|if|not|now|

Quarta-feira



Conheces a sensação de fazer uma longa viagem de comboio. Adormecer na cabine ao som dos movimentos perpétuos e daquelas luzes repetidas. Depois acordar bem cedo na madrugada e caminhar pelos corredores a ver o amanhecer. Não te vais esquecer das cores daquela manhã, ou do cheiro metálico da carruagem, ou da face de alguém com que te cruzaste. Alguém que nunca viste antes mas que sorriu e disse: olá!
Na carruagem da frente viaja Jesse com um “eurorail”, percorrendo a Europa há várias semanas a caminho de Viena, a sua última paragem, antes de apanhar o avião de volta a casa para os Estados Unidos. Encontra Celine, uma jovem francesa, e começam a conversar. “Before Sunrise” (1995) é um filme tão natural que tudo parece verdadeiro e razoável. E conduz-te naquela viagem tão suavemente que não vais ver aproximar a dor daquele adeus inevitável.
“Antes Do Amanhecer” conta a história maravilhosa de duas pessoas com um laço e sem expectativas. Porque sabem desde o primeiro encontro que não existe uma possibilidade de manterem uma relação de longo prazo, partilham coisas que normalmente não diriam nem aos amigos. É um filme romântico, mas nunca cai nos lugares comuns próprios de um postal ilustrado de Viena. Em vez disso, mostra-te Viena como a experimentarias se lá estivesses. E mostra-te o amor, não como um sentimento fácil de digerir, mas como algo que pode entrar pela tua vida adentro e abaná-la de cima abaixo.
As escolhas que fazes a partir daí, bom, essas dependem de ti. E ainda hoje me pergunto que escolhas teriam feito Jesse e Celine...
Um dia saberemos...

Daydream, delusion, limousine, eyelash
Oh baby with your pretty face
Drop a tear in my wineglass
Look at those big eyes
See what you mean to me
Sweet-cakes and milkshakes
I'm delusion angel
I'm fantasy parade
I want you to know what I think
Don't want you to guess anymore
You have no idea where I came from
We have no idea where we're going
Latched in life
Like branches in a river
Flowing downstream
Caught in the current
I'll carry you
You'll carry me
That's how it could be
Don't you know me?
Don't you know me by now?


Notas:
Before Sunrise (1995) é realizado por Richard Linklater e interpretado por Ethan Hawke e Julie Delpy. Está em fase de pós-produção uma continuação intitulada If Not Now (2004). Pouco mais se sabe para além de que o argumento e realização são do próprio Linklater e as filmagens decorreram em Paris durante um período de apenas quinze dias.
Quero saber mais: Movies.com, Moviemaker.com.

Notas adicionais (2004-02-11):
O título provisório "If Not Now" foi alterado para o definitivo "Before Sunset".

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Segunda-feira

Somewhere, something incredible is waiting to be known.
Carl Sagan



Mars Exploration Rover Mission
NASA

|portugal|deprimido|

Sexta-feira



Ouvimos tantas vezes dizer que o país anda deprimido que os portugueses parece que começaram a acreditar. Eu próprio me ponho a pensar na sociedade que estamos a construir e fico triste por me rever pouco no país que se espelha na comunicação social.
Aqui há uns anos vi um debate na BBC sobre o impacto da ciência na evolução da sociedade. Cerca de dez ou doze pessoas discutiam educadamente, ouviam-se, trocavam ideias. Por vezes alguém construía um argumento que não era necessariamente o da sua opinião, mas que utilizava para testar a ideia de um colega seu. Fiquei maravilhado ao ver que se podia fazer de advogado do diabo tão tranquilamente e sem que ninguém lhe apontasse uma caçadeira à cabeça.
Portugal é um país triste em que não se sabe discutir. Basta ver os debates televisivos para ver alguns doutos senhores a descarrilar na gritaria. Ficamos assim com estas discussões à portuguesa: fulano diz “A”, beltrano diz “B”. Fulano diz novamente “A”, mas desta vez de forma mais aguda. Beltrano reage “B” ruidosamente. Ninguém ouve o próximo. Ninguém parece dizer: repare, olhe que se “B”, então “C”... E como evitará o resultado “D”?
Ao ver os debates da Assembleia da República, este sentimento torna-se ainda mais doloroso. O verdadeiro debate de ideias é quase inexistente, quase sempre as partes tomando uma posição sectária irredutível, construindo os argumentos à medida do seu interesse próprio e ouvindo nenhum outro. O resultado é esta sensação de vivermos num país fictício. O país da política constrói-se à medida do que cada um quer ver e tornou-se mais virtual que a terra média.
Receio que vamos novamente assistir a tudo isto com a questão do aborto a regressar à ordem do dia. Gostaria de dizer à partida, para não manipular ninguém, que sou a favor da descriminalização do aborto. No entanto, reconheço que é possível construir uma argumentação plausível do lado contrário. Afirmaram os defensores da não descriminalização, na altura do referendo de 98, que o combate ao aborto deve ser realizado através duma aposta real na educação sexual e no acompanhamento familiar. Creio que isto merece a concordância de todos. No entanto, quando vejo os principais defensores políticos da criminalização a ignorar o problema do aborto real, mal a questão desaparece da esfera do nosso quadro jurídico, começo a sentir-me mal com a hipocrisia. Alguma vez vimos Bagão Félix ou Paulo Portas preocuparem-se com o problema do aborto clandestino em Portugal. Agora que estão numa posição de governo, alguma vez os vimos manifestar interesse em que se promova a educação sexual como forma de combater o aborto. Estarão satisfeitos? É que a mim parece-me que um país que insiste na criminalização tem a responsabilidade de promover uma política de combate ao aborto por outros meios. Ou ficamos satisfeitos por viver no país que se gaba de ter a legislação mais avançada do mundo, mesmo que tenha a realidade mais atrasada da Europa.
Mais hipócrita ainda é a posição de Durão Barroso. O nosso Primeiro Ministro afirma que o aborto é uma questão de consciência, mas como disse uma comentadora do jornal Público, não se importa que o país consagre uma lei penal para regular a consciência de cada cidadão. É a posição típica de uma certa cobardia nacional que prefere fugir às questões difíceis, obviamente partilhada pelos 68% de eleitores portugueses que preferiram ir à praia no dia do referendo.
Acredito sinceramente que a descriminalização da interrupção voluntária da gravidez é a melhor forma de combater o problema real do aborto clandestino. Infelizmente não vivemos num mundo ideal, nunca viveremos numa realidade de aborto zero. Mas podemos viver num país onde se fazem muito menos abortos. Descriminalizando, o país ganha a responsabilidade de combater o problema socialmente, e dá às mulheres que desejem abortar a oportunidade de estarem envolvidas por um ambiente onde possam, por um lado, receber informação, e por outro, fazer a sua escolha acompanhadas e reflectindo sobre a decisão que desejam tomar.
Sobre estas e tantas outras questões nacionais, parece-me que a comunicação social se demitiu há muito do seu papel, deixando de ser um espaço de reflexão para se tornar numa máquina de inquietação. Mais, nos dias que correm, a fogueira da política é generosamente ateada pelos “media”. Veja-se agora o “grave problema” das cartas anónimas apensas ao processo da Casa Pia. Realmente, fico para aqui a pensar na importância do problema. Seja boa ou má a decisão de anexar as ditas cartas ao processo, a verdade é que elas têm a importância que cada um lhes quiser dar. O próprio processo de acusação dá-lhes a importância que elas merecem considerando-as totalmente irrelevantes.
Quem não as acha irrelevantes são os meios de comunicação social. Mal o processo foi aberto parece que já saltaram lá para dentro em busca de escandaleira... Toca de saltar cá para fora as ditas cartas, apimentadas com um ou dois bons nomes sonantes. E assim vive o país dos media e da política entretido. Inventa-se um “caso”, e depois a chuva de reacções e contra-reacções já dá para alimentar uns quantos telejornais. Por fim, em boa conclusão, vem um douto senhor jornalista qualquer dar uma lição de moral ao país e exigir seriedade e justiça. Ora bolas...

Notas:
Para informações úteis sobre o problema do aborto vale a pena visitar o site Doctor Ann (em inglês), da rede Teenage Health Freak.

|equador|

Sexta-feira

Ao percorrer os livros que estão na minha mesa de cabeceira aproveito a oportunidade para salientar o acontecimento literário nacional deste ano que passou, a publicação de “Equador” do Miguel Sousa Tavares. Para além de ser um dos mais interessantes e lúcidos jornalistas portugueses, veio enriquecer o nosso património literário com um intenso livro que faz uma análise das particularidades da nossa postura colonial e um retrato do país cujas entrelinhas extravasam facilmente o (detalhadíssimo) contexto histórico em que se desenrola. Fora de polémicas, e porque os cães ladram mas a caravana passa, Equador foi um merecido sucesso de vendas que se deseja que continue agora em território internacional.
Obrigado Miguel.

Terra dos Homens

E eis que me recordo, na derradeira página deste livro, desses burocratas envelhecidos que nos serviram de comitiva na madrugada do primeiro correio, quando preparávamos a nossa transformação em homens, porque havíamos tido a sorte de ser escolhidos. Não é que eles não fossem semelhantes a nós, mas ignoravam em absoluto que estavam famintos.
Há gente de mais que se deixa dormir.

Aqui há anos, no decorrer de prolongada viagem de caminho de ferro, apeteceu-me visitar essa pátria em marcha na qual eu me fechara por três dias, por três dias prisioneiro desse ruído de calhaus rolados pelo mar, e levantei-me. Por volta da uma hora da manhã percorri o comboio de lés a lés. As carruagens-cama estavam vazias. Vazias estavam as carruagens de primeira.
Mas as carruagens de terceira abrigavam centenas de operários polacos despedidos de França e que regressavam à sua Polónia. E eu percorria os corredores de ponta a ponta passando por cima de corpos. Parei para observar: de pé, à luz das lampadazinhas eléctricas, distinguia nesse vagão sem compartimentos, e que se assemelhava a uma camarata que tresandava a caserna ou a esquadra de polícia, toda uma população confusa e agitada pelos movimentos do rápido. Todo um povo mergulhado em pesadelos e que regressava à sua miséria. Grandes cabeças rapadas bamboleavam-se na madeira dos assentos. Homens, mulheres, crianças, todos se voltavam dum lado para o outro, como que atacados por todos esses ruídos, todos esses solavancos que os ameaçavam no seu letargo. Não tinham achado a hospitalidade de um bom sono.

E eis que eles me pareciam ter perdido parte da sua condição humana, sacudidos dum extremo ao outro da Europa pelas correntes económicas, arrancados à casinha do Norte, ao jardim minúsculo, aos três vasos de gerânio que eu vira outrora nas janelas dos mineiros polacos. Haviam reunido somente os utensílios de cozinha, os cobertores e as cortinas, em embrulhos mal atados e rasgados por hérnias. Mas tudo o que haviam acariciado ou atraído, tudo o que tinham conseguido domesticar em quatro ou cinco anos de permanência em França, o gato, o cão e o gerânio, haviam sido obrigados a sacrificar e não levavam consigo senão as baterias de cozinha.

Uma criança mamava numa mãe tão cansada que parecia adormecida. A vida transmitia-se no absurdo e na desordem dessa viagem. Eu considerei o pai. Um crânio pesado e nu como uma pedra. Um corpo curvado no sono desconfortável, comprimido no fato de trabalho, feito de altos e baixos. O homem fazia lembrar um montão de argila. Assim, despojos informes carregam à noite os bancos dos mercados. E eu pensei: o problema não reside de maneira alguma nesta miséria, nesta imundície, nem nesta fealdade. Mas este mesmo homem e esta mesma mulher um dia conheceram-se e o homem certamente sorriu à mulher e por certo depois do trabalho trouxe-lhe flores. Tímido e desajeitado, tremia talvez à ideia de se ver repelido. A mulher, porém, por garridice natural, a mulher segura da sua graça, divertia-se porventura a inquietá-lo. E o outro, que hoje não é mais que uma máquina de cavar ou de martelar, experimentava desse modo uma angústia deliciosa no coração. O mistério está em que eles se tivessem tornado nestes volumes de argila. Em que terrível molde foram metidos e por ele marcados como por uma máquina de embutir? Um animal envelhecido conserva a sua graça. Por que razão este belo barro humano se estragou?

E eu prossegui na minha viagem por entre este povo cujo sono era turvo como um prostíbulo. Pairava no ar um vago ruído feito de roncos roucos, de gemidos débeis, do raspar dos sapatorros dos que, maçados de um lado, experimentavam o outro. E sempre em surdina esse interminável acompanhamento de seixos revolvidos pelo mar.

Sentei-me diante de um casal. Entre o homem e a mulher, o filho, bem ou mal, aninhara-se e dormia. Mas a dormir voltou-se e o seu rosto surgiu-me à luz da lampadazinha. Ah! que rosto adorável! Nascera daquele casal uma espécie de fruto dourado. No meio dessa grosseira manada nascera este prodígio de encanto e de graça. Debrucei-me sobre essa fronte lisa, sobre esse doce trejeito dos lábios, e disse de mim para mim: eis um rosto de músico, eis Mozart criança, eis uma bela promessa de vida. Os principezinhos das histórias em nada se diferenciavam dele: protegido, resguardado, instruído, que não poderia ele vir a ser! Quando, por mutação, nasce nos jardins uma nova rosa, eis que todos os jardineiros se comovem. Isolam a rosa, cultivam a rosa, protegem-na. Mas para os homens não há jardineiro algum. Como os demais, Mozart menino será marcado pela máquina de embutir. Mozart fará as suas alegrias mais altas da música de pacotilha, na fedorentina dos cafés-concertos. Mozart está condenado.

E regressei à minha carruagem. E ia dizendo de mim para mim: estas pessoas quase não sentem a sua sorte. E aqui não é a caridade que me atormenta. Não se trata de nos enternecermos por causa duma chaga eternamente reaberta. Aqueles que a têm não a sentem. Quem é ferido aqui, quem é lesado, é qualquer coisa como a espécie humana e não o indivíduo. Creio pouco na piedade. O que me atormenta é o ponto de vista do jardineiro. O que me atormenta não é de modo algum aquela miséria, onde afinal de contas nos instalamos do mesmo modo que na preguiça. Gerações de orientais vivem na imundície e folgam com isso. O que me atormenta não são aquelas covas, nem aquelas bossas, nem aquela fealdade. É um pouco, em qualquer desses homens, Mozart assassinado.


– Terra dos Homens, Antoine de Saint-Exupéry.