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Arquitectura do défice (3) – O problema Parque Escolar

Anteriormente: Arquitectura do défice, Arquitectura do défice 2.

A Parque Escolar é um instrumento financeiro criado pelo anterior governo. Beneficiando da sua personalidade jurídica de tipo empresarial, distinta da das administrações públicas, o governo pôde promover um dispendioso programa de investimento na área da construção civil e contrair uma grande dívida financeira fora das malhas do Orçamento de Estado.

Assim, porque antes de 2011 os critérios do Eurostat não contabilizavam as dívidas destas entidades empresariais, o volume de endividamento contraído pela Parque Escolar não figurava nem no défice orçamental nem na dívida pública. Mas as suas dívidas, que poderão ascender a valores próximos dos três mil milhões de Euros, são bem reais e terão de ser pagas pelos cidadãos. Como?

É simples. Para além de estar encarregue pela promoção das obras, a Parque Escolar fica igualmente responsável pela gestão das escolas intervencionadas. Na prática, a P.E. fica “dona” das escolas e as entidades escolares passam a pagar uma renda à Parque Escolar. Em 2011 o valor pago pelas escolas à Parque Escolar foi de 50 milhões de Euros, segundo dados da comunicação social.
Estas “rendas” são, em boa verdade, as prestações da dívida contraída pela Parque Escolar, que passam assim a ser pagas enviesadamente pelo Estado através do orçamento do Ministério da Educação.

Para lá de tudo isto, a Parque Escolar foi um exemplo de más práticas de gestão e corre o risco de se tornar num case-study de insustentabilidade energética e orçamental (ver programa Biosfera: Parque Escolar parte 1 e parte 2). Seria interessante saber quanto custou, por aluno, cada uma das escolas construídas ou intervencionadas ao abrigo deste programa. Mas acima de tudo seria desejável que se tirassem conclusões sobre o que se andou a fazer com o dinheiro público nos últimos anos e se começasse a pensar em como vamos gerir este monstro financeiro que entretanto andámos a edificar. Afinal, enquanto a cultura de gestão não mudar, será apenas uma questão de tempo para que um dia voltemos a fazer mais do mesmo.

* * *

Adenda: A missão que está atribuída à Parque Escolar – reabilitar e modernizar os edifícios escolares – não carece da existência de uma qualquer entidade pública empresarial. Trata-se de um trabalho que poderia ser dirigido por uma equipa integrada num ministério com competência em obras públicas, desde que para isso estivesse dotado dos devidos meios técnicos e humanos. E isto é tão verdade que a própria P.E. não faz mais do que ser uma entidade adjudicatária, entregando a empresas externas não apenas o projecto e a construção das obras mas também a sua fiscalização.
O que uma entidade integrada no Estado nunca poderia fazer era criar uma dívida da ordem dos milhares de milhões de Euros e isso não figurar nas contas do défice e da dívida pública. Hoje sabemos bem quem andava o país a enganar com isto, por onde andam os responsáveis por estas políticas e quem está a pagar a factura. Enquanto em Portugal for possível gerir o dinheiro público desta forma e disso não decorrerem responsabilidades de âmbito criminal nunca seremos um país à altura de se considerar Europeu. E de pouco valerá fazer queixas sobre a “senhora Merkl”.

E na Alemanha também não se fazem escolas desta maneira.

Máquina de embutir

No excelente Coffee With An Architect Jody Brown pergunta-se porque blogamos. Sim, o que andamos nós afinal a fazer por aqui?
Ainda bem que não sou o único a deitar-me no divã da interwebz. Pertenço a uma geração de bloggers – aqueles que começaram entre 2000 e 2005 – que entrou para a rede com algum entusiasmo, antes de se pressentir que íamos ficar todos famosos. Aí veio a enxurrada e muitos de nós, com o passar dos anos, desiludiram-se com a opacidade que tomou conta da blogosfera. Os outros continuaram por teimosia, porque já não sabemos viver sem isto, porque somos, de facto, bloggers.

Muitas vezes me questionei porque não existe uma blogosfera portuguesa de arquitectura. Ocorre-me, entre vários motivos, um. Porque todos os arquitectos que entrarem na rede com a expectativa de encontrar aqui um palanque para o mundo estão condenados a desistir. Porque só sabemos escrever para nós próprios.
Porque saímos das nossas academias de matriz sul europeia intoxicados por um arquitectês insuportável. É a primeira coisa que se aprende na Escola. Uma layer de pomposidade retórica mofada, que alimenta e se auto alimenta do pequeno mundo da especialidade. O acknowledgment é meio caminho andado para o sucesso. E aí vamos nós, felizes por falar e escrever à arquitecto, vida fora.
Não se trata de defender o abandono da erudição do discurso da arquitectura. Apenas notar que a pomposidade dos termos e dos modos não adiciona valor ao que sabemos e dizemos.

Talvez seja só um preconceito. Como escreve o Jody Brown, talvez a maioria de nós não encaixe no molde, na imagem do arquitecto pompous ass. Mas temo que ler demasiados blogues estrangeiros – nota-se no meu inglesing a mais, eu sei – possa fazer-nos esquecer que não habitamos a matriz de pensamento das línguas saxónicas. Já dei de caras com muitos arquitectos melindrosos para perceber que o retrato do asno pomposo pode estar mais próximo da nossa realidade do que seria desejável. Que as nossas academias se continuam a comportar como máquinas de embutir, programadas para produzir novos clones falantes.
Certo é que o melindre é um luxo que só os financeiramente independentes podem suportar. Há por aí uma geração inteira a aprender isso. Muito depressa…

Entretanto na Internet

Levanto o olhar do meu estado blogocatatónico e dou por mim nomeado como potencial blogue de arquitectura do ano 2011! Parece que não sou o único a perplexificar com estes fenómenos mas o caso torna-se mais grave quando me vejo à beira de ser vencedor da coisa! Kapow!

O que dizer?! A primeira conclusão, num ano em que escrevi pouco e quase nada de arquitectura, é que a concorrência é mesmo má, ò senhores… Segunda hipótese, mais simpática, é que talvez andem por aí trezentos leitores a comunicarem-me sub-repticiamente o quanto gostariam que eu voltasse a escrever sobre… arquitectura.
Vocês…

Estas coisas dão trabalho e não tenho dúvidas quanto às boas intenções do Aventar. Vale no entanto a pena fazer a pergunta: para que serve hoje um concurso de blogs? A blogosfera não é um concurso de misses e a suposta democracia das votações degenera rapidamente numa prova de popularidade. A categoria de arquitectura é um bom exemplo. Para lá de umas esfregas no ego isto interessa a quem? Quem era afinal o melhor blogue de 2010 ou 2009… Ãn?... Pois, é exactamente isso!

Os leitores votam no que lhes é mais próximo ou mais reconhecível. No meu caso tenho o retorno de um tempo em que este blogue tinha mil leitores por dia e mordia os calcanhares do top 50 do blogómetro nacional, escrevendo regularmente sobre, pasme-se, arquitectura e urbanismo. Ao meu fã número 1 da internet digo apenas: não tenho de pedir desculpa por isto, pois não?

Bem mais interessante do que ver os nomeados ou quem vai ganhar é observar a paisagem da blogosfera que aquelas listagens nos revelam. Encontramos por ali alguns blogues individualmente bons mas temos também a evidência de uma ausência de “rede”. Pondo de parte o espaço da actualidade política onde a reciprocidade raras vezes é salubre aqueles círculos comunicam pouco ou nada entre si. A pouco e pouco os entusiastas da blogosfera perderam a motivação ou fecharam-se dentro dos seus hubs, escondidos do mundo lá fora. E já não querem saber do sitemeter

Talvez a blogosfera esteja mesmo em perda como vaticina o jornalismo a sério. Mas o blogging não se mudou para as redes sociais. O Face, dizem, é bom para o engate. O IRC dos totós: age, sex, location? Mas no Facebook e no Google+ não resta uma pequena amostra do que era o blogging desinteressado feito por cromos motivados por coisas tão simples como: gosto disto e quero que o resto do mundo goste também!

Melhor do que fazer o concurso do que todos gostam seria devolver um pouco desse entusiasmo à blogosfera, hoje tomada de assalto por um milhão de cínicos que nunca hão-de construir um lugar onde alguém deseje estar. Talvez por isso goste de passar algum do meu tempo na blogosfera alternativa onde cromos que gostam de coisas parvas se encontram com outros cromos e fazem uma grande festa. Não, não me vou embora ainda…

Porque ele está lá

Homens procuram-se para viagem perigosa. Baixos salários, frio intenso, longos meses de completa escuridão, perigo constante, regresso seguro incerto. Honra e reconhecimento em caso de sucesso.
Reza a lenda que seriam estas as palavras do anúncio mandado publicar por Ernest Shackleton solicitando voluntários para a Expedição Trans-Antártica de 1914. Não era um prospecto animador e, no entanto, 27 homens assinaram a petição.

O centenário da chegada de Roald Amundsen ao Pólo Sul, em 14 de Dezembro de 1911, assinala mais do que a aventura de um só homem. É também a celebração do espírito dos grandes aventureiros do século XIX e do século XX. O que motivava estes homens a embarcar em perigosas viagens, rumo a lugares nunca antes mapeados? O que compele os aventureiros? A resposta é difícil. A aventura é, afinal, o que resta quando a causa e a razão não contam.
Talvez mais do que qualquer outro tenha definido o seu significado o inglês George Mallory que morreu no Evereste em Junho de 1924. Interrogado sobre a necessidade de subir o monte mais alto do planeta respondeu: Porque ele está lá.

Se olharmos para o mundo de há cem anos veremos que quase tudo o que havia para descobrir já tinha sido descoberto. Os grandes desafios por atingir eram os Pólos e o cume dos Himalaias. O seu valor geológico ou estratégico era praticamente irrelevante. E, no entanto, inspiraram as maiores aventuras. Peary, Amundsen, Hillary e Norgay compreenderam o seu verdadeiro significado e tornaram-se ícones da maior magnitude. Porque foram e voltaram, nada mais. E porquê? Porque estava lá.

Não-crise

As técnicas de venda porta a porta tornam reconhecíveis os mecanismos da tomada de decisão. O que induz alguém a comprar, por exemplo, um robot de cozinha hiper inflacionado está longe de ser o resultado de um processo de pensamento racional. Em boa verdade não é uma análise ponderada das necessidades, custos e benefícios que está em causa. A faísca da decisão é, afinal, bem mais prosaica. Algures entre o delicioso refresco de fruta, um sorbet instantâneo e o bacalhau à brás para totós o cérebro baixa a guarda e os mais incautos tornam-se felizes proprietários de um equipamento adquirido em suaves prestações mensais que nunca mais acabam.

Mas o que nos devia verdadeiramente inquietar, para lá do risco de enchermos as nossas casas com uma vasta parafernália de maquinaria inútil, é saber até que ponto a construção das opiniões que temos acerca do mundo que nos rodeia não se baseia em mecanismos de pensamento semelhantes.

Se atentarmos na profusão de espaços de opinião e comentário, na televisão, nos jornais e nos blogues, apercebemo-nos que o opinion-making nada tem de científico. Ser fazedor de opinião não depende da elaboração lógica de uma argumentação sustentada em factos mensuráveis, salvaguardando a liberdade para sobre eles todos podermos elaborar uma análise qualitativa, subjectiva e pessoal.

Sejamos claros: qualquer indivíduo com um Q.I. minimamente capaz pode desenvolver duas argumentações opostas sobre um mesmo tema. Tomemos como exemplo a crise que estamos a viver e a cisão de opiniões que encontramos, à esquerda e à direita. O que está em causa? O que nos divide? Divide-nos o que escolhemos ver a cada momento: o laxismo dos governos que navegaram a economia do crédito e ignoraram (ou ocultaram) o endividamento crescente dos seus estados; a falsa economia privada sustentada pelo dinheiro público; o jogo viciado da especulação dos mercados em torno das dívidas soberanas dos países do Euro; a fragilidade concorrencial das nações desenvolvidas na economia aberta e desigual da globalização; ou seja ainda a corrosão interna dos estados sociais por via de toda a espécie de abusos dos seus próprios cidadãos.

Doutrinas opostas podem assim suportar-se em factores verdadeiros, bastando para isso a manipulação dos dados que escolhemos relevar no curto espaço de attention span disponível nos media. Observamo-lo todos os dias e o que vemos é, tão só, a mesma receita, o mesmo business as usual de todos aqueles que ainda não perceberam que o mundo mudou e que nada ficará como dantes.

Vivemos ainda, social e politicamente, ensopados na cultura da não-crise dos vendedores de Bimbys. Pese embora a sombra da crise eterna faça parte do código genético dos países ocidentais, a economia assente em crédito das últimas décadas produziu uma sociedade incapaz de se confrontar consigo própria e com todas as suas contradições. E por isso sobrevive o wishful thinking, o desejo que tudo passe, o vislumbre de uma saída fácil, sem dor. Ninguém quer afinal comer a colheita amarga dos erros que andámos longos anos a semear.

Do dia mais curto aos dias mais frios distam vários meses, tal a força do atrito da Terra. E assim a não-crise resiste ainda, pois que se vivemos hoje os dias mais curtos da nossa democracia, os dias mais frios não chegaram ainda.

Google+ …It’s like a circle

Não se sabe ao certo quantas pessoas usam o Google Reader mas o que consta é que o número de utilizadores activos anda na ordem das dezenas de milhões. O mais popular leitor de feeds do mundo deu origem a uma das comunidades silenciosas mais dedicadas e fiéis da rede. O motivo é simples: o Reader é o modo mais fácil e rápido de ler e partilhar posts, permitindo separar aquilo que é interessante da corrente de irrelevâncias que circulam na internet todos os dias.

Infelizmente, na guerra entre a plataforma social Google+ e o Facebook, os utilizadores do Reader tornaram-se as primeiras vítimas. A propósito da sua integração no G+, o Reader sofreu um upgrade visual mas perdeu uma das suas funções mais interessantes: a partilha. A partir de agora, partilhar posts passa a ser feito no stream do G+, um pouco à imagem do que acontece no Facebook. Como é que isto me afecta? De várias formas…

Em primeiro lugar significa o fim da minha página de itens partilhados, acessível logo na barra de topo do blogue, porque a partir de hoje é impossível adicionar novos shares. Deixo assim de poder seguir as listas de partilha das pessoas que me interessam – e elas deixam de poder seguir a minha lista. Por fim torna nulo o bloco de itens partilhados actualizado automaticamente que aparece no início da barra lateral do blogue (Shared / Referências).

A navegação no Reader torna-se agora uma experiência opaca, obrigando os utilizadores a partilhar no G+; é o que o Google quer afinal. E o que há de errado com isto? É simples. Se começamos todos a utilizar o stream do G+ para partilhar ligações aquilo tornar-se-á muito rapidamente numa torrente de spam. A listagem de shares do Reader tinha a vantagem de ser seguida de forma voluntária por quem a quisesse seguir. Mas o G+ obriga a escolher os círculos de partilha – ou seja, acarreta mais trabalho para o utilizador. Ou então resta partilhar sempre como Public e correr o risco de aborrecermos toda a gente com as nossas ligações favoritas, sejam grandes obras de arquitectura ou gatos fofinhos.

A integração do Reader no Google+ foi, afinal, uma desintegração. Grande parte do interesse do Reader era a facilidade de partilhar e a possibilidade de seguir as partilhas de quem quiséssemos – pessoas de interesse numa determinada área profissional, por exemplo. E o melhor desse sistema era tratar-se de uma comunidade voluntária de pessoas que decidiram subscrever o teu sharing feed, e vice-versa.
Agora passaremos a partilhar em círculos, ou seja, seremos levados a bombardear os outros com shares o que tornará o G+ num novo Facebook. E o problema do FB é esse mesmo, não haver subscrição e recebermos os shares de toda a gente que encontrámos na rede.

Contrariamente à paisagem aberta do Reader passaremos a transitar no espaço fechado do G+, mais um desses mundos de fronteiras que se está a erguer na rede. E, afinal, é disso mesmo que se trata. Estamos a assistir ao fim de uma era de internet aberta. Dentro de pouco tempo estaremos todos fechados em círculos. It’s like a circle…

Arquitectura do défice (2) – É matemático

Anteriormente: Arquitectura do défice.

Portugal perde 382 milhões com fim do TGV. O título percorreu hoje diversos títulos da imprensa, pelo menos a julgar pelas suas edições online. Não é o tanto o tema que interessa agora aprofundar, tão só o simplismo daquelas palavras. Talvez o problema seja mesmo do jornalismo e a sua solução passasse por fazer da matemática uma disciplina obrigatória nos cursos de comunicação social. Os jornalistas – como os arquitectos e tantos outros – deviam estudar mais matemática.

Uma das patologias mais perversas do nosso sistema político e económico foi essa doença dos financiamentos. Ao nível da administração central, das regiões, das autarquias, os financiamentos foram a porta aberta para fazer obra sem medir consequências. E quando o endividamento já não parecia possível inventaram-se mecanismos legais para evadir dívida das contas do Estado através de parcerias público-privadas, entidades públicas empresariais e outros exemplos da grande imaginação dos nossos governantes.

Devíamos interrogar-nos sobre esses países que alimentaram, com os impostos dos seus cidadãos, os fundos comunitários que deveriam ter servido para dinamizar o nosso desenvolvimento e competitividade. Como conseguiram, nesses países que não receberam fundos da UE, reabilitar as suas cidades, construir as suas escolas, os seus hospitais, as suas estradas, os seus equipamentos e infra-estruturas. Aprenderam afinal a viver à medida das suas possibilidades fazendo o assessment rigoroso das necessidades e a gestão austera dos meios disponíveis.

O título de hoje seria fácil de desmontar com números. Quanto desembolsaria o Estado Português – em dinheiro que não tem, ou seja, em crédito (financiado por quem e a que preço?) – para acompanhar o investimento do TGV e assim receber uma cenoura de 382 milhões de euros. E qual o volume de gastos indirectos, ausentes das contas daquele investimento, em acessibilidades complementares tais como pontes, viadutos, vias rápidas… E valerá a pena rever os estudos realizados pelos gabinetes de consultadoria da última legislatura, em especial no que diz respeito às receitas estimadas? Se mais não fosse os jornalistas poderiam ao menos fazer perguntas.

Costuma dizer-se que se queres sair do buraco pára de escavar. Talvez a solução para o problema Português seja mesmo acabar com os financiamentos, tout court, e encarar finalmente um novo paradigma de planear, projectar e fazer. Diz que é assim lá fora.

Londres XXI

Escrever não é apenas pensar. É construir uma realidade. As referências que escolhemos fabricam um ponto de vista. A linguagem nunca é neutral, como não o são os factos que invocamos, as imagens, os vídeos. O que vemos no assalto ao jovem agredido Asyraf Haziq, por exemplo? Um instantâneo da realidade ou algo mais? E dissertando sobre isso, falamos da verdade dos factos ou do simbolismo de tudo o que podemos ver para lá das imagens?

O que nos separa dos eventos de Londres da semana que passou? O primeiro obstáculo é mesmo uma questão de distância. É demasiado fácil discorrer sobre aquela violência, seja para exigir repressão implacável ou para desmultiplicar a complexidade das causas. E é fácil porque, de uma forma ou de outra, estamos todos sentados nas nossas torres de marfim, em condomínios fechados ou num apartamento dos subúrbios. Se aqueles selvagens estivessem no nosso bairro a pilhar e a destruir seríamos os primeiros a clamar pelo exército nas ruas já. E no entanto, depois da tempestade, o que fazer? Dispomo-nos a pensar sobre o que aconteceu ou, como escreve o Russell Brand, varremos aquela juventude perdida por entre os destroços do motim?

Escutemos o debate acalorado entre alguns jovens londrinos em plena rua – ver aqui. Podemos perceber que o instantâneo não será tão espontâneo assim; afinal não sabemos ao certo quem são aqueles jovens, quem é actor convidado e quem é intruso na peça. Mas a discussão é rica e resvala rapidamente para fora de um qualquer guião. A dada altura um daqueles rapazes diz sobre os looters: estes são os filhos das mães adolescentes.

É uma daquelas frases que faz soar campainhas. Sim, é um belo pedaço de retórica e carrega consigo uma boa dose de generalização romântica. Mas há ali qualquer coisa de verdade, não é assim?
Sabemos que os jovens encapuçados – e os adultos – das noites da última semana não são todos filhos de mães adolescentes. E sabemos que aqueles grupos não são representativos de uma comunidade e muito menos de toda uma geração. Mas se aquelas imagens nos perturbam é porque encontramos ali algo que nos é reconhecível. Afinal, ali testemunhamos o que pode significar o fim da linha de uma sociedade.

Não posso deixar de pensar que o que está ali em causa é, em parte, o momento em que a família – seja qual for a cor, o tamanho, o feitio – deixou, de alguma forma, de existir. Não se trata de afirmar que a culpa é dos pais. Sim, a culpa também é dos pais, seja pela carência, pela indiferença ou pela inaptidão total. Mas não podemos deixar de questionar o plano mais vasto em que tudo isto existe. De interrogar o papel a que a nossa sociedade vem votando o espaço da família. E aqui temos de ir mais fundo, à estrutura social que a dimensão económica e política da nossa realidade está a construir. À ética empresarial, por exemplo, porque no mundo em que vivemos se subjuga a família ao sucesso profissional. Ou, no caso mais extremo, à mera sobrevivência financeira.

Quando a destruição chega às ruas não há lugar para mais do que a repressão. Mas o problema de fundo, para lá do plano da criminalidade que também existe, não é apenas um caso de polícia. E ao pensar nisto já não estamos só a pensar em Londres, Manchester, Liverpool, Birmingham. Ou em Paris. Mas em Europa.

Talvez o futuro de tudo isto, e de todos nós, se balance num fio tão instável como o dos mercados da última semana. Na ausência de afirmação de uma Europa forte em torno de um desígnio económico conjunto para o desenvolvimento, estes podem ser problemas que ficarão por responder no contra-ciclo do empobrecimento das nações. Restará assim a única saída fácil, viável, que é a da repressão. E assistiremos ao definhar de um sonho, talvez mais romântico ainda, de uma sociedade de direitos e liberdades, para vermos ascender uma nova sociedade de desesperança e conflito.

A história do Século XXI ainda não está escrita. Esperemos que os motins de Londres não sejam, dessa história, as primeiras palavras.

Não me obriguem a vir para a rua (limpar)







Por entre os estragos ergue-se uma comunidade. E talvez a primeira pergunta a fazer seja essa: que tipo de pessoa és tu? És dos que vestem camisola com gorro para beber, roubar e destruir? Ou és dos que vêm para a rua de vassoura na mão para limpar e refazer?

A questão não é assim tão simples porque se lhe seguem os porquês. Bem faremos assim em ver, escutar e pensar antes de emitir posts e tweets e likes. Nem sociologia de meia-tigela nem tanques na rua, se faz favor. Acima de tudo afastemo-nos daqueles que se deliciam a fantasiar narrativas em torno dos factos, à esquerda e à direita, à medida do estreito túnel ideológico de onde vislumbram, pouco, o mundo lá fora.

Arrefecidos os escombros talvez se possa pensar com mais serenidade no que aconteceu. Em primeiro lugar importa manter a lucidez para lá do imediatismo fatalista que nos quer fazer crer a todos que a Inglaterra já está a arder. Como se os motins urbanos fossem coisa nova neste mundo. E como se o que ali se passou carregasse um sentido para lá da subcultura da violência, da destruição como entretenimento, da amoralidade e do vazio.

Talvez se tenham cruzado pelas ruas de Londres, no entanto, alguns factores novos. Na era da televisão 24 horas por dia, do vídeo instantâneo na internet e da rede social, a velocidade é o combustível do contágio, da disseminação. E teremos também um terreno de sociologia urbana – sem conotações ideológicas – que só alguma ingenuidade (se não má vontade) pode descurar quanto a fenómenos de criminalidade organizada que vem de longe e que encontra no meio juvenil um veículo para a retaliação sobre a ordem estabelecida.

Podemos embarcar no jogo das culpas: é dos políticos, é do capitalismo, é da sociedade de consumo, do desemprego, dos pais, dos professores, do futebol, da televisão ou dos jogos de computador. E talvez possamos, ponto a ponto, encontrar motivos legítimos para reflexão. Talvez tenha faltado liderança política ou, de forma mais vasta, esteja a falhar a sociedade enquanto lugar de instituição e transmissão de valores. Ou talvez esteja em causa o empobrecimento do espaço da família, seja por carência de dinheiro, de tempo, de afecto, seja pela obesidade do consumo e de múltiplas expressões de futilidade. Ou talvez ainda tudo isso e mais ainda; e valerá a pena pensar em todas as razões e questionar que tipo de pessoas está a nossa sociedade a construir e porquê.

Mas se queremos ler narrativa ideológica e movimento social sobre os insubordinados, talvez devêssemos interpretar igualmente a expressão social destes outros cidadãos que se ergueram para repor a ordem nas suas comunidades e limpar as suas ruas. Porque estes também são povo, como o são os proprietários e os trabalhadores das lojas destruídas e os que residem nas casas incendiadas.
* * *

E porque a questão é complexa e vale a pena ouvir vozes diferentes, ficam algumas ligações de interesse: [1] Panic on the streets of London; [2] Most of the kids are alright; [3] UK RIOTS DEBATE IN CLAPHAM - FLIP LIFE TV - 2011; [4] London Riots: Clapham Junction Speaker; [5] UK rioters / looters try to justify actions; [6] Big Brother isn’t watching you.

Entretanto, na Internet



Esta infografia sobre o Facebook circulou recentemente pela internet. Entre os muitos dados que ali se apresentam está o retrato de uma plataforma online em crescimento exponencial com 500 milhões de utilizadores activos, cerca de uma em cada treze pessoas do planeta.

Alguns dados curiosos a reter: metade dos utilizadores com idades compreendidas entre os 18 e os 34 anos consulta o Facebook quando acorda e 28 % acede a esta rede social a partir do seu telemóvel antes de se deitar. Mas talvez a informação mais surpreendente seja aquela que se destaca na imagem acima: metade dos jovens americanos consultados afirmaram ter acesso às notícias a partir do Facebook.
São dados estatísticos que passaram pela rede como mera curiosidade, fenómeno recorrente num meio dominado pela sobrecarga de informação. E, no entanto, o que está em causa é uma alteração de um paradigma de comportamento no relacionamento do público com o meio jornalístico que vai muito para lá da discussão sobre os suportes físicos, da migração do formato papel para os meios digitais.

Mais importante do que reflectir sobre a adaptabilidade dos meios jornalísticos convencionais a novos interfaces tecnológicos será questionar alterações da lógica comportamental na pesquisa de informação. Perante isto importa pouco discutir a reconversão gráfica dos jornais ao monitor dos tablets e dos e-books, como se esse fosse o real desafio presente aos media informativos. Porque o crescimento desta tendência, indiscutível e talvez inevitável, representa uma real ameaça ao estatuto do jornalismo de base editorial. No Facebook o utilizador constrói, a partir da sua rede de conexões, o seu próprio algoritmo de selecção noticiosa, custom-made, aleatório, muito mais permeável a lógicas de popularidade e de tabloidismo do que ao escrutínio daquilo que é relevante ou importante.

Que espaço restará então para o enquadramento da complexidade dos factos, submersos na torrente de links e de likes, quando a notícia for substituída pelo vídeo bombástico e o pensamento submergir ao ruído irreflectido da rede?

JA#240 SER INDEPENDENTE



Este texto foi publicado no Jornal Arquitectos #240.

A CHUVA QUE TARDA EM CHEGAR

[1]

Com que sentido enunciamos palavras como independência, liberdade ou outros ideais tão queridos da geração pós-Maio de ’68, neste Portugal contemporâneo? Reconhecemo-los enquanto valores matriciais da nossa experiência democrática? Ou antes como meras expressões para preencher, à boca cheia, o vazio de retórica?
Portugal, hoje detentor de um estado massivo e uma desconfiança generalizada para com a actividade individual, apresenta-se no contexto europeu como um dos países mais adversos ao investimento e à criação de emprego, incapaz de conter o crescimento do endividamento público e privado.

Como pode uma nova geração, herdeira destes e de tantos outros problemas, sonhar com esses valores com que outros se arrogaram construir uma existência. Como podem os próximos portugueses ousar a independência, saindo de um sistema educativo arcaico, completamente alheado das necessidades da vida privada.
Serão as nossas faculdades de arquitectura lugares generosos, empenhados em investir os seus alunos com o conhecimento, a humildade e a consciência que conduzam o futuro das suas vidas? Em boa verdade, vejo muitos desses jovens dotados de um certeiro domínio da linguagem da profissão, dirimindo a retórica dos volumes, paramentos, embasamentos, como se de movimentos de esgrima se tratassem, para com eles exprimir banalidades. A linguagem é o último reduto da falência universitária pós-massificação, espécie de testemunho ritual identitário em que todos, e em particular a crítica, se parecem enquistar.

Também eles correm o risco de submergir na espessa nuvem de estado e corporativismo que asfixia a democracia em Portugal, hoje um dos países mais desiguais da Europa. A visibilidade e o sucesso persistirá para aqueles que, tal como hoje, se consigam estabelecer nos fios condutores dos laços familiares, das instituições académicas, das estruturas políticas, das ordens profissionais. Portugal arrisca-se, por fim, a ter como maior exportação o seu próprio povo, fugindo em busca de emprego e da promessa de uma vida impossível de construir aqui mesmo. Em busca, talvez, de um sonho chamado independência.

[2]

Numa das suas belas palestras sobre educação Ken Robinson fala do seu fascínio pelo Vale da Morte. Naquela extensão árida do Deserto do Mojave, na fronteira entre a Califórnia e o Nevada, quase nunca chove e nada, absolutamente nada, cresce. O milagre aconteceu na improvável Primavera de 2005, quando a chuva abençoou o vale fazendo brotar uma vastidão infinita de flores de muitas cores estendendo-se até ao horizonte. O fenómeno atraiu milhares de pessoas que quiseram testemunhar o aparecimento de vida num dos territórios mais inóspitos do planeta. O Vale da Morte, afinal, nunca estivera morto, antes adormecido à espera de condições que fizessem nascer as sementes cravadas nas profundezas da terra, onde o calor mortal não chega.

A “aura” do crítico: arquitectura não é monocultura



O Jornal Arquitectos #239, com tema de capa Ser Crítico, está finalmente disponível na versão online. Ali encontramos um conjunto de ensaios sobre a degradação do exercício da crítica no enquadramento contemporâneo da cultura e da comunicação global, da paisagem telemática, das redes sociais, do real-time e também, em particular, dos blogues.

Manuel Graça Dias lança o debate no seu editorial. Mais do que as questões que coloca – qual é o lugar do gosto?; o que é um «objecto crítico?; porque são acríticas as palavras da “moda”? – é a primeira frase do seu texto que melhor nos poderia servir de motivo de reflexão:

Criticar arquitectura: entender o fazer dos outros e orientar-se por aí; relatar as dificuldades sentidas, a quantidade de desacerto ou, pelo contrário, as sobreposições perfeitas.

Entender o fazer dos outros. O ponto de partida é generoso. Presume uma partilha intrínseca, um esforço em esbater a distância entre o crítico e o criador. A procura pelo entendimento, por uma forma de clarividência, mesmo perante o erro, perante a fragilidade da experiência humana na circunstância da sua história. Infelizmente, cedo se perde a referência aos princípios que ali se pareciam ensaiar. Graça Dias prossegue a sua exposição com uma visão sobre o papel do arquitecto:

Um arquitecto só deveria estar interessado em arquitectura! E a arquitectura será a arte de construir (bem) espaços confortáveis para albergar o homem e as suas necessidades, discreta ou directamente comprometendo a cidade, pondo em causa os valores mainstream, avançando alterações, maneiras novas, mas, sobretudo, adequando poeticamente o espaço a essa herança maior, a essa prova final que seria a sua autonomia funcional. O espaço ficar preparado (através da misteriosa proporção, da articulação inteligente da luz e das sombras, das situações escondidas), ficar preparado para ser muita coisa, servir muita coisa; continuar, depois de nós, garantindo sempre que ali nos sintamos bem.

As grandes frases têm o problema de reduzir o pensamento ao seu fundamento. Um arquitecto só deveria estar interessado em arquitectura! – eis o que não deixa de transparecer uma visão fundamentalista, em jeito de sermão paternal, neste caso sobre o que deveria interessar aos arquitectos. Como quase sempre, aquilo que escrevemos diz mais sobre nós próprios do que sobre os outros, do que sobre o mundo. A esta ideia poderíamos contrapor uma outra, em tempos avançada por Mark Wigley, considerando o arquitecto como um profissional da complexidade, um perito não em oferecer respostas mas em encontrar novas formas de olhar para as perguntas, para as interrogações do seu tempo.
O arquitecto será sempre uma figura de crise por esse mesmo motivo. Porque no seu trabalho se cruza uma complexidade infindável de planos de convergência, porque arquitectura é desenho, é cálculo, é jurídico, história, cultura, ambiente, mobilidade, é vida pública, é vida privada. É cidade e sociedade.
Um arquitecto deve estar interessado em tudo, na certeza de estar condenado a viver mergulhado no erro num mundo de crescente incerteza. A beleza da arquitectura está nisso mesmo, em não haver método ou fórmula, não existir certo ou errado, é sempre processo, estratégia, relação, evolução. A arquitectura não é monocultura.

Noutro texto desta edição do JA encontramos uma reflexão sobre o problema colocado pelos blogues ao panorama da crítica de arquitectura. Jorge Figueira intitula o seu ensaio com o título HOUSTON WE HAVE A PROBLEM: O fim da crítica de arquitectura. Uma vez mais estamos perante um texto que nos revela mais acerca do pensamento do seu autor do que da realidade que pretende descodificar.

Um dos problemas recorrentes no modo como os críticos parecem abordar o fenómeno dos blogues transparece na ausência de definição para o que se entende por este novo suporte de comunicação – ver Da blogosfera para a atmosfera. Jorge Figueira apresenta-nos como ponto de partida um entendimento que só pode ser traduzido enquanto expressão de um preconceito. Se muitas das patologias que ali se apontam são efectivamente relevantes – a perda de distância crítica, a irrelevância da imediaticidade, a confrontação estéril, a ausência de democraticidade real – não deixa de revelar um equívoco quanto à importância dos blogues, ao seu significado crítico real num panorama em que se estabelecem novas ideias e novas formas de falar sobre arquitectura – novos media. Seria desejável que tal evolução fosse acompanhada por um escrutínio académico, porque a incubação de novas formas de comunicação exige a construção de uma ética intrínseca ao seu funcionamento. A sua ausência deixa-nos vulneráveis ao caos, ao estabelecimento de comportamentos por default, sem referenciação e, tantas vezes, sem qualquer sentido.

Mas tal não nos pode deixar confundir a respeito da paisagem global da blogosfera, a partir da percepção momentânea construída por meia dúzia de blogues mais visíveis. Muito menos deverá validar entendimentos acerca da motivação dos bloggers, reduzidos a uma espécie de massa homogénea sem identidade, fazendo ignorar a multiplicidade e a riqueza presente numa parte importante do mundo online.
A escrita blogue é motivada pelo ressentimento e/ou pelo deslumbramento – qual o significado desta afirmação? Terá o autor a arrogância de presumir as motivações de milhões de bloggers? Ficarão os críticos mais apaziguados perante um tal entendimento, liminarmente binário e inevitavelmente pobre?

O conservadorismo assente em leituras frívolas acerca dos blogues por alguns críticos parece transparecer apenas um desconforto incompreensível, por nos encontrarmos perante uma plataforma espontânea, não solicitada, de produção de conteúdos. Mas o que temem afinal os críticos? O que estão os críticos a fazer para sustentar a sua relevância para lá da “aura”, para conduzir as direcções futuras do discurso arquitectónico, explorar novos formatos e ir além do pré-estabelecido?
A questão mais importante que se poderia colocar seria interrogar as razões para a ausência da academia e da crítica em todo este processo. É certo que as escolas e as revistas de arquitectura se balançam na necessidade de estabilidade, de definir referências num mundo em mudança. A rede é um território com limites móveis onde esse exercício é difícil, talvez mesmo impossível, mas que por isso mesmo não deixa de ser necessário.
A crítica precisa de aprender a correr riscos, algo que os bloggers deixaram há muito de temer. Em nenhum outro lugar podemos encontrar reflexões entusiásticas sobre arquitectura fundadas em motivos tão diversos como a iconografia da ficção científica, a experimentação gráfica conceptual, a paisagem especulativa dos jogos de vídeo, as estações espaciais e as bases lunares, os túneis de metro abandonados, a propagação infindável das favelas, as prisões secretas do Iraque, os quartéis-generais dos vilões dos filmes do James Bond, a base subterrânea do Batman e os castelos do Harry Potter.
O diálogo é rico e imprevisível, permitindo a todos participar em formas radicais de investigação e partilha. É uma nova ecologia complexa de conhecimento em constante mutação, aberta, acima de tudo, a uma nova geração de pensadores emergentes. A crítica e a academia deviam compreender o que isto significa. É que a porta da rede está escancarada e não há meio de voltar a fechá-la.

Largo do Rato, uma questão de fachadas

A aprovação do aditamento ao projecto de arquitectura para o novo edifício do Largo do Rato, da autoria dos arquitectos Frederico Valsassina e Manuel Aires Mateus, apresenta contornos curiosos sobre os quais ninguém parece interessado em reflectir. Se, uma vez mais, se reacendeu momentaneamente a polémica, ficou omissa uma discussão sobre a questão de fundo. Afinal, o que está ali em causa?

Os termos da aprovação do projecto pela Câmara Municipal de Lisboa referem que o aditamento de que foi alvo promoveu um conjunto de alterações, entre as quais podemos encontrar um novo desenho das fachadas, abandonando a “imagem monolítica” e propondo “uma marcação de lajes e vãos menos abstracta”. Resulta assim que não conhecemos já a imagem final do edifício, naturalmente diferente da que foi divulgada publicamente em fase anterior; pesquisar aqui. Querer discutir o projecto nesses termos torna-se assim um exercício especulativo em que se tornará difícil não cair no plano da demagogia.

Se não podemos discutir o projecto, podemos no entanto discutir o processo de que foi alvo, em especial no que respeita aos contornos do procedimento na sua dimensão jurídica. E aqui estamos no território de um conflito recorrente entre a esfera dos direitos privados e dos interesses públicos em presença. É curioso o modo como, em Portugal, parece exercer-se um enorme fervor na defesa do interesse público, por vezes assente em argumentos de validade técnica débil ou pouco verificável, ao mesmo tempo que se aceita com grande facilidade o menosprezo pelo direito dos agentes privados. Falamos, entenda-se, de cidadãos, de empresas, de munícipes. Os motivos para tal fenómeno terão a sua justificação cultural e a sua contextualização é difícil no curto espaço desta reflexão. Mas devemos questionar as razões para tal, em especial porque dos desequilíbrios da gestão desta conflituosidade entre o público e o privado resultam disfunções que podem por em causa o próprio tecido do que entendemos como estado de direito.

Sobre este caso em particular um vereador referiu tratar-se de um projecto ilegal por carecer, nos termos do PDM, de um plano de pormenor. Confesso desconhecer os exactos termos em que o PDM da cidade de Lisboa estabelece a obrigatoriedade da aprovação de um plano de pormenor para aquela zona. Mas é um argumento questionável e demagógico, uma vez que tal obrigatoriedade impende sobre a própria câmara municipal e a validação de restrições à edificação resultantes da vigência de um plano de pormenor obedece a regras legais rígidas e limitadas no tempo. Caso contrário estaríamos perante uma expropriação do direito à edificação de todos os particulares da área de incidência desse plano – ou de qualquer outro – por tempo indeterminado e estabelecido de forma discricionária.

É certo que muitas câmaras o fazem, ou fizeram, no passado, atropelando os termos da própria legislação. Mas tal é tão inaceitável como a violação da lei por parte dos particulares. A autoridade dos agentes do Estado resulta da sua actuação competente, coerente e legal. A discricionariedade, afinal, será sempre uma arma perigosa na mão dos incompetentes.
Não se compreende por isso as queixas veiculadas por diversos vereadores que se opuseram no passado à aprovação do projecto, quanto à acção judicial promovida contra eles pelo requerente. Os eleitos não têm o poder de violar a lei e o agente privado está no seu direito de defender-se judicialmente contra decisões que julgue serem ilegais. São essas as regras do estado de direito. Se tais vereadores estivessem certos da validade das suas decisões, então deviam defendê-las até às últimas consequências em vez de se lamentarem pelo facto de estarem a ser alvo de processo judicial, ao dizer que não é admissível colocar a faca em cima da cabeça de um vereador. Essa faca é a lei e está em cima de todos os envolvidos.

O que resulta de todo este processo é o vazio que pende sobre a câmara de Lisboa quanto a uma visão urbanística para o Largo do Rato, um espaço que a própria câmara reconhece como um lugar hostil e perigoso para o peão. No fundo, estamos perante um episódio sintomático de uma realidade que parece agravar-se à medida que o Estado vai perdendo capacidade económica e técnica para dirigir o planeamento das cidades. Os municípios vão assim a reboque da iniciativa particular e dos seus precedentes, perdendo iniciativa e actuando no contexto de discussões pejadas de demagogia e polémica, com pouco discernimento quanto ao interesse público, à história e aos valores de que deveriam ser os principais defensores e responsáveis.

Nação Facebook



Estive a ler a edição da Time dedicada a Mark Zuckerberg, seleccionado para Pessoa do Ano 2010 e criador da rede Facebook, actualmente com mais de 500 milhões de utilizadores activos. No retrato que faz deste génio da era digital, um jovem de 26 anos, a revista americana levanta algumas questões profundas sobre o futuro da Internet na era pós-Facebook. Está em causa uma transformação avassaladora cujos efeitos não são ainda inteiramente perceptíveis mas que em breve poderão tornar-se dominantes do modo como se processa o cruzamento de informação na rede.

Na nação Facebook todos somos amigos. Ao contrário da blogosfera, que pode ser uma paisagem desoladora para quem escreve, o que ali se oferece é uma plataforma de gratificação imediata. O que ali se publica acede imediatamente ao mural do nosso grupo de relações. Os nossos amigos estão sempre lá, prontos para ler, gostar e comentar. Ao contrário da versatilidade que encontramos nos blogues, o formato Facebook presta-se ao browsing rápido e instantâneo. Pouco se escreve ou lê, mas torna-se fácil disseminar informação porque o contágio entre núcleos de amigos tem projecção exponencial.

A filosofia de Zuckerberg para o futuro da rede apresenta um factor novo e intuitivamente inteligente. Que para o utilizador, mais importante do que ver um vídeo do YouTube gostado por milhares de internautas anónimos, é encontrar o vídeo preferido de quem nos é próximo – as preferências dos nossos amigos. O Facebook apresenta-se assim como um novo padrão de referência daquilo que é relevante segundo uma lógica de proximidade.
A isto soma-se um segundo mecanismo, já em rápida implementação, que constitui a possibilidade de login automático em outras plataformas da Internet. O utilizador do Facebook pode agora aceder ao site da Time ou da CNN e gostar dos conteúdos que lá encontra, referenciando-os instantaneamente no seu mural e, consequentemente, dando-os a conhecer aos seus próprios contactos. Isto revela o verdadeiro potencial financeiro do Facebook e o seu apelo ao mundo comercial da rede, porque todos terão interesse em tornar-se acessíveis a uma plataforma de divulgação com 500 milhões de utilizadores potenciais.
Como contrapartida, estes sites irão ganhar acesso às características do utilizador do Facebook, aos seus gostos e preferências, permitindo-lhes afinar o target de conteúdos ao seu perfil específico; factor particularmente importante no domínio da publicidade.

O que está em causa é uma transformação radical do modo de navegação individual na rede e na filosofia de privacidade que dominou a Internet até à actualidade. Dir-se-á que tal modo de navegação é opcional. Podemos sempre recusar ou controlar a utilização do Facebook, ser selectivos nas escolhas do que gostamos ou partilhamos. Mas para uma nova geração de utilizadores, este poderá tornar-se o modelo cultural de navegação dominante da Internet. Os futuros internautas vão querer partilhar e vão querer que os outros gostem do que eles gostam. Não vão conceber o mundo de outra maneira. E neste processo vão construir, intuitivamente e durante a vida inteira, o seu perfil de gostos e preferências, propriedade da Facebook Inc. Private Company Information.

É a vitória derradeira do Big Brother. Tornar-nos a todos, voluntariamente, nos seus próprios agentes.

Projectos estruturantes [1] – Introdução

Comecemos por um exemplo simples. Imagine o leitor que tinha decidido ser promotor privado de um equipamento destinado a utilização colectiva. Consideremos, para efeitos deste pequeno exercício, um ginásio – porque não?
Ainda que possa ter desde o início um sonho quanto à qualidade, ao ambiente, aos equipamentos e serviços do seu ginásio, esse não será o seu ponto de partida. O leitor, que é um gestor precavido, resolve considerar previamente o local – ou locais – onde julga ser possível instalar o seu estabelecimento. Quantas pessoas habitam nessa zona? Quais os extractos sociais dominantes, o poder de compra, os hábitos de vida e de consumo dos seus potenciais clientes? E qual a concorrência já implantada nas proximidades? Assim, em função do apuramento destes dados e da realidade que o rodeia, bem como da sua capacidade para reunir capital – próprio e, eventualmente, a crédito – você começa a definir ideias precisas quanto ao investimento, à dimensão do espaço e aos custos que pode vir a assumir.
Quantos utentes espero ter? Que equipamentos terei de comprar – e quanto custam? Quantos trabalhadores terei de contratar? E qual a área adequada para garantir a sua funcionalidade? E, também, que custos de exploração poderei suportar – em material de apoio, gastos de energia, limpeza e demais despesas mensais? E na manutenção futura do espaço e das máquinas? E em publicidade? E impostos? E por aí fora…

O leitor, que está agora a pensar como um verdadeiro gestor e sabe o que quer, vai então estabelecer diálogo com um projectista – desejavelmente um arquitecto – que vai desenvolver o seu programa, os seus objectivos, as suas necessidades quanto ao ginásio que pretende gerir. É você que decide os termos deste caderno de encargos preliminar; e é porque estabeleceu esses princípios que os projectistas poderão ir ao encontro do que você realmente pretende. Desejavelmente, um bom arquitecto deverá não apenas satisfazer soluções pré-estabelecidas que possa ter como apresentar-lhe alternativas, ser aditivo, estudar consigo as melhores possibilidades técnicas – que você talvez desconheça – e outras formas de organização espacial e funcional, porventura mais eficazes, que de todo não lhe haviam ocorrido. Através deste esforço colaborativo, você e o seu arquitecto estão agora em condições para obter o melhor projecto possível.

Imagine agora o leitor que, em vez de ser promotor de uma obra de exploração privada, é antes promotor de um empreendimento público: um equipamento desportivo, um espaço cultural, uma escola, um centro de saúde. Entenderá o leitor que, por se tratar de uma promoção estatal, está isento de aplicar o mesmo detalhe e igual rigor na definição dos princípios que vão determinar tal empreendimento?
Poderá dizer-se: mas estes equipamentos, ao contrário do exemplo anterior, têm por objectivo uma função de interesse público e não se motivam pela obtenção de rentabilidade, de lucro. É verdade. Mas neste pensamento está igualmente um erro de partida. É que todos esses equipamentos são igualmente pagos pelo cidadão. Podemos dizer que não são pagos directamente – no ingresso, na propina, na factura médica – mas também eles são pagos, a todo o momento e na íntegra, através dos impostos de todos os contribuintes.
Mais do que isto, importa perguntar se será lícito promover empreendimentos – mesmo nos casos em que a sua rentabilidade seja forçosamente deficitária – sem considerar seriamente todas as possibilidades de optimizar os seus custos, eliminar desperdícios e adequar a sua estrutura às necessidades reais que ele virá suprir. Pelo contrário, são exactamente esses empreendimentos públicos – aqueles cujo funcionamento dificilmente será capaz de obter ganhos capazes de cobrir as despesas de exploração – que mais devem ser estudados ao pormenor. Eles representam, afinal, um esforço financeiro acrescido para o futuro da sua vida útil. O contrário seria dizer, por absurdo, que o Estado poderia aumentar impostos cada vez que construísse uma escola ou um hospital.

Aquilo que vamos observando no modo como os agentes públicos têm promovido obra pública, tanto a nível central como local, tem sido a enorme falta de cultura de gestão e de sensibilidade quanto ao rigor que lhes seria exigido no planeamento da aplicação dos dinheiros públicos. E um dos problemas centrais reside exactamente no entendimento que fazemos, colectivamente, do Estado enquanto entidade abstracta. Em boa verdade, o Estado só existe porque colectivamente o pagamos – e porque esses dinheiros são fruto da produção e do trabalho de muitos, quem exerce funções públicas devia ter sobre si a responsabilidade singular de utilizá-los com enorme rigor e seriedade.
Voltarei ao tema para reflectir sobre exemplos concretos e sobre a necessidade de alterar toda uma cultura de más práticas de gestão que se instalou nas últimas décadas neste domínio e que, pese embora o enorme problema de liquidez que aflige hoje o Estado Português, parece persistir até ao limite do insustentável, com consequências dramáticas para o futuro de todos.

Da blogosfera para a atmosfera

De que falamos quando falamos sobre os blogues? Como encarar essa constelação tão diversa de conteúdos que tem em comum o facto único de partilhar uma imensa infra-estrutura de conexões em rede?
Se falamos das vicissitudes da blogosfera portuguesa, então tratamos de um assunto bem específico e distante do emaranhado dessa rede interminável. Num panorama onde nunca se afirmou uma cultura ou uma ética blogue, o espaço online tornou-se na caricatura de uma horizontalidade sem referências que vai dando corpo a uma devastadora terraplanagem intelectual, um espaço de relativização absoluta onde tudo vale o mesmo e já nada tem valor. De resto, até o diálogo assertivo e recíproco se revela tantas vezes uma impossibilidade real. A blogosfera nacional alimenta-se do conflito, de uma dissimulação identitária que se exprime no acknowledgment do grupo, meras lógicas de rejeição ou colagem que nada têm de expressão intelectual ou troca de opinião. Nesse território opaco até a hiperligação vai sendo negligenciada, perdendo-se aquela que é uma instituição única da rede quando comparada com outros suportes de comunicação: a capacidade de estabelecer ligações.

A esse respeito, e sobre as particularidades com que o fenómeno dos blogues se instalou em Portugal, Pacheco Pereira apresentou um retrato da paisagem que nos rodeia:

Não é por se usar a mesma ferramenta de software que os americanos, brasileiros, japoneses e chineses que deixamos de ser portugueses, de levar para lá o nosso mundo exterior. Não somos ricos na Rede se somos pobres cá fora, não somos sofisticados em linha, se somos trogloditas cá fora, não sabemos mais e pensamos melhor nas páginas do Blogger do que pensamos cá fora, nos cafés de província, ou no Bairro Alto ou no Lux ou nas páginas dos jornais, não se é cosmopolita lá dentro se se é provinciano cá fora, não se é subserviente cá fora e independente no ecrã diante do computador, não se é burro cá fora e inteligente lá dentro.
O que se passa é que esse verdadeiro mostruário em linha, feito de mil egos à solta, revela mesmo a nossa pobreza, a nossa rudeza, a falta de independência face aos poderosos, grandes, pequenos e médios, os péssimos hábitos de pensar a falta de estudos e trabalho, de leitura e de "mundo", que caracterizam o nosso "Portugalinho". Nem podia ser de outra maneira. Com a diferença que nos blogues o retrato é mais brutal porque mais arrogante e mais solto, ou pelo anonimato, ou pela completa falta de noção de si próprio de quem, por poder escrever sem edição para os milhões de leitores potenciais da Rede, acha que é crítico de cinema instantâneo, engraçadista brilhante, analista político, escritor genial de aforismos, herói único da denúncia dos males do mundo, e portador de todas as soluções que só não são aplicadas porque os outros, a começar pelo blogue do lado e a acabar no fim do mundo, são todos corruptos, vendidos e tristes.
[Abrupto: A cultura de blogue nacional]

Pese embora a verdade destas palavras, será um erro descurar o poder dos blogues como veículos capazes de nos ligar a uma poderosa rede de troca de pensamento, tanto pelas imensas possibilidades de acesso a informação como pela oportunidade de projectar conteúdos “lá dentro” – um equívoco, aliás, que o próprio Pacheco Pereira não comete. Mais do que isso, será um erro maior ignorar que muitas das patologias que afectam a blogosfera são um prolongamento de fenómenos bem entranhados no país que existe “lá fora”.

Aquilo a que se refere o Nuno Grande não terá tanto a ver com esse universo abrangente que é, em boa verdade, a blogosfera – também de arquitectura, território onde dificilmente poderemos descurar coisas como o BLDGBLOG, o Subtopia, o City of Sound, o Life Without Buildings, o Lewism ou o Progressive Reactionary, entre tantos outros. Não esquecendo o blogue de crítica de arquitectura, pura e dura, redigido – e muitas vezes ilustrado – pelo Lebbeus Woods.

Essa blogosfera de arquitectura – infinitamente mais vasta e espalhada pelo mundo – dá corpo ao que de melhor tem a internet enquanto extensão possível e prometedora de uma economia baseada em conhecimento. Com formas e registos diversos, os blogues não estão necessariamente sujeitos ao imediatismo e apenas com um olhar restrito poderemos defender que estão isentos do escrutínio. Se eles se apresentam como plataformas de auto-publicação, estão igualmente sujeitos a formas espontâneas de referenciação e valorização, dentro e fora da rede.
Nada impede que nessa infra-estrutura se possa desenvolver o exercício da crítica e que isso possa ser feito em Portugal, como o demonstra João Lopes a propósito da cultura da imagem e, também, especificamente sobre cibercultura, no Sound + Vision. E nada impede, de igual modo, que isso possa ser feito em relação à arquitectura. Já aconteceu no passado com o Epiderme do Pedro Jordão, porventura o melhor blogue de arquitectura que se produziu entre nós.

O que decorre, no entanto, da argumentação de Nuno Grande é uma forma algo paternalista no modo de abordar a blogosfera – ou, dito de outra forma, os blogues – sem se considerar a complexidade que o próprio termo encerra. Em qualquer disciplina, fazer crítica dá trabalho... pressupõe investigação, leitura, consulta de fontes, entrevista, debate, confrontação, refere. Todas estas coisas se podem encontrar em qualquer dos blogues atrás citados. É certo que os blogues não estão sujeitos aos constrangimentos de uma supervisão editorial - com toda a responsabilidade pública que esse exercício encerra - não estando por isso dependentes do seu escrutínio prévio. Não sendo assim formas institucionalmente creditadas de certificação de conteúdos, os blogues apresentam um enorme potencial para o diálogo assertivo e directo - não me referindo aqui ao "comentário" mas ao tipo de discurso de escrita que um suporte de expressão pessoal permite, muito diverso daquele que podemos encontrar no domínio da publicação escrita.
Os blogues, para o bem e para o mal, não têm monitores e não respondem perante ninguém. É essa a sua força e, como será fácil compreender, a sua fraqueza, mas a sua importância reside nisso mesmo: no facto de viverem numa posição exterior face aos outros suportes de comunicação. Acima de tudo, os blogues exprimem-se com uma voz pessoal, têm um ponto de vista. No seu imediatismo, na sua subjectividade, são um exercício cheio de potencial para estabelecer ligações e escrutiná-las num espaço público, imediato e, tantas vezes, contraditório.

Não devemos esperar que os blogues se tornem num espaço alternativo, em competição com a publicação escrita e, muito menos, com a crítica. Mal daqueles que abandonem a pesquisa de saber, nos jornais, nas revistas, nos livros, e julguem poder construir conhecimento nos posts de um blogue. Mas estes podem complementar a transmissão e reflexão de conteúdos, permitindo, quando sucedidos, criar uma cadeia de comunicação na sua pequena comunidade de ligações, aberta a todos. Deveríamos assim, bloggers e não bloggers, reconhecer os pontos fortes de uns e de outros, e contribuir para melhorar a rede de pensamento que a nova paisagem digital permite estabelecer.
* * *

No que ao meu blogue se refere o texto original do Pedro Machado Costa, não deixo de sentir alguma perplexidade por se fazer apontamento de um desabafo ocasional e pouco recorrente como exemplo dessa incapacidade de estabelecer um diálogo mais sério na blogosfera, neste caso em torno da arquitectura. A nossa blogosfera é rica de exemplos em que o desabafo constante serve de registo e imagem de marca a formas de expressão pessoal.
Tendo em conta o contexto da discussão, talvez importe observar que este blogue não é um espaço de crítica de arquitectura, antes um espaço de opinião e divulgação de conteúdos. Nos seus bons momentos, A Barriga de um Arquitecto serviu como reflexo das minhas aventuras pelo mundo online, motivado unicamente por encontrar bom material e partilhá-lo. De resto, serve para falar dos temas que me interessam e preocupam, seja o planeamento territorial, o urbanismo, a política de obras públicas, a gestão urbanística, as práticas de licenciamento, a cultura da imagem e, até, a crítica, entre tantas outras coisas. E, já agora, dos ecos de uma trienal.

Como blogger sei bem do que fala o Pedro quando se lamenta da falta de reciprocidade que encontra nas suas reflexões. Talvez tenha razão o autor do Ma-Shamba quando escreveu, em tempos, que um blogue é uma ilusão, a ilusão de ser lido. Ou talvez sejam temas que não motivam o interesse dos outros arquitectos bloggers, ou de quem escreve nas revistas da especialidade. E eu não tenho de me queixar, pois encontro igual interesse nas coisas que escrevem e, evidentemente, preferem.
Não é pelo facto de, tal como o Geof Manaugh, escrever um blogue, que tenho a ilusão de estar a fazer um BLDGBLOG. Como não é pelo facto de organizarmos conferências, convidarmos figuras de renome internacional, e falarmos ao seu lado, que estamos, de igual para igual, a fazer e a pensar sobre as mesmas coisas. Escrevo um blogue porque não sei passar sem ele. E que por isso me entrego à meritocracia subjectiva da blogosfera, perdendo-me, e por vezes encontrando-me, nessa implacável forma de selecção natural que é o mundo nebuloso da rede em que vivemos.

Arquitectura do défice

Dois terços da minha vida profissional foram passados no Estado. Hoje, uma grande parte do meu trabalho na função pública – talvez mesmo a mais importante – consiste na produção de programas e cadernos de encargos de concurso para a elaboração de projectos de arquitectura.
Aquilo que eu e a equipa com que trabalho procuramos fazer é detalhar, tanto quanto possível, os objectivos, as necessidades, mas também todas as contingências que enquadram uma determinada obra. Por vezes esse esforço obriga a avançar um pouco pelo projecto adentro, desenvolvendo uma planificação conceptual ao nível de estudo prévio ou anteprojecto, mas mais importante do que isso, o elemento crucial reside em estabelecer o equilíbrio correcto entre o desejo daquilo que se pretende ver projectado e o enquadramento objectivo da gestão funcional e financeira em que a obra se deve vir a desenvolver.
Diria, em resumo, que a parte mais importante do meu trabalho consiste em poupar dinheiro ao Estado ou, pelo menos, garantir uma adequada aplicação dos seus meios financeiros na procura em obter a melhor qualidade possível. Não é um trabalho fácil e aprender a fazê-lo bem feito tem sido uma tarefa de vários anos. Trabalhar com as contingências é um acto contra-natura para os arquitectos. Em geral procuramos encontrar modos de fugir ao que chamamos de condicionantes. A minha missão tem sido fazer o oposto. Abraçar essas condicionantes e fazer delas uma parte determinante do encontro das soluções de arquitectura.

Uma das maiores fragilidades na promoção de arquitectura (e urbanismo) por parte das muitas entidades estatais – ministérios, autarquias e demais instituições públicas – reside na programação débil dos projectos que desenvolvem. Poucos parecem compreender que o projecto de arquitectura é algo que começa muito antes de uma concepção formal ou mesmo de um organigrama de funções. Que o acto de promover algo depende de uma necessidade profunda de contextualização das suas necessidades, da procura, das tendências da comunidade, do espaço e da sua utência futura. Para que essa contextualização seja possível é fundamental que os promotores desse processo, aqueles que o influenciam e que tomam decisões, sejam, de alguma forma, parte da equipa. Se não há bons projectos sem bons arquitectos, tal é igualmente impossível na ausência de bons promotores que conheçam a fundo aquilo sobre o qual estão a decidir.
Desconheço a atenção que os outros órgãos do Estado dão a este trabalho e o rigor com que o desenvolvem. O que observo são repetidos exemplos de desproporção dos investimentos relativamente às capacidades operativas que apresentam na sua vida funcional. Quanto maiores as obras, mais dramáticas se tornam as consequências financeiras da sua execução. Infelizmente, também parecem ser os maiores investimentos os que mais latitude oferecem aos seus projectistas. No vazio programático, os arquitectos tomam por vezes decisões que consomem recursos sem fundamentação racional e que resultam na gestão difícil, tantas vezes deficitária, da sua vida futura.

Podemos considerar que a responsabilidade derradeira por este problema pertence, em exclusivo, aos promotores, aos decisores públicos. Mas podem os arquitectos, enquanto classe, apresentar-se perante a sociedade como observadores inocentes deste fenómeno? A ideia que a boa obra, formal, de arquitectura, tudo justifica, é afinal uma ilusão que vamos alimentando mais do que quaisquer outros. Eu, pelo menos, ainda não ouvi ninguém queixar-se.

Logicamente insustentável

Sentado na área de restauração de um qualquer centro comercial dou por mim a observar as pessoas que me rodeiam. A reduzida disponibilidade de mesas livres origina uma pequena altercação entre um casal que se abeirava de uma mesa vaga, de tabuleiros na mão, e um outro grupo que se antecipou para reservar a mesa e não arredou pé. Eis um pequeno exemplo da nossa falta de atenção para a vida em comunidade. Não apenas pela faceta comportamental do episódio, mas pela própria lógica que lhe está assente.

Consideremos que duas pessoas ocupam uma mesa de dois lugares durante dez minutos, em média, para uma refeição. Isto significa que cada mesa terá uma utência máxima de doze pessoas por hora.
Imaginemos agora que cada um desses pequenos grupos decide reservar a mesa, tomando cinco minutos de espera (enquanto cada um vai buscar a sua refeição) e depois dez minutos para comer, num total de quinze minutos. Cada mesa passou agora a ter uma utência máxima de oito pessoas por hora, o que corresponde a uma redução para dois terços da capacidade inicial.

Independentemente do rigor dos números deste exercício, é certo que quanto mais pessoas reservarem as mesas, menos estarão disponíveis. Perante este facto – a percepção de que existem cada vez menos mesas disponíveis – mais pessoas estarão tentadas a fazer o mesmo. Ou seja, o mau comportamento promove o mau comportamento. E aquilo que parece fazer perfeito sentido, numa lógica individual, tem como resultante colectiva uma forma de insustentabilidade. No final, quando todas as pessoas adoptarem este comportamento, não existirão mesas disponíveis para todos.

Talvez não seja razoável alimentar a expectativa que as pessoas tenham presente a matemática na sua tomada de decisões pessoais. Mas devíamos questionar o modo como os comportamentos se estabelecem “por defeito”, no centro comercial, na estrada, na vida em geral, porque são essas pequenas lógicas adquiridas, sem qualquer sustentação, que são as mais difíceis de demover e os verdadeiros obstáculos a todas as campanhas de formação e informação com que julgamos poder resolver muitos problemas. Não estou a dizer que sei como fazê-lo, tão só que me parece uma tarefa bem mais difícil do que pode parecer à primeira vista.

O que há de errado com esta imagem?


Image credits: Jose Luis Rodriguez.

Tenho como uma das minhas obsessões pessoais examinar o modo como os outros pensam. Os pressupostos de uma argumentação são mais reveladores do que a construção racional que sobre eles se desenvolve. É algo que devíamos questionar continuadamente: as razões que são matriciais ao nosso pensamento, as certezas sobre as quais elaboramos uma hipótese de resolução.

Vem isto a propósito de uma pequena pergunta lançada pelo Mário Venda Nova no seu blogue O Elogio da Sombra. Ali se questionava: O que é hoje a fotografia de natureza? O que deverá ser o foco da fotografia de natureza contemporânea? A pergunta mereceu duas respostas:
[1] Zé Maria: Imagens da natureza? Eventualmente, tentando incluir o mínimo possível de alterações antropogénicas. É o que eu chamo fotografia de natureza.
[2] Diogo: Acho que a primeira pergunta a fazer é: O que é a natureza na contemporaneidade? E não encontro resposta fácil…


Image credits: Kalle Gustafsson.

Sobre estes argumentos o Mário desenvolveu a sua própria reflexão, bastante curiosa. Escreveu:
A do Zé Maria reflete um olhar mais tradicional sobre a maneira como a fotografia deve retratar a natureza: as paisagens belas, intocadas (apesar de milhares de pessoas lá passarem por ano…), com uma luz dourada, sem marcas da presença do homem. O Diogo prefere perguntar onde está o olhar contemporâneo sobre a natureza.
O problema é que estas duas visões são antagónicas: uma pretende mostrar uma natureza segundo padrões que, infelizmente, já não se aplicam ao estado actual, o outro pretende actualizar o olhar fotográfico sobre o tema e fazer uma reflexão actual sobre o seu estado. É assim que entendo as vossas respostas (…).


O que retiro dos argumentos do Mário – e aqui começo a funcionar nos meus próprios pressupostos – é uma interpretação segundo a qual temos o confronto de uma visão conservadora [1] com uma outra abordagem mais vanguardista [2]. Estou naturalmente a simplificar mas é esta a hipótese de debate lançada por tal separação de pontos de vista. Em boa verdade a primeira definição [1] não avança literalmente um desígnio idílico de paisagem bela ou perfeita. Podemos tomar aquele desejo de abandono de sinais antropogénicos como um mero propósito de captura da realidade desconectada da influência humana. Um desígnio purista? Talvez, mas nada que predisponha uma visão estética específica. Na verdade, muita da mais interessante fotografia urbana contemporânea procura exactamente desprender-se de uma visão estética predeterminada em produzir embelezamento da imagem, buscando uma crueza inóspita que procura interrogar essa realidade como possibilidade daquilo que ela é ou pode ser para lá do preconceito estético. O que nos remete para a segunda hipótese [2], pois que numa ou noutra abordagem teremos sempre, de cada vez que capturamos o mundo através de um frame, uma construção subjectiva, irremediavelmente humanizadora, do mundo.


Image credits: David Maisel.

A questão interessa-me porque também se coloca recorrentemente, em outros termos, no domínio da fotografia de arquitectura. Aqui o confronto apresenta-se entre a enunciação estética da arquitectura, uma fotografia com mise-en-scène, e uma outra captura documental que busca um sentido de permanência do mundo físico para lá das possibilidades da imagem. Um confronto traduzido tantas vezes, de forma simplista, como uma divisão entre limpo e tosco, entre artifício e verdade.
Mas não será afinal esse conflito um produto, já ele artificial, da nossa pré-condição de participantes no mundo que observamos? Estamos condenados a ser contemporâneos, seja enfabulando sobre o mais batido lugar comum, seja mergulhando criticamente sobre a condição estética. Produzimos sempre uma construção carregada de retóricas que nos são inerentes. Não sabemos, não podemos, fazê-lo de outra maneira.
Voltando assim à pergunta original do Mário, talvez a resposta esteja no facto de colocarmos sempre, perante a natureza como perante tudo o resto que nos rodeia, as nossas questões, os nossos limites, a nossa possibilidade de existência.

Traçar o limite


O projecto está a ficar bom! Agora vamos meter uma roda de carroça lá dentro.

Que concessões estamos dispostos a fazer em relação aos princípios em que acreditamos. Onde traçamos o limite daquilo que fazemos? E que razões sustentam esses limites?
Ao longo da vida profissional estamos destinados a enfrentar o dilema de contemporizar entre o que julgamos certo e o que sabemos ser viável. O autor do blogue Life of an Architect enuncia este problema na sua lista de razões para não ser arquitecto onde refere, com uma boa dose de ironia, que «os ideais não servem para nada». Aqui fica uma passagem da sua reflexão:
Os teus clientes contratam-te para lhes dares o produto que eles querem, não necessariamente aquilo que gostarias de fazer. (…) A maior parte dos projectos são desenvolvidos pelo lucro e apesar ser verdade que um bom design equivale a boas soluções, o que por sua vez se traduz numa forma de sucesso mensurável, na prática toda a gente quer mais por menos. Vão ocorrer situações em que te será exigido produzir algo que sabes ser terrível e a coisa absolutamente errada a fazer. Baseado na tua necessidade de trabalho, ou na força da tua personalidade, vais fazer concessões que te farão morrer por dentro.

Nos tempos de faculdade assisti a uma apresentação de projectos de uma equipa de arquitectos jovens. Tinham-se formado havia poucos anos e iniciado a sua própria firma. Aos olhos dos estudantes da academia eles pareciam estar a viver o sonho, lutando para conquistar o seu lugar no mundo real da prática da arquitectura.
Deram-nos a conhecer diversos trabalhos de desenho respeitável. E então contaram a história de um projecto particular que haviam feito para um restaurante. O projecto estava a chegar ao fim, o cliente satisfeito, tudo corria bem. E eis que o cliente surge com um requisito final: uma grande roda de carroça adornaria a entrada do estabelecimento.
A coisa tornou-se motivo de grande discussão. Equipa e cliente extremaram posições e tudo resvalou para uma questão de vida ou morte. Aceitem a roda de carroça ou percam a comissão, nada menos do que isto. Os arquitectos permaneceram firmes e recusaram-se a aceitar tal exigência; e assim foi. O trabalho ficou perdido.

Todos estamos destinados a encontrar as nossas rodas de carroça no decurso da vida profissional. Quando uma tal metáfora assume a forma literal de uma roda de carroça, esse epítome icónico da rusticidade, suponho que as coisas possam resvalar rapidamente para o drama. Todos temos de traçar uma linha algures e uma roda de carroça parece um bom lugar para o fazer. No entanto, e reconhecendo a decisão corajosa daqueles nossos colegas, tenho vindo ao longo destes anos a reflectir repetidamente naquele episódio.
Os arquitectos não são vendedores. O nosso trabalho constitui uma prestação de serviços, o que traz implícita uma relação contratual com o cliente. Um contrato é isso mesmo, uma aceitação mútua de condições sobre as quais se desenvolve um processo. Quando essas condições não são aceitáveis para uma das partes, seja por que motivo for, desaparecem as bases que sustentavam aquela relação.
O episódio daquele restaurante é isto mesmo, mas a faca da incompatibilidade tem dois gumes. Nem sempre os desentendimentos surgem por imposições do cliente – por vezes o que está em causa é exactamente o oposto: somos nós que argumentamos a favor de soluções que o cliente considera indesejáveis. Nesses momentos devemos ter boas razões para sustentar, com objectividade, o que estamos a defender. Tão nefastos quanto os desejos irracionais do cliente são os devaneios de um projectista que se escuda por detrás da mera intenção formal – algo que, a maioria das vezes, assenta numa espécie de subjectividade que se pretende inquestionável.

Recordo um professor de arquitectura que, tanto quanto sei, desenhou dois projectos na sua carreira. Ambos foram cancelados por «incompatibilidades com o cliente». Estou certo que ele morrerá um herói sem nunca ter metido os pés na lama. Mas se querem a minha opinião, a vida é mais interessante quando enfrentamos aquelas malucas rodas de carroça que andam à solta por aí.