrogar sobre o alcance e os impactos que tais mecanismos tiveram nas mais variadas áreas da nossa vida. Interrogar, por exemplo, o que significa saber que cerca de um terço desse volume de endividamento está associado a crédito concedido no sector da construção. Que implicações urbanas e arquitectónicas serão resultado da tradução de instrumentos financeiros dirigidos à aquisição de imobiliário? De que forma transformou isto as nossas expectativas de vida relativas a tipologias de habitação, a comodidades, a concepções culturais e, por fim, as nossas próprias cidades?

Importa não esquecer que para muitos de nós este é o único mundo que alguma vez conhecemos. Uma parte importante da nossa cultura, do nosso saber, do nosso modo de vida, nasceu daquilo que parece estar a revelar-se um trágico processo de boom and bust; um sistema estruturalmente distorcido que favoreceu um agente específico da economia e que continua a gerar uma desigualdade sem paralelo na história das democracias.

À medida que vamos sendo confrontados com as limitações deste modelo de crescimento e os sinais de uma profunda e terrivelmente incerta transformação parecem configurar-se no horizonte, talvez devêssemos reconsiderar toda a fundação de noções, ideias e convicções que sustentaram a nossa visão do passado. Esta não deixará de ser, afinal, uma das grandes questões políticas do nosso tempo.

Ficam algumas ligações úteis para aqueles que queiram aprofundar o seu conhecimento sobre este tema: o documentário Four Horsemen (via Renegade Economist); o vídeo In Conversation With Ann Pettifor (mais aqui); o documentário 97% Owned, com a colaboração de Ben Dyson, promotor da campanha inglesa Positive Money; o vídeo Wealth Inequality in America.

À espera que o longo prazo nos caia em cima

Image credits: Matias Santa Maria.

Daqui a uma década teremos uma geração, agora na casa dos vinte anos de idade, a meio dos trinta e rapidamente a caminho dos quarenta, confrontando-se com o facto de que a vida lhe passou ao lado. Muitos destes portugueses nunca terão conhecido um emprego estável, transitando entre estágios pouco relevantes e contratos precários, remunerações baixas e uma perspectiva de futuro esvaída de qualquer previsibilidade.

Que cultura social será produto desta realidade? De que forma encarará esta geração conceitos como paternidade ou solidariedade inter-geracional? E em que ideologias e actores políticos se irá rever esta nova geração de portugueses? Como se transformará então o sistema político?

Este não é um problema do médio ou do longo prazo. Este possível futuro resultará de factores que estão já em efeito no nosso presente. Fragilização das regras laborais. Redução do rendimento do trabalho. Desemprego. Emigração. Baixa natalidade. Perante este quadro, esta conjugação perigosa de variáveis, dificilmente podemos ignorar que estamos perante um dos principais problemas que a nossa democracia alguma vez enfrentou.

No entanto o debate corrente sobre a situação portuguesa é trazido quase todos os dias para uma discussão pedestre, do curto prazo. Desprezando uma observação ampla dos problemas somos entretidos com o desfile selectivo de índices parcelares, variações homólogas, dados que permitem extrair todas as conclusões possíveis.

Pior ainda quando as teses de políticos e comentadores são apresentadas com formato aparentemente científico, como se de verdades indiscutíveis se tratassem. Disso exemplo é o discurso da inevitabilidade promovido por governantes e sustentado por alguns especialistas da área do jornalismo económico. Uma verdade é tão mais científica quanto mais vasto for o conjunto das variáveis consideradas. Quando essa verdade se formula a partir da observação selectiva de meia dúzia de variáveis mais não é do que uma refinada mentira, por mais académico-científica que seja a sua formulação retórica; sendo certo que a melhor mentira é aquela que contém o máximo de verdade possível nos argumentos que a sustentam.

Circunstância contraditória ao ouvirmos abordar temas de médio e longo prazo, como o debate recente sobre natalidade, como logo se levantam ideias políticas diametralmente opostas daquelas que nos têm sido impostas nos últimos anos como sendo inevitáveis. Em boa verdade o discurso da inevitabilidade não parece ter já outro alcance que não o desejo de manter a opinião pública num patamar pedestre de pensamento, junto ao chão, sem vislumbre do horizonte. Não se trata de ignorar a importância de questões tão sérias como o rigor na gestão das contas públicas e na aplicação dos dinheiros do Estado. Trata-se apenas de reconhecer que, perante a gravidade histórica que nos apresenta a prospectiva do futuro próximo, saber se vamos cumprir a meta do défice deste ano é o menor dos nossos problemas.

Dinamite cerebral



Four Horsemen, um documentário sobre a distorção do sistema financeiro contemporâneo e as suas ramificações sociais e políticas à escala global. Tão perturbador quanto obrigatório. Legendas disponíveis em português. Via Renegade Economist.

Retratos da crise

A observação é do Edgar Gonzalez. Uma selecção fotográfica do The Atlantic sobre a recessão em Espanha incluía um pequeno insólito – ver What the Recession Looks Like in Spain. Entre protestos de rua, grafitis com mensagens políticas, filas de desemprego e outros retratos da crise social destacava-se uma imagem da icónica Cidade das Artes e das Ciências de Valência, acompanhada do texto que se transcreve abaixo.



Uma vista da Cidade das Artes e das Ciências, do arquitecto Santiago Calatrava. Os custos do empreendimento escalaram de uma estimativa inicial de 625 milhões para 1280 milhões de euros, de acordo com a imprensa local. Considerada em tempos uma referência da nova grandeza económica de Espanha, a região mediterrânica de Valência tornou-se o símbolo de tudo o que está errado no país. Anos de despesismo, conjugados com os efeitos do colapso da bolha imobiliária e dos bancos locais, colocaram Valência à beira do resgate pelo governo central – que enfrenta os seus próprios problemas financeiros. A implosão do sector da construção trouxe a público a denúncia de casos de corrupção envolvendo políticos, promotores imobiliários e banqueiros, durante uma década de dinheiro facilmente acessível a baixas taxas de juro após a entrada de Espanha no euro em 1999.

A reportagem do The Atlantic é testemunho da dimensão política do trabalho editorial. A exposição de uma simples imagem convoca-nos para um facto perturbante: que a crise também pode ter uma face moderna – em linguagem política. Esse era também o tema de fundo de um dos mais populares documentários de Jordi Évole – Cuando Éramos Cultos – onde se faz o retrato exaustivo da bolha cultural de Espanha. Grandes projectos de arquitectura, notáveis no desenho e na dimensão, da autoria de alguns dos mais reputados arquitectos mundiais, revelam-se agora empreendimentos cronicamente deficitários. Cascos que se tornam pesadelos financeiros para as suas regiões e impedem o investimento efectivo em cultura – nos agentes locais, nas iniciativas e nos equipamentos que chegam de facto às pessoas. São, afinal, eucaliptos culturais que secam tudo à volta, dando razão às palavras do escritor e músico galego Antón Reixa: Cultura é gente fazendo cultura e gente usando cultura. Isto são tijolos.

Estaremos nós assim tão longe desta realidade? Com que belas fachadas se poderiam também compor os nossos retratos da crise?

Quando éramos ricos



O laxismo que conduziu a política expansionista de obras públicas não é um exclusivo português. O humorista espanhol Jordi Évole fez um retrato brutal da realidade de Espanha no seu programa Salvados, num extraordinário episódio intitulado Cuando éramos ricos.

O que se dá a conhecer é o cenário trágico de uma política justificada por motivos ideológicos, isentos de qualquer fundamentação técnica real, a reboque do lobbying de grupos da construção, da banca e de áreas sectoriais directamente envolvidas. Sem meias palavras, trata-se de um crime inter-geracional cometido por agentes políticos e económicos que fomentaram uma economia de superavits de curto prazo através de um endividamento massivo de longo prazo.

O exemplo de Espanha difere de Portugal apenas em escala. Em tudo o mais prosseguimos um modelo de desenvolvimento semelhante, repetidamente experimentado e comprovadamente ineficaz. Uma política movida por grupos de influência que se habituaram a viver do orçamento de Estado e cuja agenda comprometeu a sustentabilidade da restante economia, votando-nos a um doloroso processo de empobrecimento sem fim à vista.

O programa pode ser visto na página oficial do canal laSexta, aqui. Nota: o episódio completo passa depois de uma breve introdução inicial e de um pequeno intervalo de publicidade.

Arquitectura do défice (2) – É matemático

Anteriormente: Arquitectura do défice.

Portugal perde 382 milhões com fim do TGV. O título percorreu hoje diversos títulos da imprensa, pelo menos a julgar pelas suas edições online. Não é o tanto o tema que interessa agora aprofundar, tão só o simplismo daquelas palavras. Talvez o problema seja mesmo do jornalismo e a sua solução passasse por fazer da matemática uma disciplina obrigatória nos cursos de comunicação social. Os jornalistas – como os arquitectos e tantos outros – deviam estudar mais matemática.

Uma das patologias mais perversas do nosso sistema político e económico foi essa doença dos financiamentos. Ao nível da administração central, das regiões, das autarquias, os financiamentos foram a porta aberta para fazer obra sem medir consequências. E quando o endividamento já não parecia possível inventaram-se mecanismos legais para evadir dívida das contas do Estado através de parcerias público-privadas, entidades públicas empresariais e outros exemplos da grande imaginação dos nossos governantes.

Devíamos interrogar-nos sobre esses países que alimentaram, com os impostos dos seus cidadãos, os fundos comunitários que deveriam ter servido para dinamizar o nosso desenvolvimento e competitividade. Como conseguiram, nesses países que não receberam fundos da UE, reabilitar as suas cidades, construir as suas escolas, os seus hospitais, as suas estradas, os seus equipamentos e infra-estruturas. Aprenderam afinal a viver à medida das suas possibilidades fazendo o assessment rigoroso das necessidades e a gestão austera dos meios disponíveis.

O título de hoje seria fácil de desmontar com números. Quanto desembolsaria o Estado Português – em dinheiro que não tem, ou seja, em crédito (financiado por quem e a que preço?) – para acompanhar o investimento do TGV e assim receber uma cenoura de 382 milhões de euros. E qual o volume de gastos indirectos, ausentes das contas daquele investimento, em acessibilidades complementares tais como pontes, viadutos, vias rápidas… E valerá a pena rever os estudos realizados pelos gabinetes de consultadoria da última legislatura, em especial no que diz respeito às receitas estimadas? Se mais não fosse os jornalistas poderiam ao menos fazer perguntas.

Costuma dizer-se que se queres sair do buraco pára de escavar. Talvez a solução para o problema Português seja mesmo acabar com os financiamentos, tout court, e encarar finalmente um novo paradigma de planear, projectar e fazer. Diz que é assim lá fora.

Projectos estruturantes [1] – Introdução

Comecemos por um exemplo simples. Imagine o leitor que tinha decidido ser promotor privado de um equipamento destinado a utilização colectiva. Consideremos, para efeitos deste pequeno exercício, um ginásio – porque não?
Ainda que possa ter desde o início um sonho quanto à qualidade, ao ambiente, aos equipamentos e serviços do seu ginásio, esse não será o seu ponto de partida. O leitor, que é um gestor precavido, resolve considerar previamente o local – ou locais – onde julga ser possível instalar o seu estabelecimento. Quantas pessoas habitam nessa zona? Quais os extractos sociais dominantes, o poder de compra, os hábitos de vida e de consumo dos seus potenciais clientes? E qual a concorrência já implantada nas proximidades? Assim, em função do apuramento destes dados e da realidade que o rodeia, bem como da sua capacidade para reunir capital – próprio e, eventualmente, a crédito – você começa a definir ideias precisas quanto ao investimento, à dimensão do espaço e aos custos que pode vir a assumir.
Quantos utentes espero ter? Que equipamentos terei de comprar – e quanto custam? Quantos trabalhadores terei de contratar? E qual a área adequada para garantir a sua funcionalidade? E, também, que custos de exploração poderei suportar – em material de apoio, gastos de energia, limpeza e demais despesas mensais? E na manutenção futura do espaço e das máquinas? E em publicidade? E impostos? E por aí fora…

O leitor, que está agora a pensar como um verdadeiro gestor e sabe o que quer, vai então estabelecer diálogo com um projectista – desejavelmente um arquitecto – que vai desenvolver o seu programa, os seus objectivos, as suas necessidades quanto ao ginásio que pretende gerir. É você que decide os termos deste caderno de encargos preliminar; e é porque estabeleceu esses princípios que os projectistas poderão ir ao encontro do que você realmente pretende. Desejavelmente, um bom arquitecto deverá não apenas satisfazer soluções pré-estabelecidas que possa ter como apresentar-lhe alternativas, ser aditivo, estudar consigo as melhores possibilidades técnicas – que você talvez desconheça – e outras formas de organização espacial e funcional, porventura mais eficazes, que de todo não lhe haviam ocorrido. Através deste esforço colaborativo, você e o seu arquitecto estão agora em condições para obter o melhor projecto possível.

Imagine agora o leitor que, em vez de ser promotor de uma obra de exploração privada, é antes promotor de um empreendimento público: um equipamento desportivo, um espaço cultural, uma escola, um centro de saúde. Entenderá o leitor que, por se tratar de uma promoção estatal, está isento de aplicar o mesmo detalhe e igual rigor na definição dos princípios que vão determinar tal empreendimento?
Poderá dizer-se: mas estes equipamentos, ao contrário do exemplo anterior, têm por objectivo uma função de interesse público e não se motivam pela obtenção de rentabilidade, de lucro. É verdade. Mas neste pensamento está igualmente um erro de partida. É que todos esses equipamentos são igualmente pagos pelo cidadão. Podemos dizer que não são pagos directamente – no ingresso, na propina, na factura médica – mas também eles são pagos, a todo o momento e na íntegra, através dos impostos de todos os contribuintes.
Mais do que isto, importa perguntar se será lícito promover empreendimentos – mesmo nos casos em que a sua rentabilidade seja forçosamente deficitária – sem considerar seriamente todas as possibilidades de optimizar os seus custos, eliminar desperdícios e adequar a sua estrutura às necessidades reais que ele virá suprir. Pelo contrário, são exactamente esses empreendimentos públicos – aqueles cujo funcionamento dificilmente será capaz de obter ganhos capazes de cobrir as despesas de exploração – que mais devem ser estudados ao pormenor. Eles representam, afinal, um esforço financeiro acrescido para o futuro da sua vida útil. O contrário seria dizer, por absurdo, que o Estado poderia aumentar impostos cada vez que construísse uma escola ou um hospital.

Aquilo que vamos observando no modo como os agentes públicos têm promovido obra pública, tanto a nível central como local, tem sido a enorme falta de cultura de gestão e de sensibilidade quanto ao rigor que lhes seria exigido no planeamento da aplicação dos dinheiros públicos. E um dos problemas centrais reside exactamente no entendimento que fazemos, colectivamente, do Estado enquanto entidade abstracta. Em boa verdade, o Estado só existe porque colectivamente o pagamos – e porque esses dinheiros são fruto da produção e do trabalho de muitos, quem exerce funções públicas devia ter sobre si a responsabilidade singular de utilizá-los com enorme rigor e seriedade.
Voltarei ao tema para reflectir sobre exemplos concretos e sobre a necessidade de alterar toda uma cultura de más práticas de gestão que se instalou nas últimas décadas neste domínio e que, pese embora o enorme problema de liquidez que aflige hoje o Estado Português, parece persistir até ao limite do insustentável, com consequências dramáticas para o futuro de todos.

Things will get worse before they get worse

As coisas vão piorar antes de piorar.
Lembro-me de ler o artigo da Ann Pettifor, Debtonation: how globalization dies, no Open Democracy em 2007. Foi a primeira vez que vi alguém sugerir, como um facto consumado, que a economia global estava a chegar ao fim. Ainda que tenha levado os seus argumentos a sério, não fiquei tão preocupado assim para ler a sua exposição precedente de 2003 intitulada The coming first world debt crisis. É agora impossível ler esse texto sem um sentido de quase incredulidade – a calamidade económica do nosso tempo apresentada, em termos simples e cristalinos, cinco anos antes de acontecer.

Os últimos meses demonstraram que já nada é inimaginável. O Spiegel Online vai tão longe a ponto de se interrogar sobre a possibilidade da ocorrência de falências estatais na zona euro – ler Iceland on the Thames: Can countries really go bankrupt?
Apesar dos esforços da União Europeia para controlar os gastos de défice nos últimos anos, os orçamentos nacionais da maior parte dos estados membros encontram-se em condições pouco saudáveis. Com uma desmedida desaceleração económica em mãos, os governos estão a pôr de lado as suas agendas de consolidação orçamental para assegurar crédito acessível e manter as empresas a funcionar. E, no entanto, os números crescentes do desemprego são a revelação sombria das limitações do poder governamental. Projecções negras já se avançam para 2010 e os sinais de uma vasta crise social começam a emergir no horizonte.

Perante estes factos é difícil sentir algum tipo de entusiasmo perante o valor latente da crise como renovador cultural. A crise não é uma abstracção intelectual que vá transformar suavemente as mentalidades contemporâneas. Começa já a atingir as classes mais desfavorecidas e vai representar um passo atrás inevitável para as gerações mais novas que agora se abeiram do mercado de trabalho. Na próxima década vamos assistir a uma transformação sem precedentes das regras laborais. O paradigma da protecção será substituído pela incerteza e pelo medo. E as coisas podem mesmo vir a tornar-se violentas.
Não tenho sobre isto nenhum preconceito ideológico. As coisas são o que são. Podemos ter alguma satisfação por ver a cultura da não-crise a desfazer-se em chamas. E aquelas torres no Dubai já não parecem tão sedutoras assim. Mas o peso da História é uma coisa assustadora. E, para a maioria de nós, é algo que poderemos estar prestes a sentir pela primeira vez nas nossas vidas.

I remember reading Ann Pettifor’s article Debtonation: how globalization dies, on Open Democracy, back in 2007. It was the first time I heard someone suggesting, matter-of-factly, that the global economy was coming to an end. As much as I took her arguments seriously I wasn’t so worried as to even read her previous piece dated back to 2003, titled The coming first world debt crisis. It’s impossible to read it now without a sense of disbelief –the economic calamity of our times presented, in plain and simple terms, five years before it happened.

The past months have shown that nothing is unbelievable anymore. Spiegel Online now goes so far as to question the possibility of state bankruptcies in the euro zone – read Iceland on the Thames: Can countries really go bankrupt?
Despite European Union efforts to control deficit spending in recent years, the national budgets in most EU member states are in pitiable condition. With a major economic breakdown at hands, governments are now putting away their budget consolidation agendas to secure accessible credit and keep companies up and running. And still, the growing unemployment figures are a gloomy revelation of the limitations of government power. Dark projections are already looming for 2010 and the signs of a major social crisis are starting to emerge on the horizon.

With these facts at hand it’s hard to feel any sort of excitement for the latent value of the crisis as a cultural renovator. This crisis is not an intellectual abstraction that’s going to transform contemporary mentalities in silky fashion. It’s already starting to hit the low and middle classes and will represent an inevitable setback for younger generations now stepping up to the job market. In the next decade we will witness an unprecedented transformation of labor rules. The paradigm of protection will be replaced by a realm of uncertainty and fear. And it may get violent.
I’m not being ideological about it. It is what it is. We may feel thankful that the non-crisis culture is coming down in flames. And those towers in Dubai don’t feel so sexy anymore. But the weight of History is a daunting thing. And, for most of us, it’s something we may be about to experience for the first time in our lives.