Segunda-feira
O arquitecto é alguém que não é suficientemente macho para ser engenheiro nem suficientemente maricas para ser decorador.
Existe um conflito antigo entre (alguns, porventura muitos) arquitectos e engenheiros, um certo gosto que têm em dizer mal uns dos outros. Esta incompreensão deve-se a uma falta de cultura mútua que resulta na desvalorização do trabalho que o outro faz.
Ao longo da minha carreira de arquitecto tenho tido a sorte de trabalhar com bons engenheiros. Essa experiência tem sido sempre enriquecedora. O bom engenheiro é alguém que, para além da qualidade e domínio técnico do trabalho que desenvolve, tem a consciência de que há aspectos da construção que devem ser salvaguardados na arquitectura, e que a engenharia deve respeitar. A solução de engenharia não pode resultar apenas da concretização de uma equação de factores técnicos, deve ajustar-se aos objectivos (volumétricos, funcionais, estéticos) da solução arquitectónica. Mas a questão não acaba, ou melhor, não começa aqui.
Também o bom arquitecto é aquele que está consciente das implicações que a(s) engenharia(s) vão colocar ao seu trabalho. Significa isto que o arquitecto, sem necessitar de uma formação específica de engenharia, deve conhecer e ter a sensibilidade de que a realidade que está a projectar se sustenta em soluções técnicas, construtivas, que têm regras e limites próprios. Se, por exemplo, o arquitecto quiser levar uma determinada solução estrutural ao limite, ou ir ainda mais além, deve estar consciente disso e trabalhar em estreita colaboração com o engenheiro de forma a procurar novas respostas técnicas para concretizar o seu objectivo.
Quando esta compreensão mútua existe, quando o arquitecto valoriza o trabalho do engenheiro, e este o do arquitecto, o conflito entre ambos deixa de fazer sentido e desaparece.
A guerra entre engenheiros e arquitectos não seria um problema grave se fosse apenas motivo para algumas anedotas de melhor ou pior gosto. Grave é ser sintoma de um problema maior do nosso trabalho, que é o de uma certa desvalorização da componente pluridisciplinar fundamental em algumas áreas da profissão. Isso é ainda mais evidente na área do planeamento.
Todos nós temos, devido à nossa formação, uma sensibilidade maior a algumas questões, em detrimento de outras. Imaginemos, por exemplo, que vamos desenvolver uma solução urbanística para um determinado território. Se encaramos a questão do ponto de vista do arquitecto, certamente valorizamos a qualidade do ambiente construído, a contemporaneidade da solução, os aspectos de relação e integração da malha urbana com a geografia do local, dos eixos visuais, da estética, da vivência humana, das interacções viárias e pedonais, e por aí fora.
Mas se pensarmos do ponto de vista do engenheiro, a ordem de prioridades talvez seja outra. O engenheiro preocupa-se com a racionalização das infra-estruturas, a funcionalidade do sistema viário, das implicações da solução urbana ao nível das drenagens, dos aterros, dos desníveis, etc.
O arquitecto paisagista observará a caracterização morfológica do território, as implicações que uma solução urbanística traz para o terreno e o seu coberto vegetal. Depois, preocupa-se com a qualidade do ambiente urbano, dos espaços exteriores e da sua vivência, das cinturas verdes, da estrutura pedonal, etc. Em sentido lato, o arquitecto paisagista é alguém que se preocupa, como nos tem ensinado Gonçalo Ribeiro Telles, com a integração biofísica da cidade com o território, das suas implicações ao nível da capacidade de infiltração dos solos, dos canais de escorrência das águas, das implicações ao nível dos ventos, e por aí fora.
Mas isto não acaba aqui. Para um sociólogo será importante pensar na estrutura humana que se vai criar, nos tipos de vivência e relação social que se vão estabelecer, na forma como se podem propiciar fenómenos de marginalidade e criminalidade, na qualidade humana da cidade.
Na economia, o gestor urbano irá alertar-nos para a viabilidade da solução urbana do ponto de vista financeiro. Uma determinada solução pode ser muito boa sobre todos os outros pontos de vista, mas se depender de custos incomportáveis ao nível das infra-estruturas ou submeter-se a gastos que põem em causa a sua viabilidade, então, como um todo, não é boa solução porque não pode ser concretizada para além do exercício teórico.
E poderia continuar para o arqueólogo, para o historiador, etc., até chegar ao urbanista que valoriza a forma como todas estas componentes se interligam.
A realidade é complexa, somos nós que a simplificamos na nossa necessidade de encontrar modelos para estudar a natureza das coisas e desenvolver respostas às questões práticas que se nos colocam. O problema começa quando começamos a pensar as prioridades sobre o nosso ponto de vista específico, desvalorizando os outros pontos de vista como algo que “depois alguém há-de resolver”. Ao longo do nosso trabalho, facilmente vamos encontrar pessoas que insistem em trabalhar sempre com aquelas variáveis que aprenderam, aplicando-as e fazendo delas doutrina, sem pensar se essas verdades o são quando confrontadas com outras componentes da realidade. Pessoas que depois ocupam cargos onde emitem pareceres e tomam decisões que afectam conjuntos largos de cidadãos. É preciso combater essa postura, e esse combate devia começar nas escolas e nas universidades, mas para combater um problema é preciso estar consciente de que ele existe. O que fazer então se a falta de consciência do problema é que é o problema?
|esta|terra|mal|amada|
Terça-feira
Em toda a Europa está em curso uma transformação da ideia que os cidadãos têm do Estado. Em Portugal, a incapacidade que ao longo de décadas a estrutura estatal tem revelado para gerir a causa pública conduziu os cidadãos ao cinismo e à perda de expectativa. No entanto, se acreditamos que para existir uma sociedade estável existem bens comuns que nos cabem a todos construir e preservar, temos de reflectir sobre o que esperamos do nosso futuro colectivo.
O Estado é hoje uma estrutura complexa que muitas vezes se articula mal com os cidadãos e também entre si. Constantemente assistimos, nos mais diversos sectores, a organismos públicos confrontarem-se com visões e objectivos opostos, ou seja, ao Estado contra o Estado. Por outro lado, a máquina estatal tornou-se tão complexa nos trâmites e procedimentos que por vezes parece ao cidadão que a estrutura existe apenas para se alimentar a si própria, perdendo de vista os objectivos de serviço público para os quais foi criada.
A causa pública tem vindo a perder a sua credibilidade, deteriorando-se consecutivamente o seu crédito como um bem produtivo e de que todos beneficiam. A insatisfação dos cidadãos vem assim sendo explorada com recorrentes discursos políticos, geralmente simplificada e intencionalmente demagógicos, que reclamam a redução das despesas estatais, sustentadas pela incompetência da sua gestão. Como consequência lógica, o Estado tem vindo a reduzir progressivamente a sua presença em diversas áreas, passando para a sociedade privada a responsabilidade da sua coordenação e gestão, com o objectivo de melhor potenciar a gestão dos seus recursos.
Este processo é complexo e deve ser ponderado com responsabilidade e sem qualquer fanatismo ideológico. Tem igualmente de ser analisado com seriedade e estudando bem o que se ganha, o que se perde, e a sustentabilidade da nova estrutura que entretanto estamos a criar. E aqui é pena que todos nós – e os media – não façam uma ou duas perguntas. Ninguém duvida que o peso das finanças públicas é uma carga pesada no sector privado português e uma desvantagem competitiva no nosso quadro internacional. Ninguém duvida que o Estado tem de ser optimizado nos custos e nos resultados. Mas se o Estado (enquanto estrutura pública) gere mal os seus recursos, isso é justificação bastante para lhe retirar as responsabilidades, ou deve pelo contrário ser responsabilizado a gerir melhor?
Pessoalmente, preocupa-me que não se faça uma discussão profunda em torno deste problema. Pelo contrário, vivemos no tempo da fuga para a frente. Mude-se, e depois vamos ver os resultados. Voltemos então ao problema da redução das despesas estatais. Onde cortar? É uma questão ainda mais complexa. Realmente, cumprir o défice do pacto de estabilidade não é muito difícil, e para cortar não é preciso um ministro, basta um bom técnico de contas. A dificuldade está em saber aonde cortar as despesas sem que se entre em colapso pela deterioração dos serviços que se devem ao público. Sem que comecem a cair pontes, a incendiar os campos ou a morrer-se de calor nos hospitais.
Acredito que existe um problema de mentalidade na sociedade portuguesa, de certo modo uma visão infantil daquilo que se espera do País de uma forma passiva. O Estado depara-se hoje com um problema de sustentabilidade, que inclusivamente vê pôr em causa a própria estrutura e filosofia do Estado-Providência. Cumpre ao Estado saber interagir com a sociedade qual a forma de melhor aligeirar a sua presença naqueles sectores em que uma parceria público/privado é mais benéfica e rentável. No entanto, inevitavelmente, existem sectores sobre os quais o Estado deve manter uma presença mais ou menos forte, porque os objectivos que lhe são da responsabilidade salvaguardar podem não ser consonantes com os objectivos de rentabilidade do agente privado.
Torna-se assim necessário exigir uma maior produtividade dos serviços estatais, mas pode essa exigência aumentar se da parte dos agentes políticos não existir também um discurso de investimento na qualidade do Estado, nos meios, nos técnicos e nos recursos que lhe são postos à disposição? E conseguirão os partidos que compõem o nosso quadro político oferecer um projecto credível de reestruturação do Estado, sustentado economicamente com a realidade nacional sem deixar de pôr em causa a salvaguarda do bem comum? Receio que o discurso político dominante tenha seguido hoje por outros caminhos. Estamos a caminhar da falência do Estado-Providência para o que pode bem vir a ser a falência de um Estado-Neoliberal. Mas a que preço? Qual o custo de não pagar para a manutenção das causas públicas. Lamentavelmente, os erros repetem-se ano após ano e o país insiste em não aprender as lições que, pesadamente, se vão abatendo sobre todos nós.
Existe em Portugal um exemplo que é o paradigma de quanto custam as más decisões. Quando o IP5 foi executado, havia sido ponderada a hipótese de se constituir como um troço de auto-estrada em alternativa a um itinerário principal. A diferença de custos era elevada, uma vez que uma auto-estrada, para além dos custos inerentes à sua tipologia, possui vias mais largas e com limites de projecto muito mais reduzidos. Os raios de curvatura mínima são maiores e as inclinações da via são mais pequenas, o que significa uma maior suavidade do percurso, mas implicaria, para ser viável, a construção de um conjunto de infra-estruturas que adaptassem um tal traçado à topografia do local. A decisão de avançar com um itinerário principal permitiu poupar assim largos milhões de contos de investimento que na altura o teriam tornado praticamente irrealizável.
No entanto, olhados vinte anos depois, quanto custaram esses milhões de contos de poupança estatal, nos largos milhares de acidentes que ali tiveram lugar? Nos custos materiais resultantes directamente dos acidentes? Nos custos em cuidados de saúde dos atingidos, mortos e feridos? E depois, quanto custam os danos pessoais, emocionais, nas famílias das vítimas, os cônjuges, os pais ou os filhos, ou naqueles que ficam atingidos na sua integridade física para o resto da vida. E esse custo, como se repercute em crises, depressões e problemas sociais, em produtividade, nas suas vidas futuras?
Alguém sabe fazer estas contas? Alguém quer fazê-las? Quanto custou ao país, este Verão passado, anos de políticas de incúria e desinvestimento na protecção das florestas? Quanto custou a debilidade de um sistema de manutenção e fiscalização das pontes e infra-estruturas públicas, na noite de 4 de Março de 2001, quando um autocarro se lançou para o vazio das águas do Douro transportando mais de cinquenta pessoas? Quanto têm custado a nossa incúria colectiva, a nossa ignorância e má vontade colectivas?
É um problema cultural profundo, um problema que não se resolve no tempo de uma ou duas legislaturas. A solução depende de um investimento de décadas, talvez uma ou duas gerações, até que todos beneficiemos do resultado. Acredito plenamente que estes problemas têm solução e não são motivo para desânimo ou depressão nacional. No entanto, se não plantarmos as sementes do desenvolvimento, se não começarmos hoje a pagar o preço desse investimento nas gerações futuras, como podemos esperar colher no fim uma boa colheita. Deixaremos assim os nossos filhos à solta no mundo, certos de que lhes reservamos a inevitabilidade de um futuro menos feliz, menos estável e menos próspero.
Em toda a Europa está em curso uma transformação da ideia que os cidadãos têm do Estado. Em Portugal, a incapacidade que ao longo de décadas a estrutura estatal tem revelado para gerir a causa pública conduziu os cidadãos ao cinismo e à perda de expectativa. No entanto, se acreditamos que para existir uma sociedade estável existem bens comuns que nos cabem a todos construir e preservar, temos de reflectir sobre o que esperamos do nosso futuro colectivo.
O Estado é hoje uma estrutura complexa que muitas vezes se articula mal com os cidadãos e também entre si. Constantemente assistimos, nos mais diversos sectores, a organismos públicos confrontarem-se com visões e objectivos opostos, ou seja, ao Estado contra o Estado. Por outro lado, a máquina estatal tornou-se tão complexa nos trâmites e procedimentos que por vezes parece ao cidadão que a estrutura existe apenas para se alimentar a si própria, perdendo de vista os objectivos de serviço público para os quais foi criada.
A causa pública tem vindo a perder a sua credibilidade, deteriorando-se consecutivamente o seu crédito como um bem produtivo e de que todos beneficiam. A insatisfação dos cidadãos vem assim sendo explorada com recorrentes discursos políticos, geralmente simplificada e intencionalmente demagógicos, que reclamam a redução das despesas estatais, sustentadas pela incompetência da sua gestão. Como consequência lógica, o Estado tem vindo a reduzir progressivamente a sua presença em diversas áreas, passando para a sociedade privada a responsabilidade da sua coordenação e gestão, com o objectivo de melhor potenciar a gestão dos seus recursos.
Este processo é complexo e deve ser ponderado com responsabilidade e sem qualquer fanatismo ideológico. Tem igualmente de ser analisado com seriedade e estudando bem o que se ganha, o que se perde, e a sustentabilidade da nova estrutura que entretanto estamos a criar. E aqui é pena que todos nós – e os media – não façam uma ou duas perguntas. Ninguém duvida que o peso das finanças públicas é uma carga pesada no sector privado português e uma desvantagem competitiva no nosso quadro internacional. Ninguém duvida que o Estado tem de ser optimizado nos custos e nos resultados. Mas se o Estado (enquanto estrutura pública) gere mal os seus recursos, isso é justificação bastante para lhe retirar as responsabilidades, ou deve pelo contrário ser responsabilizado a gerir melhor?
Pessoalmente, preocupa-me que não se faça uma discussão profunda em torno deste problema. Pelo contrário, vivemos no tempo da fuga para a frente. Mude-se, e depois vamos ver os resultados. Voltemos então ao problema da redução das despesas estatais. Onde cortar? É uma questão ainda mais complexa. Realmente, cumprir o défice do pacto de estabilidade não é muito difícil, e para cortar não é preciso um ministro, basta um bom técnico de contas. A dificuldade está em saber aonde cortar as despesas sem que se entre em colapso pela deterioração dos serviços que se devem ao público. Sem que comecem a cair pontes, a incendiar os campos ou a morrer-se de calor nos hospitais.
Acredito que existe um problema de mentalidade na sociedade portuguesa, de certo modo uma visão infantil daquilo que se espera do País de uma forma passiva. O Estado depara-se hoje com um problema de sustentabilidade, que inclusivamente vê pôr em causa a própria estrutura e filosofia do Estado-Providência. Cumpre ao Estado saber interagir com a sociedade qual a forma de melhor aligeirar a sua presença naqueles sectores em que uma parceria público/privado é mais benéfica e rentável. No entanto, inevitavelmente, existem sectores sobre os quais o Estado deve manter uma presença mais ou menos forte, porque os objectivos que lhe são da responsabilidade salvaguardar podem não ser consonantes com os objectivos de rentabilidade do agente privado.
Torna-se assim necessário exigir uma maior produtividade dos serviços estatais, mas pode essa exigência aumentar se da parte dos agentes políticos não existir também um discurso de investimento na qualidade do Estado, nos meios, nos técnicos e nos recursos que lhe são postos à disposição? E conseguirão os partidos que compõem o nosso quadro político oferecer um projecto credível de reestruturação do Estado, sustentado economicamente com a realidade nacional sem deixar de pôr em causa a salvaguarda do bem comum? Receio que o discurso político dominante tenha seguido hoje por outros caminhos. Estamos a caminhar da falência do Estado-Providência para o que pode bem vir a ser a falência de um Estado-Neoliberal. Mas a que preço? Qual o custo de não pagar para a manutenção das causas públicas. Lamentavelmente, os erros repetem-se ano após ano e o país insiste em não aprender as lições que, pesadamente, se vão abatendo sobre todos nós.
Existe em Portugal um exemplo que é o paradigma de quanto custam as más decisões. Quando o IP5 foi executado, havia sido ponderada a hipótese de se constituir como um troço de auto-estrada em alternativa a um itinerário principal. A diferença de custos era elevada, uma vez que uma auto-estrada, para além dos custos inerentes à sua tipologia, possui vias mais largas e com limites de projecto muito mais reduzidos. Os raios de curvatura mínima são maiores e as inclinações da via são mais pequenas, o que significa uma maior suavidade do percurso, mas implicaria, para ser viável, a construção de um conjunto de infra-estruturas que adaptassem um tal traçado à topografia do local. A decisão de avançar com um itinerário principal permitiu poupar assim largos milhões de contos de investimento que na altura o teriam tornado praticamente irrealizável.
No entanto, olhados vinte anos depois, quanto custaram esses milhões de contos de poupança estatal, nos largos milhares de acidentes que ali tiveram lugar? Nos custos materiais resultantes directamente dos acidentes? Nos custos em cuidados de saúde dos atingidos, mortos e feridos? E depois, quanto custam os danos pessoais, emocionais, nas famílias das vítimas, os cônjuges, os pais ou os filhos, ou naqueles que ficam atingidos na sua integridade física para o resto da vida. E esse custo, como se repercute em crises, depressões e problemas sociais, em produtividade, nas suas vidas futuras?
Alguém sabe fazer estas contas? Alguém quer fazê-las? Quanto custou ao país, este Verão passado, anos de políticas de incúria e desinvestimento na protecção das florestas? Quanto custou a debilidade de um sistema de manutenção e fiscalização das pontes e infra-estruturas públicas, na noite de 4 de Março de 2001, quando um autocarro se lançou para o vazio das águas do Douro transportando mais de cinquenta pessoas? Quanto têm custado a nossa incúria colectiva, a nossa ignorância e má vontade colectivas?
É um problema cultural profundo, um problema que não se resolve no tempo de uma ou duas legislaturas. A solução depende de um investimento de décadas, talvez uma ou duas gerações, até que todos beneficiemos do resultado. Acredito plenamente que estes problemas têm solução e não são motivo para desânimo ou depressão nacional. No entanto, se não plantarmos as sementes do desenvolvimento, se não começarmos hoje a pagar o preço desse investimento nas gerações futuras, como podemos esperar colher no fim uma boa colheita. Deixaremos assim os nossos filhos à solta no mundo, certos de que lhes reservamos a inevitabilidade de um futuro menos feliz, menos estável e menos próspero.
|arquitectura|como|arte|
Quinta-feira
Notas:
Eu acredito que há duas dimensões separadas que coexistem na arquitectura. Uma é substantiva e refere-se à função, segurança e economia, e uma vez que a arquitectura acomoda a vivência humana, não pode ignorar estes elementos do real. No entanto, pode a arquitectura ser arquitectura com isto apenas? Uma vez que a arquitectura é uma forma de expressão humana, quando abandona as exigências da construção pura para entrar no domínio da estética, faz surgir a questão da arquitectura como arte.
(...) Originalmente, a construção humana oferecia o mais fundamental abrigo dos elementos naturais. Então, aquele arquitecto teórico da Roma antiga, Vitrúvio, propôs três princípios fundamentais da arquitectura – "utilitas", "venustas", "firmitas": "utilitas" refere-se à função (utilidade) e "firmitas" à força (firmeza), ambas são medidas do potencial arquitectónico, enquanto "venustas" (delicadeza ou beleza) reside na dimensão da imaginação.
A arquitectura moderna em que me tenho referenciado também retém a função (clara), a estrutura (exposta) e o material (bruto) como princípios – características que tendem a ser acedidas a partir da dimensão do real e do substantivo. A ficcionalidade ou imaginação, a outra dimensão, é omitida inteiramente. No entanto, Vitrúvio enfatizou a "venustas", por outras palavras atracção ou beleza, como uma necessidade para além da firmeza e da função. O mesmo é dizer que, também ele, considerou a dimensão ficcional ou a imaginação combinada com a dimensão real, como a síntese que afecta profundamente a espiritualidade humana. Desde a génese da arquitectura, o seu destino tem sido não poder ser fruto apenas da funcionalidade.
Excerto do discurso de Tadao Ando na aceitação do prémio Pritzker de 1995.
A arquitectura é uma arte, mas uma arte pública. A maior parte das vezes o público não escolhe a arquitectura como escolheria um museu para visitar. Assim, a arquitectura é-nos imposta na nossa vida quotidiana, nas nossas casas, nos lugares de trabalho. E por esta razão, o arquitecto-artista tem de responder pelo seu trabalho; ele deve uma explicação. É-nos constantemente exigido para nos exprimirmos. E isso é normal.
E porque a arquitectura é uma arte pública, os arquitectos, ao contrário de outros artistas, não gozam de uma liberdade criativa pessoal completa. É-lhes esperado que o seu trabalho contenha uma espécie de legitimidade, providenciando as respostas certas às necessidades de uma determinada época.
Excerto do discurso de Christian de Portzamparc na aceitação do prémio Pritzker de 1994.
Notas:
Eu acredito que há duas dimensões separadas que coexistem na arquitectura. Uma é substantiva e refere-se à função, segurança e economia, e uma vez que a arquitectura acomoda a vivência humana, não pode ignorar estes elementos do real. No entanto, pode a arquitectura ser arquitectura com isto apenas? Uma vez que a arquitectura é uma forma de expressão humana, quando abandona as exigências da construção pura para entrar no domínio da estética, faz surgir a questão da arquitectura como arte.
(...) Originalmente, a construção humana oferecia o mais fundamental abrigo dos elementos naturais. Então, aquele arquitecto teórico da Roma antiga, Vitrúvio, propôs três princípios fundamentais da arquitectura – "utilitas", "venustas", "firmitas": "utilitas" refere-se à função (utilidade) e "firmitas" à força (firmeza), ambas são medidas do potencial arquitectónico, enquanto "venustas" (delicadeza ou beleza) reside na dimensão da imaginação.
A arquitectura moderna em que me tenho referenciado também retém a função (clara), a estrutura (exposta) e o material (bruto) como princípios – características que tendem a ser acedidas a partir da dimensão do real e do substantivo. A ficcionalidade ou imaginação, a outra dimensão, é omitida inteiramente. No entanto, Vitrúvio enfatizou a "venustas", por outras palavras atracção ou beleza, como uma necessidade para além da firmeza e da função. O mesmo é dizer que, também ele, considerou a dimensão ficcional ou a imaginação combinada com a dimensão real, como a síntese que afecta profundamente a espiritualidade humana. Desde a génese da arquitectura, o seu destino tem sido não poder ser fruto apenas da funcionalidade.
Excerto do discurso de Tadao Ando na aceitação do prémio Pritzker de 1995.
A arquitectura é uma arte, mas uma arte pública. A maior parte das vezes o público não escolhe a arquitectura como escolheria um museu para visitar. Assim, a arquitectura é-nos imposta na nossa vida quotidiana, nas nossas casas, nos lugares de trabalho. E por esta razão, o arquitecto-artista tem de responder pelo seu trabalho; ele deve uma explicação. É-nos constantemente exigido para nos exprimirmos. E isso é normal.
E porque a arquitectura é uma arte pública, os arquitectos, ao contrário de outros artistas, não gozam de uma liberdade criativa pessoal completa. É-lhes esperado que o seu trabalho contenha uma espécie de legitimidade, providenciando as respostas certas às necessidades de uma determinada época.
Excerto do discurso de Christian de Portzamparc na aceitação do prémio Pritzker de 1994.
|if|not|now|
Quarta-feira
Conheces a sensação de fazer uma longa viagem de comboio. Adormecer na cabine ao som dos movimentos perpétuos e daquelas luzes repetidas. Depois acordar bem cedo na madrugada e caminhar pelos corredores a ver o amanhecer. Não te vais esquecer das cores daquela manhã, ou do cheiro metálico da carruagem, ou da face de alguém com que te cruzaste. Alguém que nunca viste antes mas que sorriu e disse: olá!
Na carruagem da frente viaja Jesse com um “eurorail”, percorrendo a Europa há várias semanas a caminho de Viena, a sua última paragem, antes de apanhar o avião de volta a casa para os Estados Unidos. Encontra Celine, uma jovem francesa, e começam a conversar. “Before Sunrise” (1995) é um filme tão natural que tudo parece verdadeiro e razoável. E conduz-te naquela viagem tão suavemente que não vais ver aproximar a dor daquele adeus inevitável.
“Antes Do Amanhecer” conta a história maravilhosa de duas pessoas com um laço e sem expectativas. Porque sabem desde o primeiro encontro que não existe uma possibilidade de manterem uma relação de longo prazo, partilham coisas que normalmente não diriam nem aos amigos. É um filme romântico, mas nunca cai nos lugares comuns próprios de um postal ilustrado de Viena. Em vez disso, mostra-te Viena como a experimentarias se lá estivesses. E mostra-te o amor, não como um sentimento fácil de digerir, mas como algo que pode entrar pela tua vida adentro e abaná-la de cima abaixo.
As escolhas que fazes a partir daí, bom, essas dependem de ti. E ainda hoje me pergunto que escolhas teriam feito Jesse e Celine...
Um dia saberemos...
Daydream, delusion, limousine, eyelash
Oh baby with your pretty face
Drop a tear in my wineglass
Look at those big eyes
See what you mean to me
Sweet-cakes and milkshakes
I'm delusion angel
I'm fantasy parade
I want you to know what I think
Don't want you to guess anymore
You have no idea where I came from
We have no idea where we're going
Latched in life
Like branches in a river
Flowing downstream
Caught in the current
I'll carry you
You'll carry me
That's how it could be
Don't you know me?
Don't you know me by now?
Notas:
Before Sunrise (1995) é realizado por Richard Linklater e interpretado por Ethan Hawke e Julie Delpy. Está em fase de pós-produção uma continuação intitulada If Not Now (2004). Pouco mais se sabe para além de que o argumento e realização são do próprio Linklater e as filmagens decorreram em Paris durante um período de apenas quinze dias.
Quero saber mais: Movies.com, Moviemaker.com.
Notas adicionais (2004-02-11):
O título provisório "If Not Now" foi alterado para o definitivo "Before Sunset".
Conheces a sensação de fazer uma longa viagem de comboio. Adormecer na cabine ao som dos movimentos perpétuos e daquelas luzes repetidas. Depois acordar bem cedo na madrugada e caminhar pelos corredores a ver o amanhecer. Não te vais esquecer das cores daquela manhã, ou do cheiro metálico da carruagem, ou da face de alguém com que te cruzaste. Alguém que nunca viste antes mas que sorriu e disse: olá!
Na carruagem da frente viaja Jesse com um “eurorail”, percorrendo a Europa há várias semanas a caminho de Viena, a sua última paragem, antes de apanhar o avião de volta a casa para os Estados Unidos. Encontra Celine, uma jovem francesa, e começam a conversar. “Before Sunrise” (1995) é um filme tão natural que tudo parece verdadeiro e razoável. E conduz-te naquela viagem tão suavemente que não vais ver aproximar a dor daquele adeus inevitável.
“Antes Do Amanhecer” conta a história maravilhosa de duas pessoas com um laço e sem expectativas. Porque sabem desde o primeiro encontro que não existe uma possibilidade de manterem uma relação de longo prazo, partilham coisas que normalmente não diriam nem aos amigos. É um filme romântico, mas nunca cai nos lugares comuns próprios de um postal ilustrado de Viena. Em vez disso, mostra-te Viena como a experimentarias se lá estivesses. E mostra-te o amor, não como um sentimento fácil de digerir, mas como algo que pode entrar pela tua vida adentro e abaná-la de cima abaixo.
As escolhas que fazes a partir daí, bom, essas dependem de ti. E ainda hoje me pergunto que escolhas teriam feito Jesse e Celine...
Um dia saberemos...
Daydream, delusion, limousine, eyelash
Oh baby with your pretty face
Drop a tear in my wineglass
Look at those big eyes
See what you mean to me
Sweet-cakes and milkshakes
I'm delusion angel
I'm fantasy parade
I want you to know what I think
Don't want you to guess anymore
You have no idea where I came from
We have no idea where we're going
Latched in life
Like branches in a river
Flowing downstream
Caught in the current
I'll carry you
You'll carry me
That's how it could be
Don't you know me?
Don't you know me by now?
Notas:
Before Sunrise (1995) é realizado por Richard Linklater e interpretado por Ethan Hawke e Julie Delpy. Está em fase de pós-produção uma continuação intitulada If Not Now (2004). Pouco mais se sabe para além de que o argumento e realização são do próprio Linklater e as filmagens decorreram em Paris durante um período de apenas quinze dias.
Quero saber mais: Movies.com, Moviemaker.com.
Notas adicionais (2004-02-11):
O título provisório "If Not Now" foi alterado para o definitivo "Before Sunset".
|também|quero|ir|
Segunda-feira
Somewhere, something incredible is waiting to be known.
Carl Sagan
Mars Exploration Rover Mission
NASA
Somewhere, something incredible is waiting to be known.
Carl Sagan
Mars Exploration Rover Mission
NASA
Subscrever:
Mensagens (Atom)
