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Educação para a vida online



O que não deixa de ser curioso no seu discurso (…) é o facto de todo ele tentar encerrar-se em questões de natureza técnica, repelindo qualquer reflexão cultural sobre o Facebook. Mais exactamente: Zuckerberg não quer (ou não é capaz de) reconhecer que qualquer dispositivo técnico – para mais com a dimensão planetária que o seu negócio adquiriu – envolve sempre os modos de viver, pensar e comunicar dos cidadãos, quer dizer, os valores da sua existência. Numa palavra: a sua cultura.
— João Lopes, Facebook: os "erros" de Mark Zuckerberg.

O recente escândalo que envolveu a Cambridge Analytica, uma empresa de consultoria política sediada em Londres que levou a cabo uma operação de data-harvesting em larga escala através do Facebook, vem lembrar-nos de uma frase que se popularizou na internet: se não estás a pagar por um serviço, não és o cliente; és o produto que está a ser vendido.

Com o conhecimento que hoje podemos ter sobre a actividade das grandes empresas que dominam o tráfego na rede, onde se destacam a Google – também proprietária do YouTube – e o Facebook, não deixa de surpreender o facto de grande parte do público desconhecer aspectos básicos do modo como estes gigantes operam. São curiosos alguns desabafos mais singelos de utilizadores que falam “do seu Facebook”, ignorando não só que o lugar que ocupam na plataforma de Mark Zuckerberg não é um espaço privado individual seu, como não é sequer um espaço público onde todos podem ver aquilo que partilham. Trata-se, afinal, de um espaço privado de outrem; uma empresa de informação privada que vende o seu público – todos nós – a um vasto conjunto de empresas e serviços – tais como a Cambridge Analytica.

O sucesso que corporações como o Facebook ou a Google foram capazes de alcançar depende grandemente do conhecimento profundo que estas empresas reúnem a nosso respeito a partir da monitorização de tudo o que fazemos enquanto estamos online, traçando automaticamente, através de poderosos sistemas de processamento de informação, perfis muito complexos sobre aquilo que somos, as nossas tendências e preferências. Num tempo em que a atuação destas plataformas se revela tão intrusiva sobre as vidas de cada um de nós, importa ainda mais ter presente que a acção destas páginas e, acima de tudo, a informação que recolhem, vai muito para lá das coisas que escrevemos ou partilhamos, dos comentários ou dos “gostos” que exprimimos na rede.



Ainda e sempre, não se trata de demonizar o Facebook (…). Trata-se tão só, para já, de contrariar a perspectiva tecnocrática – também política, sem dúvida – segundo a qual se está apenas a viver um percalço técnico. Importa exigir um pouco mais de todos nós e perguntar de onde vem – e, sobretudo, para onde vai – esta cultura virtual que leva milhões de pessoas a tratar muitos dados da sua identidade (social, familiar, muitas vezes íntima) como coisa partilhável com uma empresa gerada na perspectiva de angariar gigantescas receitas publicitárias. Se não soubermos formular tal questão, então devemos concluir que aquilo que oferecemos ao Facebook envolve o nosso próprio conceito de humanidade.
— João Lopes, Facebook: o alarmismo mediático.

Somos nós, afinal, que construímos, voluntariamente, ao passo e passo de cada post e like, ou involuntariamente, através das aplicações que instalamos nos tablets e telemóveis, os nossos perfis pessoais nas bases de dados destas corporações privadas. Importa por isso dramatizar junto do público, e em especial dos mais jovens, o modo como tudo aquilo que hoje fazemos se pode vir a repercutir no futuro.

Em alguns países, em particular nos Estados Unidos, é já uma prática regular de grandes empresas ter em conta a identidade online dos candidatos em processos de contratação – recorrendo para isso a consultoras altamente especializadas. No momento em que o candidato se apresenta numa entrevista de emprego, caso tenha sido pré-seleccionado, o júri já tem em sua posse um perfil pré-elaborado daquele indivíduo que se estende desde as suas preferências e orientações pessoais, simpatias políticas, gostos, actividades e até mesmo traços da sua personalidade: se social ou introvertido, dinâmico ou passivo, reactivo ou pensativo, etc.

É sabido que em muitas universidades americanas os departamentos de admissão também procedem ao escrutínio prévio do perfil dos candidatos na internet, aconselhando os alunos a removerem imagens lesivas, mensagens de cariz político ou humor considerado inadequado ou ofensivo. E são também conhecidos alguns casos em que episódios mais controversos de exposição da vida privada se revelaram, anos mais tarde, obstáculos inadvertidos ao avanço de carreiras profissionais e políticas.

Existem muitas formas de encarar esta realidade que tenderá a universalizar-se. Podemos optar pelo silêncio, procurando eliminar os traços da nossa pegada digital, ou podemos, em alternativa, assumir de forma consciente os riscos e as consequências de viver este nosso tempo. Mas, para que cada um possa verdadeiramente escolher, é fundamental estar informado quanto ao alcance e à complexidade deste novo meio que habitamos, e esse saber deve envolver todos os cidadãos, pais, professores, especialistas, com o apoio do Estado e o suporte esclarecido dos meios de comunicação. Caso contrário, serão as gerações mais novas que pagarão o maior preço, crescendo por defeito num mundo cheio de armadilhas. Tão apelativo, agora, quanto perigoso, anos mais tarde.

Os blogues ainda resistem?



No Verão de 2007 teve lugar na cidade de Nova Iorque o Postopolis!. Promovido pela Storefront for Art and Architecture, o evento era organizado por quatro bloggers muito conhecidos e teve por base uma série de debates e conversas com especialistas das mais diversas disciplinas, incluindo domínios exteriores à arquitectura tais como o design, paisagismo, ecologia e sustentabilidade, arte digital, música, cinema ou jornalismo. Nos cinco dias em que decorreu o evento, transmitido em directo para todo o mundo, passaram pela icónica galeria nova-iorquina desenhada por Steven Holl e Vito Acconci figuras incontornáveis como Lebbeus Woods, Mark Wigley e Michael Sorkin, entre tantos outros.

O Postopolis! sinalizava o alcance pluridisciplinar da blogosfera de arquitectura, caracterizando-se tanto pela informalidade da abordagem como pela capacidade de promover uma interacção directa entre leitores e criadores de conteúdos, convocando bloggers, a academia e o público.

Apenas uma década passada podemos verificar o quanto mudou a paisagem do mundo online. A ascensão das redes sociais ditou a secundarização da blogosfera enquanto espaço de debate público na internet. No caso da arquitectura, muitos dos principais blogues de então desapareceram, em especial os de autoria individual, e os que ficaram evoluíram do formato blogue para se assumirem como autênticas plataformas de divulgação de conteúdos. O universo da opinião e da crítica deu lugar a um vasto caudal de informação asséptica assente na divulgação descontextualizada de imagens, entre pré-visualizações de projectos virtuais a fotografias profissionais de obras construídas.

Os sítios de maior visibilidade são hoje agregadores de informação e competem para partilhar o mais recente material visual disponível na rede aos seus leitores. Press-releases corporativos são publicados em apenas alguns minutos numa competição frenética onde todos tentam chegar em primeiro lugar, sem que lhes seja aditado contexto ou reflexão, sem tempo para elaborar um olhar crítico mais aprofundado.

Apesar de todas as contradições que marcaram o fenómeno da blogosfera é inquestionável que os blogues tiveram um papel determinante na definição de um espaço público global sem precedentes na História, protagonizando a primeira vaga de expressão individual na Internet com repercussão no mundo exterior. Na sua subjectividade, no seu descontrolado imediatismo, os blogues abriram uma constelação de novos lugares de expressão pessoal capazes de estabelecer infinitas ligações entre si, no directo da rede.

Alimentando a ilusão de uma horizontalidade democrática, importa reconhecer que os blogues deram também corpo a manifestações de grande toxicidade e, por vezes, de devastadora terraplanagem intelectual. Não estando sujeitos aos constrangimentos de uma supervisão editorial – com toda a responsabilidade pública ou institucional que esse exercício encerra – os blogues ensaiavam-se sem escrutínio prévio, não tendo monitores e sem responder perante ninguém. Para o bem, e para o mal, aí residia a sua força e, como seria fácil de depreender, a sua latente fraqueza.

Talvez tenham sido os ecos dessa rede contraditória e caótica feita de mil egos à solta – como caricaturava Pacheco Pereira n’A cultura de blogue nacional – a motivar o desinteresse generalizado das universidades por esta nova infraestrutura de comunicação, porventura por pudor em concorrer com o ruído emergente de uma multidão de vozes não credenciadas. Prevaleceu assim entre nós o distanciamento das academias e da generalidade da crítica quanto a este espaço de debate de ideias, tornando inimaginável uma experiência semelhante àquela que o Postopolis! protagonizara de forma tão cosmopolita e promissora.

Chegados aqui vale a pena reflectir sobre o momento crítico que hoje vive a Internet. A ascensão das novas plataformas, em particular as redes sociais, relevaram o fenómeno blogue para longe dos holofotes mediáticos e vieram conformar uma nova paisagem corporativa da comunicação global. Nesta realidade, o caos e a anarquia do passado – mas também a liberdade de expressão e o pluralismo – estão a dar lugar a um panorama onde um conjunto reduzido de mega-empresas detém o domínio dos principais veículos de transmissão da informação.

Em resultado da consolidação deste oligopólio assistimos à tendência para a conformação de uma Internet subjugada a sofisticados mecanismos de selecção e filtragem de conteúdos, constituindo, em alguns casos, formas insidiosas de censura automática através de complexos algoritmos, tais como a ocultação de resultados de busca no Google, a desmonetização de conteúdos no YouTube ou ainda a utilização de técnicas de ghost-deleting no Facebook, no Twitter e nos espaços de comentário em inúmeras plataformas digitais.

A eficácia destes mecanismos deriva directamente da desfragmentação do factor humano na mediação do conhecimento através da Internet, onde os blogues constituíram, no passado recente, um exemplo particularmente bem-sucedido de debate público, divulgação e confronto de ideias. Perante os riscos que tal introduz, em concreto pela perda de uma curadoria humanizada do saber, importa mais do que nunca resistir ao predomínio da cultura do mínimo denominador comum, dos gostos e das partilhas das redes sociais, ou à imposição de restrições ao pensamento em função daquilo que corporações privadas julgam ser ou não aceitável.

Se os blogues deixaram de fazer sentido enquanto fenómeno mediático do momento – que porventura nunca voltarão a ser – talvez o seu papel enquanto espaço de resistência crítica seja hoje mais relevante do que nunca, na arquitectura e em tudo aquilo que nos rodeia. Num tempo em que múltiplas crises se intersectam, um pouco por toda a parte, é ainda mais urgente instituir referências de saber que nos permitam em conjunto, de forma colaborativa e livre, vislumbrar o sentido do mundo, sempre tão difícil de conhecer e interpretar.

Dos algoritmos enquanto construtores de mundos


Imagem: Javier Jaén.

No dia 19 de Dezembro de 2013 o conhecido blogger Jason Kottke decretava a morte dos blogues, sinalizando o declínio social e mediático da blogosfera perante a ascenção das redes sociais.

O aparecimento das plataformas globais de comunicação em rede, tais como o Facebook ou o Twitter, ditou muito mais do que o ocaso do fenómeno blogue. Mais do que a sua perda de relevância enquanto lugar de produção de conteúdos, até aí com grande expressão nos agregadores de informação da rede, estava em causa o declínio do formato cronológico invertido que se havia tornado quase universal na internet partir de 1997, em benefício da adopção de algoritmos automáticos de selecção de conteúdos.
Esta alteração de paradigma viria configurar uma profunda revolução na forma como nos relacionamos com a informação no mundo online. Neste novo ecossistema da internet os conteúdos são valorizados sem interacção humana directa tendo por base um grande conjunto de variáveis: o número de “gostos”, comentários e partilhas de uma publicação, mas também inúmeros factores de selecção e quantificação só conhecidos para os proprietários destas plataformas.

Nesta paisagem corporativa da comunicação global sistemas complexos de análise de dados categorizam os utilizadores definindo o seu perfil específico, seja a partir das coisas que escrevem, gostam e partilham, mas também a partir da rede de amigos que construíram, das páginas que subscrevem e até dos sítios que simplesmente visitam (onde o perfil da rede social seja usado como forma de registo ou identificação).
Sendo capazes de estabelecer um retrato particular de cada utilizador, abrangendo campos muito diversos do seu universo de interesses, as redes sociais conseguem também oferecer uma experiência de utilização específica, diferente para todos e dedicada a cada um de nós. Desta forma, os algoritmos tornaram-se muito mais do que meros auxiliares de selecção e valoração de conteúdos num mundo saturado de informação. Em boa verdade os algoritmos são agora verdadeiros construtores de mundos, capazes de fabricar bolhas individuais onde vemos cada vez mais aquilo que queremos ver mas onde nos é filtrada a diversidade da realidade exterior. Trata-se de um fenómeno sem precedentes cujas implicações culturais à escala global são ainda desconhecidas e difíceis de prever.

Tendo presente este cenário emergente torna-se particularmente preocupante verificar que a maioria dos utilizadores das redes sociais – mais de 75% no caso do Facebook – desconhece que os “murais” de leitura são automaticamente filtrados por algoritmos e apenas uma pequena minoria sabe utilizar os mecanismos de edição dos parâmetros de visualização. Está em causa não apenas aquilo que nos é dado a ver mas também as publicações que nos são ocultadas segundo critérios que desconhecemos e sobre os quais não dispomos de qualquer possibilidade de escrutínio.
Temos assim que a este desconhecimento generalizado se soma a opacidade que as plataformas de social media assumem relativamente ao modo como processam a informação pessoal e social dos utilizadores. Afinal, apenas o Facebook, e mais ninguém, sabe como o seu algoritmo escolhe as “melhores histórias” e oculta o que não nos quer dar a ver.

O que está em causa na transformação profunda que teve lugar na internet na última década é um grave abandono do factor humano na curadoria do conhecimento sobre o mundo que nos rodeia. Vivemos rodeados de filtros digitais que nos proporcionam “redes egocêntricas” e nos gratificam a cada passo. Se os blogues eram um deserto, as redes sociais são um laboratório de optimização de interacções. Eis o último estágio do capitalismo aplicado à nossa vida social: um poderoso sistema de estímulos que proporciona “gostos” instantâneos e partilhas fáceis, mas que oculta os mecanismos, os motivos e os interesses que estão por detrás do “mural” que coloca em frente aos nossos olhos.

Uma mão-cheia de Tumblr-blogues portugueses

Image credits: Artur Pastor.

O Tumblr continua a ser uma das mais fáceis plataformas para construir e gerir um blogue. Com os anos tornou-se também um ecossistema muito particular dentro da blogosfera, sendo ocupado por gente um pouco desalinhada dos modelos correntes de participação nos blogues e nas redes sociais. Vale a pena percorrer os seus recantos em busca de inúmeros autores portugueses que fazem daquele o seu espaço de expressão pessoal. Esta é só uma pequena amostra…

Lisboetas é a página institucional dirigida pela Câmara Municipal de Lisboa que se dedica a partilhar detalhes da vida da cidade. Tem por base um vasto conjunto de fotografias do acervo municipal, imagens antigas e contemporâneas captadas por autores diversos, postais e publicações ilustradas, entre outras fontes.

Artur Pastor, o blogue dedicado a este fotógrafo português nascido em 1922, dá a conhecer o rico espólio fruto do seu trabalho que foi adquirido, quase na sua totalidade, pelo Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa, em 2001. Os arquivos fotográficos de Artur Pastor contêm largos milhares de fotografias, a preto e branco, diapositivos a cores e negativos a cores. Para além da cobertura de todas as regiões continentais e insulares do país, constam colecções de várias províncias de Espanha e Itália e das cidades de Paris e Londres.

Old old Lisbon Project, fotografias e memórias da cidade de Lisboa.

Sombras de Alguém, uma colecção de rolos por revelar encontrados dentro de máquinas antigas e de negativos perdidos da feira da ladra. Sim, é tão bom como a descrição faz supôr.

Ilustração Portuguesa, dedicado a partilhar digitalizações de revistas antigas.

The Portuguese Affair, depositário de imagens relativas a Portugal.

Danny Ivan, um super-talentoso artísta gráfico português.

Novas Palavras Novas, palavras novas, basicamente. Este têm mesmo de ver!

Alexandre Farto (aka Vhils), o Tumblr do street artist português que toda a gente sabe quem é.

Get This Fresh One!, arte urbana nas ruas de Lisboa.

E estes – fotoblogues, artísticos, temáticos, pessoais, há de tudo um pouco – entre tantos, tantos outros: FotoBen (do meu amigo Benjamim Silva), Farinha Amparo, Chainho Photography, Pedro Quintas, The Tilerist, I Love Bairro Alto, Under a Warm Light, Chasing After Magic, The Seven Hills Of Lisbon, C5S, Andrezfilipe, Secondlook, Mariana Valle Lima, Plain And Pale, Ivan Saraiva, Andrajos, Formas Críticas, Lisboa.Drogada, Nada Acontece, Fila Indiana, Mesineto, Something Different From This, A Tartaruga Nos Alpes, Erosion And Regeneration, Água, Mariana, A Miserável, Cataplano, Ilford Street, Joana Estrela, Joana Avillez, Luis Cavaco, Quebra-Costas, Lisboa, Menina e Moça, O Meu Colega De Casa Mudou-se E Eu Criei Um Blog

E para descobrir muitos mais, nada como acompanhar O Blogue [oficial] da Equipa do Tumblr de Portugal.

O estranho caso de Shia Labeouf



O presente é um sintoma do nascimento gémeo do imediatismo e da obsolescência. Hoje, somos tão nostálgicos como somos futuristas. A nova tecnologia permite-nos experimentar e actuar simultaneamente sobre os eventos de uma multiplicidade de posições. Longe de assinalar o seu fim, a emergência das redes facilita a democratização da história, iluminando os caminhos bifurcados através dos quais grandiosas narrativas poderão sulcar o aqui e o agora.

Luke Turner, «Metamodernist Manifesto».

Um actor sentado na plateia de uma sala de cinema na baixa de Manhattan durante três dias, visualizando todos os filmes em que participou, em ordem cronológica inversa. Uma câmara apontada a si transmitindo em directo para a internet, em directo para o mundo. A indiferença, o cansaço, as gargalhadas, as lágrimas.
Espectadores vêm e vão aleatoriamente, entrando e saindo do cinema. Lá fora, o passa a palavra das redes sociais começa a motivar uma extensa fila de curiosos. As sessões são gratuitas, limitadas apenas à lotação da sala. Para os que entram não existe qualquer obrigação de sair. Podem ficar durante quinze minutos, ver um filme inteiro ou acompanhar a maratona cinematográfica até ao fim.

Ocasionalmente, o protagonista da experiência levanta-se e sai. Num momento, depois de longos esgares de explícito enfado perante um dos seus filmes, ergue-se para se ir deitar no corredor de acesso, ao fundo da sala. Alguns espectadores lançam sobre o seu corpo adormecido olhares de interrogação.
Noutros momentos a sua face preenche-se de emoção. Risos, lágrimas, olhares de profunda nostalgia, silêncios. Durante uma ausência, um casal de duas jovens senta-se, uma ao colo da outra, numa cadeira um pouco atrás. Olham para a câmara. Riem-se. Depois, uma delas, de cabelo verde, escreve ou desenha algo numa folha de papel e deposita-a na sua cadeira vazia, como mensagem, antes de sair.

Há algo de fascinante em #ALLMYMOVIES, uma nova experiência social de Shia Labeouf, fruto da sua colaboração artística com o grupo Labeouf, Rönkkö & Turner . Os mais cínicos dirão que se trata de mais um artifício sensacionalista em busca de exposição gratuita. Mas parece-me que encontramos ali um homem à procura de si próprio, depois de uma fase de declínio pessoal, sob a luz implacável dos holofotes mediáticos. Um homem que decide confrontar-se com o seu trabalho à vista de todos, sem filtro, sem máscara.
Possa este espírito desalinhado superar os fantasmas que o têm atribulado nestes anos, da dependência e da violência, para ocupar o lugar que o seu talento e o seu carisma tanto merecem.

Facebook: pensar antes de usar

Image credits: Jaya Nicely.

O que Zuckerberg não gosta é que alguém questione, não exactamente a legitimidade do seu negócio, mas as implicações práticas, simbólicas e políticas do Facebook. Comporta-se mesmo como um fabricante de automóveis que, socorrendo-se de uma verdade insofismável – todos os cidadãos tiram ou podem tirar gratificantes vantagens dos veículos fabricados – recusasse qualquer tipo de responsabilidade na poluição do planeta.

João Lopes, Sound + Vision: Amigos e inimigos do Facebook, 2014-11-14.

A todos os homens é dada a chave dos portões do céu. A mesma chave abre os portões do inferno.

Richard Feynman, The Meaning of It All: Thoughts of a Citizen Scientist, 1998.

No final do ano passado o Facebook contava com cerca de 1230 milhões de utilizadores activos, dos quais 757 milhões acedem à rede social todos os dias.

A esta realidade somam-se outros dados relevantes: uma sondagem ao universo de cidadãos norte-americanos permite-nos saber que 64% dos adultos utilizam o Facebook e, destes, metade utiliza o site como fonte de acesso a notícias – o que corresponde a um terço daquela população.

Um olhar mais detalhado aos números permite-nos concluir que apenas uma parte (38%) deste último grupo afirma considerar o Facebook como fonte principal de informação. Importa no entanto ter em conta que estamos perante um fenómeno tendencialmente crescente e que o número de utilizadores que tem nessa página o veículo central de acesso a notícias aumenta à medida que vamos considerando a população mais jovem.

O peso do Facebook como fonte de tráfego dos sítios web de meios de comunicação é assim cada vez maior e tem influência na própria produção dos conteúdos jornalísticos. Os artigos tendem a ser escritos e intitulados tendo presente a repercussão potencial que vão ter na internet e, em particular, nas redes sociais. A título de mero exemplo, publicar que [Angela] Merkel diz que Portugal tem demasiados licenciados não é o mesmo que referir que Angela Merkel defende aposta no ensino técnico especializado – sendo a última asserção mais próxima do justo relato dos factos.

A verdade é que o Facebook vem contribuindo para uma progressiva e persistente degradação do jornalismo ou, pelo menos, de algumas formas de jornalismo que vão ganhando visibilidade ao recorrer a processos de apelo ao sensacionalismo e à emoção.

O problema decorre, em primeiro lugar, dos mecanismos de funcionamento do próprio Facebook. Com a perda de expressão dos blogues, as principais páginas da internet abandonaram o célebre formato cronológico-invertido para adoptarem algoritmos automáticos de valorização de conteúdos tendo por base o número de “gostos”, comentários e partilhas. Ao impulsionar esse modelo de publicação, o Facebook está efectivamente a retirar aos utilizadores o controlo sobre aquilo que vêem.

O resultado é uma rede que valoriza o que é mais popular mas despreza a unicidade daquilo que é especial. As distorções surgem pela prevalência de conteúdos mais apelativos e populares, favorecendo o clickbait e desvalorizando histórias com mais conteúdo e melhor qualidade. Como consequência, o público deixa de ver muitas coisas publicadas pelos seus contactos ou pelas páginas que os utilizadores estão voluntariamente a “seguir”.

O caso torna-se ainda mais controverso quando o algoritmo do Facebook valoriza outras páginas e outras publicações mediante o seu próprio sistema de monetização. Como seria de esperar, os posts pagos são considerados preferencialmente na escala de relevância, ganhando maior visibilidade.

O ecossistema que resulta desta conjugação de populismo e publicidade tem dado lugar a sites de pseudo-notícias que abandonaram qualquer referência de ética de conteúdo, tendo por fim alcançar o máximo retorno financeiro possível. Quanto mais escandaloso ou sensacional for o título, mais provável será a hipótese de receber “gostos” e partilhas. Para essas páginas o único objectivo é alavancar as suas visualizações – sendo certo que quantas mais visualizações obtiver, mais será o revenue alcançado por via da publicidade.

Mas se é verdade que o Facebook é o principal catalisador deste processo, a responsabilidade última impende sobre os utilizadores que adoptam a rede social como meio de acesso priviligiado a notícias e se submetem acriticamente aos seus processos de selecção automática.

Acompanhando o desvanecer da cultura blogue, muitos dos novos internautas deixaram de construir os seus próprios canais de recolha de informação através de feeds criteriosamente seleccionados, para passarem a ter nas plataformas pré-formatadas das redes sociais a sua principal experiência web. Ao fazê-lo, os utilizadores estão a abdicar da possibilidade de tornar a internet numa poderosa fonte de informação seleccionada e editada por si, para mergulharem num mundo caótico de sensacionais irrelevâncias e conteúdos pagos, sem critério e sem fim.

O resultado último é uma desqualificação da experiência pessoal, tornando a cultura web e o jornalismo refém das regras impostas por corporações privadas com os seus algoritmos e prioridades publicitárias.

Como quase tudo o que envolve a evolução da tecnologia o Facebook é uma plataforma com enorme potencial, tanto para o bem como para o mal. Cabe a cada um construir a sua rede de conteúdos ou ser vítima das regras impostas pela própria rede. No entanto, num mundo em que a internet será absolutamente intrusiva para as próximas gerações, parece estar ausente de qualquer discussão social a necessidade de uma educação para a vida online. Como tudo aquilo que evolui "por defeito", as tendências que estão já no terreno não permitem acalentar grandes esperanças.

A história de Aaron Swartz



The Internet’s Own Boy é um documentário que dá a conhecer o percurso de vida de Aaron Swartz. De jovem prodígio da informática – com participação no desenvolvimento do protocolo RSS e na fundação da rede Reddit – a activista pela liberdade de acesso à informação na internet, tendo tido uma acção decisiva na campanha Stop Online Piracy Act.
Aaron Swartz foi alvo de um processo judicial por ter descarregado elevadas quantidades de informação da JSTOR, uma base de dados de trabalhos académicos de acesso pago. Apesar da desistência do processo por parte da JSTOR as autoridades federais americanas prosseguiram com a acusação, com uma condenação potencial de 35 anos de prisão e mais de 1 milhão de dólares de multa. A pressão colocada sobre Swartz levá-lo-ia ao suicídio em Janeiro de 2013.
O documentário sobre a sua vida é também um trabalho fundamental para compreender as tensões que pendem sobre a internet, entre a possibilidade de acesso ilimitado à informação e o seu condicionamento por corporações que dominam os principais veículos de navegação na rede. Legendas disponíveis em inglês e espanhol.

Facebook redesign: the most important change that nobody noticed


Is the Facebook trending algorithm ruling your social web experience?

Blogs are dead, Facebook is dying, and the machines are taking over. That seemed to be a popular theory just a few months ago. Now, maybe these ill-fated feelings resonate with the idea strongly rooted in western culture that if something isn’t growing, it’s necessarily dying. But it does raise interesting points for debate.

As Jason Kottke stated in a later post, blogs aren’t really dying. They have, however, lost their former relevance as content providers for news pages and feed aggregators. Blogging has become an enclosed ecosystem, operating internally within its own sphere. More importantly, the blog format, the iconic reverse-chronological stream that became an almost universal reference of web-page design, is being replaced by automatic trending algorithms.

Pages like Facebook, Twitter, Pinterest, use complex algorithms to determine what topics are trending in the moment. That means that posts, or entries, are attributed a degree of importance that is determined automatically, based on the number of “likes”, “comments” and “shares” that they receive.

The problem is that things may not be as transparent as they seem. In the case of Facebook, trending has been the default visualization mode for some time now. The option to view entries in chronological order was available at the top of the news feed, making it plainly visible. However, it didn’t seem to memorize your preference. Once you logged back in, it reverted to Facebook’s default option.

The recent redesign brought by Facebook introduced a curious subtlety. This option is still reasonably accessible, but it is hidden in the news feed button, making it less obvious for many users. Also, once you choose the chronological option, a message appears at the top of the stream, and stays there, advising you to go back to what it considers “the most important” posts.

What does this mean? It means that Facebook is subtly imposing its trending algorithm on you. This is a profound transformation of the way we’ve been accessing information on the internet. It values what is most popular, but disregards the uniqueness of what is special. As a consequence, you will not see many of the things that are being posted by your friends or the pages you follow. And it gets worse. Facebook’s monetization system allows pages to pay small fees to promote their posts and access a wider range of users. As expected, paid posts will be valued preferentially by its algorithm. Veritasium has an interesting analysis of this problem.



Because most people tend to use Facebook’s default visualization option, it allows Facebook to manipulate its criteria of relevance to leverage its business model. It seems to do so by imposing a curious mechanism: as a page grows in followers, its posts seem to reach less and less users, in relative terms, “inviting” page owners to promote their posts, paying Facebook’s fees. Such system, of course, wouldn’t work if every user chose the reverse-chronological visualization option.

Which raises a fundamental question: should we allow trending algorithms to determine the way we access information online and ultimately rule our internet experience?

Facebook as a formative aesthetic experience


Over one billion people stare at the same screen everyday, but what does it mean? Scroll down to read this text in English.

Mais de mil milhões de utilizadores passam tempo no Facebook, todos os dias. Isto significa que todas estas pessoas contemplam e interagem com o mesmo interface gráfico, repetidamente, por todo o mundo. Esta realidade esmagadora – o facto de um tão vasto e diverso universo de pessoas partilhar a mesma plataforma – traz consigo diversas consequências.

Gostem ou não, o “template” do Facebook é uma parte da vossa vida. É um ecossistema cultural que condiciona a vossa experiência “social” na internet através do design gráfico e do seu conjunto de funcionalidades. Tal como um condutor experiente não precisa de “pensar” sobre o acto de conduzir um automóvel, também já não perdemos tempo a pensar em como se fazem as coisas no Facebook. Simplesmente “fazemo-lo”. Para o Facebook, isto implica que quaisquer modificações têm de ser introduzidas de forma prudente.

Em todas as vezes que o Facebook sofreu alterações, os utilizadores queixaram-se. Quando se trata de grandes plataformas online, a mudança é sempre indesejada. Os utilizadores odeiam o inesperado e fazem ouvir a sua voz quando ele acontece: Para onde foi aquele botão?
Para grandes corporações como o Facebook, esta sociologia complexa impõe restrições à sua evolução. As mudanças têm de encaixar no mais largo denominador comum. Elas têm de ser acessíveis e compreensíveis por todos, dos adolescentes aos idosos, daqueles que cresceram com os computadores a pessoas que só utilizaram a internet para estar no… Facebook. E é por isso que coisas assim não podem acontecer.

No que respeita ao avanço da cultura web contemporânea, este é um problema com implicações sérias. As massas da internet tornaram-se conservadoras. Elas não gostam e não desejam o “novo”. Em oposição ao que aconteceu na era dourada dos blogs, quando estes eram desenhados e celebrados em todos os formatos e cores, esta nova paisagem da internet é estática e constrangida. Tende para a não evolução, não devido a limitações técnicas, mas porque estas plataformas têm medo de alienar a sua vasta base de utilizadores.

Over one billion active users spend time on Facebook, every single day. If you think about it, that means that all these people are persistently staring and interacting with the same graphic user interface, all over the world. This overwhelming reality – the fact that such a wide and diverse population shares the same platform – has many implications.

Wether you like it or not, the Facebook template is a part of your life. It’s a cultural environment that conditions your social experience through its design and its particular set of functionalities. Just as an experienced driver doesn’t need to “think” about driving, you don’t need to worry about how to do things on Facebook anymore. You just “do it”. For Facebook, it means that it can’t change its features lightly.

Every single time Facebook introduced changes to its user interface, people complained. When it comes to popular internet platforms, change is always unwelcome. Users hate the unexpected and they will become vocal about it: Where did this button go?
For huge companies like Facebook, this complex sociology imposes severe restrictions to evolution. Changes must fit the highest common denominator. They must be accessible and understandable by all, from teenagers to senior citizens, from people who grew up interacting with computers to people who have only used the internet to be on… Facebook. That’s why things like this can’t happen.

When it comes to the advancement of contemporary web design culture this presents a problem with serious implications. The internet masses have become fiercely conservative. They don’t like and they don’t desire the “new”. In opposition to what happened in the golden age of blogging, when blogs where being designed and celebrated in all shapes and colors, this new internet landscape is static and constricted. It’s not evolving, not for technical limitations, but because these platforms are afraid of alienating their wide user base. Fear is in the lead and all the big players are treading lightly.

Descoberto num leitor de feeds

Descubro no Horizonte Artificial um interessante conjunto de notas sobre o Google Reader. O Pedro disseca os meandros desse submundo dos blog-junkies em números. Lembra-nos, a título de exemplo, que A Pipoca Mais Doce tem 8.000 subscritores no Reader e 105.000 fãs no Facebook – números actualizados por mim.

O Pedro tem razão. E se, como ele diz, a melhor forma de acompanhar um blog continua a ser visitando-o e alimentando o seu dono (com comentários, likes e links), a diferença esmagadora que separa aqueles universos fala-nos da transformação da paisagem da rede e da queda da blogosfera enquanto palco central de conversação. Estamos a passar de um tempo em que buscávamos a informação ao nosso ritmo – guardada nos arquivos de um blogue – para um outro tempo em que a informação acontece no directo da rede social.

Também os leitores de feeds não são mais apenas espaços para ler mas plataformas para o broadcasting, gostando ou partilhando no Facebook, no Twitter, no Tumblr à distância de um clic. Estamos todos a emitir nesta nova paisagem onde tudo é “aqui e agora”. Em que estás a pensar? – pergunta o Facebook. O pensamento é substituído pelo comentário. Quanto hits, likes e shares vale, afinal, um leitor?

Google ur doin it wrong


O leitor de feeds Google Reader vai ser desactivado a partir de 1 de Julho de 2013. Este texto só está disponível em Inglês.

Lack of users, Google says. That seems to be the main reason presented by the Big G to explain the decision to power down Reader. Well, I could be wrong but when your worldwide community of users goes so berserk that “google reader” becomes a bigger Twitter trend than “pope” on Pope election day, something just doesn’t add up.

I thought you had to be a genius to work on Google. Don’t you need a NASA-level IQ just to pass that admission test. Maybe it’s all those fancy offices. Too much time staring at aquariums and lava lamps.
So, usage of Google Reader has declined. Well, boo-hoo, why don’t you get your head out of your ass and do something about it? Nobody expects an eight year old platform to remain static forever. But to shut it down? I mean, you have an online infrastructure accessed daily by millions and millions of users, multiple times a day, and all you can do is say well thank you ladies and gentlemen, please proceed to the nearest exit as we’ll be shutting our doors on July 1st. Really?

Reader is just the next victim in Google’s strategy to build its own social network. It just doesn’t fit FaceGoogle. Reader is declining because resources have been slowly pulled away instead of making it a platform for innovation. And now, Google’s final answer is to alienate instead of integrate.

We’ve seen it before in late 2011 when Google+ was introduced. By then, Reader endured a visual upgrade but was amputated of one of its most important functionalities: sharing.
From that point onward Reader navigation became a much more opaque experience, with users forced to share items on Google+. Its former greatness relied on the possibility to track someone’s shared items. Everyone could signal/share articles from a specific field of knowledge, and these were free to follow on your own subscriptions feed.

In opposition to the once open landscape of Reader, we were forced to navigate in the enclosed rooms of G+. Now, Google just discards it altogether, sustained by the argument that “normal people” don’t use it; they don’t even know what rss is! The dictatorship of the “normal people” is just the expression of a culture that sees users as numbers instead of people.
Google has become one of those corporations building private walls on the vast space of the internet, closed in circles. And the simple truth is this: the Google we once knew and loved just doesn’t exist anymore.

Entretanto na Internet

Levanto o olhar do meu estado blogocatatónico e dou por mim nomeado como potencial blogue de arquitectura do ano 2011! Parece que não sou o único a perplexificar com estes fenómenos mas o caso torna-se mais grave quando me vejo à beira de ser vencedor da coisa! Kapow!

O que dizer?! A primeira conclusão, num ano em que escrevi pouco e quase nada de arquitectura, é que a concorrência é mesmo má, ò senhores… Segunda hipótese, mais simpática, é que talvez andem por aí trezentos leitores a comunicarem-me sub-repticiamente o quanto gostariam que eu voltasse a escrever sobre… arquitectura.
Vocês…

Estas coisas dão trabalho e não tenho dúvidas quanto às boas intenções do Aventar. Vale no entanto a pena fazer a pergunta: para que serve hoje um concurso de blogs? A blogosfera não é um concurso de misses e a suposta democracia das votações degenera rapidamente numa prova de popularidade. A categoria de arquitectura é um bom exemplo. Para lá de umas esfregas no ego isto interessa a quem? Quem era afinal o melhor blogue de 2010 ou 2009… Ãn?... Pois, é exactamente isso!

Os leitores votam no que lhes é mais próximo ou mais reconhecível. No meu caso tenho o retorno de um tempo em que este blogue tinha mil leitores por dia e mordia os calcanhares do top 50 do blogómetro nacional, escrevendo regularmente sobre, pasme-se, arquitectura e urbanismo. Ao meu fã número 1 da internet digo apenas: não tenho de pedir desculpa por isto, pois não?

Bem mais interessante do que ver os nomeados ou quem vai ganhar é observar a paisagem da blogosfera que aquelas listagens nos revelam. Encontramos por ali alguns blogues individualmente bons mas temos também a evidência de uma ausência de “rede”. Pondo de parte o espaço da actualidade política onde a reciprocidade raras vezes é salubre aqueles círculos comunicam pouco ou nada entre si. A pouco e pouco os entusiastas da blogosfera perderam a motivação ou fecharam-se dentro dos seus hubs, escondidos do mundo lá fora. E já não querem saber do sitemeter

Talvez a blogosfera esteja mesmo em perda como vaticina o jornalismo a sério. Mas o blogging não se mudou para as redes sociais. O Face, dizem, é bom para o engate. O IRC dos totós: age, sex, location? Mas no Facebook e no Google+ não resta uma pequena amostra do que era o blogging desinteressado feito por cromos motivados por coisas tão simples como: gosto disto e quero que o resto do mundo goste também!

Melhor do que fazer o concurso do que todos gostam seria devolver um pouco desse entusiasmo à blogosfera, hoje tomada de assalto por um milhão de cínicos que nunca hão-de construir um lugar onde alguém deseje estar. Talvez por isso goste de passar algum do meu tempo na blogosfera alternativa onde cromos que gostam de coisas parvas se encontram com outros cromos e fazem uma grande festa. Não, não me vou embora ainda…

Google+ …It’s like a circle

Não se sabe ao certo quantas pessoas usam o Google Reader mas o que consta é que o número de utilizadores activos anda na ordem das dezenas de milhões. O mais popular leitor de feeds do mundo deu origem a uma das comunidades silenciosas mais dedicadas e fiéis da rede. O motivo é simples: o Reader é o modo mais fácil e rápido de ler e partilhar posts, permitindo separar aquilo que é interessante da corrente de irrelevâncias que circulam na internet todos os dias.

Infelizmente, na guerra entre a plataforma social Google+ e o Facebook, os utilizadores do Reader tornaram-se as primeiras vítimas. A propósito da sua integração no G+, o Reader sofreu um upgrade visual mas perdeu uma das suas funções mais interessantes: a partilha. A partir de agora, partilhar posts passa a ser feito no stream do G+, um pouco à imagem do que acontece no Facebook. Como é que isto me afecta? De várias formas…

Em primeiro lugar significa o fim da minha página de itens partilhados, acessível logo na barra de topo do blogue, porque a partir de hoje é impossível adicionar novos shares. Deixo assim de poder seguir as listas de partilha das pessoas que me interessam – e elas deixam de poder seguir a minha lista. Por fim torna nulo o bloco de itens partilhados actualizado automaticamente que aparece no início da barra lateral do blogue (Shared / Referências).

A navegação no Reader torna-se agora uma experiência opaca, obrigando os utilizadores a partilhar no G+; é o que o Google quer afinal. E o que há de errado com isto? É simples. Se começamos todos a utilizar o stream do G+ para partilhar ligações aquilo tornar-se-á muito rapidamente numa torrente de spam. A listagem de shares do Reader tinha a vantagem de ser seguida de forma voluntária por quem a quisesse seguir. Mas o G+ obriga a escolher os círculos de partilha – ou seja, acarreta mais trabalho para o utilizador. Ou então resta partilhar sempre como Public e correr o risco de aborrecermos toda a gente com as nossas ligações favoritas, sejam grandes obras de arquitectura ou gatos fofinhos.

A integração do Reader no Google+ foi, afinal, uma desintegração. Grande parte do interesse do Reader era a facilidade de partilhar e a possibilidade de seguir as partilhas de quem quiséssemos – pessoas de interesse numa determinada área profissional, por exemplo. E o melhor desse sistema era tratar-se de uma comunidade voluntária de pessoas que decidiram subscrever o teu sharing feed, e vice-versa.
Agora passaremos a partilhar em círculos, ou seja, seremos levados a bombardear os outros com shares o que tornará o G+ num novo Facebook. E o problema do FB é esse mesmo, não haver subscrição e recebermos os shares de toda a gente que encontrámos na rede.

Contrariamente à paisagem aberta do Reader passaremos a transitar no espaço fechado do G+, mais um desses mundos de fronteiras que se está a erguer na rede. E, afinal, é disso mesmo que se trata. Estamos a assistir ao fim de uma era de internet aberta. Dentro de pouco tempo estaremos todos fechados em círculos. It’s like a circle…

Entretanto, na Internet



Esta infografia sobre o Facebook circulou recentemente pela internet. Entre os muitos dados que ali se apresentam está o retrato de uma plataforma online em crescimento exponencial com 500 milhões de utilizadores activos, cerca de uma em cada treze pessoas do planeta.

Alguns dados curiosos a reter: metade dos utilizadores com idades compreendidas entre os 18 e os 34 anos consulta o Facebook quando acorda e 28 % acede a esta rede social a partir do seu telemóvel antes de se deitar. Mas talvez a informação mais surpreendente seja aquela que se destaca na imagem acima: metade dos jovens americanos consultados afirmaram ter acesso às notícias a partir do Facebook.
São dados estatísticos que passaram pela rede como mera curiosidade, fenómeno recorrente num meio dominado pela sobrecarga de informação. E, no entanto, o que está em causa é uma alteração de um paradigma de comportamento no relacionamento do público com o meio jornalístico que vai muito para lá da discussão sobre os suportes físicos, da migração do formato papel para os meios digitais.

Mais importante do que reflectir sobre a adaptabilidade dos meios jornalísticos convencionais a novos interfaces tecnológicos será questionar alterações da lógica comportamental na pesquisa de informação. Perante isto importa pouco discutir a reconversão gráfica dos jornais ao monitor dos tablets e dos e-books, como se esse fosse o real desafio presente aos media informativos. Porque o crescimento desta tendência, indiscutível e talvez inevitável, representa uma real ameaça ao estatuto do jornalismo de base editorial. No Facebook o utilizador constrói, a partir da sua rede de conexões, o seu próprio algoritmo de selecção noticiosa, custom-made, aleatório, muito mais permeável a lógicas de popularidade e de tabloidismo do que ao escrutínio daquilo que é relevante ou importante.

Que espaço restará então para o enquadramento da complexidade dos factos, submersos na torrente de links e de likes, quando a notícia for substituída pelo vídeo bombástico e o pensamento submergir ao ruído irreflectido da rede?

Nação Facebook



Estive a ler a edição da Time dedicada a Mark Zuckerberg, seleccionado para Pessoa do Ano 2010 e criador da rede Facebook, actualmente com mais de 500 milhões de utilizadores activos. No retrato que faz deste génio da era digital, um jovem de 26 anos, a revista americana levanta algumas questões profundas sobre o futuro da Internet na era pós-Facebook. Está em causa uma transformação avassaladora cujos efeitos não são ainda inteiramente perceptíveis mas que em breve poderão tornar-se dominantes do modo como se processa o cruzamento de informação na rede.

Na nação Facebook todos somos amigos. Ao contrário da blogosfera, que pode ser uma paisagem desoladora para quem escreve, o que ali se oferece é uma plataforma de gratificação imediata. O que ali se publica acede imediatamente ao mural do nosso grupo de relações. Os nossos amigos estão sempre lá, prontos para ler, gostar e comentar. Ao contrário da versatilidade que encontramos nos blogues, o formato Facebook presta-se ao browsing rápido e instantâneo. Pouco se escreve ou lê, mas torna-se fácil disseminar informação porque o contágio entre núcleos de amigos tem projecção exponencial.

A filosofia de Zuckerberg para o futuro da rede apresenta um factor novo e intuitivamente inteligente. Que para o utilizador, mais importante do que ver um vídeo do YouTube gostado por milhares de internautas anónimos, é encontrar o vídeo preferido de quem nos é próximo – as preferências dos nossos amigos. O Facebook apresenta-se assim como um novo padrão de referência daquilo que é relevante segundo uma lógica de proximidade.
A isto soma-se um segundo mecanismo, já em rápida implementação, que constitui a possibilidade de login automático em outras plataformas da Internet. O utilizador do Facebook pode agora aceder ao site da Time ou da CNN e gostar dos conteúdos que lá encontra, referenciando-os instantaneamente no seu mural e, consequentemente, dando-os a conhecer aos seus próprios contactos. Isto revela o verdadeiro potencial financeiro do Facebook e o seu apelo ao mundo comercial da rede, porque todos terão interesse em tornar-se acessíveis a uma plataforma de divulgação com 500 milhões de utilizadores potenciais.
Como contrapartida, estes sites irão ganhar acesso às características do utilizador do Facebook, aos seus gostos e preferências, permitindo-lhes afinar o target de conteúdos ao seu perfil específico; factor particularmente importante no domínio da publicidade.

O que está em causa é uma transformação radical do modo de navegação individual na rede e na filosofia de privacidade que dominou a Internet até à actualidade. Dir-se-á que tal modo de navegação é opcional. Podemos sempre recusar ou controlar a utilização do Facebook, ser selectivos nas escolhas do que gostamos ou partilhamos. Mas para uma nova geração de utilizadores, este poderá tornar-se o modelo cultural de navegação dominante da Internet. Os futuros internautas vão querer partilhar e vão querer que os outros gostem do que eles gostam. Não vão conceber o mundo de outra maneira. E neste processo vão construir, intuitivamente e durante a vida inteira, o seu perfil de gostos e preferências, propriedade da Facebook Inc. Private Company Information.

É a vitória derradeira do Big Brother. Tornar-nos a todos, voluntariamente, nos seus próprios agentes.

Da blogosfera para a atmosfera

De que falamos quando falamos sobre os blogues? Como encarar essa constelação tão diversa de conteúdos que tem em comum o facto único de partilhar uma imensa infra-estrutura de conexões em rede?
Se falamos das vicissitudes da blogosfera portuguesa, então tratamos de um assunto bem específico e distante do emaranhado dessa rede interminável. Num panorama onde nunca se afirmou uma cultura ou uma ética blogue, o espaço online tornou-se na caricatura de uma horizontalidade sem referências que vai dando corpo a uma devastadora terraplanagem intelectual, um espaço de relativização absoluta onde tudo vale o mesmo e já nada tem valor. De resto, até o diálogo assertivo e recíproco se revela tantas vezes uma impossibilidade real. A blogosfera nacional alimenta-se do conflito, de uma dissimulação identitária que se exprime no acknowledgment do grupo, meras lógicas de rejeição ou colagem que nada têm de expressão intelectual ou troca de opinião. Nesse território opaco até a hiperligação vai sendo negligenciada, perdendo-se aquela que é uma instituição única da rede quando comparada com outros suportes de comunicação: a capacidade de estabelecer ligações.

A esse respeito, e sobre as particularidades com que o fenómeno dos blogues se instalou em Portugal, Pacheco Pereira apresentou um retrato da paisagem que nos rodeia:

Não é por se usar a mesma ferramenta de software que os americanos, brasileiros, japoneses e chineses que deixamos de ser portugueses, de levar para lá o nosso mundo exterior. Não somos ricos na Rede se somos pobres cá fora, não somos sofisticados em linha, se somos trogloditas cá fora, não sabemos mais e pensamos melhor nas páginas do Blogger do que pensamos cá fora, nos cafés de província, ou no Bairro Alto ou no Lux ou nas páginas dos jornais, não se é cosmopolita lá dentro se se é provinciano cá fora, não se é subserviente cá fora e independente no ecrã diante do computador, não se é burro cá fora e inteligente lá dentro.
O que se passa é que esse verdadeiro mostruário em linha, feito de mil egos à solta, revela mesmo a nossa pobreza, a nossa rudeza, a falta de independência face aos poderosos, grandes, pequenos e médios, os péssimos hábitos de pensar a falta de estudos e trabalho, de leitura e de "mundo", que caracterizam o nosso "Portugalinho". Nem podia ser de outra maneira. Com a diferença que nos blogues o retrato é mais brutal porque mais arrogante e mais solto, ou pelo anonimato, ou pela completa falta de noção de si próprio de quem, por poder escrever sem edição para os milhões de leitores potenciais da Rede, acha que é crítico de cinema instantâneo, engraçadista brilhante, analista político, escritor genial de aforismos, herói único da denúncia dos males do mundo, e portador de todas as soluções que só não são aplicadas porque os outros, a começar pelo blogue do lado e a acabar no fim do mundo, são todos corruptos, vendidos e tristes.
[Abrupto: A cultura de blogue nacional]

Pese embora a verdade destas palavras, será um erro descurar o poder dos blogues como veículos capazes de nos ligar a uma poderosa rede de troca de pensamento, tanto pelas imensas possibilidades de acesso a informação como pela oportunidade de projectar conteúdos “lá dentro” – um equívoco, aliás, que o próprio Pacheco Pereira não comete. Mais do que isso, será um erro maior ignorar que muitas das patologias que afectam a blogosfera são um prolongamento de fenómenos bem entranhados no país que existe “lá fora”.

Aquilo a que se refere o Nuno Grande não terá tanto a ver com esse universo abrangente que é, em boa verdade, a blogosfera – também de arquitectura, território onde dificilmente poderemos descurar coisas como o BLDGBLOG, o Subtopia, o City of Sound, o Life Without Buildings, o Lewism ou o Progressive Reactionary, entre tantos outros. Não esquecendo o blogue de crítica de arquitectura, pura e dura, redigido – e muitas vezes ilustrado – pelo Lebbeus Woods.

Essa blogosfera de arquitectura – infinitamente mais vasta e espalhada pelo mundo – dá corpo ao que de melhor tem a internet enquanto extensão possível e prometedora de uma economia baseada em conhecimento. Com formas e registos diversos, os blogues não estão necessariamente sujeitos ao imediatismo e apenas com um olhar restrito poderemos defender que estão isentos do escrutínio. Se eles se apresentam como plataformas de auto-publicação, estão igualmente sujeitos a formas espontâneas de referenciação e valorização, dentro e fora da rede.
Nada impede que nessa infra-estrutura se possa desenvolver o exercício da crítica e que isso possa ser feito em Portugal, como o demonstra João Lopes a propósito da cultura da imagem e, também, especificamente sobre cibercultura, no Sound + Vision. E nada impede, de igual modo, que isso possa ser feito em relação à arquitectura. Já aconteceu no passado com o Epiderme do Pedro Jordão, porventura o melhor blogue de arquitectura que se produziu entre nós.

O que decorre, no entanto, da argumentação de Nuno Grande é uma forma algo paternalista no modo de abordar a blogosfera – ou, dito de outra forma, os blogues – sem se considerar a complexidade que o próprio termo encerra. Em qualquer disciplina, fazer crítica dá trabalho... pressupõe investigação, leitura, consulta de fontes, entrevista, debate, confrontação, refere. Todas estas coisas se podem encontrar em qualquer dos blogues atrás citados. É certo que os blogues não estão sujeitos aos constrangimentos de uma supervisão editorial - com toda a responsabilidade pública que esse exercício encerra - não estando por isso dependentes do seu escrutínio prévio. Não sendo assim formas institucionalmente creditadas de certificação de conteúdos, os blogues apresentam um enorme potencial para o diálogo assertivo e directo - não me referindo aqui ao "comentário" mas ao tipo de discurso de escrita que um suporte de expressão pessoal permite, muito diverso daquele que podemos encontrar no domínio da publicação escrita.
Os blogues, para o bem e para o mal, não têm monitores e não respondem perante ninguém. É essa a sua força e, como será fácil compreender, a sua fraqueza, mas a sua importância reside nisso mesmo: no facto de viverem numa posição exterior face aos outros suportes de comunicação. Acima de tudo, os blogues exprimem-se com uma voz pessoal, têm um ponto de vista. No seu imediatismo, na sua subjectividade, são um exercício cheio de potencial para estabelecer ligações e escrutiná-las num espaço público, imediato e, tantas vezes, contraditório.

Não devemos esperar que os blogues se tornem num espaço alternativo, em competição com a publicação escrita e, muito menos, com a crítica. Mal daqueles que abandonem a pesquisa de saber, nos jornais, nas revistas, nos livros, e julguem poder construir conhecimento nos posts de um blogue. Mas estes podem complementar a transmissão e reflexão de conteúdos, permitindo, quando sucedidos, criar uma cadeia de comunicação na sua pequena comunidade de ligações, aberta a todos. Deveríamos assim, bloggers e não bloggers, reconhecer os pontos fortes de uns e de outros, e contribuir para melhorar a rede de pensamento que a nova paisagem digital permite estabelecer.
* * *

No que ao meu blogue se refere o texto original do Pedro Machado Costa, não deixo de sentir alguma perplexidade por se fazer apontamento de um desabafo ocasional e pouco recorrente como exemplo dessa incapacidade de estabelecer um diálogo mais sério na blogosfera, neste caso em torno da arquitectura. A nossa blogosfera é rica de exemplos em que o desabafo constante serve de registo e imagem de marca a formas de expressão pessoal.
Tendo em conta o contexto da discussão, talvez importe observar que este blogue não é um espaço de crítica de arquitectura, antes um espaço de opinião e divulgação de conteúdos. Nos seus bons momentos, A Barriga de um Arquitecto serviu como reflexo das minhas aventuras pelo mundo online, motivado unicamente por encontrar bom material e partilhá-lo. De resto, serve para falar dos temas que me interessam e preocupam, seja o planeamento territorial, o urbanismo, a política de obras públicas, a gestão urbanística, as práticas de licenciamento, a cultura da imagem e, até, a crítica, entre tantas outras coisas. E, já agora, dos ecos de uma trienal.

Como blogger sei bem do que fala o Pedro quando se lamenta da falta de reciprocidade que encontra nas suas reflexões. Talvez tenha razão o autor do Ma-Shamba quando escreveu, em tempos, que um blogue é uma ilusão, a ilusão de ser lido. Ou talvez sejam temas que não motivam o interesse dos outros arquitectos bloggers, ou de quem escreve nas revistas da especialidade. E eu não tenho de me queixar, pois encontro igual interesse nas coisas que escrevem e, evidentemente, preferem.
Não é pelo facto de, tal como o Geof Manaugh, escrever um blogue, que tenho a ilusão de estar a fazer um BLDGBLOG. Como não é pelo facto de organizarmos conferências, convidarmos figuras de renome internacional, e falarmos ao seu lado, que estamos, de igual para igual, a fazer e a pensar sobre as mesmas coisas. Escrevo um blogue porque não sei passar sem ele. E que por isso me entrego à meritocracia subjectiva da blogosfera, perdendo-me, e por vezes encontrando-me, nessa implacável forma de selecção natural que é o mundo nebuloso da rede em que vivemos.

Pequenos sinais na rede



Comecei a escrever este blogue há seis anos. Durante alguns dias do mês de Dezembro de 2003 – fica a revelação nunca antes partilhada – esta página ostentava o título de (tchan tchan) O cão com três patas. Pela simples razão de partilhar parte da minha vida com um cão com três patas, neste preciso momento deitado atrás de mim de barriga cheia junto ao aquecedor.
Ditou o bom senso que rapidamente adoptasse para o blogue o nome mais respeitável de A Barriga de um Arquitecto e assim desse início a uma viagem inesperada. Agora navegando para lá do milhão de visitantes, marca ultrapassada ainda no presente mês, fico a reflectir sobre o percurso que conduziu até aqui.
Alimentei sobre o fazer do blogue, ao longo do tempo, expectativas muito variadas. Da expressão pessoal ao desejo de contribuir para um qualquer debate colectivo, da vontade de aumentar audiência, de mudar tudo, fechar o blogue, começar de novo. Tenho agora sobre tudo isto uma postura bem mais prosaica, tão só se me diverte ainda a experiência.
Verdade seja dita, penso agora que me diverti apenas naquele primeiro ano de 2004. E penso se voltará a existir na rede aquela liberdade de partilhar sem expectativas, sem leitores, lançando sinais na inter-rede em busca de um mágico retorno? De uma miragem.
Os blogues são como as pessoas. Com hesitações e erros. Com a fragilidade do que é e do que um dia deixará de ser. Nada mais do que o presente, escrever um blogue pessoal só faz sentido como se em redor de um pequeno emissor de ondas de rádio. Algures, talvez alguém esteja a escutar. Algures, um único contacto humano. Tudo o mais uma ilusão.
Penso agora que talvez me apeteça começar a escrever aquele outro blogue. Talvez haja ainda espaço para o cão com três patas. Talvez seja ainda possível tocar alguém. Algures…

One day all critics will be supermodels


Kneel, you middlebrow old philistine you!

Pedro Gadanho reflecte sobre a ascensão do middlebrow enquanto sintoma representativo da era digital. A paisagem das redes sociais e dos blogues proporcionou novos palcos, anteriormente inacessíveis, à afirmação de participantes não creditados em domínios específicos do saber. Será no entanto prudente considerar as diferenças entre o culto do amador e uma noção mais vasta de cultura open source, bem como as suas possíveis implicações para um novo paradigma de crítica de arquitectura.

A primeira questão a colocar é se a internet pode ser tida como plataforma para a acreditação daquilo que deve ser considerado como uma forma relevante de prática. A esse respeito poderia dizer-se que o que torna os meios digitais tão eficazes é igualmente aquilo que mais os aflige. Os blogues de maior visibilidade são agregadores de informação, aspirando a oferecer aos seus leitores o mais recente material visual disponível na rede. Quem siga alguns deles com regularidade através de um leitor de feeds cedo se apercebe que bastam apenas alguns minutos até que o último press-release seja revelado, numa competição frenética para ver quem publica primeiro. Dito isto, estes blogues não assumem por missão contribuir para qualquer debate crítico sobre arquitectura.
No outro lado do espectro estão um conjunto muito diversificado de blogues dedicados a fazer isso mesmo. E ainda que muitos deles tenham por retorno uma visibilidade muito inferior, provavelmente alcançam audiências que estão realmente interessadas em ler o que eles têm para dizer, ao invés de se dedicarem simplesmente a percorrer as mais recentes novidades em matéria de deleite visual.
No mundo caótico da informação em rede, o utilizador torna-se no editor e no crítico. É ao leitor que compete estabelecer o seu próprio critério daquilo que é relevante. A subjectividade torna-se a chave, uma vez que ninguém pode ser uma máquina de gravação neutral do fio infinito da informação. E ainda que a subjectividade possa estabelecer um problema de conhecimento, é o filtro pessoal de cada um que nos permite não submergir em observações e detalhes irrelevantes, estabelecendo um sentido daquilo que é efectivamente importante.

O que importa questionar assim não é tanto o papel destas ferramentas digitais enquanto «plataformas destinadas a revelar mais um novo candidato potencial ao estrelato», mas aquilo que os círculos estabelecidos de conhecimento arquitectónico estão a fazer para providenciar formas alternativas de juízo crítico. O verdadeiro drama não é a ascensão do middlebrow mas a decadência do highbrow no tempo da actual inflação académica. Muitas academias – em particular na nossa realidade sul Europeia – tornaram-se veículos a uma cultura de mero acknowledgement intelectual: uma coisa é considerada respeitável pelo simples facto de ser reconhecível segundo os padrões, códigos e linguagens dos seus próprios mentores.
Uma vez que os meios de publicação escrita estão tradicionalmente mais próximos das fontes de conhecimento académico, tornaram-se igualmente promotores de uma visão estrita daquilo que é relevante, com uma abordagem antagonista mas igualmente curta do que agora se cataloga como middlebrow architecture. E assim se encontram vozes estabelecidas da crítica a desprezar Bjarke Ingels ao mesmo tempo que revelam a maior indulgência para com as últimas fantasias de Zaha Hadid. O highbrow desaprova o star-system mas, de igual modo, repercute juízos sobre “o arquitecto” e não sobre a arquitectura. Isto é tão evidente que se torna possível prever aquilo que o establishment tem a dizer sobre qualquer concepção de uma figura instituída. Quando foi a última vez que leram algo original sobre Álvaro Siza, Souto Moura, Paulo Mendes da Rocha, apenas para citar alguns?
Os críticos de elite serão forçados a exibir coragem para ir além do óbvio, se desejarem reclamar a sua importância na nova paisagem saturada da informação. O problema é que, quando se abandonam os trilhos do pensamento convencional, é mais difícil fazer amigos. Pensar fora da caixa vem com um preço que poucos estão dispostos a pagar. E se é esse o caso, então, talvez seja preferível ficar pelos blogues, para o bem e para o mal.

Pedro Gadanho reflects upon the rise of the middlebrow as a representative symptom of the digital age. The digital landscape of social networks and blogs provided new grounds for the ascension of unaccredited participations in the realm of specific, once closed, fields of knowledge. It would be wise, however, to consider the differences between the cult of the amateur and a wider notion of open source culture, and its likely implications to a new paradigm of architectural criticism. [+/-]
One of the first questions to be asked is whether the internet is a platform for accreditation of what is to be considered a relevant form of practice. To that regard, one could say that what makes digital media so effective is also what afflicts it the most. The most successful blogs are aggregators of information, aspiring to provide their readers with the latest eye-candy available. If you follow some of them on your regular feed reader you’ll realize it takes only minutes until the latest press release gets published in a competition to see who’s first. That said, most of these blogs are not really aiming to contribute to a critical debate about architecture.
On the other hand you’ll find many blogs out there trying to do just that. And although most of them have much less visitors, they probably reach an audience that’s actually interested in reading what they have to say, instead of merely browsing through the visual gimmick of the day.
In the chaotic sea of web information, the user becomes the editor and the critic. It’s up to the reader to establish its own criteria of what is relevant. Subjectivity becomes the key, as one cannot be a neutral recording machine of the infinite stream of information. So even though subjectivity establishes a problem of knowledge, it’s our own personal filter that allows one not to sink in irrelevant details and observations, establishing a sense of what is in fact relevant and important.

What needs to be questioned then is not the role of these digital tools as «platforms aiming to reveal yet another potential claim to stardom», but what established circles of architectural knowledge are doing to provide an alternate kind of critical judgement. The real drama is not the ascension of the middlebrow but the fall of the highbrow in our current world of academic inflation. Many academies – particularly in our own southern European scene – have become contributors to a general culture of intellectual acknowledgment: something is considered respectable for the mere fact that it is recognizable within the codes, languages and typologies of its own mentors.
Since traditional printed media has customarily been closer to academic sources of knowledge, they’ve often become supporters to a narrow view of what is relevant, with an antagonistic but just as shallow approach to what is considered middlebrow architecture. And so you’ll find established architecture critics despising Bjarke Ingels as they reveal the utmost indulgence towards the latest whimsies of Zaha Hadid. The highbrow despises the star-system but, just as much, acknowledges the architect over the architecture.
This is so evident that you can pretty much guess what the establishment will say about any design from a reputable figure. When was the last time we read something original about Álvaro Siza, Souto Moura, Paulo Mendes da Rocha, just to name a few?
Highbrow critics will need to muster the bravery to go beyond the obvious if they want to reclaim their significance in the new landscape of information overload. The problem is that once you journey off the beaten track of thinking, chances are you’ll not be making many friends in the establishment. Thinking outside the box comes at a price not many are willing to pay. And if that’s the case, well then, I rather stick with blogs instead.

Auto-regulação na blogosfera

Será que a blogosfera tem meios e condições para anular as suas próprias monstruosidades?

É esta a pergunta que João Lopes deixa no ar no final do seu artigo - A infância dos blogs. Valerá a pena tentar construir uma resposta.

Sugerir que este tipo de comportamento – o infantilismo, desresponsabilização, a difamação e o insulto - possa vir a ser anulado pela ascensão de uma ética blog é uma ingenuidade evidente. Mas a resposta à pergunta é: sim. A blogosfera, na sua dinâmica de rede, é capaz de anular essas monstruosidades. Mais, as ferramentas que suportam a sua infraestrutura permitem que cada um crie para si a blogosfera que deseja. Deixem-me explicar...

Digamos que o leitor se interessa por blogs. Começará por ler aqueles que melhor conhece para ir adicionando, a pouco e pouco, novos blogs ao seu conjunto de favoritos. Ora quando o número de páginas atinge as várias dezenas, visitar individualmente cada uma delas torna-se incomportável - quanto tempo perdido a abrir blogs para descobrir que muitos deles não foram sequer actualizados.

Perante isto, o leitor interessado adere rapidamente a um subscritor de "feeds". Uma página pessoal em que o utilizador subscreve somente os blogs que deseja seguir, recebendo de forma leve e concentrada todas as actualizações - apenas os novos “posts” - das suas páginas favoritas. Com esta nova ferramenta o leitor consegue agora acompanhar não dezenas mas antes algumas centenas de blogs.
Ainda assim, mesmo fazendo uso de um leitor de "feeds", há um limite para a quantidade de informação que cada um consegue acompanhar. E é aqui que acontece uma coisa interessante. O leitor deixa de adicionar blogs - ou passa a fazê-lo muito raramente - para começar agora a subtrair.

A selectividade na blogosfera é uma moeda de troca importante da sua auto-regulação. Ao seguirmos um blog estamos a assinalar que ele é relevante e a valorizá-lo dentro do meio. A constelação de blogs que estamos a seguir é a nossa ligação filtrada e inteligente para a blogosfera. Uma meritocracia subjectiva, imperfeita, mas que funciona. O acto de seguir um blogue significa que damos crédito ao seu autor, que confiamos nele como nosso arauto de pesquisa. É um gesto de reconhecimento implícito.
Mais importante: os autores dos blogs que seguimos têm as suas próprias constelações de ligações, unindo-nos a uma sequência exponencial que nos pode conduzir ao infinito da rede. Através deles podemos aceder ao que é relevante, ao que é mais referido, citado, hiperligado. Essa rede, pelas suas muitas intersecções, pode fazer chegar informação longínqua dos confins da web até ao nosso pequeno monitor.
É uma forma de selecção natural de conteúdos herdeira de uma das primeiras funções do blog - o filtro. Como na verdadeira selecção natural muito é desperdiçado. Muito é perdido nas sinapses da rede. Mas também através dela passamos a aceder a conhecimento que de outra forma nunca iríamos descobrir.

É esse o poder da blogosfera. Os blogs podem não ser já a plataforma da moda, subjugados que estão pela ascenção volátil das ferramentas de web social e micro-blogging - mas não deixam de ser, ainda hoje, a infraestrutura mais eficaz desta rede de conhecimento. A materialização de um milagre de informação global construído de forma colectiva e contributiva. Nada se lhe compara.
Neste novo território, o poder de um blog não resulta da sua visibilidade imediata, das visitas diárias que recebe, mas do modo como estabelece ligações e conexões para projectar os seus próprios conteúdos “lá dentro”.

É natural que a blogosfera de opinião próxima da imprensa escrita alcance uma visibilidade mais imediata. Mas não é verdade que essa blogosfera disponha de uma grande permeabilidade na rede, para lá do universo estrito em que circula. Esta opacidade não é alheia aos mecanismos de distribuição de informação, que conduzem felizmente à anulação do que é efémero e pouco consequente. E por isso os blogs são frustrantes para quem pensa ter aqui um púlpito para ajustar contas com o mundo, manifestando-se com infantilidade e estridência.
De resto, como em todas as outras plataformas de comunicação, a monstruosidade estará sempre presente. Assim é também na televisão e nos jornais. Cabe a cada um optar pelo que pretende de cada veículo à sua disposição, nos canais que vê, nos jornais que compra. E na blogosfera em que quer participar, como espectador ou construtor de conteúdos.

Blogosfera de terceira geração

O recente artigo de José Pacheco Pereira - A bloguização da comunicação social - mete o dedo na ferida de uma degradação continuada do exercício de opinião, tanto nos blogues como na imprensa escrita. Curiosamente, quase ao mesmo tempo, João Lopes publicava um outro artigo de contornos próximos - A infância dos blogs.
Pacheco Pereira e João Lopes têm sido dos poucos autores capazes de produzir sociologia crítica sobre a blogosfera, questionando as especificidades da sua prática em Portugal. Este último afirma que a blogosfera adquiriu uma extensão imensa sem ter passado por um verdadeiro processo de maturação. Talvez isto não seja completamente certo se observado numa perspectiva internacional, mas parece próximo da verdade quando analisado no plano da nossa conjuntura. Entre nós nunca se afirmou uma cultura ou uma ética blog, discussão travada aberta e entusiasticamente na blogosfera ainda no início da década. Em Portugal, a explosão do fenómeno blog ocorre com o aparecimento das grandes plataformas – blogger, wordpress, sapo – ou seja, à blogosfera de segunda geração. E vemos hoje um fenómeno ainda mais surpreendente a que eu chamo de blogosfera de terceira geração: uma apropriação livre e espontânea da ferramenta blog, totalmente desinteressada da sua história e função original, suporte a conteúdos de download ilegal, pornografia barata, notícias de especialidade copiadas sem referenciação ou edição sobre consolas, wrestling, cinema, etc…
A horizontalidade da blogosfera é um prolongamento dessa cultura de relativização absoluta. Num espaço onde tudo vale o mesmo já nada tem valor. O paralelismo dos “temas fracturantes”, espécie de regurgitação compulsiva de questões que estão carregadas de complexidade real, denuncia esse absoluto simplismo de quem não é mais capaz de discutir o que quer que seja, da ausência de uma sombra que seja de reciprocidade.
Nesta opacidade ofusca-se em razão o que se troca por uma mera lógica de rejeição ou colagem, uma dinâmica opinativa que nada já tem de expressão intelectual mas antes de uma mera dissimulação identitária, de “acknowledgement” de grupo. A grupusculização de que fala Pacheco Pereira.
A decadência do exercício da opinião é mais um reflexo dessa devastadora terraplanagem intelectual em que vivemos e em que os blogs participam alegremente. A aparente agitação de conflitos de opinião não é apenas, como diz João Lopes, resultado de uma dimensão totalitária da agressividade sem pensamentos. É também o epitáfio de um domínio de simulação absoluta em que já nada, realmente, tem consequências. Um lugar em que nada acontece. A vitória da idiocracia.
Há quem chame a isto liberdade.