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Terça-feira



Já repararam que os “pins” do Euro 2004 oferecidos pela Macdonalds com o Menu Big têm a etiqueta Made in Spain?

|ismo|

Segunda-feira

[via Open Democracy] “Terrorismo” é uma palavra bem mais precisa do que pode parecer. É um ismo, uma crença – no terror. Alguns racionalistas ferozes recusam-se a confrontar o facto de que existem pessoas dispostas a morrer para aterrorizar populações inteiras. Essa determinação, e mesmo o desejo, não acolhe argumentos. Tanto quanto entendo esta mentalidade, é uma crença que reside no lado oposto e longínquo da discussão. Exige uma resposta militar focalizada – precisa, não um espasmo de vingança, não um ataque a uma fábrica farmacêutica, mas uma acção que distingue os assassinos dos civis. Não é tarefa fácil. Nada a que se deva reagir a correr.

|dois|pais|

Segunda-feira

[via Público: O Ridículo Causa Danos, por Miguel Sousa Tavares] Por idênticos e primários raciocínios, caiu em cima de Luís Vilas Boas um coro de politicamente correctos, só porque ele se atreveu a dizer uma coisa óbvia: que um casal homossexual não oferece garantias para criar e educar equilibradamente uma criança. Uma vez mais, é o direito das próprias crianças a uma infância saudável que passa para segundo plano, cedendo ao direito dos homossexuais, mulheres ou homens, de brincarem aos pais e mães. Uma vez mais, a minha resposta é: olhem para a natureza. Já viram elefantes "gays" ou focas lésbicas a criarem filhos em comum? Peçam o que é legitimo pedir - igualdade de direitos conjugais e sucessórios, por exemplo -, mas não peçam o que não é natural pedir e ofende os direitos legítimos de terceiros inocentes.

Deixem-me começar com a maior abertura que é possível ter: eu gosto do Miguel Sousa Tavares. Gosto de ler o que ele escreve e reconheço-lhe muitas vezes uma grande lucidez. No entanto, saudavelmente, nem sempre concordo com os seus argumentos e às vezes discordo completamente do que diz. Eis-me então perante estas palavras que me deixam, acima de tudo surpreendido, não pela discordância, mas pelo simplismo a que MST resume uma questão que é complexa. Analisemos...
Ponto forte: um casal homossexual não oferece garantias para criar e educar equilibradamente uma criança. Isto pode ser uma coisa que se diz assim da boca para fora lá em casa, mas escrito numa crónica de opinião merecia ser sustentado por mais argumentos. Fica a pergunta: porque é que um casal homossexual não oferece garantias para criar e educar equilibradamente uma criança? E de que modo é que o casal homossexual põe em causa o direito das próprias crianças a uma infância saudável? O simplismo (e o ridículo) vem com a argumentação seguinte - olhem para a natureza - e os exemplos que se seguem. Bem, olhando para a natureza possivelmente podíamos justificar o machismo, a infidelidade e com alguma habilidade até a violência doméstica.
Miguel Sousa Tavares não vai ler isto e por isso que caia no vazio este pedido de que olhe para o umbigo e se questione. Não se compare o que não é comparável. Mas acima de tudo, reflicta-se sobre os termos simplistas com que escreveu coisas como: não peçam o que não é natural pedir e ofende os direitos legítimos de terceiros inocentes. Porque aqui existem vários preconceitos latentes que devem ser reflectidos e que tomei a liberdade de sublinhar. O que define MST por natural? O exemplo das focas e dos elefantes? E que significado tem neste contexto definir as crianças de inocentes? Serão elas “vítimas” atingidas pelo “crime” da adopção homossexual? Porque a questão não é, julgo eu, os homossexuais quererem brincar aos pais e às mães. Pelo contrário, é quererem participar de uma responsabilidade social para com muitas crianças que, de outra forma, não terão um lar onde crescer.
A verdade meu caro Miguel é que a realidade nem sempre é aquilo que imaginamos. Deixo aqui um exemplo para reflectirmos todos um pouco mais sobre isto...

|silêncio|de|morte|

Domingo

[via Público] Sete meses de vida, olhos azuis e uns cabelitos loiros. Patrícia, vítima número 199 dos atentados terroristas de anteontem, morreu no dia em que os espanhóis se levantaram em peso contra o terrorismo e Madrid não podia ter sido mais fiel à expressão da revolta que funcionava como uma espécie de onda expansiva pelo país.

Há momentos em que só o silêncio já parece fazer sentido. Só naquele minuto de silêncio em que o vazio nos liberta da especulação insensível se começa a sentir um pouco da verdade.
A pergunta que fica dos destroços desta barbárie é em nome de que injustiças, de que ideais, de que revolta se colheram aquelas vidas. Quem escreve a história de Patrícia, quem reclama esta vida. Quem se arrogou o direito de destruir os direitos desta criança, o direito a um futuro, o direito a uma vida.
Perante esta violência chega o momento em que temos de nos perguntar se temos nós o direito a um pacifismo de sofá. Quando a guerra chega à nossa porta será legítimo ser neutral? Já não é uma questão de esquerda ou de direita, é uma questão de reclamar o direito a viver. Temos de combater estes fundamentalismos, mas também aqueles que sorrateiramente se desenvolvem na nossa sociedade pelo maniqueísmo e pela demagogia, pela falsidade com que se conduzem muitos ao sabor dos interesses de alguns. Chega a hora de questionarmos o mundo e questionarmo-nos a nós próprios, contra estes fundamentalismos cheios de juizos e certezas, arrogantes de direitos e déspotas das obrigações.

Fica o silêncio...

|transcender|

Terça-feira

Há quem confunda arte com agressão. Cada afirmação tem de ser um manifesto, cada gesto um murro na mesa. Mas violento não é sinónimo consequente ou pertinente.

Arte é um conceito difícil de definir mas que reside numa certa ideia de transcendência. A arte é uma expressão do espírito humano e do modo como nos relacionamos com o mundo. O momento da arte é o da transformação do olhar, para usar uma citação do crítico de cinema João Lopes, abalando toda a verdade do que somos. É o momento de transcendência em que nos apercebemos que a nossa compreensão da vida se transforma, aumenta nesse instante, como alguém que descobre e diz: sim, eu sei exactamente de que é que tu estás a falar.
Se existe alguma razão para a arquitectura ser “erudita” é por procurar exactamente essa transcendência da arte. O modo como projectamos o espaço define o que somos enquanto humanos. Por isto saímos da caverna, porque já não nos revemos nela. E por isso a arquitectura não é uma arte amordaçada. O que a define é exactamente o homem. O que define uma porta é o homem a passar nela. Se não passar não é uma porta. Há quem encontre nos “constrangimentos” da realidade um espartilho para a sua imaginação, ao ponto do próprio cliente se tornar num constrangimento do artista. Esta atitude não tem nada de erudito, é uma mentira. Não tem nada que ver com arte, nada que ver com liberdade. É tão absurda como dizer que as regras da gramática são um constrangimento para o escritor ou para a literatura.
Uma vez citei aqui Frank Lloyd Wright: Freedom is from within. A liberdade vem de dentro. Repito estas palavras, porque o verdadeiro constrangimento do arquitecto artista é ele próprio. A nossa maior condicionante, somos nós.
Ao longo da nossa vida pessoal e profissional aplicamos as referências que conhecemos e por isto travamos uma batalha até ao fim dos nossos dias. A da busca de conhecimento, para alargarmos o nosso vocabulário de referências, a nossa capacidade de percepcionar os problemas e encontrar as soluções mais lúcidas. Mas para lá disto temos a obrigação de nos esforçar para projectar essas soluções como Arquitectura, essa com “A” grande. A arquitectura faz-se com contemporaneidade, com verdade, com sentimento, com desejo de transcender. Para que uma parede não seja apenas uma parede mas uma palavra, e a escala se torne um sentido e a experiência de a sentir eleve o espírito humano. O mesmo faz o músico, mas as suas ferramentas não são o tijolo, a pedra, a madeira ou o ferro, mas os instrumentos musicais, as cordas e os metais. O mesmo faz o pintor, ou o fotógrafo, ou o escritor.

Quando perguntaram ao Peter Eisenman se se considerava um pós-modernista ele respondeu algo como: sim, mas isso é dizer muito pouco. É evidente que vivemos na pós-modernidade mas ainda hoje não sabemos bem o que isso é ou para onde vai. E não falo do pós-modernismo segundo Charles Jencks que é uma mistificação: a mixagem eclética de elementos estéticos, antigos e modernos, que conduziram a arquitectura dita “pós-modernista” a um beco sem aparente saída. Pura e simplesmente, como alertava Eisenman, somos pós-modernistas porque somos herdeiros da grande tradição modernista. Esquecem-se os que auguram a falência da modernidade, acusada de desumanizadora, que alí se fundaram os princípios da arquitectura e do urbanismo enquanto serviço público. E devem ser relembrados que os grandes modernistas da história, a começar em Le Corbusier, foram homens que tentaram constituir uma doutrina que pusesse a industrialização e as novas tecnologias da construção ao serviço do homem. Fizeram-no com base nas possibilidades abertas pelos progressos tecnológicos e científicos do século XX e fazendo frente aos graves problemas que a transformação das sociedades (e das cidades) introduzia na realidade humana.
Muitos dos problemas acusados à arquitectura e urbanismo modernistas são na verdade problemas que não têm a sua génese na arquitectura. A transformação da economia social com a fixação de estruturas industriais nas cidades. A consequente migração de população para áreas urbanas e as novas hierarquias sociais. As exigências crescentes das populações no que respeita a necessidades básicas, como emprego, habitação, saúde, segurança social, ensino. O alastramento do automóvel e a consolidação da sociedade de consumo.
Os arquitectos e urbanistas do modernismo tentaram enfrentar estes problemas da comunidade urbana, mas era uma batalha difícil e sem precedentes. Aprendeu-se com o caminho e por isso olhamos para trás e parece fácil apontar os erros cometidos. Mas falhou o urbanismo modernista porque as cidades se encheram de automóveis? Falhou o modernismo porque as cidades cresceram sob as pulsões promotoras do fazer cidade ditadas por interesses económicos, políticos, imobiliários?
O modernismo falhou como tem falhado em tudo o homem (na economia, na sociologia, na política, etc.) porque a realidade é complexa e ainda não fomos capazes de construir modelos que respondam a essa complexidade, que é a da vida humana. Nisso sim, terá falhado na arquitectura aquilo a que se chamou de funcionalismo, porque a vida não se faz só do fazer material dos gestos mas também da necessidade de prover a uma experiência espiritual da arquitectura e da vida. Por isso, é muito interessante questionar de que falamos quando falamos de “habitar uma casa”. O que é que torna uma casa “habitável”? Serve uma casa só para o habitar (das funções) do corpo, ou também do espírito? A resposta é evidente e abre caminho a um mundo interminável de possibilidades de projectar. Derrubar essas barreiras, que são as que temos na mente, são o caminho para chegar à arquitectura em tudo aquilo que ela pode e deve ser. Ou seja, para transcender.