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Prédio Coutinho: legalidade e decência



A um martelo todos os problemas se parecem com um prego – a expressão parece adequar-se à actuação da Vianapolis que teve como única missão, desde 2004, desalojar os residentes do Edifício Jardim, também conhecido como “Prédio Coutinho”.

Esta sociedade anónima de capitais exclusivamente públicos – pertencendo ao Estado (60%) e à Câmara Municipal de Viana do Castelo (40%) – foi constituída no ano 2000 tendo por objecto a gestão dos investimentos a realizar no quadro do Programa POLIS, não podendo, de acordo com os seus estatutos, prolongar-se para além de 31 de Dezembro de 2004. No entanto, pelo fundamento único de não se ter concluído o processo de expropriação e subsequente demolição do Edifício Jardim, a Vianapolis conseguiu justificar a sua existência muito para lá do termo previsto para a sua actividade, com os correspondentes encargos em fornecimentos, serviços externos e custos de pessoal, até aos dias de hoje – ver Auditoria à sustentabilidade de empresas de capitais públicos (pág. 30, 31), Tribunal de Contas, 2011.

Como se pode verificar a partir do Portal BASE, só no ano de 2019 somam-se já quase 60 mil euros em Patrocínios Judiciários. Considerados os dados relativos aos últimos dois anos, em assessoria jurídica, financeira e gestão de projectos, temos mais de 130 mil euros, tudo em ajustes directos promovidos pela Vianapolis.

Para lá destes contratos, do Portal BASE figura apenas informação relativa à empreitada de demolição do Edifício Jardim, lançada em 2018 no valor de 1.168.536,41 €, e dois outros processos de 2014 que vale a pena olhar com alguma atenção. Temos, por um lado, uma empreitada de "Reabilitação sobre as patologias associadas às infiltrações nas caves do Edifício Quarteirão (...)", no valor de 247.103,27 €, e ainda a Fiscalização daquela empreitada no valor de 7.960,00 €.

Ora o Edifício Quarteirão é o "edifício de luxo" construído pela Vianapolis, para onde pretendia deslocar os moradores expropriados do Edifício Coutinho. Numa reportagem promovida pelo Público em 2018 podemos ver algumas filmagens evidenciando o mau estado de conservação em que este edifício se encontrava no ano passado.



Parece assim que o Prédio Coutinho se tornou num bom pretexto para a Vianapolis justificar quase 20 anos de prolongada existência, muito para lá da operacionalidade do programa financeiro que lhe deu origem. Acresce a isto que, tendo como único objectivo a expropriação dos seus moradores, esta sociedade serviu para concretizar uma política odiosa pela qual dificilmente um município daria a cara.

Poderá dizer-se que o processo de expropriação do Edifício Jardim seguiu todos os trâmites legais, em todas as instâncias, e que todas elas validaram a posição do Estado contra os proprietários. Mas importa ter presente que existe a questão jurídica mas existe igualmente a questão política. É o próprio Supremo Tribunal Administrativo que o refere: Os tribunais administrativos só tratam de problemas de legalidade, sendo alheios à inconveniência ou ao demérito das opções da Administração.

Foi o Governo Português que atribuiu, no quadro dos poderes que detém, a declaração de utilidade pública das expropriações a realizar, decretadas urgentes, a pedido da sociedade Vianapolis. Uma decisão para a qual nenhum dos cidadãos foi chamado a participar. A este respeito, não coube aos tribunais pronunciarem-se sobre os méritos da decisão de expropriar, mas apenas quanto à legalidade dos actos praticados no âmbito dos respectivos processos.

Importa aliás dizer que seria sempre possível, ao Estado e ao município, regulamentar no sentido de instituir o direito de opção para, a pouco e pouco, ir adquirindo as fracções em falta, ou, em alternativa, accionar a expropriação aquando da transmissão a herdeiros – assegurando o usufruto da presente geração. O processo poderia durar uma ou duas décadas, um prazo insignificante no que respeita ao tempo da cidade, bem maior do que o de um mandato autárquico ou de um POLIS.

Deste modo, ainda que a vitória na via judicial confira ao processo legitimidade jurídica, não serve de atestado quanto à legitimidade política ou à boa qualidade das decisões que lhe deram origem. O Estado de Direito faz-se de Leis mas faz-se também da decência na relação entre o Estado e os cidadãos. Ora estes proprietários não cometeram qualquer crime, não fizeram nenhuma ocupação ilegal, não violaram quaisquer regras.

Cabia ao Estado e à Câmara Municipal de Viana do Castelo levar a cabo uma estratégia negocial que não permitisse chegar à brutalidade social a que temos assistido – uma situação em que proprietários são arrastados para o calvário dos tribunais por uma sociedade que tem todo o tempo e o dinheiro do mundo para litigar contra os cidadãos, actuando como testa de ferro de políticos que não foram capazes de fazer melhor nem quiseram assumir o custo político das suas decisões.

Ninguém vem para nos salvar



Se eu fui o Éder deste 10 de Junho, o Presidente Marcelo foi o meu Fernando Santos – a congratulação em jeito de metáfora futebolística serve de corolário a essa fogueira de mediocridades que foi o discurso de João Miguel Tavares nas comemorações do dia 10 de junho. Um texto em tudo previsível, atabalhoado, feito de ideias avulsas, entre a crónica do meu pequeno ego e a construção narrativa de um Portugal imaginário. De resto está bem salpicado com laivos de populismo de puxar ao sentimento na vã tentativa de ocultar as suas próprias contradições.

Tomemos como termo de comparação o apontamento deixado por João Lopes a respeito do discurso de Jon Stewart no Congresso dos EUA. Sublinha o crítico que não é a emotividade daquele depoimento que o torna notável, mas a precisão das palavras. Refere João Lopes: São momentos em que, também na televisão, voltamos a acreditar no valor primordial das palavras e na precisão que o seu uso pode envolver.

Voltando a João Miguel Tavares vale a pena olharmos para a frase que se tornou mote daquele discurso: Dêem-nos alguma coisa em que acreditar. Eis o que não deixa de ser de um repto pueril feito “aos políticos” para que façam alguma coisa pelo povo; tão mais confrangedor pelo modo como o próprio quase se reconhece como aquele provinciano a quem foi concedida a bênção de poder ir falar às elites. Melhor seria dizer aos Portugueses que ninguém vem para nos salvar. Chega de apelar aos homens providenciais, chega de déspotas esclarecidos que desses já cá tivemos que chegue – e para experiências recentes já nos bastaram os déspotas da troika que bem sabemos o mal que por cá andaram a fazer.

Em boa verdade não faltam coisas em que acreditar. Acreditar numa profunda reforma do sistema económico que permita evitar uma catástrofe ambiental sem precedentes. Acreditar na defesa do nosso modelo social, herdeiro do pós-Segunda Guerra Mundial, que assegurou a paz à maior parte dos países da Europa. Acreditar no combate à desigualdade crescente que corrói a relação entre gerações e ameaça a estabilidade social em que assentam as nossas democracias.
Não faltam coisas em que acreditar e partidos que, de uma forma ou de outra, procuram promover agendas políticas que vão ao encontro desses objectivos.

Acredito pois que o que está aqui em causa é que João Miguel Tavares e os “neoliberalinhos” órfãos do Passismo que ele representa não têm nada em que acreditar. Certo é que se as ideias que eles defendem orientassem a nossa governação estaríamos pior, nestas como em tantas outras áreas da nossa vida comum.

Eis que clamam agora em defesa do “elevador social” – que tanto melhorou no tempo da democracia que gostam de depreciar – mas defendem políticas que repetidamente demonstraram acentuar o fosso da desigualdade e a clivagem entre gerações. Clamam pela defesa da família, mas defendem políticas que potenciaram a precariedade e os baixos salários que tanto adiam e prejudicam a estabilidade da vida familiar.
Clamam assim pelo homem providencial que os salve e os faça acreditar, incapazes de compreender porque é que as ideias que defendem – que tanto ocupam a bolha do comentariado mediático de que fazem parte – têm cada vez menos expressão junto do eleitorado.

Risível é o repto às elites como risíveis são as suas ideias pueris sobre a História. Num dos mais acutilantes exemplos escapa-lhe a dimensão dos “Descobrimentos” enquanto visão narrativa de um passado comum, sem correspondência na complexa e contraditória experiência humana que lhe deu corpo. Uma História sobre a qual podemos hoje ter uma visão crítica porque vivemos em democracia, um sistema que nos permite confrontar, em liberdade, essas narrativas em que foram construídas as exaltações do passado, como assentam tantas vezes as falsidades do presente.

Ninguém vem para nos salvar. Prefiro uma democracia imperfeita, feita de pessoas e partidos imperfeitos, feita de compromissos, de tentativas e erros, à crença em homens providenciais que “venham pôr ordem nisto tudo” e vender o quinto império a reboque de grandes efabulações sobre esse animal mitológico que é o português comum. De resto, João Miguel Tavares bem podia ter feito o seu discurso com um boné encarnado com as palavras “tornem Portugal grande outra vez”.

Não em meu nome.

Educação para a vida online



O que não deixa de ser curioso no seu discurso (…) é o facto de todo ele tentar encerrar-se em questões de natureza técnica, repelindo qualquer reflexão cultural sobre o Facebook. Mais exactamente: Zuckerberg não quer (ou não é capaz de) reconhecer que qualquer dispositivo técnico – para mais com a dimensão planetária que o seu negócio adquiriu – envolve sempre os modos de viver, pensar e comunicar dos cidadãos, quer dizer, os valores da sua existência. Numa palavra: a sua cultura.
— João Lopes, Facebook: os "erros" de Mark Zuckerberg.

O recente escândalo que envolveu a Cambridge Analytica, uma empresa de consultoria política sediada em Londres que levou a cabo uma operação de data-harvesting em larga escala através do Facebook, vem lembrar-nos de uma frase que se popularizou na internet: se não estás a pagar por um serviço, não és o cliente; és o produto que está a ser vendido.

Com o conhecimento que hoje podemos ter sobre a actividade das grandes empresas que dominam o tráfego na rede, onde se destacam a Google – também proprietária do YouTube – e o Facebook, não deixa de surpreender o facto de grande parte do público desconhecer aspectos básicos do modo como estes gigantes operam. São curiosos alguns desabafos mais singelos de utilizadores que falam “do seu Facebook”, ignorando não só que o lugar que ocupam na plataforma de Mark Zuckerberg não é um espaço privado individual seu, como não é sequer um espaço público onde todos podem ver aquilo que partilham. Trata-se, afinal, de um espaço privado de outrem; uma empresa de informação privada que vende o seu público – todos nós – a um vasto conjunto de empresas e serviços – tais como a Cambridge Analytica.

O sucesso que corporações como o Facebook ou a Google foram capazes de alcançar depende grandemente do conhecimento profundo que estas empresas reúnem a nosso respeito a partir da monitorização de tudo o que fazemos enquanto estamos online, traçando automaticamente, através de poderosos sistemas de processamento de informação, perfis muito complexos sobre aquilo que somos, as nossas tendências e preferências. Num tempo em que a atuação destas plataformas se revela tão intrusiva sobre as vidas de cada um de nós, importa ainda mais ter presente que a acção destas páginas e, acima de tudo, a informação que recolhem, vai muito para lá das coisas que escrevemos ou partilhamos, dos comentários ou dos “gostos” que exprimimos na rede.



Ainda e sempre, não se trata de demonizar o Facebook (…). Trata-se tão só, para já, de contrariar a perspectiva tecnocrática – também política, sem dúvida – segundo a qual se está apenas a viver um percalço técnico. Importa exigir um pouco mais de todos nós e perguntar de onde vem – e, sobretudo, para onde vai – esta cultura virtual que leva milhões de pessoas a tratar muitos dados da sua identidade (social, familiar, muitas vezes íntima) como coisa partilhável com uma empresa gerada na perspectiva de angariar gigantescas receitas publicitárias. Se não soubermos formular tal questão, então devemos concluir que aquilo que oferecemos ao Facebook envolve o nosso próprio conceito de humanidade.
— João Lopes, Facebook: o alarmismo mediático.

Somos nós, afinal, que construímos, voluntariamente, ao passo e passo de cada post e like, ou involuntariamente, através das aplicações que instalamos nos tablets e telemóveis, os nossos perfis pessoais nas bases de dados destas corporações privadas. Importa por isso dramatizar junto do público, e em especial dos mais jovens, o modo como tudo aquilo que hoje fazemos se pode vir a repercutir no futuro.

Em alguns países, em particular nos Estados Unidos, é já uma prática regular de grandes empresas ter em conta a identidade online dos candidatos em processos de contratação – recorrendo para isso a consultoras altamente especializadas. No momento em que o candidato se apresenta numa entrevista de emprego, caso tenha sido pré-seleccionado, o júri já tem em sua posse um perfil pré-elaborado daquele indivíduo que se estende desde as suas preferências e orientações pessoais, simpatias políticas, gostos, actividades e até mesmo traços da sua personalidade: se social ou introvertido, dinâmico ou passivo, reactivo ou pensativo, etc.

É sabido que em muitas universidades americanas os departamentos de admissão também procedem ao escrutínio prévio do perfil dos candidatos na internet, aconselhando os alunos a removerem imagens lesivas, mensagens de cariz político ou humor considerado inadequado ou ofensivo. E são também conhecidos alguns casos em que episódios mais controversos de exposição da vida privada se revelaram, anos mais tarde, obstáculos inadvertidos ao avanço de carreiras profissionais e políticas.

Existem muitas formas de encarar esta realidade que tenderá a universalizar-se. Podemos optar pelo silêncio, procurando eliminar os traços da nossa pegada digital, ou podemos, em alternativa, assumir de forma consciente os riscos e as consequências de viver este nosso tempo. Mas, para que cada um possa verdadeiramente escolher, é fundamental estar informado quanto ao alcance e à complexidade deste novo meio que habitamos, e esse saber deve envolver todos os cidadãos, pais, professores, especialistas, com o apoio do Estado e o suporte esclarecido dos meios de comunicação. Caso contrário, serão as gerações mais novas que pagarão o maior preço, crescendo por defeito num mundo cheio de armadilhas. Tão apelativo, agora, quanto perigoso, anos mais tarde.

Os blogues ainda resistem?



No Verão de 2007 teve lugar na cidade de Nova Iorque o Postopolis!. Promovido pela Storefront for Art and Architecture, o evento era organizado por quatro bloggers muito conhecidos e teve por base uma série de debates e conversas com especialistas das mais diversas disciplinas, incluindo domínios exteriores à arquitectura tais como o design, paisagismo, ecologia e sustentabilidade, arte digital, música, cinema ou jornalismo. Nos cinco dias em que decorreu o evento, transmitido em directo para todo o mundo, passaram pela icónica galeria nova-iorquina desenhada por Steven Holl e Vito Acconci figuras incontornáveis como Lebbeus Woods, Mark Wigley e Michael Sorkin, entre tantos outros.

O Postopolis! sinalizava o alcance pluridisciplinar da blogosfera de arquitectura, caracterizando-se tanto pela informalidade da abordagem como pela capacidade de promover uma interacção directa entre leitores e criadores de conteúdos, convocando bloggers, a academia e o público.

Apenas uma década passada podemos verificar o quanto mudou a paisagem do mundo online. A ascensão das redes sociais ditou a secundarização da blogosfera enquanto espaço de debate público na internet. No caso da arquitectura, muitos dos principais blogues de então desapareceram, em especial os de autoria individual, e os que ficaram evoluíram do formato blogue para se assumirem como autênticas plataformas de divulgação de conteúdos. O universo da opinião e da crítica deu lugar a um vasto caudal de informação asséptica assente na divulgação descontextualizada de imagens, entre pré-visualizações de projectos virtuais a fotografias profissionais de obras construídas.

Os sítios de maior visibilidade são hoje agregadores de informação e competem para partilhar o mais recente material visual disponível na rede aos seus leitores. Press-releases corporativos são publicados em apenas alguns minutos numa competição frenética onde todos tentam chegar em primeiro lugar, sem que lhes seja aditado contexto ou reflexão, sem tempo para elaborar um olhar crítico mais aprofundado.

Apesar de todas as contradições que marcaram o fenómeno da blogosfera é inquestionável que os blogues tiveram um papel determinante na definição de um espaço público global sem precedentes na História, protagonizando a primeira vaga de expressão individual na Internet com repercussão no mundo exterior. Na sua subjectividade, no seu descontrolado imediatismo, os blogues abriram uma constelação de novos lugares de expressão pessoal capazes de estabelecer infinitas ligações entre si, no directo da rede.

Alimentando a ilusão de uma horizontalidade democrática, importa reconhecer que os blogues deram também corpo a manifestações de grande toxicidade e, por vezes, de devastadora terraplanagem intelectual. Não estando sujeitos aos constrangimentos de uma supervisão editorial – com toda a responsabilidade pública ou institucional que esse exercício encerra – os blogues ensaiavam-se sem escrutínio prévio, não tendo monitores e sem responder perante ninguém. Para o bem, e para o mal, aí residia a sua força e, como seria fácil de depreender, a sua latente fraqueza.

Talvez tenham sido os ecos dessa rede contraditória e caótica feita de mil egos à solta – como caricaturava Pacheco Pereira n’A cultura de blogue nacional – a motivar o desinteresse generalizado das universidades por esta nova infraestrutura de comunicação, porventura por pudor em concorrer com o ruído emergente de uma multidão de vozes não credenciadas. Prevaleceu assim entre nós o distanciamento das academias e da generalidade da crítica quanto a este espaço de debate de ideias, tornando inimaginável uma experiência semelhante àquela que o Postopolis! protagonizara de forma tão cosmopolita e promissora.

Chegados aqui vale a pena reflectir sobre o momento crítico que hoje vive a Internet. A ascensão das novas plataformas, em particular as redes sociais, relevaram o fenómeno blogue para longe dos holofotes mediáticos e vieram conformar uma nova paisagem corporativa da comunicação global. Nesta realidade, o caos e a anarquia do passado – mas também a liberdade de expressão e o pluralismo – estão a dar lugar a um panorama onde um conjunto reduzido de mega-empresas detém o domínio dos principais veículos de transmissão da informação.

Em resultado da consolidação deste oligopólio assistimos à tendência para a conformação de uma Internet subjugada a sofisticados mecanismos de selecção e filtragem de conteúdos, constituindo, em alguns casos, formas insidiosas de censura automática através de complexos algoritmos, tais como a ocultação de resultados de busca no Google, a desmonetização de conteúdos no YouTube ou ainda a utilização de técnicas de ghost-deleting no Facebook, no Twitter e nos espaços de comentário em inúmeras plataformas digitais.

A eficácia destes mecanismos deriva directamente da desfragmentação do factor humano na mediação do conhecimento através da Internet, onde os blogues constituíram, no passado recente, um exemplo particularmente bem-sucedido de debate público, divulgação e confronto de ideias. Perante os riscos que tal introduz, em concreto pela perda de uma curadoria humanizada do saber, importa mais do que nunca resistir ao predomínio da cultura do mínimo denominador comum, dos gostos e das partilhas das redes sociais, ou à imposição de restrições ao pensamento em função daquilo que corporações privadas julgam ser ou não aceitável.

Se os blogues deixaram de fazer sentido enquanto fenómeno mediático do momento – que porventura nunca voltarão a ser – talvez o seu papel enquanto espaço de resistência crítica seja hoje mais relevante do que nunca, na arquitectura e em tudo aquilo que nos rodeia. Num tempo em que múltiplas crises se intersectam, um pouco por toda a parte, é ainda mais urgente instituir referências de saber que nos permitam em conjunto, de forma colaborativa e livre, vislumbrar o sentido do mundo, sempre tão difícil de conhecer e interpretar.

Dos algoritmos enquanto construtores de mundos


Imagem: Javier Jaén.

No dia 19 de Dezembro de 2013 o conhecido blogger Jason Kottke decretava a morte dos blogues, sinalizando o declínio social e mediático da blogosfera perante a ascenção das redes sociais.

O aparecimento das plataformas globais de comunicação em rede, tais como o Facebook ou o Twitter, ditou muito mais do que o ocaso do fenómeno blogue. Mais do que a sua perda de relevância enquanto lugar de produção de conteúdos, até aí com grande expressão nos agregadores de informação da rede, estava em causa o declínio do formato cronológico invertido que se havia tornado quase universal na internet partir de 1997, em benefício da adopção de algoritmos automáticos de selecção de conteúdos.
Esta alteração de paradigma viria configurar uma profunda revolução na forma como nos relacionamos com a informação no mundo online. Neste novo ecossistema da internet os conteúdos são valorizados sem interacção humana directa tendo por base um grande conjunto de variáveis: o número de “gostos”, comentários e partilhas de uma publicação, mas também inúmeros factores de selecção e quantificação só conhecidos para os proprietários destas plataformas.

Nesta paisagem corporativa da comunicação global sistemas complexos de análise de dados categorizam os utilizadores definindo o seu perfil específico, seja a partir das coisas que escrevem, gostam e partilham, mas também a partir da rede de amigos que construíram, das páginas que subscrevem e até dos sítios que simplesmente visitam (onde o perfil da rede social seja usado como forma de registo ou identificação).
Sendo capazes de estabelecer um retrato particular de cada utilizador, abrangendo campos muito diversos do seu universo de interesses, as redes sociais conseguem também oferecer uma experiência de utilização específica, diferente para todos e dedicada a cada um de nós. Desta forma, os algoritmos tornaram-se muito mais do que meros auxiliares de selecção e valoração de conteúdos num mundo saturado de informação. Em boa verdade os algoritmos são agora verdadeiros construtores de mundos, capazes de fabricar bolhas individuais onde vemos cada vez mais aquilo que queremos ver mas onde nos é filtrada a diversidade da realidade exterior. Trata-se de um fenómeno sem precedentes cujas implicações culturais à escala global são ainda desconhecidas e difíceis de prever.

Tendo presente este cenário emergente torna-se particularmente preocupante verificar que a maioria dos utilizadores das redes sociais – mais de 75% no caso do Facebook – desconhece que os “murais” de leitura são automaticamente filtrados por algoritmos e apenas uma pequena minoria sabe utilizar os mecanismos de edição dos parâmetros de visualização. Está em causa não apenas aquilo que nos é dado a ver mas também as publicações que nos são ocultadas segundo critérios que desconhecemos e sobre os quais não dispomos de qualquer possibilidade de escrutínio.
Temos assim que a este desconhecimento generalizado se soma a opacidade que as plataformas de social media assumem relativamente ao modo como processam a informação pessoal e social dos utilizadores. Afinal, apenas o Facebook, e mais ninguém, sabe como o seu algoritmo escolhe as “melhores histórias” e oculta o que não nos quer dar a ver.

O que está em causa na transformação profunda que teve lugar na internet na última década é um grave abandono do factor humano na curadoria do conhecimento sobre o mundo que nos rodeia. Vivemos rodeados de filtros digitais que nos proporcionam “redes egocêntricas” e nos gratificam a cada passo. Se os blogues eram um deserto, as redes sociais são um laboratório de optimização de interacções. Eis o último estágio do capitalismo aplicado à nossa vida social: um poderoso sistema de estímulos que proporciona “gostos” instantâneos e partilhas fáceis, mas que oculta os mecanismos, os motivos e os interesses que estão por detrás do “mural” que coloca em frente aos nossos olhos.

O estranho caso de Salvador Sobral




Alguém que começa e acaba o dia com uma máquina ligada ao coração. Com data marcada para uma operação que decidirá a vida inteira e onde, mesmo que tudo corra bem, não deixará de prevalecer a incerteza de tudo o que virá depois. Presumo que lhe reste uma de duas atitudes: ou se entrega à depressão ou brinca com tudo isto.

O Salvador parece ter escolhido a segunda opção. Estranha ironia que o reconhecimento do público, a celebridade e a fama sejam o destino desejado de quase todos os artistas, ou de todos nós. E ei-lo chegado tão jovem a esse lugar raras vezes atingido com a lucidez implacável que não deixa de assinalar o metrónomo que lhe auxilia o bater do coração.

Que estranho e mágico lugar deve ser a vida do Salvador Sobral. Que estranho lugar será esse, onde os dias mais felizes da tua vida podem ser também os piores dias da tua vida. Antes de brincar com a sua frágil humanidade cantava as palavras da Joni Mitchell, que estás no meu sangue como vinho sagrado, tão amargo, tão doce.

Hão-de existir sempre aqueles que estão prontos a ceifar os artistas num momento de vulnerabilidade. Não percebem que os artistas são aqueles que oferecem sempre o que têm de mais frágil, aquilo que todos os outros, todos nós, escondemos do mundo. Venham de lá as hordas indignadas, venham de lá com os vossos escândalos. São a espuma de coisa nenhuma.

O mar é lá longe.

A queda de Sirius



O Nerdwriter tem vindo a estabelecer-se como um dos melhores canais de cinema no YouTube. Um dos seus mais recentes vídeos – What The Truman Show Teaches Us About Politics – apresenta uma análise do filme The Truman Show, estreado em Portugal com o título “A Vida em Directo” no ano de 1998. Em causa está muito mais do que destacar os contornos visionários da obra de Peter Weir, seja pelo advento da vigilância de massas ou da omnipresença da reality tv. Trata-se antes de olhar para a perturbadora correlação entre o cenário simulado de Seahaven e a sociedade em que vivemos.



Evan Puschak, autor do Nerdwriter, faz notar que a sobrevivência do mundo fictício que rodeia Truman Burbank carece de muito mais do que um exército de actores ou uma parafernália de tecnologia oculta. Para lá de tudo isto, a existência de Seahaven depende de um factor muito mais simples: que o próprio Truman acredite que aquele mundo é verdadeiro.
Do mesmo modo, Evan propõe que também o mundo em que vivemos precisa que acreditemos nas suas regras. Que, acima de tudo, a sustentação de uma ideia de realidade depende de nos mantermos imóveis na perspectiva da verdade que ele nos apresenta.

Assim, tal como a queda de uma estrela artificial ou os vislumbres por detrás do cenário vão servindo de perturbador alerta na vida de Truman, também os sinais alarmantes do presente nos vão revelando as fragilidades de uma realidade que outrora julgávamos tão robusta e perene. E, no entanto, tal como Truman, também nós temos dificuldade em enfrentar a inquietação do que esses sinais nos revelam, preferindo o conforto daquilo que sempre tomámos como certo e nos é familiar a, em alternativa, despertar para o desconhecido.



Curiosamente, é um pouco sobre isto que nos fala um recente vídeo de Derek Muller no Veritasium. The Illusion of Truth aborda o conceito de conforto cognitivo , definição do campo das neurociências para a tendência humana em acreditar naquilo que nos é mais familiar. Dito de forma simples, as coisas a que somos expostos constantemente parecem-nos mais verdadeiras.

Ainda que se trate de um mecanismo essencial no reconhecimento intuitivo de factos sobre o mundo que nos rodeia, o conforto cognitivo pode ser estimulado artificialmente de modo a tornar-nos mais susceptíveis a aceitar determinadas ideias – facto bem conhecido no campo da publicidade ou do marketing político. O conforto cognitivo é fácil e não requer grande esforço da mente humana. Ideias que desafiam as nossas convenções ou preconceitos, por outro lado, requerem esforço. O pensamento crítico contraria a nossa intuição e afasta-nos do estado de segurança mental para que tendemos a mover-nos por defeito.

Talvez seja por tudo isto que, tal como Truman, nos sintamos mais confortáveis não questionando aquilo em que acreditámos durante toda a vida, mesmo perante as evidências crescentes de falsidade que vão rompendo o cenário em nossa volta. Num tempo em que a tecnologia tornou instantânea a partilha e a disseminação de entendimentos da realidade, nunca foi tão fácil estimular o nosso conforto cognitivo e promover convicções familiares com que nos sentimos bem. Mas talvez devêssemos também ter presente que os mecanismos da nossa inteligência são falíveis e que se queremos distinguir entre os factos e a fantasia poderemos ter de pagar o preço de viver no desconforto da dúvida, da incerteza e do desconhecido, tão próprios de quem carrega o seu pensamento crítico pelo mundo.

Dos mega-eventos como modelo de investimento


Imagem: Tércio Teixeira.

A abertura dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro no início de Agosto ficou marcada por várias acções de protesto na cidade, chegando a registar-se situações de confronto entre manifestantes e polícia militar. A tensão que antecedeu o evento foi o corolário de um processo de contestação que se estendeu durante vários anos. Em causa estava o desagrado perante os gastos elevados envolvidos na preparação e promoção de mega-eventos desportivos num contexto de fortes contrastes e profundas carências sociais e económicas.

Estima-se que mais de 60 mil pessoas tenham sido expropriadas de suas casas na cidade do Rio no decurso do processo de preparação da Copa do Mundo e das Olimpíadas. Grupos de residentes promoveram campanhas nas redes sociais para salvar as suas comunidades, denunciando os métodos intimidatórios utilizados pelas autoridades brasileiras. A repercussão internacional destas acções de protesto chegou mesmo a justificar o envolvimento da Amnistia Internacional, lançando uma vasta petição pelo fim das “remoções compulsórias”.

Ainda que a retórica institucional invoque a melhoria de condições de vida para os realojados, alguns investigadores denunciam o que se tornou numa estratégia de planeamento urbano assente na deslocalização das populações mais pobres para zonas periféricas, deixando os territórios desocupados livres para receber novas infraestruturas – quase sempre através de modelos de parceria público-privada – e bairros residenciais de luxo. Em causa está um processo de sanitização social que motivou a crítica aos Jogos Olímpicos como tratando-se dos “jogos da exclusão”.


Imagem: Mario Tama.

Pese embora o enquadramento de desigualdade social vivido no Brasil, a vaga de contestação popular que ali teve lugar não é, de forma alguma, um caso único. Das críticas ao despesismo dos Jogos Olímpicos de Atenas em 2004 aos confrontos violentos que assolaram a cidade de Milão no dia de abertura da Exposição Universal de 2015, não esquecendo o escândalo de corrupção que envolve a organização do Mundial do Qatar em 2022, incluindo o drama das condições desumanas a que estão sujeitos os trabalhadores da construção civil naquele país (com registo de mais de mil mortes nos últimos quatro anos), são cada vez mais recorrentes as vozes que se erguem em oposição à organização de mega-eventos um pouco por todo o mundo. Falamos afinal de iniciativas que envolvem avultados investimentos públicos que se acabam por traduzir, tantas e tantas vezes, em casos notáveis de tráfico de influências e más práticas de gestão.

As patologias que envolvem estes processos são bem conhecidas: da sub-orçamentação de custos às expectativas de retorno inverosímeis, os mega-investimentos são o exemplo paradigmático do benefício dos agentes privados – primeiramente actores no lobbying político em favor da sua realização e, posteriormente, intermediários na ocultação do endividamento público – participando, sem risco, sob o manto das garantias contratualmente assumidas pelos promotores estatais.

O risco público, no entanto, é imenso, sendo certo que os mega-eventos não podem falhar. Os intermediários sabem que os projectos têm de ser concluídos a qualquer preço e que, aconteça o que acontecer, os contribuintes serão chamados a pagar a conta, qualquer que seja o custo final.
Estamos assim na presença de um modelo de investimento de difícil controlo, levado a cabo em contextos de enorme pressão temporal e, consequentemente, de uma grosseira simplificação de procedimentos, centralização do processo de decisão e reduzido escrutínio público. Os resultados são evidentes na pouca transparência que os envolve e no favorecimento de fenómenos de corrupção.

Perante o desencanto generalizado que despertam nas populações, os mega-eventos parecem agora repercutir apenas os desejos autocráticos dos seus promotores, beneficiando da complacência política crescente das organizações que os tutelam para com países onde estão ainda ausentes mecanismos de monitorização independente. Deixam, no entanto, atrás de si, em tantas cidades e sobre aqueles que as habitam, um rasto de infraestruturas abandonadas e um acumulado de dívidas que pode levar muitas décadas a saldar.

Referências:
1. CityLab: Mega-Events Are a Disease – Seven reasons they’re so terrible for cities; Eric Jaffe;
2. Jacobin: A Better Olympics Is Possible – We can turn the Olympics from a corporate wonderland into a place of mass celebration and popular competition; Mark Perryman;
3. Politize!: Copa do Mundo e Jogos Olímpicos, Valeu a pena?; Bruno André Blume;
4. Olympic Favela – an ongoing photography and video project that visualizes the effects of forced removal of residents in 14 of Rio de Janeiro’s favelas, implemented by the city government in preparation for the 2016 Olympic Games; Marc Ohrem-Leclef;
5. Co.Design: Photographing A Different Side Of The Olympics: The People They Evicted – The games are over, but their impact on Rio will last for generations, for better or worse; Meg Miller;
6. CityLab: The Families Displaced by the Rio Olympics – The photographer Marc Ohrem-Leclef documents the effects of forced evictions in the favelas; Eillie Anzilotti;
7. Mail Online: Living in the shadow of the Olympics – Inside Brazil’s ‘favelas’ just yards from stadium where hundreds of millions of dollars have been spent ahead of the Rio Games; Gareth Davies;
8. Vice: Por dentro das manifestações contra os Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro; Angela Almeida, John Surico;
9. Dezeen: Anti-Expo protests turn violent in Milan;
10. The Guardian: Expo 2015, What does Milan gain by hosting this bloated global extravaganza?; Milan’s Expo is one of the most controversial world’s fairs ever staged in Europe. Oliver Wainwright inspects the pavilions of the 140 participating countries and assesses what the Italian city has to show for its seven-year struggle; Oliver Wainwright.

Porreiro, pá!


Image credits: Oliver Jeffers.

Dez notas sobre o Brexit e o momento histórico que estamos a viver.

1. Todo o debate está dominado por um enviesamento impregnado na própria linguagem. O mais expressivo está na utilização da expressão União Europeia (quando não mesmo a própria palavra “Europa”) como sinónimo de unidade europeia. Esquece-se que a União Europeia não é uma construção mitológica assente nas boas palavras que encimam o preâmbulo dos tratados mas, como escreve hoje Steeve Keen, uma instituição real que se transformou numa força de desunião dos países Europeus, uma entidade política disfuncional anti-democrática cujas regras e procedimentos estão a causar o declínio na Europa e a alimentar as forças racistas e separatistas que a estão agora a desagregar.

2. A campanha do referendo britânico foi um exercício vergonhoso de xenofobia, por um lado, e medo, por outro. Mas querer representar o voto no Brexit como um voto unidireccional conduzido por idiotas racistas, esquecendo a complexidade social e política de cada uma das escolhas em presença, é um exercício de um simplismo abjecto e inaceitável.

3. Na ressaca dos resultados, a mídia aí está a representar os eleitores britânicos do Brexit como idiotas, ignorando que a extraordinária participação do referendo traduz um largo espectro de eleitorado com sensibilidades políticas muito divergentes.

4. A campanha da mídia britânica para culpar Jeremy Corbyn dos resultados também já está em marcha. Se Corbyn era um incómodo antes do referendo, a possibilidade de se tornar primeiro-ministro inglês em caso de viragem política tornou-se uma ameaça real para o “establishment”. É preciso matá-lo politicamente tão cedo quanto possível.

5. Algumas vozes erguem-se agora esperando da União Europeia o início de um processo de reflexão e reforma que retome “o primado dos valores fundacionais”. É bom ter esperança. Mas também é bom lembrar que da UE não vieram quaisquer sinais de abertura a um processo desse tipo. Pelo contrário, podemos vir a assistir a exactamente o contrário; ao reforço da matriz austeritária e à tentativa de concentração de poder da União sobre a autonomia política e económica dos Estados Membros. O estertor até ao fim.

6. A instabilidade imediata lançada sobre o Reino Unido é um risco real, especialmente grave para os cidadãos mais vulneráveis, entre os quais os estrangeiros que lá trabalham como os muitos emigrantes portugueses. Mas a compreensão da gravidade desse processo não pode ser medida pela volatilidade inicial dos mercados cambiais e bolsistas. Em si mesmo, o que se vai passar nestes primeiros dias não tem verdadeira importância – a forma como a situação económica se vai reequilibrar, essa sim.

7. Na necessidade de estancar um processo de desagregação e saída de outras nações da União a UE poderá ter uma reacção inicial hostil, uma tentativa de castigar o Reino Unido como exemplo perante outros países. Mas a UE terá de vergar-se, também por influência dos Estados Unidos, consagrando à Grã-Bretanha um estatuto especial em termos similares aos que estão estabelecidos com a Suiça ou a Noruega. A situação acabará por estabilizar-se e os medos que a mídia está a lançar – como as dificuldades dos cidadãos ingleses em trabalharem nos países da União ou vice-versa – acabarão por se resolver com completa normalidade.

8. O voto de revolta, mesmo o voto xenófobo e racista, não é em si mesmo uma causa mas uma consequência da crise mais alargada que se vive hoje na Europa.

9. Acima de tudo, o voto do referendo britânico é um voto de revolta contra o “statu quo” – europeu e britânico. Os ingleses votaram na saída da União Europeia porque podem. Ponto. Muitos outros cidadãos desta Europa, como os Portugueses, os Gregos e os Espanhóis, gostariam de estar fora deste clube – dirigido por figuras cada vez mais sinistras como Wolfgang Schäuble, Jean Claude-Juncker, Donald Tusk, Jeroen Dijsselbloem e outros. Mas um referendo similar em qualquer um destes países teria sempre como resultado a manutenção – pela sua evidente fragilidade perante a força do “establishment” Europeu. A campanha do medo venceria sempre. Mas mesmo isso é verdade só até certo ponto. O medo só sustentará esta União Europeia à força até que o desespero imponha a alternativa. O que poderá acontecer na Itália ou na França, gerando, neste último caso, um terramoto político e económico difícil de imaginar.

10. O fim da União Europeia não começou ontem. A UE tornou-se numa instituição que está activamente a promover a desconstrução do tecido dos estados sociais que lhe trouxeram a paz desde o fim da segunda guerra mundial – e que está hoje a danificar e a destruir a economia de muitas das suas nações. Aquilo que estamos hoje a viver resulta do facto da União Europeia se ter tornado num projecto, não de esperança, mas de desesperança. Um projecto em que ninguém acredita e que só sobreviverá se o sistema político for capaz de levar a cabo a sua refundação. Se o processo de transformação inevitável a que vamos assistir for conduzido pela mão dos populismos da extrema direita, do Ukip à Frente Nacional, o destino será um desastre histórico de consequências trágicas para todos.

É obrigação de todos nós, cidadãos deste tempo, evitá-lo.

Querem que vos faça um desenho?

O texto anterior dedicado a analisar as distorções do gráfico da evolução da dívida pública portuguesa apresentado numa peça jornalística da RTP motivou algumas observações curiosas através do Facebook. Para melhor explicar o efeito daquelas distorções partilho convosco três imagens.





Na primeira temos o gráfico apresentado pela RTP. Repare-se a deformação do período temporal entre 2005 e 2011, no eixo horizontal, bem como a desproporção no eixo vertical entre o intervalo de zero a 100 mil milhões, e o intervalo de 100 a 200 mil milhões de Euros. Na segunda temos o gráfico com os mesmos dados, sem distorções, e na terceira podemos ver a sobreposição das duas imagens anteriores.

A ampliação do eixo temporal entre 2005 e 2011 tem o efeito de "suavizar" a ascenção da linha do gráfico, o que parece ser favorável ao período de governação coincidente, do ex-primeiro-ministro José Sócrates.

No entanto, quando atentamos na ampliação parcial do eixo de valor para o dobro no intervalo entre 100 e 200 mil milhões de Euros, verificamos que o traçado da evolução da dívida pública a partir de 2005 está também ao dobro da escala gráfica do período anterior. E aqui importa observar que o dobro da escala gráfica significa o quádruplo da área representada de dívida.

Temos assim que aquela “montanha” de dívida que aparece representada no primeiro gráfico a partir de 2005 é resultado da deformação de escalas. Dito de outro modo, no gráfico da RTP estávamos, em 2005, no sopé da “montanha”, enquanto no gráfico corrigido estávamos, nesse mesmo ano, a meio do valor atingido em 2011 e já a 2/5 da altura da dívida actual.

É difícil encontrar um exemplo tão incoerente de representação de dados quantificativos, tendo por base um gráfico com distorções de escala nos seus eixos. Fazendo um esforço de assertividade talvez possamos supor a ignorância matemática do autor da imagem e dos jornalistas do Telejornal que foram incapazes de identificar os erros nela contidos. Certo é que a peça apresentada favorece uma leitura enviesada dos factos, deixando irremediavelmente comprometida a validade técnica de todo aquele exercício.

Adenda: deixo a ligação para um artigo interessante da National Geographic sobre formas correctas e incorrectas de representar dados através de gráficos; ler A Quick Guide to Spotting Graphics That Lie.

Isto não é jornalismo: o que há de errado com esta imagem?



Uma peça jornalística da RTP dedicada a analisar a evolução da dívida pública portuguesa ofereceu ao telespectador momentos de humor involuntário. Para lá do histrionismo do apresentador José Rodrigues dos Santos, estavam em causa erros grosseiros na representação dos dados do gráfico que lhe servia de suporte. É caso para dizer: o que há de errado com esta imagem?

A falha mais flagrante tinha por base a estranha dilatação espácio-temporal do período compreendido entre os anos de 2005 e 2011 – um intervalo de seis anos com o dobro do comprimento do intervalo de cinco anos entre 2000 e 2005. Esse, no entanto, era apenas um dos erros daquele gráfico.



Aqui podemos ver a imagem da evolução da dívida pública apresentada no Telejornal, a que adicionei linhas de referência indicando o patamar dos 100 e dos 200 mil milhões de euros – note-se também que o referencial “zero” se encontra abaixo da linha preta do gráfico da RTP.
Mais importante, no entanto, é notar que, para além da já referida distorção do eixo horizontal, também o eixo vertical apresenta uma incompreensível desproporção da escala de valores – distorção essa que, ao contrário da primeira, se afigura dificilmente justificável como uma mera falha na edição dos dados.

Constata-se afinal que o intervalo entre 0 e 100 mil milhões de euros é muito mais pequeno do que o intervalo entre 100 e 200 mil milhões de euros – e isto sem ajustar sequer a perspectiva dessas linhas de referência ao formato do quadro virtual apresentado. Se o fizéssemos, o agravamento de escala seria ainda maior. Temos assim que a linha traçada pela imagem é uma aberrante distorção da realidade, com incoerências na representação do tempo e uma clara manipulação na representação da escala de valor.

Estamos perante uma peça sem qualquer validade académico-científica e um insulto á inteligência dos espectadores, a que acresce uma questionável exposição dos factos por parte de José Rodrigues dos Santos. Apontando para o ano de 2011, o apresentador refere que para agravar as coisas, o Eurostat descobriu que alguns países, incluindo Portugal, estavam a esconder a dívida em empresas públicas, dívida que não era incluída nas contas nacionais; ou seja, endividávamo-nos, mas escondíamos a dívida. Prossegue então para sustentar que foi a alteração do modelo de cálculo do perímetro orçamental por parte de Bruxelas que justificou o aumento subsequente da dívida, fazendo atingir valores da ordem dos 233 mil milhões de euros em 2016.

Sucede que o Eurostat não descobriu nada que não se soubesse há muito. O gabinete de estatísticas da União Europeia simplesmente começou a alterar as suas regras a partir de 2009 pressionado pela crise na Grécia e o alarme provocado pela elevada exposição da banca alemã e francesa aos títulos de dívida daquele país – pondo fim à permissividade com o endividamento que até então havia vigorado, com o beneplácito da Comissão Europeia e o incentivo financeiro directo da UE.

De resto, se esse processo justifica o acentuar dos valores da dívida portuguesa verificado até à chegada da troika a Portugal, não explica certamente porque é que aqueles valores continuaram a subir em tempo de austeridade até ao presente.


Adaptação do cartoon original de Zach Weiner, via SMBC Comics.

Mais do que tudo isto, importa referir a inutilidade de todo este exercício. O que lemos nós afinal naquela linha que representa a evolução da dívida pública portuguesa desde o ano 2000? Se existem valores que foram sendo introduzidos, a partir de 2009, por via do alargamento do perímetro orçamental por parte do Eurostat, isso significa também que a única forma de observar com seriedade a evolução da dívida seria discriminar esses valores introduzidos e detalhar também a sua evolução ao longo dos anos, em todo aquele período.
Só assim seria possível observar o modo como aquelas dívidas foram sendo criadas e a sua evolução ao longo do tempo.

Disse um dia Stephen Hawking que o maior inimigo do conhecimento não é a ignorância, mas a ilusão do conhecimento. Eis um flagrante exemplo de como a televisão e o "jornalismo" podem servir para promover essa perversa corrosão do saber.

Adenda: a imagem abaixo, editada, tenta corrigir os erros de distorção do gráfico da RTP.


Sobre este tema ler também: Isto não é jornalismo.

Coisas que aprendi a escrever um blogue


Image credits: Oliver Jeffers.

Se a subjectividade é uma qualidade que, em grande medida, devemos celebrar, importa ter em conta que o uso recorrente da primeira pessoa na validação de um argumento é nada mais do que um atalho de pensamento. Era esta a ideia central da anterior reflexão Autobiografia de um pequeno ego, escrita a propósito do simplismo que predomina sobre o exercício da opinião publicada nos meios de comunicação social.

Uma das coisas que aprendi a escrever um blogue ao longo de uma década foi a identificar e corrigir algumas patologias de escrita. A mais recorrente é porventura o uso inadvertido da primeira pessoa do singular como mecanismo de auxílio retórico. Raros são hoje os momentos em que aplico esse tempo verbal e, nas circunstâncias em que tal sucede, correspondem sempre a uma opção reflectida e deliberada.

Existe um forte motivo para tal. É inteiramente diferente produzir reflexão sobre um tema, seja ele qual for, aplicando ou omitindo a primeira pessoa do discurso. Esse facto é particularmente relevante quando o objecto que merece a nossa atenção não diz respeito à nossa experiência de vida, como seja uma opinião sobre questões de sociedade ou política, quer se trate de um tema controverso ou até de uma crítica a uma figura pública.

A introdução da primeira pessoa no discurso permite validar e enfatizar uma opinião a partir de nós próprios, invocando, para tal, os sentimentos que tais temas nos suscitam. Podemos certamente abordar questões complexas como, por exemplo, o casamento e a adopção homossexual, a interrupção voluntária da gravidez ou a morte assistida, recorrendo, para tal, dos juízos éticos, morais ou meramente emocionais que elas nos evocam.

Ao fazê-lo, o autor estará a esquecer-se que a sua experiência de vida é provavelmente irrelevante para o entendimento pleno das matérias em discussão. A nossa vida é apenas nossa e é marcada por um conjunto específico de circunstâncias, desafios, limitações e privilégios – todos eles diferentes do universo mais vasto de pessoas que se confrontam com tais problemas. Mais grave ainda, corremos o risco de ignorar desigualdades e sublimar vantagens estruturais presentes na nossa condição social.

Pelo contrário, quando removemos da argumentação a primeira pessoa vêmo-nos na contingência de encontrar asserções que a sustentem fora de nós próprios. A primeira pessoa oferece-nos respostas. A sua ausência obriga-nos a fazer perguntas; sobre os factos, sobre as circunstâncias que os envolvem, enfim, sobre esse vasto mundo, cheio de dúvidas e interrogações, que importa descobrir lá fora.

Autobiografia de um pequeno ego


Image credits: Oliver Jeffers.

Importa exprimir inequívoco repúdio contra qualquer forma de atentado à liberdade de expressão ou ameaça à integridade física de que possa ter sido alvo Henrique Raposo, o Salman Rushdie português. Eu próprio não gostaria de enfrentar as hordas de alentejanos que, envergando capote e sacolejando escabreadamente foices e forquilhas, consta estarem a deslocar-se a grande velocidade pedonal em direcção à ponte 25 de Abril. Antevêem-se os maiores confrontos desde o célebre bloqueio do garrafão de 1994 tendo o Presidente da República, melancolicamente, decidido decretar o estado de alerta máximo e convocar para o local o Corpo de Intervenção da PSP.

Excluindo estes sulistas radicais, será razoável presumir que o fenómeno se circunscreve nos meios urbanos a uma tipologia de indignação ciberespacial – o tipo de acção próprio de uma turba a que, em inglês técnico, poderemos denominar por uma outrage brigade. Ainda assim, não devemos menosprezar o poder das brigadas da indignação. É certo que, de um modo geral, falamos de indivíduos para quem levantar do sofá é já um desafio considerável. No entanto, estando perante uma fatwa alentejana, há sempre a possibilidade do visado sofrer o típico arremesso da linguiça nas ventas – recomendando-se para o efeito, de preferência, a aplicação de um rechonchudo enchido de Estremoz, que vai muito bem com um tinto Monsaraz de 2011.

Falando mais a sério, a falta de magnanimidade é própria dos intelectos menores. Não nos devem assim merecer os indignados qualquer espécie de complacência. Por pequenez intelectual não vislumbram os ofendidos o óbvio: Henrique Raposo é incapaz de escrever sobre qualquer coisa que não ele próprio. Há quem tenha em falar de si mesmo o passatempo preferido. Raposo tem o mérito de fazer disso um modo de vida.

Não se trata de uma caricatura. Dedique-se o leitor a percorrer as crónicas que este verdadeiro João Pereira Coutinho da era dos millenials redige semanalmente para o Expresso. Nove em cada dez textos escritos por Henrique Raposo são sobre Henrique Raposo. Há dias fui. O que senti. O que li. O pequeno episódio caricato que presenciei. As minhas coisas favoritas. Eu. Eu. Eu.
A mesma patologia de pensamento e linguagem podemos identificar no vídeo da polémica: pequenos episódios plenos de subjectividade, contados na primeira pessoa, elevados a retrato sociológico com a superficialidade de quem pensa o mundo em cima do joelho.

Pese embora essa voluptuosa esgrima retórica que hoje se toma por erudição, o uso recorrente da primeira pessoa na validação de um argumento é, na verdade, nada mais do que um atalho de pensamento. Se a subjectividade é uma qualidade intrínseca à própria linguagem que, em grande medida, devemos celebrar, importa ter presente o quanto o ela interfere com a nossa busca de conhecimento e a forma como agimos perante o que nos é exterior.
O que está aqui verdadeiramente em causa é uma mediocridade que é transversal a tantos comentadores que ocupam o espaço mediático, contribuindo para a degradação generalizada do exercício da opinião. Henrique Raposo, como muitos outros, representa bem essa desenvoltura atrevida, “fabulosa” no sentido pewdiepiano do termo, incapaz de distinguir o prisma distorcido do seu pequeno ego com a construção de um olhar crítico sobre o mundo lá fora.

A política do mata-mata


Image credits: Adrià Fruitós.

Em Março do ano passado, seis anos depois da Reserva Federal Americana ter iniciado o seu programa de estímulo económico de emergência e cinco anos depois do Banco de Inglaterra fazer o mesmo, o Banco Central Europeu iniciou finalmente o seu próprio programa de expansão quantitativa (quantitative easing).

Em pouco mais de um ano, o BCE terá emitido mais de 1 bilião (1 milhão de milhões) de Euros, que aplicará na compra de títulos de dívida pública dos países da zona Euro em posse de instituições financeiras.
Este modelo de quantitative easing tem, para além do objectivo principal de combater a deflacção, dois objectivos adicionais: capitalizar os bancos com novas reservas – criando condições favoráveis para a emissão de novos créditos – e ainda pressionar negativamente os juros dos títulos de dívida do Eurosistema.

Para levar a cabo esta operação o BCE impõe, como condição prévia à eligibilidade de cada país, que a dívida destes tenha um rating superior à classificação “Ba1” – o limiar abaixo do qual passa a ser designada como “lixo” – por parte de pelo menos uma das grandes agências de notação financeira internacionais: as americanas Standard & Poor’s, Moody’s e Fitch, e a canadiana DBRS.

Actualmente, apenas a DBRS atribui a Portugal uma classificação fora do patamar de “lixo”, ainda que na mais baixa categoria de investment grade. Se, numa das suas próximas revisões, a DBRS descer a notação portuguesa, o país deixará de estar em condições para poder beneficiar do programa de expansão quantitativa do BCE e os títulos de dívida pública deixarão de ser aceites como colateral nas operações de financiamento à banca nacional.

Temos assim que o BCE se auto-impõe uma condição que deixa o destino dos países da zona Euro nas mãos das agências de notação financeira – as mesmas agências que tiveram um papel instrumental na arquitectura das obrigações de investimento associadas ao mercado imobiliário, compostas por contratos de crédito sem qualidade mas validadas com a mais alta categoria de notação, produzidas pelas grandes firmas de Wall Street e vendidas massivamente a entidades públicas e privadas de todo o mundo.

A vulnerabilidade criada por essa condição do BCE é evidentemente mais lesiva para países de pouca influência externa, como a Grécia (que ainda hoje não está coberta pelo programa de quantitative easing) ou Portugal. No nosso caso, o país é deixado à mercê de uma externalidade que poderá despoletar, sem que nada de significativo ocorra na nossa economia, um inusitado alarmismo e consequências trágicas, tanto para o sistema bancário como para o Estado.

Certo é que as movimentações de bastidor que tiveram lugar em Bruxelas durante o período de discussão do orçamento entre o governo Português e a Comissão Europeia, procurando criar entraves a um desfecho favorável, fazem temer o pior. Parecem assim existir actores políticos, de partidos ditos moderados, que estão dispostos a participar activamente na instabilização da imagem externa do país, na esperança que a DBRS nos penalize da mesma forma como o têm feito as três grandes agências Americanas.

Em boa verdade, o que esta circunstância de vulnerabilidade imposta pelo BCE nos revela é o modo como o Euro não é, de facto, a nossa moeda. Os países concederam o controlo da sua soberania monetária a um órgão supranacional que, sem ter de prestar contas a ninguém, pode, a qualquer momento, congelar ou retirar a liquidez a um estado membro. A verificar-se o pior cenário – resultante do agravamento da notação da dívida Portuguesa pela DBRS – Portugal será fortemente penalizado, não por estar insolvente ou incapaz de corresponder aos seus compromissos internacionais, mas pelo simples facto de não alinhar na política fiscal desejada pela União Europeia. Ao fazê-lo, o BCE acaba por assumir um papel político, em prolongamento da acção da Comissão Europeia, que nunca, em qualquer circunstância, poderia assumir.

Infelizmente, o precedente Grego de 2015, em que o BCE não só retirou àquele país o acesso ao financiamento directo como lhe vedou a participação no programa de estímulo económico de emergência, revelam-nos que nesta Europa, tudo, até o mais impensável, é possível.

É o dinheiro, estúpidos! Carta aberta a João Miguel Tavares



Ao contrário do João Miguel Tavares, esta senhora sabe o que é o dinheiro.

Permitam-me o recurso a uma metáfora futebolística, figura tão recorrente no comentário político. Imagine o João Miguel Tavares – imagine o leitor – que o seu clube de futebol de eleição participa num campeonato que você sabe, à partida, estar todo viciado. Os árbitros estão todos comprados contra si, os adversários estão encharcados em “doping”, a vossa equipa tem menos jogadores à disposição. Isso, no entanto, dirão os comentadores, é “a realidade” inevitável que não vale a pena discutir nem pôr em causa – e, se o fizerem, serão expulsos da competição.
Resta-vos apenas debater qual a táctica que deverão aplicar para procurar não perder os jogos.

Boa sorte…

É um pouco isto que nos dizem também mil e um cronistas que vão pregando o fatalismo moralista da realidade. Exemplo disso é o recente texto de João Miguel Tavares no Público, repetindo aos quatro ventos o quanto estamos falidos. Pese embora o tom irreverente que lhe é habitual, o texto é mais um exemplar da ignorância típica da “economia do senso comum” com que se vai intoxicando diariamente a opinião pública.
Desagradado com a ginástica negocial que o governo português procurou estabelecer com a Comissão Europeia, o jornalista começa por dizer que não vale a pena chamar “políticas de direita” à matemática. A matemática não é de esquerda nem de direita – é apenas matemática. Falir não é de esquerda nem de direita – é apenas falir.

Acreditando que a política económica obedece a uma racionalidade ideologicamente neutra – porque os números, supostamente, não têm emoções nem têm ideologia – repete o enunciado da austeridade inevitável. A busca de um caminho político alternativo é, nesse pressuposto, uma “negação da realidade”. E assim conclui João Miguel Tavares: Negar a realidade é uma deserção ideológica: a esquerda, em vez de se colocar ao serviço daquilo que aí está (como distribuir o dinheiro que temos?), coloca-se ao serviço daquilo que não está (como distribuir o dinheiro que não temos?). Ora, este viver em permanente estado de negação da realidade é uma tragédia para o país. Falimos. Arruinámo-nos. Não temos dinheiro. Estamos de mão estendida. Antes de seguir pelo caminho da esquerda ou da direita, será assim tão difícil começar por admitir isto? Falimos. Fa-li-mos. F-a-l-i-m-o-s.

Falimos?

Como nos lembrava há alguns meses Philippe Legrain, ex-consultor de Durão Barroso na Comissão Europeia e uma das vozes mais críticas do rumo político-económico da União Europeia, os anos da “troika” deixaram Portugal com mais dívida, menos PIB, mais desemprego, mais pobreza e valores históricos de emigração.
No entanto, sendo a nossa situação objectivamente pior em 2015 do que aquela em que nos encontrávamos há quatro anos, por que motivo atingiram então os títulos de dívida pública portuguesa juros recorde, superiores a 10%, nos mesmos mercados que hoje nos financiam a juros inferiores a 3% e até a 2%?

A razão porque os juros baixaram tem explicação fácil. O Banco Central Europeu está a levar a cabo, desde o ano passado, uma gigantesca operação de “quantitative easing”, introduzindo dessa forma uma enorme pressão negativa nos juros de títulos dos países da zona Euro e facultando aos bancos reservas disponíveis para suportar a emissão de novos créditos.

Menos consensual é o motivo por que os juros tanto subiram em 2011. A resposta estará na conjugação perigosa de vários factores. Consideremos, em primeiro lugar, a inactividade das instituições da União, em particular do BCE que só iniciou o seu processo de QE em 2015, sabendo-se que os Estados Unidos o fizeram logo a partir de 2008 e o Reino Unido em 2009. A isto somou-se o agravamento violento dos “ratings” dos países mais vulneráveis da zona Euro por parte das agências de notação financeira, catapultando a subida vertiginosa dos juros dos seus títulos de dívida. As mesmas agências (Standard & Poor’s, Moody’s, Fitch) que até 2007 asseguravam “rating” triplo-A aos CDO’s tóxicos com que as grandes instituições financeiras de Wall Street quase fizeram colapsar a economia mundial.

Importa dizer que não está em causa ignorar as responsabilidades dos governos que seguiram políticas de expansionismo imprudente, colocando os seus países numa circunstância de perigosa vulnerabilidade. Mas não podemos deixar de nos interrogar sobre o motivo por que o Banco Central Europeu coloca, ainda hoje, nas suas próprias regras, o destino dos países que devia defender, na mão de tais agências financeiras.
Em boa verdade, tivessem as instituições da União agido em defesa das nações e teríamos sido poupados, no passado como no presente, a anos de austeridade empobrecedora e inútil.

Tudo isto, claro está, leva-nos por fim à grande questão que o João Miguel Tavares aflora mas é incapaz de aprofundar: a questão do dinheiro – que temos, que não temos, que define essa “realidade” tremenda que tantos invocam.



É aqui, na dimensão política, não matemática, do dinheiro, que a ignorância do senso comum se torna perigosa. Ignora João Miguel Tavares – como tantos outros comentadores – que vivemos num sistema financeiro em que a esmagadora maioria do “money stock” em circulação (mais de 95%) foi criado pelos bancos através do processo de emissão de crédito – e não pelos bancos centrais.
Eis um dos grandes paradoxos do nosso tempo: que lidamos com dinheiro todos os dias, durante toda a vida, sem conhecer o que ele é, como se cria e se introduz na economia. Na verdade, a emissão de crédito pela banca comercial corresponde à criação de dinheiro novo e não ao “empréstimo” de dinheiro já existente – como intuem erradamente tantos cidadãos.
Usando e abusando do poder de criar dinheiro “do nada”, ao abrigo dos mecanismos do “fractional reserve banking” e da sucessiva desregulamentação da actividade bancária, os bancos produziram em poucas décadas um aumento geométrico do volume de dinheiro disponível – bem como da dívida que lhe é correspondente.

Trata-se, em boa verdade, de uma trágica concessão da soberania monetária das nações. Algo que nunca foi deliberado democraticamente pelos povos ou assumido publicamente pelos seus governos, e cuja discussão está de todo ausente dos mídia generalistas. Se os cidadãos despertassem para esta outra “realidade”, talvez se interrogassem quanto aos motivos por que no contexto de moedas fiduciárias como o Euro, os Estados se colocam na contingência de se financiarem exclusivamente em instituições privadas que beneficiam da criação de dinheiro sobre a forma de crédito, em vez de se financiarem, de forma necessariamente regulada, junto de instituições centrais de natureza pública.

Ou talvez o público questionasse ainda o absurdo de uma Europa cujo banco central se permite insuflar 1.2 biliões (milhão de milhões) de euros em “quantitative easing” para o interior do sistema financeiro privado, mas que para alavancar um plano (Juncker) de estímulo económico obriga os países a financiarem-se junto da banca comercial, através da emissão de mais crédito, logo com aumento da dívida ao sector privado.

Mas tudo isto, claro está, não se enquadra no discurso moralista da “direita da realidade” que nos apresenta João Miguel Tavares e tantos outros comentadores que laboriosamente, na televisão e nos jornais, vão erguendo o mundo à frente dos nossos olhos, para nos cegar da verdade.

Adenda: para os leitores regulares do blogue, este texto não deixará de parecer revisão de matéria dada. Para os restantes, ficam ligações para artigos anteriores onde se tratam, em maior profundidade, algumas das questões aqui abordadas. A ler: O lastro; De onde vêm as dívidas; Sabia que os bancos criam dinheiro do nada? e A grande questão política do nosso tempo.

The great architectural divide



The PC [politically correct] takeover of architecture is complete: the Pritzker Prize has mutated into a prize for humanitarian work. The role of the architect is now “to serve greater social and humanitarian needs”, and the new laureate is hailed for “tackling the global housing crisis” and for his concern for the underprivileged. Architecture loses its specific societal task and responsibility, architectural innovation is replaced by the demonstration of noble intentions and the discipline’s criteria of success and excellence dissolve in the vague do-good-feel-good pursuit of ‘social justice’.
I respect what Alejandro Aravena is doing and his "half a good house" developments are an intelligent response. However, this is not the frontier where architecture and urban design participate in advancing the next stage of our global high-density urban civilization.
I would not object to this year’s choice half as much if this safe and comforting validation of humanitarian concern was not part of a wider trend in contemporary architecture that in my view signals an unfortunate confusion, bad conscience, lack of confidence, vitality and courage about the discipline’s own unique contribution to the world.

Patrik Schumacher, via Facebook.

Patrik Schumacher’s very public reaction to this year’s Pritzker Prize announcement didn't exactly come as a surprise. The outspoken director of Zaha Hadid Architects seems to have a propensity for controversy and doesn’t shy away from a good altercation with strangers on the social web.
Despite the severity of his words or the platform used to convey them, it would be wise to avoid any temptation to personalize the discussion. There’s likely much more to consider than the mere clash of individual personalities or “styles”. In fact, however inadvertently, his stance portrays the greater divide that stands before the architectural profession in the 21st century.

At the core of this dispute stands a divergent understanding of the role architecture should play in society today. In his repeated affirmation of Parametricism as the paradigmatic style of our era, the forefront of architectural discourse and innovation in an age of globalization and market-led economies, Patrik Schumacher has emphasized the notion that architecture and politics shouldn't be associated.
Socially-engaged practices, such as the one recognized by this year’s Pritzker, stand on the opposite side of the barricade. Architecture should not only be politically engaged, it is inevitably an extension of a political discourse.


Image credits: Hufton + Crow.

The idea that Parametricism, both as a movement or a conceptual discipline, is devoid of politics seems to have correspondence with the neoliberal stance regarding the “amorality” of economic agents – an affirmation that is everything but neutral concerning “morality”. If anything, it is in fact a politically charged manifestation of the ideas of its time. Paradoxically, the term was officially “coined” by Patrik Schumacher in 2008, at the peak of the greatest financial crisis of our generation.
If Parametricism is indeed an architecture of its time, it seems to reflect the peak of an era of irrationalism, the product of forty years of credit-based monetary expansion. A financial, economic, political, social bubble. An architecture fitting for a culture of "non-crisis".

That era, as we know, began its demise in that same year of 2008. And, just as much, Parametricism runs the risk of becoming an architecture of the past, even in its forthcoming manifestations. What does the world of architecture, and architects around the world, have to learn from it? Hyper-structural buildings often characterized by a gross disproportion between the container and its contents, with an inversely proportional relation between the built and the lived; an architecture fiercely engaged in providing to the visitor the ecstasy before its own obesity.

As we are learning fast, bad politics will always result in bad architecture – and that’s something that not all the rhetoric in the world can hide.


Image credits: Vhils.

One question remains though: where is the forefront of architecture today? What epitomizes the vanguard? Aravena’s “half a good house” or the latest curvy condo in NY? If architecture is to affirm any kind of ethical commitment towards society, these interrogations should be acknowledged: do we really care about the cutting-edge skeletal residential tower by the beach in Copacabana, when you have over one million people living in favelas in the background?

By disregarding socially engaged architectural practices, Patrik Schumacher displays a tragic absence of understanding of the profound transformations that are likely to take place in this century. Having exhausted a financial model of debt-based-growth, beyond all sustainability, we are likely to witness unforeseen changes in our economic paradigm that will ultimately impact our professional landscape.

After the downfall of the CDO market and its worldwide ramifications, after the sovereign debt crisis instigated by the same rating agencies that were giving triple-A status to subprime mortgage-based CDOs right before the collapse, after the recession caused by misguided austerity policies that increased unemployment and poverty, we are now witnessing symptoms of an alarming shutdown of the global economy – impacting heavy industrial machinery enterprises, extracting industries, oil and gas companies, and now, financial markets around the world.

Making matters worse, we are simultaneously facing unquestionable signs of the impact of human activity on the planet. During this century, we are likely to face environmental transformations that will impact agriculture and other forms of human production. We will confront water shortage in several parts of the globe and a dramatic need to embrace more sustainable forms of energetic consumption.


Image credits: JR.

All these changes will impact our political and social landscape in ways we cannot yet perceive, but already we are faced with massive migrations, poverty and relentless inequality. And just as much, architecture too will be summoned to participate in the process of finding answers to these manifestations and the ways in which these will be expressed in the built environment. It's only by facing the prospect of these interconnected transformations that we can establish a true notion of what is critically relevant in our times.

This is the great architectural divide that stands upon us today. One may seek refuge in the ivory towers of globalized corporations, with these harsh realities far away from view, and find a comfortable living designing for the one percent. Just don't act surprised if your work is not particularly engaging, and least of all relevant, to the other ninety-nine.

The Big Short: a história de um crime financeiro contra a Humanidade



The Big Short é um retrato dos anos que precederam a crise financeira de 2007/2008. O filme acompanha um conjunto de analistas que vislumbrou antecipadamente o colapso das obrigações de investimento associadas ao mercado imobiliário (CDO), consideradas até então como produtos de baixo risco, classificadas pelas agências de notação como triplo-A e vendidas massivamente pelas instituições de Wall Street.

Adaptação do livro The Big Short: Inside the Doomsday Machine de Michael Lewis, o filme realizado por Adam Mckay tem o mérito de enveredar para lá da opacidade que habitualmente se esconde por detrás de expressões como derivados complexos, activos tóxicos ou economia de casino. Com o olhar satírico que lhe é peculiar, Mckay consegue tornar acessível para o grande público o emaranhado de conceitos que está na origem de tais produtos financeiros. Mais do que isso, o filme denuncia a chocante falta de ética, o “curto-prazismo”, enfim, a ganância irreprimível que levou Wall Street a perpetrar nada mais do que um autêntico crime financeiro contra a Humanidade.



E isto, senhoras e senhores, é o fim do mundo tal como o conhecemos.

No livro O Minotauro Global, Yanis Varoufakis detalha o modo como os CDO foram instrumentos que conduziram à intoxicação da economia mundial. Explica, em resumo, que os banqueiros pagavam às agências de notação de risco para conceder o estatuto de triplo-A às CDO que eles emitiam; as autoridades reguladoras (incluindo o banco central) aceitavam estas classificações como sendo fidedignas; e os jovens promissores que tinham garantido um emprego mal remunerado com uma das entidades reguladoras em breve começaram a planear a mudança de carreira para o Lehman Brothers ou para a Moody’s. A supervisioná-los estava um bando de secretários e de ministros das Finanças que ou já tinham servido durante anos no Goldman Sachs, no Bear Stearns, etc., ou estavam à espera de se juntar ao círculo mágico depois de deixarem a política. (…) Numa ecologia em que a riqueza do papel parecia auto-propagar-se, seria precisa uma disposição heróica – imprudente – para fazer soar os alarmes, para fazer as perguntas embaraçosas, para lançar dúvidas sobre o pressuposto de que as CDO de triplo-A acarretavam risco zero. Mesmo que algum regulador, corrector ou banqueiro romântico soasse o alarme, ele seria esmagado, acabando como figura trágica na sarjeta da história.

Os heróis acidentais do filme de Adam Mckay são exactamente essas figuras divergentes: analistas e gestores de investimento que, antevendo o colapso inevitável de uma colossal bolha imobiliária, conseguem prever a queda subsequente do mercado de obrigações colateralizadas. Procuram assim subscrever junto dos principais bancos de Wall Street obrigações em regime de swap (CDS), seguras em caso de incumprimento de crédito. Ao fazê-lo, estes investidores estavam a assumir enormes riscos, uma vez que só teriam retorno em caso de falência daquelas obrigações. Estavam, em boa verdade, a jogar contra o mercado – a jogar contra toda a economia. E, no entanto, convencidas da estabilidade do mercado de obrigações imobiliárias e da verdade do paradigma económico-financeiro que havia vigorado durante décadas, as firmas de Wall Street aceitaram a aposta.


Michael Lewis, autor do livro The Big Short: Inside the Doomsday Machine, editado em 2010.

Apesar do recurso a um registo satírico, por vezes caricatural, The Big Short não deixa de ser um drama biográfico sobre o maior crime financeiro da História. Muito mais do que “um filme sobre Wall Street”, esta é uma obra provocadora que aborda eventos que dizem respeito a todos. Trata-se afinal de denunciar os factos que estiveram por detrás do despoletar de uma profunda crise sistémica que continua a desenrolar-se nos dias de hoje.
Com produção de Brad Pitt que também participa ao lado de Steve Carell, Christian Bale e Ryan Gosling, acompanhados de uma lista de notáveis actores secundários onde podemos encontrar Melissa Leo e Marisa Tomei, este é um filme simplesmente obrigatório para todos os que querem conhecer melhor o mundo em que vivemos, para lá do cenário de aparências que tantas vezes se faz passar como “realidade” aos olhos do grande público.

2016 Pritzker Prize: Alejandro Aravena


Image credits: Cristobal Palma.

O arquitecto chileno Alejandro Aravena, a quem dediquei o meu texto de ontem, foi hoje anunciado como vencedor do Prémio Pritzker 2016.

Alejandro Arajena é director do estúdio de arquitectura ELEMENTAL, sediado em Santiago, que se tem destacado pelos seus projectos de interesse público e impacto social. Particularmente considerada é a sua intervenção no domínio habitacional, estando envolvido na concepção de mais de 2500 unidades de habitação de custos controlados na última década.

Um dos aspectos mais elogiados no trabalho da ELEMENTAL é a inclusão dos cidadãos em processos participados de projecto, levados a cabo em condições de grande proximidade entre os arquitectos e os futuros utilizadores. Como o próprio Aravena confessou aquando da sua conferência no fórum TED, tratam-se de processos muitas vezes conturbados e difíceis mas que podem conduzir a resultados surpreendentes, promovendo uma forte ligação entre o espaço construído final e os seus habitantes.

No anúncio oficial da atribuição do prémio, Thomas Pritzker refere que o Júri seleccionou um arquitecto que aprofunda a nossa compreensão do que é verdadeiramente um grande projecto. Alejandro Aravena é pioneiro de um tipo de prática colaborativa que produz trabalhos de arquitectura poderosos e que abordam os principais desafios do século XXI. O seu trabalho construído confere oportunidades económicas para os menos privilegiados, atenua os efeitos dos desastres naturais, reduz o consumo de energia e providencia espaços públicos acolhedores. Inovador e inspirador, ele revela-nos que a arquitectura, no seu melhor, pode melhorar a vida das pessoas.

Mais informação no sítio oficial do Prémio Pritzker, com destaque para o Media Kit e o Livro de Imagens, disponíveis em formato digital.

A arquitectura nas trincheiras do mundo



Não há nada pior do que responder correctamente à pergunta errada.

TED: Alejandro Aravena (My architectural philosophy? Bring the community into the process).

O tema da Exposição Internacional de Arquitectura da próxima Bienal de Veneza é dado por Alejandro Aravena, o homem forte da Elemental. Reporting from the front é o mote para questionar a vanguarda contemporânea num momento em que se começam a vislumbrar os contornos das transformações profundas –económico-financeiras, ambientais, sociais – que irão marcar a história deste século. Aravena propõe-nos afinal algo muito simples: que a linha da frente da prática e da crítica da arquitectura está na charneira da crise – ou dos múltiplos cenários de crise da nossa era.

O seu texto de abertura invoca sem ambiguidades o dever social da arquitectura, dando conta do número crescente de pessoas que busca uma melhor qualidade de vida num mundo cada vez mais incapaz de corresponder às carências emergentes. O futuro do ambiente construído é um lugar central nessa discussão que é tanto crítica quanto política. Está em causa, como escreve o curador da exposição, combater o business as usual e afrontar a inércia da realidade. Trata-se de identificar a “cultura da não-crise” como um dos verdadeiros inimigos deste tempo.



No repto que lança aos diversos parceiros do evento, arquitectos, sociedade civil e representantes nacionais, Aravena parece mais interessado em convocar os problemas com que estes se confrontam – as crises por resolver que habitam os seus territórios – do que fazer desfilar uma montra de soluções aparentes, pouco sujeitas à adversidade da experiência e de nenhuma consequência futura.
Paolo Baratta, presidente da Biennale, confirma esse desígnio sublinhando o afastamento entre uma arquitectura crescentemente preocupada em produzir edifícios espectaculares, reflexo celebratório do poder e das ambições dos clientes e, por outro lado, uma sociedade que lhe fica indiferente, desistindo de interrogar a Arquitectura.

Está dado o mote para um evento promissor que poderá redefinir a linha da frente da arquitectura como lugar de conflito e de crise, para lá de elaborações sobre desenho e edifício, questionando teorias de organização social e estratégias de envolvimento cívico. Importa afinal considerar a responsabilidade que transcende para lá dos edifícios que se desenham, das cidades que eles constroem, perante aqueles que as irão ocupar e a vida que neles irão fazer.
É esse também o território que Alejandro Aravena vem explorando nos últimos anos, ao leme da Elemental, através de um corpo de trabalho divergente e provocador que vale sempre a pena explorar. Ficam várias imagens de alguns dos seus projectos de intervenção social mais conhecidos, abaixo.

Viagem ao fim do mundo



Aqueles que têm acompanhado o desastre do Rio Doce – de que escrevi aqui – não devem perder o artigo publicado hoje no sítio web Jornalistas Livres; ler Do Lucro À Lama: uma viagem de Mariana ao fim do mundo. Trata-se de um verdadeiro trabalho de grande reportagem, muito bem escrito e documentado, que faz o retrato completo dos antecedentes da tragédia, da influência política das empresas envolvidas, dos avisos ignorados e da extensão da catástrofe ambiental que está a ser vivida pela população do estado de Minas Gerais. Chocante mas obrigatório.