[lightroom]

Quinta-feira



Eu deixo-me sempre embalar por boas apresentações. Pelas mãos do The Byrdhouse Review, eis o espectacular Lightroom, um estúdio de design e arquitectura formado por jovens americanos. Recomenda-se seriamente a visita ao portfolio e a apreciação da imagem geral do site.

[mit stata center]

Quinta-feira



O City Of Sound publica uma exposição sobre o Ray and Maria Stata Center, projecto da autoria de Frank Gehry. Situado no MIT Massachusetts Institute of Technology, o edifício serve de base a diversos cursos na área da engenharia e das novas tecnologias, bem à maneira escultórica e sensacional do arquitecto americano. Texto de Dan Hill acompanhado por muitas fotografias.

[o beija-mão]

Quarta-feira



Serei o único a achar delicioso o pormenor da fotografia do beija-mão de Santana ao Papa, estrategicamente colocado ao fundo na declaração do primeiro-ministro ao país. Ah, a sabedoria angelical destes consultores de imagem. É por isto que eles são pagos a peso de ouro.

[para que serve a arquitectura]

Sábado


[Imagem de Fernando Guerra]

N’O Projecto o Lourenço Cordeiro escrevia sobre a necessidade de que as pessoas «aprendam» a apreciar a arquitectura, constatando as diferenças entre o que chama de arquitectura dos arquitectos e a arquitectura do público. O seu texto lança várias pistas sobre o problema, que me faz regressar ao que escrevi em Nós Os Sábios - um texto que de alguma forma ficou por concluir.

A exposição do Lourenço culmina numa interrogação exemplar: O que ganho eu em contratar um arquitecto? A pergunta expõe, preto no branco, a simplicidade do problema. E eu acrescentaria apenas uma outra: para que serve afinal a arquitectura?

Estas perguntas simples têm respostas complicadas porque se desdobram numa série de outras questões. Em primeiro lugar é aos arquitectos que compete defender a utilidade do trabalho que desenvolvem. Assim, a ideia de que existe uma arquitectura dos arquitectos e uma arquitectura do público não traz nada de bom porque reduz a questão à sua aparência. Uma aparência que acentua a ideia de que a arquitectura custa mais caro, como se fosse um extra, um bem só acessível a alguns: a arquitectura transformada num luxo. As razões para este problema são partilhadas tanto pelos arquitectos como pelo público.

Em primeiro lugar nos arquitectos que por vezes são educados na ideia de que o custo é um aspecto menor e uma restrição à sua liberdade criativa e individual. Isto torna-se ainda mais grave quando o resultado dessa liberdade criativa ou artística não produz nada de pertinente, relevante ou interessante, apenas justificável com o desejo do arquitecto sobre todas as coisas: porque sim, porque o arquitecto assim o quis.
A arquitectura deve ser uma disciplina com forte componente económica, no melhor sentido do termo. A capacidade de transformar meios limitados em soluções de exemplar qualidade (formal, artística, construtiva) é uma obrigação do trabalho da arquitectura. Não é bom arquitecto aquele que só sabe fazer arquitectura recorrendo ao seu cardápio de materiais topo-de-gama e soluções a todo o custo, revelando-se sem eles incapaz de conjugar soluções tecnicamente relevantes que não comprometam a qualidade da obra.

Mas o público também partilha uma forte parte do problema. A ideia de que se consegue viabilizar uma construção a preços mínimos sem pôr em causa a qualidade da edificação – e de vida – que daí resultará, é uma ilusão. Para lá disto, é o próprio entendimento de poupança que também não é racional: poupa-se em tudo na construção para depois se pagar em aquecimentos centrais ou ar condicionado, enfim, em gastos energéticos e custo de vida daí para a frente. É um problema de prioridades: o público continua mais desperto para investir naquilo que é visível como em acabamentos superficiais “de luxo” (por vezes muito questionáveis). Poupa-se nas paredes e nas janelas mas gasta-se facilmente na aspiração central, na cozinha topo de gama e no frigorífico americano.
De certo modo, trata-se de um problema que devia ser abordado numa óptica de defesa do consumidor, através de informação e formação do público. É necessário criar padrões de exigência nas pessoas, para que estas saibam aquilo a que têm direito e que deveriam exigir.

Mas isto é apenas uma pequena parte do problema. A importância da arquitectura vai evidentemente muito além destes aspectos tão particulares.

Eu acredito na liberdade do arquitecto, na importância da criatividade e na sabedoria de conjugar referências e soluções com vista ao melhor fim. Mas a liberdade do arquitecto é uma liberdade na vida real, e como tal condicionada a responsabilidades. Isto só engrandece a arquitectura, o facto de enfrentar problemas reais e de ser feita com meios reais. Ela é um instrumento de transformação, efectiva, dessa realidade e da vida das pessoas. A arquitectura pode, deve e tem de ser utilizada para dignificar a sociedade. Não é indiferente ao nosso desenvolvimento se o ambiente que habitamos nos constrange, nos deprime, ou nos engrandece. Não é indiferente, por exemplo, crescer numa escola-prisão feita de blocos pré-fabricados, desconfortável, onde faz frio e nos sentimos mal, ou crescer numa escola luminosa, arejada, que melhora a interacção das pessoas, que nos dignifica e faz sentir bem e nos faz, por fim, sermos pessoas melhores. E isto é verdade na escola, no hospital, no local de trabalho, na rua ou na cidade.

Criar essa cultura e sensibilizar o público a apreciar essas qualidades não deve ser assim tão impossível. O público pode não dispor de todas as referências para entender aspectos particulares da linguagem arquitectónica ou não dispor do refinamento estético para elaborar certo tipo de apreciações, mas o público saberá certamente distinguir conceitos de beleza, saberá distinguir o valor e a qualidade de vida que resulta do ambiente construído se isso lhe for mostrado no registo apropriado.

A arquitectura é um recurso importante que devia ser valorizado porque permite realmente interagir com as pessoas. Quando o espaço em que vivemos nos dignifica, não nos pressiona mas liberta, não nos reduz ao isolamento anónimo mas nos motiva a viver, tornamo-nos de facto em pessoas melhores. Acredito que, acima de tudo, é para isso que serve a arquitectura.

[ditadura submersa]

Sábado



Eu tenho uma teoria. A idade da democracia devia ser contabilizada numa escala inversamente proporcional à da idade dos cães. Assim, se um ano corresponde a sete anos de vida de desenvolvimento de um cão, sete anos correspondem a um ano de vida de democracia. Concluindo, se a nossa democracia tem trinta anos, isso corresponde a um desenvolvimento de quatro anos e tal. Ainda mal chegámos à pré-primária.
Vem isto a propósito das palavras de Miguel Sousa Tavares (O Preço da Liberdade) em que fala sobre a falta de cultura de liberdade dos portugueses. Sempre achei que só uma visão excessivamente romântica poderá fazer crer que com uma revolução se apagam todas as marcas que resultaram da ditadura. O 25 de Abril terá trazido ao de cima alguns dos melhores sentimentos dos portugueses, forçados durante tantas décadas a exercer o papel de capachos, mas não fez desaparecer todos os agentes do mal. Ao mesmo tempo que nas ruas muitos manifestavam o que viria ser uma difícil conquista da democracia, submergiam nessa sociedade anónima os antigos bufos, os perseguidores e mesmo os torturadores. A espinha dorsal do país é a mesma, as pessoas são as mesmas, o contexto é que mudou.
Ao nível da cultura do estado o problema é ainda mais profundo porque as marcas de um sistema de vassalagem hierárquica não se transpõem de um dia para o outro.
Estamos a aprender de maneira difícil que a maturidade de uma democracia não se conquista em trinta anos. Na verdade, alguns já aqui andam há séculos e ainda se deparam por vezes com fortes contradições e dificuldades. A democracia é, afinal, uma batalha que nunca está ganha e pela qual será necessário lutar sempre.