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Oitocentos anos de escárnio e maldizer

Em oposição à exaltação não-crítica do “autor” está o papel desempenhado pelos blogues e as redes sociais enquanto espaços de opinião no directo da rede. Se por um lado temos a incapacidade em produzir asserções sobre “a obra” baseadas em argumentos substantivos, subjectivos mas qualificáveis, temos por outro o exercício infeliz do “achómetro”. Oitocentos anos de escárnio e maldizer encontraram na internet a placa de petri ideal para a fermentação, tudo reduzindo a uma caricatura do outro.

Exemplo deste fenómeno são os ataques recorrentes que a artista portuguesa Joana Vasconcelos parece merecer na nossa blogosfera. Se é certo que não devemos sustentar a ideia provinciana de que só porque alguém é “reconhecido lá fora” será merecedor de vassalagem “cá dentro”, também não devemos alimentar a agressão moral sobre outrem pelo simples facto de ter conquistado notoriedade.
O facto torna-se mais grave quando não encontramos nesses ataques qualquer substância argumentativa que os sustente. Os casos variam entre o engraçadismo habitual, assente na adjectivação mais ou menos colorida, a ataques de classe dirigidos à “política cultural do governo” para quem a artista é um mero dano colateral, ignorável e até desejável. Sobre as obras, invariavelmente, nada se diz.

A subserviência acrítica sobre uns e a destruição liminar de outros são duas faces da mesma moeda, de uma grosseira incapacidade de produzir juízo de valor sobre as coisas. Em boa verdade pouco falamos de obras, antes enfatizamos a chancela do autor – e para quem não tem chancela não há obra que lhe valha, por melhor que seja.
O que perpassa de tudo isto é o modo como olhamos uns para os outros neste tempo tóxico que estamos a viver. A cultura do escárnio é produto da descrença e do cinismo, inimiga maior de uma sociedade meritocrática, entusiástica e desinteressada, motivada por descobrir, partilhar e proteger aquilo que tem valor.

Adenda: uma resposta e um comentário, aqui.

Arquitectura do défice: da arquitectura como narrativa política

Uma obra estimada em 108 milhões de euros para construir em três anos. Mais de uma década passada, 400 milhões de euros depois, o parlamento Galego decidiu concluir o processo de construção da Cidade da Cultura de Galicia “tal como está”, com dois edifícios ainda por construir.
A notícia, agora partilhada por Edgar Gonzalez, confirma as perplexidades já abordadas pelo popular Jordi Évole no seu documentário Cuando éramos cultos. Um retrato severo da bolha cultural de Espanha de que agora restam cascos “sem uso nem conteúdo”, cronicamente deficitários e financeiramente insustentáveis.

Estamos perante um exemplo paradigmático de uma doença mais vasta que atinge o que tantas vezes se faz passar como "política pública de arquitectura". Que devaneios desta natureza tenham sido cometidos em nome do “apoio à cultura”, com a cumplicidade e a vassalagem de todos os agentes institucionais, é bem o retrato da corrosão ética e moral que conduziu à nossa sociedade à falência, em múltiplas formas.

Temos assim a arquitectura enquanto manifestação e veículo de narrativas políticas, uma arquitectura que não se move verdadeiramente por ideias e valores, que não traz consigo qualquer entusiasmo ou vontade de transformação do mundo, antes padece das mesmas debilidades que enfermam o discurso político corrente. Por isto mesmo são operações que se revestem de uma forte carga discursiva, ficções validadas pela chancela “notável” de autor onde confluem interesses e oportunismos geradores das maiores armadilhas financeiras. Que o interesse público, esse valor central da democracia, seja a primeira vítima destes processos é algo que não parece trazer consequência ou qualquer forma de resistência.

Trata-se de uma patologia cultural que afecta profundamente o espaço público das ideias. Tão grave quanto a actuação de políticos sem escrúpulos e sem responsabilidade é o modo como os agentes do meio arquitectónico contribuem activamente para sancionar aquela apropriação do “arquitecto” enquanto álibi da indiscutibilidade dos processos de promoção da obra pública e da sua validade programática.

Neste jogo de interesses a crítica de arquitectura representa um papel decisivo e, lamentavelmente, fatal. É certo que o exercício da crítica vive hoje refém de diversos mal entendidos pela indistinção entre informação, divulgação, opinião e esse outro trabalho maior de contextualização e confronto investigativo da história e das ideias. Também aqui a mediatização e os blogues deram tantas vezes um mau contributo, alimentando a confusão em nome de um falso debate “democrático” que mais não é do que a expressão do mínimo denominador comum do pensamento.

Mas a falência da crítica de arquitectura vai muito para lá dessa disfunção contemporânea. O que está em causa é a legitimidade da crítica enquanto suporte voluntário da construção de narrativas artificiosas, ausentes de qualquer frontalidade ou substância. Como se a obra de arquitectura fosse legitimável enquanto manifestação de si própria, divorciada do tecido financeiro, económico, social, político, cultural em que tem lugar. E como se o crítico pudesse sê-lo sem ser cidadão do seu tempo.

Se vivemos um tempo de narrativas é exactamente por habitarmos um território de não-crítica. O que testemunhamos são representações de crítica, vazias e rotundas, ensaiando ocasionalmente laivos de irreverência, sempre e invariavelmente atirando sobre alvos fáceis. Em boa verdade, mais não são do que exteriorizações de uma cultura falida e moribunda, animada apenas pelo momento de tempos passados, tal como estas arquitecturas.

Estas questões, previsivelmente, não se verão abordadas em qualquer conferência ou editorial.

O que te separa de um Pritzker



Ira Glass fala sobre a dificuldade em atingir as expectativas pessoais quando se está no início de uma carreira. A exposição tem como ponto de partida o mundo dos media mas a sua argumentação é universal. Segue-se uma transcrição (um pouco livre):

Ninguém diz isto a quem está a começar. Eu gostava que o tivessem partilhado comigo. Que todos nós, que fazemos trabalho criativo, somos atraídos para aqui porque temos “bom gosto”. Mas deparamo-nos com esta distância inultrapassável. Durante os primeiros anos em que estamos a fazer coisas, elas não são tão boas assim. Está a tentar ser bom, tem potencial, mas não chega lá. Agora o teu gosto, essa coisa que te atraiu esta área, está a funcionar em pleno. E o teu gosto é a razão pela qual o teu trabalho te desilude.
Muitas pessoas nunca ultrapassam esta fase. Desistem. Mas quase todas as pessoas que eu conheço, que fazem trabalho interessante, criativo, passaram por isto durante anos a fio. O tempo em que sabemos que o nosso trabalho não tem aquela chama especial que nós gostaríamos que tivesse. Todos passamos por isto. E se estás apenas a começar ou se estás a passar por esta fase, tens de saber que isto é normal e que a coisa mais importante que podes fazer é trabalhar muito. Só depois de teres atrás de ti um volume grande de trabalho é que conseguirás atravessar essa distância e o teu trabalho será tão bom como as tuas ambições. Eu demorei muito tempo a compreender isto. Demora tempo. E é normal demorar tempo. O que tens de fazer é lutar para percorrer esse caminho.


O Ira Glass é um tipo espectacular. De passagem recomendo a visita ao sítio web do This American Life e a acederem ao arquivo de programas. Têm ali dinamite cerebral para muitos dias.
O que ele aqui diz aplica-se a todas as áreas de trabalho que envolvem a aplicação prática da criatividade. Aceitar as nossas limitações de partida envolve muita persistência e uma boa dose de humildade. Todos entramos pela vida adentro com entusiasmo juvenil e esquecemos que aquilo que foi difícil para os que nos antecederam será também uma adversidade para nós. Não é por sermos jovens, por termos muito piss and vinegar, que a vida nos estenderá uma passadeira vermelha de facilidades.

A humildade é, infelizmente, um daqueles valores que tem vindo a descer no rating cultural. Não é um grande afrodisíaco, não leva ninguém para a nossa cama nem fica bem no perfil do Facebook. O mundo valoriza o carisma e as qualificações sociais. Não sejamos ingénuos: a habilidade social pode catapultar uma carreira na política ou quem sabe até tornar-vos internet-famous, mais uma daquelas celebridades que têm “opiniões fortes” sobre assuntos a que dedicaram cinco minutos de leitura (nos blogues) e acabaram a escrever colunas regulares num jornal. Mas malabarismo social e uma boa imagem não fazem ganhar Prémios Nobel, Pritzkers ou medalhas de ouro das mãos da Rainha Isabel II.

É certo que não temos todos de ambicionar a genialidade. Ser Pritzker, por exemplo, não é propriamente divertido: é preciso trabalhar mesmo a sério, pensar arquitectura 24 sobre 7 dias por semana, deitar e acordar a pensar nisso, anos, décadas a fio. Alguns de nós, a maioria, gosta demasiado de diversificar a vida, dedicar-se à família, somos demasiado normais ou andamos demasiado ocupados a batalhar contra as adversidades do dia-a-dia. Mas todos temos a obrigação de ser bons naquilo que fazemos, de percorrer esse caminho para a qualidade e o valor que só pode ser percorrido com trabalho e persistência.
O brilhantismo jovem pode ser bom para corridas de velocidade mas só vos leva até certo ponto. A vida é uma prova de fundo. Vencer o longo curso exige uma mistura de confiança, humildade e trabalho. Acima de tudo, exige resistência para não desistir, nem perante o ladrar de beira de estrada, nem perante o obstáculo mais importante de todos: os vossos próprios sonhos.

Retratos da crise

A observação é do Edgar Gonzalez. Uma selecção fotográfica do The Atlantic sobre a recessão em Espanha incluía um pequeno insólito – ver What the Recession Looks Like in Spain. Entre protestos de rua, grafitis com mensagens políticas, filas de desemprego e outros retratos da crise social destacava-se uma imagem da icónica Cidade das Artes e das Ciências de Valência, acompanhada do texto que se transcreve abaixo.



Uma vista da Cidade das Artes e das Ciências, do arquitecto Santiago Calatrava. Os custos do empreendimento escalaram de uma estimativa inicial de 625 milhões para 1280 milhões de euros, de acordo com a imprensa local. Considerada em tempos uma referência da nova grandeza económica de Espanha, a região mediterrânica de Valência tornou-se o símbolo de tudo o que está errado no país. Anos de despesismo, conjugados com os efeitos do colapso da bolha imobiliária e dos bancos locais, colocaram Valência à beira do resgate pelo governo central – que enfrenta os seus próprios problemas financeiros. A implosão do sector da construção trouxe a público a denúncia de casos de corrupção envolvendo políticos, promotores imobiliários e banqueiros, durante uma década de dinheiro facilmente acessível a baixas taxas de juro após a entrada de Espanha no euro em 1999.

A reportagem do The Atlantic é testemunho da dimensão política do trabalho editorial. A exposição de uma simples imagem convoca-nos para um facto perturbante: que a crise também pode ter uma face moderna – em linguagem política. Esse era também o tema de fundo de um dos mais populares documentários de Jordi Évole – Cuando Éramos Cultos – onde se faz o retrato exaustivo da bolha cultural de Espanha. Grandes projectos de arquitectura, notáveis no desenho e na dimensão, da autoria de alguns dos mais reputados arquitectos mundiais, revelam-se agora empreendimentos cronicamente deficitários. Cascos que se tornam pesadelos financeiros para as suas regiões e impedem o investimento efectivo em cultura – nos agentes locais, nas iniciativas e nos equipamentos que chegam de facto às pessoas. São, afinal, eucaliptos culturais que secam tudo à volta, dando razão às palavras do escritor e músico galego Antón Reixa: Cultura é gente fazendo cultura e gente usando cultura. Isto são tijolos.

Estaremos nós assim tão longe desta realidade? Com que belas fachadas se poderiam também compor os nossos retratos da crise?

Quando éramos ricos



O laxismo que conduziu a política expansionista de obras públicas não é um exclusivo português. O humorista espanhol Jordi Évole fez um retrato brutal da realidade de Espanha no seu programa Salvados, num extraordinário episódio intitulado Cuando éramos ricos.

O que se dá a conhecer é o cenário trágico de uma política justificada por motivos ideológicos, isentos de qualquer fundamentação técnica real, a reboque do lobbying de grupos da construção, da banca e de áreas sectoriais directamente envolvidas. Sem meias palavras, trata-se de um crime inter-geracional cometido por agentes políticos e económicos que fomentaram uma economia de superavits de curto prazo através de um endividamento massivo de longo prazo.

O exemplo de Espanha difere de Portugal apenas em escala. Em tudo o mais prosseguimos um modelo de desenvolvimento semelhante, repetidamente experimentado e comprovadamente ineficaz. Uma política movida por grupos de influência que se habituaram a viver do orçamento de Estado e cuja agenda comprometeu a sustentabilidade da restante economia, votando-nos a um doloroso processo de empobrecimento sem fim à vista.

O programa pode ser visto na página oficial do canal laSexta, aqui. Nota: o episódio completo passa depois de uma breve introdução inicial e de um pequeno intervalo de publicidade.

Não-crise

As técnicas de venda porta a porta tornam reconhecíveis os mecanismos da tomada de decisão. O que induz alguém a comprar, por exemplo, um robot de cozinha hiper inflacionado está longe de ser o resultado de um processo de pensamento racional. Em boa verdade não é uma análise ponderada das necessidades, custos e benefícios que está em causa. A faísca da decisão é, afinal, bem mais prosaica. Algures entre o delicioso refresco de fruta, um sorbet instantâneo e o bacalhau à brás para totós o cérebro baixa a guarda e os mais incautos tornam-se felizes proprietários de um equipamento adquirido em suaves prestações mensais que nunca mais acabam.

Mas o que nos devia verdadeiramente inquietar, para lá do risco de enchermos as nossas casas com uma vasta parafernália de maquinaria inútil, é saber até que ponto a construção das opiniões que temos acerca do mundo que nos rodeia não se baseia em mecanismos de pensamento semelhantes.

Se atentarmos na profusão de espaços de opinião e comentário, na televisão, nos jornais e nos blogues, apercebemo-nos que o opinion-making nada tem de científico. Ser fazedor de opinião não depende da elaboração lógica de uma argumentação sustentada em factos mensuráveis, salvaguardando a liberdade para sobre eles todos podermos elaborar uma análise qualitativa, subjectiva e pessoal.

Sejamos claros: qualquer indivíduo com um Q.I. minimamente capaz pode desenvolver duas argumentações opostas sobre um mesmo tema. Tomemos como exemplo a crise que estamos a viver e a cisão de opiniões que encontramos, à esquerda e à direita. O que está em causa? O que nos divide? Divide-nos o que escolhemos ver a cada momento: o laxismo dos governos que navegaram a economia do crédito e ignoraram (ou ocultaram) o endividamento crescente dos seus estados; a falsa economia privada sustentada pelo dinheiro público; o jogo viciado da especulação dos mercados em torno das dívidas soberanas dos países do Euro; a fragilidade concorrencial das nações desenvolvidas na economia aberta e desigual da globalização; ou seja ainda a corrosão interna dos estados sociais por via de toda a espécie de abusos dos seus próprios cidadãos.

Doutrinas opostas podem assim suportar-se em factores verdadeiros, bastando para isso a manipulação dos dados que escolhemos relevar no curto espaço de attention span disponível nos media. Observamo-lo todos os dias e o que vemos é, tão só, a mesma receita, o mesmo business as usual de todos aqueles que ainda não perceberam que o mundo mudou e que nada ficará como dantes.

Vivemos ainda, social e politicamente, ensopados na cultura da não-crise dos vendedores de Bimbys. Pese embora a sombra da crise eterna faça parte do código genético dos países ocidentais, a economia assente em crédito das últimas décadas produziu uma sociedade incapaz de se confrontar consigo própria e com todas as suas contradições. E por isso sobrevive o wishful thinking, o desejo que tudo passe, o vislumbre de uma saída fácil, sem dor. Ninguém quer afinal comer a colheita amarga dos erros que andámos longos anos a semear.

Do dia mais curto aos dias mais frios distam vários meses, tal a força do atrito da Terra. E assim a não-crise resiste ainda, pois que se vivemos hoje os dias mais curtos da nossa democracia, os dias mais frios não chegaram ainda.

Arquitectura do défice (2) – É matemático

Anteriormente: Arquitectura do défice.

Portugal perde 382 milhões com fim do TGV. O título percorreu hoje diversos títulos da imprensa, pelo menos a julgar pelas suas edições online. Não é o tanto o tema que interessa agora aprofundar, tão só o simplismo daquelas palavras. Talvez o problema seja mesmo do jornalismo e a sua solução passasse por fazer da matemática uma disciplina obrigatória nos cursos de comunicação social. Os jornalistas – como os arquitectos e tantos outros – deviam estudar mais matemática.

Uma das patologias mais perversas do nosso sistema político e económico foi essa doença dos financiamentos. Ao nível da administração central, das regiões, das autarquias, os financiamentos foram a porta aberta para fazer obra sem medir consequências. E quando o endividamento já não parecia possível inventaram-se mecanismos legais para evadir dívida das contas do Estado através de parcerias público-privadas, entidades públicas empresariais e outros exemplos da grande imaginação dos nossos governantes.

Devíamos interrogar-nos sobre esses países que alimentaram, com os impostos dos seus cidadãos, os fundos comunitários que deveriam ter servido para dinamizar o nosso desenvolvimento e competitividade. Como conseguiram, nesses países que não receberam fundos da UE, reabilitar as suas cidades, construir as suas escolas, os seus hospitais, as suas estradas, os seus equipamentos e infra-estruturas. Aprenderam afinal a viver à medida das suas possibilidades fazendo o assessment rigoroso das necessidades e a gestão austera dos meios disponíveis.

O título de hoje seria fácil de desmontar com números. Quanto desembolsaria o Estado Português – em dinheiro que não tem, ou seja, em crédito (financiado por quem e a que preço?) – para acompanhar o investimento do TGV e assim receber uma cenoura de 382 milhões de euros. E qual o volume de gastos indirectos, ausentes das contas daquele investimento, em acessibilidades complementares tais como pontes, viadutos, vias rápidas… E valerá a pena rever os estudos realizados pelos gabinetes de consultadoria da última legislatura, em especial no que diz respeito às receitas estimadas? Se mais não fosse os jornalistas poderiam ao menos fazer perguntas.

Costuma dizer-se que se queres sair do buraco pára de escavar. Talvez a solução para o problema Português seja mesmo acabar com os financiamentos, tout court, e encarar finalmente um novo paradigma de planear, projectar e fazer. Diz que é assim lá fora.

Londres XXI

Escrever não é apenas pensar. É construir uma realidade. As referências que escolhemos fabricam um ponto de vista. A linguagem nunca é neutral, como não o são os factos que invocamos, as imagens, os vídeos. O que vemos no assalto ao jovem agredido Asyraf Haziq, por exemplo? Um instantâneo da realidade ou algo mais? E dissertando sobre isso, falamos da verdade dos factos ou do simbolismo de tudo o que podemos ver para lá das imagens?

O que nos separa dos eventos de Londres da semana que passou? O primeiro obstáculo é mesmo uma questão de distância. É demasiado fácil discorrer sobre aquela violência, seja para exigir repressão implacável ou para desmultiplicar a complexidade das causas. E é fácil porque, de uma forma ou de outra, estamos todos sentados nas nossas torres de marfim, em condomínios fechados ou num apartamento dos subúrbios. Se aqueles selvagens estivessem no nosso bairro a pilhar e a destruir seríamos os primeiros a clamar pelo exército nas ruas já. E no entanto, depois da tempestade, o que fazer? Dispomo-nos a pensar sobre o que aconteceu ou, como escreve o Russell Brand, varremos aquela juventude perdida por entre os destroços do motim?

Escutemos o debate acalorado entre alguns jovens londrinos em plena rua – ver aqui. Podemos perceber que o instantâneo não será tão espontâneo assim; afinal não sabemos ao certo quem são aqueles jovens, quem é actor convidado e quem é intruso na peça. Mas a discussão é rica e resvala rapidamente para fora de um qualquer guião. A dada altura um daqueles rapazes diz sobre os looters: estes são os filhos das mães adolescentes.

É uma daquelas frases que faz soar campainhas. Sim, é um belo pedaço de retórica e carrega consigo uma boa dose de generalização romântica. Mas há ali qualquer coisa de verdade, não é assim?
Sabemos que os jovens encapuçados – e os adultos – das noites da última semana não são todos filhos de mães adolescentes. E sabemos que aqueles grupos não são representativos de uma comunidade e muito menos de toda uma geração. Mas se aquelas imagens nos perturbam é porque encontramos ali algo que nos é reconhecível. Afinal, ali testemunhamos o que pode significar o fim da linha de uma sociedade.

Não posso deixar de pensar que o que está ali em causa é, em parte, o momento em que a família – seja qual for a cor, o tamanho, o feitio – deixou, de alguma forma, de existir. Não se trata de afirmar que a culpa é dos pais. Sim, a culpa também é dos pais, seja pela carência, pela indiferença ou pela inaptidão total. Mas não podemos deixar de questionar o plano mais vasto em que tudo isto existe. De interrogar o papel a que a nossa sociedade vem votando o espaço da família. E aqui temos de ir mais fundo, à estrutura social que a dimensão económica e política da nossa realidade está a construir. À ética empresarial, por exemplo, porque no mundo em que vivemos se subjuga a família ao sucesso profissional. Ou, no caso mais extremo, à mera sobrevivência financeira.

Quando a destruição chega às ruas não há lugar para mais do que a repressão. Mas o problema de fundo, para lá do plano da criminalidade que também existe, não é apenas um caso de polícia. E ao pensar nisto já não estamos só a pensar em Londres, Manchester, Liverpool, Birmingham. Ou em Paris. Mas em Europa.

Talvez o futuro de tudo isto, e de todos nós, se balance num fio tão instável como o dos mercados da última semana. Na ausência de afirmação de uma Europa forte em torno de um desígnio económico conjunto para o desenvolvimento, estes podem ser problemas que ficarão por responder no contra-ciclo do empobrecimento das nações. Restará assim a única saída fácil, viável, que é a da repressão. E assistiremos ao definhar de um sonho, talvez mais romântico ainda, de uma sociedade de direitos e liberdades, para vermos ascender uma nova sociedade de desesperança e conflito.

A história do Século XXI ainda não está escrita. Esperemos que os motins de Londres não sejam, dessa história, as primeiras palavras.

Não me obriguem a vir para a rua (limpar)







Por entre os estragos ergue-se uma comunidade. E talvez a primeira pergunta a fazer seja essa: que tipo de pessoa és tu? És dos que vestem camisola com gorro para beber, roubar e destruir? Ou és dos que vêm para a rua de vassoura na mão para limpar e refazer?

A questão não é assim tão simples porque se lhe seguem os porquês. Bem faremos assim em ver, escutar e pensar antes de emitir posts e tweets e likes. Nem sociologia de meia-tigela nem tanques na rua, se faz favor. Acima de tudo afastemo-nos daqueles que se deliciam a fantasiar narrativas em torno dos factos, à esquerda e à direita, à medida do estreito túnel ideológico de onde vislumbram, pouco, o mundo lá fora.

Arrefecidos os escombros talvez se possa pensar com mais serenidade no que aconteceu. Em primeiro lugar importa manter a lucidez para lá do imediatismo fatalista que nos quer fazer crer a todos que a Inglaterra já está a arder. Como se os motins urbanos fossem coisa nova neste mundo. E como se o que ali se passou carregasse um sentido para lá da subcultura da violência, da destruição como entretenimento, da amoralidade e do vazio.

Talvez se tenham cruzado pelas ruas de Londres, no entanto, alguns factores novos. Na era da televisão 24 horas por dia, do vídeo instantâneo na internet e da rede social, a velocidade é o combustível do contágio, da disseminação. E teremos também um terreno de sociologia urbana – sem conotações ideológicas – que só alguma ingenuidade (se não má vontade) pode descurar quanto a fenómenos de criminalidade organizada que vem de longe e que encontra no meio juvenil um veículo para a retaliação sobre a ordem estabelecida.

Podemos embarcar no jogo das culpas: é dos políticos, é do capitalismo, é da sociedade de consumo, do desemprego, dos pais, dos professores, do futebol, da televisão ou dos jogos de computador. E talvez possamos, ponto a ponto, encontrar motivos legítimos para reflexão. Talvez tenha faltado liderança política ou, de forma mais vasta, esteja a falhar a sociedade enquanto lugar de instituição e transmissão de valores. Ou talvez esteja em causa o empobrecimento do espaço da família, seja por carência de dinheiro, de tempo, de afecto, seja pela obesidade do consumo e de múltiplas expressões de futilidade. Ou talvez ainda tudo isso e mais ainda; e valerá a pena pensar em todas as razões e questionar que tipo de pessoas está a nossa sociedade a construir e porquê.

Mas se queremos ler narrativa ideológica e movimento social sobre os insubordinados, talvez devêssemos interpretar igualmente a expressão social destes outros cidadãos que se ergueram para repor a ordem nas suas comunidades e limpar as suas ruas. Porque estes também são povo, como o são os proprietários e os trabalhadores das lojas destruídas e os que residem nas casas incendiadas.
* * *

E porque a questão é complexa e vale a pena ouvir vozes diferentes, ficam algumas ligações de interesse: [1] Panic on the streets of London; [2] Most of the kids are alright; [3] UK RIOTS DEBATE IN CLAPHAM - FLIP LIFE TV - 2011; [4] London Riots: Clapham Junction Speaker; [5] UK rioters / looters try to justify actions; [6] Big Brother isn’t watching you.

A morte de um filho da floresta



Por vezes ao percorrer o meu leitor de feeds, hábito quase diário, transitando rapidamente uma notícia atrás de outra, um título sobressai sobre todos os outros. E poucos terão sido tão chocantes como este. O TEDBlog dá conta da morte de Zé Cláudio e da sua mulher Maria, assassinados em sua casa de Nova Ipixuna, Pará, Brasil, no passado dia 24 de Maio.
José Cláudio Ribeiro da Silva vivia da floresta Amazónica como “extractivista”, recolhendo os seus frutos e fabricando produtos naturais a partir de sementes e óleos. Tornou-se líder comunitário e activista contra o abate ilegal de árvores e a ameaça de desflorestação da Amazónia. A sua determinação tornou-o num símbolo de defesa da floresta e um alvo para os madeireiros ilegais de quem recebeu diversas ameaças de morte.
Em Novembro do ano passado, Zé Cláudio participou na conferência TEDxAmazônia onde deixou o testemunho tocante do seu amor pela natureza, dando conta do seu medo pelo futuro mas também da sua enorme coragem. O mundo não pode esquecer este homem.

Adaptação



O grande Dan Ariely fala sobre a nossa capacidade para nos adaptarmos às circunstâncias, seja por alterações do mundo exterior ou devido a processos de transformação pessoal. Partindo de dois exemplos distintos – a dor e as relações sociais – este professor de economia comportamental do MIT explora os meandros da psicologia humana: a capacidade de resistência, a definição de expectativas, o ajustamento do sentido de felicidade. Por vezes divertido, outras brutalmente pessoal, é uma exposição estimulante para reflectir sobre o modo como podemos encarar o que nos rodeia e a possibilidade de estabelecermos um sentido de perspectiva e o desejo de uma mais promissora normalidade. Mais para ver no PopTech.

Projectos estruturantes [1] – Introdução

Comecemos por um exemplo simples. Imagine o leitor que tinha decidido ser promotor privado de um equipamento destinado a utilização colectiva. Consideremos, para efeitos deste pequeno exercício, um ginásio – porque não?
Ainda que possa ter desde o início um sonho quanto à qualidade, ao ambiente, aos equipamentos e serviços do seu ginásio, esse não será o seu ponto de partida. O leitor, que é um gestor precavido, resolve considerar previamente o local – ou locais – onde julga ser possível instalar o seu estabelecimento. Quantas pessoas habitam nessa zona? Quais os extractos sociais dominantes, o poder de compra, os hábitos de vida e de consumo dos seus potenciais clientes? E qual a concorrência já implantada nas proximidades? Assim, em função do apuramento destes dados e da realidade que o rodeia, bem como da sua capacidade para reunir capital – próprio e, eventualmente, a crédito – você começa a definir ideias precisas quanto ao investimento, à dimensão do espaço e aos custos que pode vir a assumir.
Quantos utentes espero ter? Que equipamentos terei de comprar – e quanto custam? Quantos trabalhadores terei de contratar? E qual a área adequada para garantir a sua funcionalidade? E, também, que custos de exploração poderei suportar – em material de apoio, gastos de energia, limpeza e demais despesas mensais? E na manutenção futura do espaço e das máquinas? E em publicidade? E impostos? E por aí fora…

O leitor, que está agora a pensar como um verdadeiro gestor e sabe o que quer, vai então estabelecer diálogo com um projectista – desejavelmente um arquitecto – que vai desenvolver o seu programa, os seus objectivos, as suas necessidades quanto ao ginásio que pretende gerir. É você que decide os termos deste caderno de encargos preliminar; e é porque estabeleceu esses princípios que os projectistas poderão ir ao encontro do que você realmente pretende. Desejavelmente, um bom arquitecto deverá não apenas satisfazer soluções pré-estabelecidas que possa ter como apresentar-lhe alternativas, ser aditivo, estudar consigo as melhores possibilidades técnicas – que você talvez desconheça – e outras formas de organização espacial e funcional, porventura mais eficazes, que de todo não lhe haviam ocorrido. Através deste esforço colaborativo, você e o seu arquitecto estão agora em condições para obter o melhor projecto possível.

Imagine agora o leitor que, em vez de ser promotor de uma obra de exploração privada, é antes promotor de um empreendimento público: um equipamento desportivo, um espaço cultural, uma escola, um centro de saúde. Entenderá o leitor que, por se tratar de uma promoção estatal, está isento de aplicar o mesmo detalhe e igual rigor na definição dos princípios que vão determinar tal empreendimento?
Poderá dizer-se: mas estes equipamentos, ao contrário do exemplo anterior, têm por objectivo uma função de interesse público e não se motivam pela obtenção de rentabilidade, de lucro. É verdade. Mas neste pensamento está igualmente um erro de partida. É que todos esses equipamentos são igualmente pagos pelo cidadão. Podemos dizer que não são pagos directamente – no ingresso, na propina, na factura médica – mas também eles são pagos, a todo o momento e na íntegra, através dos impostos de todos os contribuintes.
Mais do que isto, importa perguntar se será lícito promover empreendimentos – mesmo nos casos em que a sua rentabilidade seja forçosamente deficitária – sem considerar seriamente todas as possibilidades de optimizar os seus custos, eliminar desperdícios e adequar a sua estrutura às necessidades reais que ele virá suprir. Pelo contrário, são exactamente esses empreendimentos públicos – aqueles cujo funcionamento dificilmente será capaz de obter ganhos capazes de cobrir as despesas de exploração – que mais devem ser estudados ao pormenor. Eles representam, afinal, um esforço financeiro acrescido para o futuro da sua vida útil. O contrário seria dizer, por absurdo, que o Estado poderia aumentar impostos cada vez que construísse uma escola ou um hospital.

Aquilo que vamos observando no modo como os agentes públicos têm promovido obra pública, tanto a nível central como local, tem sido a enorme falta de cultura de gestão e de sensibilidade quanto ao rigor que lhes seria exigido no planeamento da aplicação dos dinheiros públicos. E um dos problemas centrais reside exactamente no entendimento que fazemos, colectivamente, do Estado enquanto entidade abstracta. Em boa verdade, o Estado só existe porque colectivamente o pagamos – e porque esses dinheiros são fruto da produção e do trabalho de muitos, quem exerce funções públicas devia ter sobre si a responsabilidade singular de utilizá-los com enorme rigor e seriedade.
Voltarei ao tema para reflectir sobre exemplos concretos e sobre a necessidade de alterar toda uma cultura de más práticas de gestão que se instalou nas últimas décadas neste domínio e que, pese embora o enorme problema de liquidez que aflige hoje o Estado Português, parece persistir até ao limite do insustentável, com consequências dramáticas para o futuro de todos.

Logicamente insustentável

Sentado na área de restauração de um qualquer centro comercial dou por mim a observar as pessoas que me rodeiam. A reduzida disponibilidade de mesas livres origina uma pequena altercação entre um casal que se abeirava de uma mesa vaga, de tabuleiros na mão, e um outro grupo que se antecipou para reservar a mesa e não arredou pé. Eis um pequeno exemplo da nossa falta de atenção para a vida em comunidade. Não apenas pela faceta comportamental do episódio, mas pela própria lógica que lhe está assente.

Consideremos que duas pessoas ocupam uma mesa de dois lugares durante dez minutos, em média, para uma refeição. Isto significa que cada mesa terá uma utência máxima de doze pessoas por hora.
Imaginemos agora que cada um desses pequenos grupos decide reservar a mesa, tomando cinco minutos de espera (enquanto cada um vai buscar a sua refeição) e depois dez minutos para comer, num total de quinze minutos. Cada mesa passou agora a ter uma utência máxima de oito pessoas por hora, o que corresponde a uma redução para dois terços da capacidade inicial.

Independentemente do rigor dos números deste exercício, é certo que quanto mais pessoas reservarem as mesas, menos estarão disponíveis. Perante este facto – a percepção de que existem cada vez menos mesas disponíveis – mais pessoas estarão tentadas a fazer o mesmo. Ou seja, o mau comportamento promove o mau comportamento. E aquilo que parece fazer perfeito sentido, numa lógica individual, tem como resultante colectiva uma forma de insustentabilidade. No final, quando todas as pessoas adoptarem este comportamento, não existirão mesas disponíveis para todos.

Talvez não seja razoável alimentar a expectativa que as pessoas tenham presente a matemática na sua tomada de decisões pessoais. Mas devíamos questionar o modo como os comportamentos se estabelecem “por defeito”, no centro comercial, na estrada, na vida em geral, porque são essas pequenas lógicas adquiridas, sem qualquer sustentação, que são as mais difíceis de demover e os verdadeiros obstáculos a todas as campanhas de formação e informação com que julgamos poder resolver muitos problemas. Não estou a dizer que sei como fazê-lo, tão só que me parece uma tarefa bem mais difícil do que pode parecer à primeira vista.

The tyranny of common sense: Ken Robinson on TED



What’s there to say, really? It’s Ken Robinson. I personally love the man and vow to publish every presentation he delivers on TED for as long as I have a blog. He’s very funny but he delves into very serious issues. In this latest talk Ken Robinson makes the case for a radical change in the way we approach education and towards a greater sense of pursuit for that which moves us in life. Make sure to watch his outstanding TEDTalks – Ken Robinson says schools kill creativity and Bring on the learning revolution! – and don’t miss his previous presentation at the Hammer Lectures where he developed many of these ideas.

Cultura de rodapé rolante

Estava eu à conversa com um amigo sobre notícias do dia anterior quando concluímos que toda a nossa informação se resumia a frases que havíamos lido no rodapé dos telejornais. Rimos os dois com a situação – que em boa verdade nenhum de nós tinha prestado a devida atenção às notícias de fundo. Não pude deixar de ficar a reflectir um pouco mais sobre aquele cómico episódio. Estaremos todos a resvalar para uma cultura de rodapé rolante, reféns de um síndrome de atenção curta próprio da era dos tweets e dos posts?
À medida que vamos lentamente resvalando para a loucura, este tempo sem tempo para pensar, parecemos incapazes de fugir ao estado de idiocracia geral que tudo domina. Eis um clima propício à condução fácil da opinião colectiva. A cultura dos títulos, dos soundbytes, é também sintoma de um tempo de ilusionismo associativo e, melhor definido, de pseudo-ciência.

Vejam-se tantos exemplos de sustentação argumentativa que discorrem diariamente na televisão e na sua caixa de ressonância que são hoje os blogues. Justificar, por exemplo, o investimento na rede de TGV com recurso a frases lapidares tais como «Se nós estivéssemos preocupados com isso [rentabilidade das grandes infra-estruturas ferroviárias] no século XIX ainda hoje estávamos à espera de um comboio entre Lisboa e Porto» ou «Portugal tem que marcar posição e ganhar posição nos mercados internacionais e particularmente Europeus; tem que reforçar o seu posicionamento estratégico nas rotas comerciais no mundo». São variantes retóricas de um argumento que anteriormente ouvimos formular por um conhecido administrador da Mota-Engil: «Eu só sei que Portugal não pode ficar fora da rede de alta velocidade». A tónica aqui está por certo na passagem «Eu só sei que».

Este exemplo, entre tantos outros casos de debate de ideias, relembra-nos a estranha cisão que hoje se aceita entre sustentação técnica e decisão política. Como se a política habitasse um território transcendente que paira sobre a razão dos factos e dos números, da sua verdade científica. Argumentos que se vêem tantas vezes arredados do espaço de debate público, devidamente balizados em aforismos televisivos do tipo «as pessoas não compreendem essas coisas» - este modo como passam incólumes repetidos atestados de ignorância geral, sem que uma voz se erga em protesto, são também demonstrativos desta vitória da idiocracia.
Marinamos todos um pouco neste caldo de cultura, reflexo da inflação e decadência das Academias. Longe estamos da poesia da revolução democrática, dos seus valores e, pior que tudo o resto, da promessa de um povo educado que defendesse a República. Por fim, sem isto, pouco mais resta para celebrar.

Ela diverte-se à grande


Imagem via.

Quando vejo peças publicitárias como esta ocorre-me que pelo caminho existiu uma equipa de criativos que teve a ideia. E que algures terá existido uma reunião com responsáveis da empresa, quiçá directores de marketing e relações públicas, onde o conceito foi revelado. E que terão gostado, a julgar pelo facto de investirem dinheiro da empresa na campanha. E que em seu nome se produziu uma sessão fotográfica e trabalharam imensas pessoas, até obter o grafismo e ele ser publicado na imprensa.
E que em todo este percurso – perdoem-me – ninguém terá dito as proverbiais palavras: «Porra mas é que isto é mesmo estúpido, pá».
Ainda assim quero acreditar que esta menina existe mesmo, é arquitecta e se diverte à grande a fazer maquetes. Tem umas mãos invejáveis para quem se dedica tanto à arte do corte e costura com bisturi. Tenho a confessar que gostava mesmo muito de visitar o blogue dela. É sempre entusiasmante ver alguém, nos dias que correm, que ficou rico a brincar às casinhas. Pode ser um estímulo para os milhares de arquitectos a recibos verdes e a estágio não remunerado, bem como aos 1138 arquitectos inscritos nos Centros de Emprego em Janeiro de 2010.
E, já agora, caro Dr. António Carrapatoso, não se importa de mandar esta gente ir bugiar?

Engenharia ética

Segundo uma notícia publicada no jornal Público todos os projectos de arquitectura para as 208 escolas já abrangidas pelo programa de modernização têm sido contratados por ajuste directo. A Ministra da Educação Isabel Alçada justifica esta situação com o facto de estarmos perante «uma problemática específica», tendo em conta que para «elaborar o projecto era preciso um arquitecto», sendo complicado este «ser elaborado previamente por um profissional e passar depois para outro».

Trata-se de um argumento errado do ponto de vista técnico e inconsequente no plano jurídico. A elaboração do programa de projecto é uma tarefa da responsabilidade do promotor. Como tal, a participação de um arquitecto faz sentido enquanto serviço de consultoria, colaborando para melhor traduzir os princípios e objectivos do projecto em parâmetros funcionais adequados à prossecução do trabalho, tendo em conta a sua natureza específica, o seu enquadramento social, quadro orçamental, e por aí fora.
Bem entendido, não é sequer um dado adquirido que a realização do programa e do projecto pelo mesmo arquitecto seja um factor desejável tendo em conta que este, enquanto autor da obra, pode sentir-se motivado a enfatizar aspectos conceptuais em detrimento da observação plena dos limites estabelecidos em sede do programa.

A questão mais importante, no entanto, é outra e é de natureza ética. Para constatá-lo devemos ter em conta as palavras do Eng. João Sintra Nunes, Presidente do Conselho de Administração da Parque Escolar EPE, que refere que o recurso aos mesmos gabinetes de arquitectura se justifica por existirem em Portugal «poucos que tenham capacidade para responder a este tipo de encomenda».
O que está aqui em causa? Diversas coisas. Não serei eu a dizer que A Escola, enquanto objecto de arquitectura, não tem particularidades únicas e de extraordinária importância, a merecer a maior atenção por parte dos arquitectos; tema a que aqui se dedicaram vários textos no passado: 1, 2, 3, 4. No entanto, no que se refere a complexidade projectual, uma escola não é um equipamento mais complexo do que um aeroporto ou um hospital – bem pelo contrário – e no entanto projectos dessa natureza, como muitos outros, são motivo para a realização de concursos públicos. Trata-se, não é demais dizê-lo, de uma questão ética que deveria ser evidente para todos num normal quadro de cidadania europeia.

Mais importante ainda é dizer que nem o Eng. Sintra Nunes nem o Conselho de Administração da Parque Escolar estão mandatados para determinar quais são as firmas de arquitectura que têm «capacidade para responder a este tipo de encomenda». Trata-se, afinal, de uma autoridade da Lei que deveria ser aplicada em observância com princípios de igualdade e transparência e cujo factor determinante deveria residir no Mérito. E é essa a questão ética fundamental. Enquanto não decidirmos viver numa sociedade que premeia o mérito sobre todas as outras coisas continuaremos a ser um país de segundas escolhas. De nada serve apregoar valores se depois os ignoramos no momento da tomada das decisões.

Paque Escolar EPE, um offshore jurídico

Não assino esta petição porque a maioria das contratações públicas celebradas no âmbito destas importantes intervenções no parque escolar nacional tiveram por base critérios de transparência e inteligência na selecção de equipas competentes para o efeito.
Não quero viver numa sociedade onde tudo é escrutinado; aferido e seleccionado tendo por base um sistema concursal espesso e utópico.
Não gramo blogs, observatórios nem cidadãos auto-esclarecidos com pretensões de meter o bedelho em tudo.

Anónimo.

O comentário que aqui se transcreve serve para ilustrar uma atitude própria dos dias que correm: a redução de um debate ao confronto de posições que se presumem sempre subjectivas, terreno movediço em que “tudo é relativo”, como se não fosse possível estabelecer diferenças entre o que são opiniões e o que são factos.
Todos somos livres de pensar o que quisermos e desejarmos até, porventura, viver num país do terceiro mundo, exprimindo-o a alto e bom som num blogue ao abrigo desse exercício de “cidadania sem cidadãos” que o anonimato em rede permite. A liberdade intelectual de cada um, no entanto, é um fraco instrumento para anular o peso do real. Especialmente quando está em causa a opção entre verdades indesejáveis e mentiras reconfortantes.

Facto curioso, tanto mais que a questão das adjudicações directas praticadas pela Parque Escolar vem sendo escrutinada em outros blogues de forma bem mais metódica e persistente. Goste-se ou não, a verdade é que «a maioria das contratações públicas celebradas no âmbito destas importantes intervenções no parque escolar» não oferece garantias de transparência na selecção das equipas participantes. Não está nem nunca esteve em causa a bondade e a importância do programa de renovação das escolas públicas nem os méritos do trabalho de muitas equipas envolvidas. O que está em causa é o incumprimento da PE para com princípios fundamentais de igualdade de acesso e transparência na relação entre o estado e entidades privadas, garantidos pelo procedimento de concurso público para projectos de concepção; uma questão sobre a qual a Ordem dos Arquitectos se pronunciou muito recentemente.

A situação torna-se ainda mais grave perante notícias que dão conta de uma perigosa promiscuidade entre representantes desta entidade pública e empresas participantes – ver Parque Escolar adjudicou 35 milhões em obras a empresa que tinha sido dirigida por um dos seus administradores (via). São elementos que parecem corroborar as acusações lançadas à PE de se comportar como uma espécie de offshore jurídico, para subscrever o termo utilizado por Tiago Mota Saraiva. O regime de excepcionalidade invocado por esta empresa pública é não só insustentável como contrário a todas as boas-práticas próprias de uma nação europeia. A dimensão financeira deste programa faz exigir exactamente o contrário: absoluta transparência de procedimentos, igualdade de critérios de acesso, publicitação de termos de concurso e, finalmente, publicação online integral de toda a informação, incluindo regimes contratuais e empresas envolvidas. São motivos mais do que suficientes para continuar a subscrever e apoiar esta petição.

Instantâneo

Aviso: este vídeo contém violência explícita e pode impressionar.



O que vemos nestas imagens? O acto heróico de um jornalista que não hesita em despir a sua condição profissional para se tornar parte dos eventos que testemunha? Ou a transferência do olhar jornalístico sobre um drama real para a interposição de uma súbita narrativa de reality-tv?
Não está em causa questionar a coragem e o gesto genuíno de Anderson Cooper e a sua acção resoluta em auxílio de um rapaz ferido numa escaramuça urbana. E não estará em causa a filmagem do acto em si, captada pelo operador de câmara no decurso de uma reportagem sobre actos de pilhagem num bairro de Port-au-Prince. A questão coloca-se no sentido editorial daquele breve episódio em toda a sua dimensão icónica. Entendamos, são imagens que poderemos inscrever desde já na galeria de momentos importantes do jornalismo do ano que ainda agora se inicia. E talvez nenhuma televisão do mundo deixasse de passar aquela sequência, como vem sendo repetida na CNN, sem que se sobreponha uma devida contextualização dos factos e dos seus intervenientes. Sejamos francos: nós queremos ver aquelas imagens e, pior, gostamos de ver aquelas imagens. Mas no momento em que o jornalista se torna no centro do drama – e se escolhe, na posterior montagem, como motivo da notícia – levantam-se vários problemas. Deixamos de estar no plano da grande reportagem para entrar no domínio do reality journalism. Para compreendê-lo importa ver a reportagem integral de Anderson Cooper, que começa por contextualizar as pilhagens a que assistimos e a situação dramática que lhes dá sentido. Mas quando ele se torna participante activo introduz uma espécie de clímax narrativo, em que ele se torna personagem central do evento e aquele jovem se reduz a figurante secundário. Afinal, o que sabemos nós sobre ele? O que faz ele ali e para onde é levado a seguir? E em que contexto entendemos aqueles actos, na fronteira da marginalidade oportunista ou do desespero da carência absoluta?

I love Anderson Cooper * isn't he sexy? mmhmmm:)
Via Twitter.

Assistimos assim ao poder de um momento decisivo que parece dar sentido ao drama mas que introduz sobre ele uma dimensão de natureza ficcional. Ou seja, estamos no domínio do grande plano emocional ou, no caso concreto, de um jornalismo que despreza que aqueles eventos se inscrevem numa dimensão maior – e que a vida daquelas pessoas continua muito para além do breve instantâneo de reportagem. E que não nos pode fazer perder o foco sobre o pesadelo logístico que é a situação no terreno, com a transferência de quatrocentas mil pessoas sem casa para fora da capital, e o esforço de inúmeras agências de apoio internacional que tentam garantir a todo o custo um fio de suporte de vida em mantimentos, medicamentos e segurança.

Um motivo de reflexão, distante mas com paralelismo considerável, que vale a pena aprofundar relembrando as palavras de James Reston, Jr., citado no filme Frost/Nixon, a propósito do poder redutor da imagem. Trata-se de interrogar o papel da televisão – e do jornalismo em televisão – enquanto espelho ilusório da verdade. Estamos afinal na presença de um poderoso mecanismo de simplificação da realidade complexa num instantâneo simbólico que a sintetiza. Em boa verdade, importa continuar a questionar os veículos da comunicação enquanto promotores da cultura da imagem em que vivemos.

You know the first and greatest sin of the deception of television is that it simplifies; it diminishes great, complex ideas, trenches of time; whole careers become reduced to a single snapshot. At first I couldn't understand why Bob Zelnick was quite as euphoric as he was after the interviews, or why John Birt felt moved to strip naked and rush into the ocean to celebrate. But that was before I really understood the reductive power of the close-up, because David had succeeded on that final day, in getting for a fleeting moment what no investigative journalist, no state prosecutor, no judiciary committee or political enemy had managed to get; Richard Nixon's face swollen and ravaged by loneliness, self-loathing and defeat. The rest of the project and its failings would not only be forgotten, they would totally cease to exist.
James Reston, Jr., citado no filme Frost/Nixon.

Voz de Cassandra

A partir do momento em que começamos a ler as páginas de economia dos jornais já não há volta a dar. Cheguei a essa fase da vida e, acreditem, é um elevador que só segue para baixo. Fiquem-se pelos manuais de ascensão rápida rumo a esse direito humano inalienável que é a felicidade, repletos de energias, auras e bonecas de vudu. Acontece que eu não tenho juízo e passei há muito o ponto de não retorno em matéria de imprensa económica. Foi assim, imbuído deste espírito, que resolvi animar ainda mais as coisas mergulhando de cabeça no Portugal, Que Futuro? do Medina Carreira. Trata-se da sequela - um follow-up - de outra obra do melhor terror nacional, O Dever da Verdade, lamentavelmente inspirado em factos reais.



A verdade, “agora falando sério”, é que o Henrique Medina Carreira, actualmente com 78 anos, é um dos mais lúcidos pensadores do Portugal contemporâneo. Não é o profeta da desgraça do regime nem tão pouco uma figura anedótica que “diz umas verdades na televisão”. É, talvez, o último patriota de uma ditadura das meias-tintas.
Para entender Medina Carreira convém lê-lo. O Dever da Verdade é um bom ponto de partida, em especial pelo ensaio que preenche a primeira metade do livro e resume o seu pensamento sobre a nossa circunstância económica. Ali se encontra um olhar abrangente de quem lê a História para lá dos estreitos horizontes da actualidade mediática. Um olhar que se sustenta em factos e números, em análise comparativa do nosso presente, do nosso passado, e na prospectiva de um futuro inevitável.

O seu livro mais recente aprofunda a reflexão que ali se havia iniciado, agora à luz das consequências que a crise financeira internacional trará para a nossa economia. Os alertas que vem fazendo, a pouco e pouco, parecem tornar-se realidade. Ainda esta semana chegam notícias das previsões da Comissão Europeia para o défice orçamental português que deverá chegar a 8% já no presente ano e subir em 2011. Também a despesa pública irá atingir valores superiores a 50% do Produto Interno Bruto. Perante estes dados, o FMI alerta para a necessidade de um novo esforço de contenção orçamental e estima que a dívida pública possa chegar aos 80% do PIB em 2010, subindo acima dos 90% no ano seguinte.

Pesem embora as justificações do Ministro das Finanças, o que estes dados nos dizem é que o cerco económico está lançado para a próxima década. A retoma da economia internacional trará factores mais agravantes para Portugal como o aumento de taxas de juro e a pressão de custos sobre os combustíveis, dificilmente rebatíveis por um motor produtivo que assiste à deslocalização e falência de empresas, fraca atractividade, perda de capacidade exportadora, aumento de desemprego.
Perante isto o novo Governo retoma uma agenda de obras públicas, de urgência e actualidade incompreensíveis. Portugal parece tornar-se, irreversivelmente, num país entregue a interesses sectoriais de forte influência política que vão dirimindo o acesso ao poder e a canalização dos dinheiros públicos. Um país com uma economia de cartas marcadas, jogadas por “empresas” que só o ridículo poderá hoje rotular de “estratégicas”, nos transportes, na energia, nas telecomunicações, na saúde, em todos os sectores de interesse do Estado.
Apenas uma fé inabalável na irrelevância dos défices pode sustentar o ciclo de obras públicas que agora se anuncia. Um tal ciclo, ainda que suportado por maior endividamento externo, terá expressão visível nos índices económicos e, temporariamente, no emprego. Importa no entanto perguntar a que preço para o futuro? Se não formos capazes de promover actividades exportadoras, em investir na educação para lá do betão, em preencher nichos de inovação e tecnologia, o que restará por fim? Uma nação entregue à precariedade, à incerteza e, porque não dizê-lo, à pobreza. Um cenário que não será evitado com retórica ou exuberância irracional, seja qual for o governo. O nosso futuro aí está para o comprovar e o caminho parece cada vez mais estreito. Como uma lâmina.