[grandes, muito grandes]

Quinta-feira



Quem tenha obsessão com o tamanho pode deliciar-se com esta exposição online do MoMA – Museum of Modern Art. Edifícios grandes, muito grandes.
Um dos projectos apresentados é a proposta do Richard Meier para o World Trade Center. Continuo a achar o edifício sensacional e é uma pena que não venha a ser construído. Uma das coisas que me agradou logo foi quebrar a obsessão com a altura, não se querer afirmar como “ainda mais alto” mas antes como uma peça icónica de cidade. O edifício resultaria do cruzamento de formas monolíticas horizontais e verticais, dois objectos justapostos sem se tocar. A sua concepção inovadora e ao mesmo tempo minimal continua a encantar-me. Para além disso, é também uma engenhosa solução funcional para os problemas de segurança. Uma bela peça de arquitectura que nunca chegará a ser construída.

[não pagamos]

Quinta-feira



(...)o ensino (tanto público como o privado) não são de borla e não há varinha mágica que torne o público em gratuito. Terá sempre de ser pago por alguém.
A questão é quem? Quem estuda, quer possa ou não possa pagar, ou todos, mesmo os que não estudam e os que não podem pagar?

Comentário de André Amaral.

Escrevi no texto anterior que era a favor de um ensino público inteiramente gratuito. André colocou esta pergunta que é legítima e à qual apresento os meus argumentos.

Eu acredito que para existir uma sociedade estável existem bens comuns que nos cabem a todos construir e preservar. E acredito que numa sociedade democrática cumpre ao Estado exercer esse papel, e cumpre aos cidadãos contribuirem para o reforço dessa grande entidade pública através de impostos.
Vamos então aos princípios da questão. Porque é que havemos de pagar impostos. Se eu ou os meus filhos não frequentam aquela Universidade, porque é que eu hei-de pagar para ela existir. Se eu nunca vou utilizar aquela ponte, porque hei-de pagar para a construir? Para mim a resposta é simples. Porque queremos viver numa coisa a que possamos chamar de País.

O que estou a dizer é isento de qualquer ironia. Se iniciarmos uma actividade e tivermos o mérito de a tornar rentável, isso não implica que a razão do sucesso seja inteiramente nossa. A sociedade funciona porque usamos uma estrutura comum. Tornámo-nos assim porque fomos à escola e não tiveram de ser os nossos pais a construí-la. Quando estávamos doentes fomos ao hospital e os nossos pais não o tiveram de o pagar sozinhos. Hoje andamos em estradas pagas por todos, levantamos o telefone e usamos uma rede paga por todos, abrimos a torneira e pagámos colectivamente a construção das infra-estruturas. Somos sucedidos porque vivemos numa sociedade para a qual todos devemos contribuir, colectiva e proporcionalmente às nossas capacidades.

E aqui está o princípio da resposta que sou capaz de dar à pergunta que me fez. O público não é gratuito, é pago por todos na medida das suas capacidades. Claro que quem não pode pagar não deve pagar, e quem pode pagar pouco deve pagar um pouco, não apenas para o que usa mas para a construção dessa sociedade colectiva.
E quem ganha muito deve pagar mais na proporção das suas capacidades e com reconhecimento da justiça dos seus méritos.
E isto para mim aplica-se às coisas que julgo serem essenciais para existir um Estado e um País: o Ensino, a Justiça, a Saúde e várias outras coisas que têm interesse público e para as quais todos deviamos conjuntamente contribuir.

E porquê as Universidades? Se os alunos que lá estão é que vão ser beneficiados, porque havemos todos de pagar para eles?
Para mim, a resposta também é simples. Se acreditamos que o ensino universitário é util para o país e que o enriquece, então cabe a todos financiá-lo. E se o país funcionar, esses futuros universitários encontrarão o seu “emprego melhor” e pagarão mais impostos que ajudarão, no seu percurso de vida útil, a enriquecer o futuro do país em que vivem (e a compensar os benefícios que tiveram). Repito, num país que funciona investir no ensino é investir num futuro melhor e mais rico para todos.

E agora deixamos a questão dos princípios e passamos para o País real. Será justo pagar esses impostos quando a estrutura pública vai revelando, ao longo de décadas, uma total incompetência na gestão da coisa pública. Será justo pagar se as escolas não têm qualidade, se os tribunais não funcionam, se os hospitais são débeis. E se os que mais ganham conseguem arranjar forma de pagar menos e os que menos ganham acabam por ter de pagar mais por isso. Talvez não, reconheço. Mas se o Estado gere mal os seus recursos, isso é razão para lhe retirar as responsabilidades, ou devemos antes exigir que essa gestão seja melhor? E como?
Eu também não sei responder completamente. Mas se deixarmos de contribuir para a existência de uma sociedade colectiva, o que fica no fim? É injusto pagar impostos? E que tal não pagá-los de todo? A cada um o seu dinheiro, o seu saber, a sua medicina, a sua segurança e a sua vida. E depois talvez acabemos todos por voltar às cavernas.

[contra os canhões mentir, mentir]

Quinta-feira



Não deve ser fácil ser polícia das forças de intervenção. A maioria das vezes encontram-se em inferioridade numérica pelo que são treinados para lidar com a desvantagem. A estratégia é simples: avanço ruidoso com o objectivo de criar a debandada geral. Claro que, pelo caminho, tudo o que se atravessar à frente se arrisca a levar com o cacetete, do jovem turbulento à velhinha que atravessa a rua.
Um dos episódios mais caricatos e exemplares a que já assisti de uma intervenção policial passou-se no tempo das manifestações da Ponte 25 de Abril, quando o governo de Cavaco Silva quis promover o aumento das portagens. Como quase todos se lembrarão foram dias seguidos de manifestações, buzinões, passar portagem sem pagar, todas as diatribes e mais algumas.
Numa das noites reuniu-se uma manifestação de motards, na zona conhecida por “garrafão”. E lá andavam os rapazes de mota de um lado para o outro a exibir-se perante as forças de intervenção que estavam em fileira, quietas à espera da ordem de avançar e dos jornalistas que transmitiam tudo pela televisão.
A ordem chegou passado pouco tempo e os polícias avançaram ruidosamente em direcção ao grupo de motoqueiros. A debandada inicia-se, as motas aceleram e todos fogem para a ponte em direcção a Lisboa. Todos, menos uma motinha de baixa cilindrada onde, visivelmente, um rapaz jovem tentava ligar a ignição dando desesperadamente ao pedal, enquanto a sua namorada se segurava a ele por detrás, em visível pânico. E o rapaz pedala e pedala e a mota nada, até que a polícia chega junto deles e o rapaz com a namorada pura e simplesmente ficam quietos como se se rendessem, quase como se pedissem desculpa por existir.
E a polícia de intervenção, que está treinada para debandar uma multidão mas que não sabe o que fazer perante um manifestante solitário, cercou a mota e começou a arrear no casalinho com os cacetetes. Eis então que a situação parecia estranhamente invertida. Como uma súbita inversão de papéis, os vândalos de mota davam lugar a vândalos polícias, com sete ou oito matulões à pancada a um casal imberbe montado numa acelera.
Nunca mais me esqueci deste episódio. Sem estar aqui a atacar a importância do trabalho das forças de intervenção, a verdade é que o trabalho de “repor a ordem” não pode estar nas mãos de vândalos que varrem tudo o que têm na frente. Não estou a dizer que seja um trabalho fácil, mas estas pessoas têm de ser capazes (e especificamente treinadas para isso) de ajuizar lucidamente sobre a situação que enfrentam em cada momento. O que, como sabemos, raramente acontece.

A luta contra as propinas é uma das bandeiras mais apelativas para puxar pelos estudantes universitários. Quando toca ao bolso todos se queixam e os estudantes não são excepção. Eu também defendo que o ensino público, incluindo o universitário, seja gratuito. E quando digo gratuito digo gratuito mesmo, de borla, nem sequer um euro de propinas. Mas reconheço que o problema das propinas é, a maior parte das vezes, uma bandeira politizada como forma de agitar a malta, neste caso uma malta cheia de samaritanismo e vontade de abraçar uma causa qualquer. E que as associações de estudantes, muitas vezes, pouco contribuem para a discussão em torno da melhoria da qualidade do ensino, limitando-se a acenar com a guerra das propinas como forma de mostrar que está a trabalhar para o pessoal.
Seja como for, e ache eu o que achar, a verdade é que a manifestação de Coimbra correu mal. Perante a ameaça de invasão estudantil no Senado (que aprovou a propina máxima de 800 euros) foi preparada uma forte presença policial em torno do edifício. A situação culminou com uma carga policial e o lançamento de gás-pimenta sobre a multidão. O resultado foi a detenção de um estudante de jornalismo (acusado de agressão a um polícia) e seis feridos entre os estudantes que receberam tratamento hospitalar.

Perante isto, a polícia descreveu o ocorrido como uma “normal operação de contenção” e o ministro da Administração Interna Daniel Sanches afirmou não ter havido qualquer carga policial. Acrescentou que não tinha ouvido falar de gás nenhum, apesar de imagens da SIC fazerem prova de tudo o que ocorreu.
Julgo que é legítimo termos dúvidas em relação ao que se passou. Os estudantes excederam-se? Iniciaram a violência? Não é fácil responder, mas o ministro também não parece muito interessado preferindo fazer mais um exercício de fantasia em relação à actuação das forças políciais. Uma coisa é certa, honestidade não parece ser o lema do governo.
Tudo isto é exemplar de um dos problemas que resultam da falta de cultura democrática. A fixação das pessoas, especialmente grave nos agentes políticos, numa determinada posição política e na sua defesa, alterando a realidade para se encaixar nessa posição em vez de alterar a sua posição em função da realidade.
É uma forma de desonestidade individual e colectiva que corrói tudo o que pode haver de verdadeiro na sociedade democrática. E perante isto, a partir do momento em que alguém decide que é liberal ou conservador ou verde ou pelo aborto ou contra as girafas no jardim zoológico, nenhuma prova em contrário conseguirá entrar no cérebro desta pessoa. Ou, por assim dizer, todas as evidências serão manipuladas, invertidas e ajustadas até um “facto redondo” caber num “buraco quadrado”. A “verdade” torna-se maleável, como se por se afirmar que não se ouviu falar de uma coisa, ela pura e simplesmente não tivesse existido e se esfumasse no tempo.

E já agora, alguém viu por aí um Presidente da República?

[Um Detido e Vários Feridos em Confrontos Entre Polícia e Estudantes via Público]

[Coimbra: Vigília de solidariedade com estudante detido retomada às 09h30 via Público (ligações a outros artigos ao fundo do texto)]

[A vergonha, via A Cabra - Jornal Universitário de Coimbra (ligações a outros artigos na página principal do site)]

[Estudantes recebidos com carga policial, via As Beiras Online]

[attack of the bogey man]

Quarta-feira



A maior ameaça que enfrentamos agora como nação é a possibilidade de terroristas acabarem no meio de uma das nossas cidades com armas mais mortais do que aquelas que alguma vez foram usadas contra nós – agentes biológicos ou uma arma nuclear ou uma arma química de algum tipo para ameaçarem a vida de centenas de milhares de americanos.
Esta é a última ameaça. Para termos uma estratégia capaz de derrotar esta ameaça, temos primeiro de nos mentalizar para esta possibilidade.


Foram estas as declarações de Dick Cheney proferidas ontem numa sessão de campanha. Acirrando ainda mais o discurso do medo, Cheney pôs em causa a credibilidade do candidato democrata John Kerry de ser capaz de lidar com tal ameaça de uma forma tão dura e agressiva como a do presidente Bush.
Não penso ser possível a uma pessoa que ame a democracia não se repugnar com a forma como estes republicanos saltaram para dentro da caravana do pós-11/9 como se fosse património seu. O modo como agitam os fantasmas da paranóia e do medo para legitimar (com o Patriot Act e seus sucedâneos) um dos maiores atropelos à liberdade individual que a América conheceu desde os tempos da guerra fria. E é realmente esse o peixe que eles querem vender. Como o próprio Rumsfeld descreveu, esta guerra ao terrorismo é a nova guerra fria, uma guerra que pode durar décadas e que se tornará uma espécie de nova normalidade (new normalcy) do modo de vida americano. They wish.

E porque é que eu me hei-de interessar com as eleições americanas? Sei lá, eu preocupo-me com estas coisas. Mas eu preocupo-me com tudo. Preocupo-me com o poder de um sistema capaz de vender tudo, mesmo o pior produto, como George Bush. É fácil ridicularizar o labrego do Texas, mas quem olhe com atenção para a campanha de Bush vê o profissionalismo investido na criação de uma imagem de presidente com coração – o conservadorismo com compaixão dos tempos modernos. Ver Bush com a mulher no Larry King foi como espreitar o que nos reserva a linguagem política do futuro: a política como simulação da verdade, reduzida a uma espécie de reality show que só faz sentido nos tempos e códigos televisivos (deixando de existir fora deles). E isto devia fazer acender uma luzinha nas nossas cabeças quando vemos o que se está a passar em Portugal.
Preocupam-me estes conservadores com compaixão que arregaçam as mangas para falar com o povo para depois das eleições voltarem a pôr as gravatas e os ares soturnos com que encaram a vida. Com que se mobilizam para cumprir a agenda de interesses inconfessáveis e jogam com a vida de milhões reduzidos ao papel de peão dos seus jogos de xadrez político. Bem vindos às Corporações Unidas da América.

E já agora, se tiverem tempo e banda-larga para isso, vejam o Jon Stewart a desancar no Crossfire da CNN: Filme em formato QuickTime / ficheiro longo.

[a cabala de freud]

Quarta-feira



O ministro dos assuntos parlamentares (assim, em letra pequena) veio afinal explicar que não disse existir uma cabala (objectiva ou subjectiva) contra o governo (entre o Expresso, o Público e Marcelo Rebelo de Sousa) quando afirmou que as cabalas existem independentemente da vontade subjectiva de as constituir. Está explicado. Afinal, o ministro está a ser vítima de uma cabala que pretende fazer crer que terá sugerido haver uma cabala quando na verdade não acusava de cabala se bem que elas podem existir alheias à vontade subjectiva dos potenciais cabalistas.
Esta nem Freud seria capaz de descortinar. Eu não acredito em cabalas, pero que las hay, las hay!