Europan 9: Poïo - 1º Prémio [entrevista]

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A equipa formada por Camilo Vaz, Marlene dos Santos e Bruno Oliveira constituiu a única participação portuguesa a vencer um primeiro prémio em território estrangeiro no concurso internacional de ideias Europan 9. A sua proposta, intitulada "Cultivos Urbanos", incidiu sobre uma área situada em Poïo, nos arredores da cidade de Pontevedra, capital da província com o mesmo nome da comunidade autónoma da Galiza.

A mais recente edição do Europan teve como temas a “Urbanidade Europeia, Cidade Sustentável e Novos Espaços Públicos”. Ao todo estiveram propostas a concurso 73 cidades distribuídas por 22 países europeus. Trata-se da mais vasta competição de arquitectura da Europa, sendo dirigida a profissionais com idade inferior a 40 anos. Os vencedores têm a oportunidade de tornar a sua visão em realidade, trabalhando numa fase posterior com os promotores de cada uma das intervenções apresentadas.
O projecto da equipa portuguesa para Poïo tinha por objectivo definir uma ocupação de tipologia multifamiliar urbana num sítio periférico, ainda marcado por um parcelamento afecto a uso agrícola. O desafio consistiu em introduzir uma malha construída e estabelecer novas regras de relação com o território, mantendo vivo o desejo de contacto com o solo e a sua utilização complementar para fins de pequena agricultura de subsistência. A solução encontrada define-se na tensão entre uma ideia de “paisagem rural” e o conceito de utilização comunitária de “cultivos urbanos”, que dão nome à proposta.
Trata-se de um modelo de territorialidade que questiona os termos de campo e cidade; a expansão urbana como algo que não ocorre sobre espaço abstracto, inerte, mas antes sobre o seu conjunto de marcas sobrepostas no tempo que lhe conferem uma realidade de paisagem.
Os novos edifícios aparentam faces texturadas, enunciando uma difusão de escalas cujo efeito é reforçado na diversidade volumétrica das massas construídas. É da relação próxima entre arquitecturas e sistemas naturais que as antecedem que se definem estas novas formas de espacialidade, de vivência, de habitar.
Segue-se uma apresentação deste trabalho premiado e uma breve troca de impressões com a equipa projectista.

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CULTIVOS URBANOS
EUROPAN 9 - “Urbanidade Europeia Cidade Sustentável e Novos Espaços Públicos”
Local: Poïo, Pontevedra – Galiza (Espanha) - 1º Prémio
Equipa: Camilo Vaz (coordenador), Marlene dos Santos, Bruno Oliveira [pt]


Alex Maclean: Cultivos Experimentais, Barlow, North Dakota


We harvested the crop on August 16 on a hot, muggy Sunday. The air was stifling and the city stood still. All those Manhattanites who had been watching the field grow from green to golden amber and had gotten attached to it (...) stood around in sad silence. Some cried. We harvested almost 1000 pounds of healthy, golden wheat.
Agnes Denes: “Wheatfield – A Confrontation”, Battery Park Landfill, Ny, 1982


1. PAISAGEM

«Paisagem pode significar entre outras coisas, o conjunto de marcas deixadas no território pelas diversas comunidades que o compartilham enquanto suporte individual e colectivo de sobrevivência, sobrepostas às marcas da génese do próprio território e às deixadas pelas transformações a que é alheia a comunidade viva.
O conceito de Paisagem esta directamente associado às marcas de cada momento, de cada geração, de cada cultura que se sobrepõem no mesmo lugar, que se encontra profundamente relacionado com a transformação. Paisagem é, por definição, algo dinâmico, em continua evolução, em função das convicções que a cada momento apontam para gestos diferentes, a que correspondem marcas diferentes, para a resolução dos problemas de sobrevivência das comunidades.

De facto, como podemos distinguir os gestos geradores destas marcas, que correspondem à materialização das convicções de cada geração, de cada comunidade, de cada cultura? Sendo um tema bastante actual, o aquecimento global e as suas consequências no nosso habitat, pela primeira vez merecem a atenção global e generalizada numa sociedade onde predomina o individualismo. É nesta atitude que queremos centrar a nossa reflexão sobre o território e a consequente influência do Homem, propondo uma apreciação sobre o Indivíduo, da sua atitude ao longo da história na construção da paisagem que consecutivamente transformamos.»


Sobreposição de tramas - urbana e hortas existentes


Local de intervenção


Esquema de desenvolvimento da proposta
1. Organização das parcelas segundo directrizes existentes
2. Canais de rega e colectores de aguas pluviais
3. Espaços verdes “hortas urbanas” y jardins
4. Sobreposição de colectores e verdes
5. Novos espaços urbanos
6. Desenvolvimento da proposta


2. “CULTIVOS URBANOS”

«Em Poïo, entramos a fazer parte de um processo já iniciado de apropriação de um espaço natural, onde ainda é possível potenciar uma relação sustentável entre a natureza e o Homem. O local de intervenção, nos arredores de Pontevedra, tem ainda hoje em dia, um carácter predominantemente rural. Aqui vive uma parte considerável da população que trabalha no centro de Pontevedra, que procura na proximidade com o centro urbano a oportunidade de emprego e por outro lado procura no campo, tranquilidade e contacto com o meio natural.

A paisagem local é fortemente caracterizada pelas parcelas agrícolas que se estendem pelo território como se de uma “manta de retalhos” se tratasse, retratam um passado ainda muito presente, vinculado ao meio rural de subsistência. Neste contexto a proposta actua como uma “semente”, que pretende ir de encontro a uma solução urbana que sirva de modelo para a área em análise, adaptando-se às directrizes do território redefinindo novos espaços públicos e abordando o conceito de utilização comunitária de “cultivos urbanos”, onde se pretende estimular o uso de hortas inseridas no traçado urbano como meio de subsistência alternativo para as comunidades locais.

A ligeira pendente do terreno para sudoeste, e a via de acesso ao centro da Cidade sugerem a necessidade de densificar o programa proposto nesta zona, facilitando os acessos e permitindo libertar grande parte do solo. A gravidade permite ainda desenvolver um sistema de colectores de água pluviais para rega dos jardins e hortas (sendo a Galiza a região onde existe o maior índice de pluviosidade da Península Ibérica).

A implantação dos novos edifícios habitacionais não se sobrepõe á malha das hortas, permitindo a sua permeabilidade com o solo, funcionam como um jardim vertical, ventilado, com sistemas de produção e armazenamento de energias renováveis, sistemas locais de recolha e tratamento de águas residuais.

Esta “semente” que se gera em Poio, tem a capacidade de adaptação noutros territórios com potencial agrícola semelhante, incluindo muitos dos vazios urbanos nas nossas cidades, que descontinuamente se estendem pelo território. A ocupação do solo livre através de “hortas urbanas” de utilização comunitária em contextos e cidades de media dimensão, poderá ter um papel fundamental na forma como gerimos os espaços verdes das nossas cidades, na melhoria do microclima, na manutenção da biodiversidade e relações entre indivíduos.»


Planta de implantação [+]


Maqueta da proposta [+]


Vista geral [+]


Edifícios multifamiliares - Espaço comum e galeria de acesso [+]


Tratamento do espaço publico existente [+]


Planta Parcial [+]


Secção [+]


Edifício Tipo – Tipologias [+]

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ENTREVISTA

Dos autores da proposta, Marlene dos Santos e Bruno Oliveira mantêm um percurso paralelo na sua formação de arquitectura, que se iniciou na Universidade de Évora e se prolongou com a experiência académica e profissional em Espanha. Acreditam que uma das formas de pensar a arquitectura contemporânea passa pela formação de equipas experimentais de investigação, com o objectivo de dar resposta a situações concretas.
Juntamente com o arquitecto Camilo Vaz, com formação pela Universidade de Coimbra e com atelier próprio, formaram uma equipa de investigação para o Europan 9 – Poïo [Pontevedra], onde iniciam este conceito de “equipa nómada”.

DC: A vossa proposta começa por ser uma reflexão sobre a paisagem, sobre um modelo diferente de apropriação do território que não pretende anular o natural, antes integrá-lo num processo paralelo de densificação urbana.
Este tipo de assimilação entre o urbano e o rural tem sido explorado, por exemplo, em projectos como a Farmadelphia, a Agro-Housing ou mesmo o Vertical Farm Project. São, quase sempre, trabalhos de base teórica, manifestos ou exercícios especulativos estimulantes mas pouco compatíveis com uma operação real.
O vosso trabalho, pelo contrário, soma um olhar experimental com a busca de plausibilidade da solução, muito específica ao lugar e ao desejo de apropriação pela sua comunidade.

Quais foram os principais desafios que encontraram ao olhar para o programa e o sítio da intervenção pela primeira vez?

Equipa E9: Ao olhar para o sítio de intervenção pela primeira vez e simultaneamente pensar no programa que para ali se propunha, confrontamo-nos com uma situação contraditória. Estávamos perante um local de forte tradição rural que se propunha converter num centro urbano estruturante para o futuro crescimento da periferia de Pontevedra.
É aqui que se inicia o nosso trabalho, na análise deste território específico e na reflexão em geral sobre a problemática do desenho de novos espaços urbanos nas periferias das nossas cidades Europeias.

Quando te referes a projectos como o Farmadelfia ou a Ago-Housing, de facto a proposta que desenvolvemos para Poïo pode dizer-se que tem uma base teórica semelhante, ou mesmo uma linha de investigação próxima.
Relativamente à plausibilidade destes exercícios, considerámos que esta abordagem apenas é sustentável em contextos com um passado rural recente ou que ainda mantêm práticas agrícolas como forma de subsistência alternativa. O exemplo da proposta do atelier Scape Architecture para Valência, integrado no plano Sociopolis é uma referência da transposição destas teorias para a realidade num contexto com estas características.

DC: Como referem no projecto, trata-se de um espaço natural que atravessa um processo de apropriação lenta, com características de ruralidade e falta de referências de cidade. O programa de trabalho introduz um novo processo de apropriação, desta vez com tecido urbano. Que preocupações estiveram na concepção desta arquitectura que pretende não consumir ou apenas absorver território, mas antes estabelecer uma relação de quase simbiose com o seu contexto?

Equipa E9: A certa altitude ao contemplarmos o território, permitem-se identificar os seus códigos de organização, marcas impressas no território ao longo dos anos, que nos revelam formas de apropriação do espaço.
O que procurávamos aqui era aprofundar uma pesquisa de entendimento dos códigos impressos neste sítio e da forma como eram influenciados pelos aspectos sócio – culturais dos habitantes locais.
Na Galiza e em particular na zona de Pontevedra, as parcelas agrícolas além de estruturantes do espaço rural, são o reflexo da estrita relação entre os habitantes e os limites de propriedade. Esta forte identidade local é reinterpretada no desenho dos novos espaços públicos, onde se propõe a introdução de parcelas de cultivo no tecido urbano.

DC: No vosso processo de projecto parece existir uma abordagem diagramática, interpretando diferentes aspectos da topografia, sintetizando-os e fazendo evoluir uma solução de arquitectura. De que forma é que esta prática foi decisiva na definição do resultado final?

Equipa E9: O processo de desenho diagramático foi crucial na descodificação dos vários layers que compunham a malha rural, (linhas de água, cultivos, parcelas, pendentes, caminhos) e no entendimento deste organismo vivo na topografia. Ao assimilarmos o seu funcionamento e a escala do desenho das distintas estruturas, reinterpretamo-lo na proposta. A arquitectura surge da reflexão da sua implantação nesta “natureza”, que a partir deste processo de desenho resulta de forma quase evidente.

DC: Existe uma definição social muito forte neste projecto, que toma forma na apropriação comunitária do espaço da cidade. Pensam que a dramatização de preocupações de sustentabilidade no ambiente urbano poderá promover uma espécie de regresso à ruralidade, ou estaremos perante uma inovação cultural mais profunda, uma reinvenção de cidade através de novos modelos de paisagem urbana produtiva?

Equipa E9: Pensamos que qualquer “inovação” cultural neste âmbito passa por apreender os limites entre o espaço público e o espaço privado das nossas cidades e de que forma influenciam os nossos hábitos como elementos activos no meio.
Como analogia, a intervenção do artista Agnes Denes para o Battery Park na baixa de Manhattan, [Wheatfield—A Confrontation] é um exemplo da desdramatização destes limites no espaço urbano, onde Denes ao cultivar um quarteirão desocupado da cidade suscitou um novo envolvimento dos residentes com aquele espaço privado, apenas pelo processo e tempo de amadurecimento do trigo(*).
Em Poïo, marcado pela relação com a meio rural, entendemos que a ocupação do solo livre com “hortas urbanas” de utilização comunitária, poderá representar uma reflexão sobre a forma como gerimos os espaços verdes das nossas cidades; que potencial produtivo pode representar e que papel pode desempenhar na melhoria do microclima, manutenção da biodiversidade e relações entre indivíduos.
(*) “We harvested the crop on August 16 on a hot, muggy Sunday. The air was stifling and the city stood still. All those Manhattanites who had been watching the field grow from green to golden amber and had gotten attached to it (...) stood around in sad silence. Some cried. We harvested almost 1000 pounds of healthy, golden wheat.” Agnes Denes, "Wheatfield - A Confrontation", Battery Park Landfill, NY, 1982.

DC: Que papel pode desempenhar a arquitectura nesta nova cidade?

Equipa E9: A arquitectura nesta “nova” cidade foi pensada num contexto de desenvolvimento urbano sustentável, que além das preocupações ambientais procura integrar-se no processo de transformação social e cultural desse contexto.
De um modo geral a arquitectura deve actuar como elemento mediador que se assume como o elo de ligação entre as relações do Indivíduo que a habita e o lugar onde se implanta.

Com um grande agradecimento a Marlene dos Santos, Bruno Oliveira e Camilo Vaz.

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Europan 9: Poïo – 1st Prize [interview]

The team established by Camilo Vaz, Marlene dos Santos and Bruno Oliveira was the only portuguese participation in foreign territory to achieve a first Prize at the international competition Europan 9. Their proposal, titled “Urban Crops”, was developed for a site located in the area of Poïo, in the outskirts of the city of Pontevedra, capital of the homonymous province of Galicia, in Spain.

The latest edition of Europan focused on the themes of “European Urbanity, Sustainable City and New Public Spaces”. It’s by far the largest architectural competition organized in Europe, now gathering up to 73 different cities in 22 countries, and is aimed at young professionals of ages under 40. The winners get a chance to turn their vision into a reality by working closely with the promoters of each individual initiative.
The winning project for the selected location of Poïo proposed the insertion of a multi-unit housing typology in the fringes of an urban setting – a peculiar site for the enduring presence of small-scale agricultural use. The portuguese team submitted a design that merged a new constructed grid with the territory, maintaining a purpose of close relation to the land. The final solution is defined by that tension between an idea of “rural landscape” and the concept of a communitary use of “urban crops”.
It´s a model of territoriality that questions previous notions of city and country; assuming the urban expansion as something that doesn’t occur on abstract, inert space, but over the setting of superimposed marks that define the reality of its landscape.
The new buildings propose textured faces, essaying a diffusion of scales that is reinforced by the volumetric diversity of the built masses. It is from the close relationship between architecture and pre-existing natural systems that new forms of spatiality are defined, with new chances for public life and dwelling.

1. LANDSCAPE

«The landscape is the portrait left imprinted in the land by people’s beliefs; the roads, power lines, railways, dams and the harbours should be as much landscape as the farmlands, the cities, villages and all the signs left by human communities. How can we identify the gestures that create these marks, which correspond to the materialization of the will of each generation, each community and each culture? What is the development that looks to satisfy the needs of the current generation, without compromising the capacity of future generations to satisfy their own needs?

This means enabling people, now and in the future, to reach a satisfactory level of social and economical development, human and cultural fulfilment, while, at the same time, sensibly using the land’s resources and preserving species in their natural habitats.»

2. «URBAN FARMS»

«A set of sensitive places, like Poïo, are the result of uncontrolled development, with no planning or concerns for the future growth. Solving problems like these requires knowledge of the site and it’s ecological and cultural problems and also knowledge of its potential regarding natural resources, as a way to educate society, enlighten their mind and prepare the generations to come.
The seed of the project tries to respect the area in which it encompasses; the farmlands, responsible mostly for corn production and vineyards, have a large significance in the area, for subsistence and also as a print in the territory. According to the existing guidelines for the site, the existing farmlands will be maintained and new ones are proposed: “urban farms”.
The current system of farms corresponds to single-family buildings close to a large plot of land, while the new plots will correspond to multi-family buildings, and will be integrated in the new concept of public spaces – “urban farms”.

Urban agriculture will play a significant role in the general “greening” of the city, helping to improve the microclimate, and will also play an important part in maintaining local biodiversity.»

INTERVIEW

Project team members Marlene dos Santos and Bruno Oliveira share a similar background. Both studied architecture in the University of Évora, in Portugal, followed by a professional experience in Spain. They claim that a contemporary architectural practice should embrace the exercise of experimental research workgroups. Collaborating with architect Camilo Vaz they decided to put into practice the spirit of a “nomad team” and participate in Europan 9.

DC: Your proposal begins as a reflection on landscape, on a different model of appropriation of the territory that doesn’t try to erase the natural but to embrace it in the process of urban densification. This kind of assimilation between urban and rural has been explored, for example, in projects such as Farmadelphia, Agro-Housing or even the Vertical Farm Project. These seem to be, however, theoretical works, stimulating manifestos and speculative exercises, but still seemingly incompatible with a real operation.
Your work, on the contrary, adds an experimental approach to the search for a real solution, specific to the site and the desire of success among its community.

What challenges did you face as you first tried to address the program and the site?

E9 Team: Looking to the project site for the first time, and simultaneously thinking in the proposed program, we found ourselves in a contradictory situation. We faced a place with strong rural traditions that was to be converted into an urban centre, strategic to the future growth of the periphery of Pontevedra.
This is where our work started, from the analysis of these specificities, reflecting upon the design problems that are always present as one tries to create new urbanities in the boundaries of our European cities.

When you refer to projects as Farmadelfia or Agro-Housing, in fact our proposal to Poïo has a similar theoretical basis, or a close research speculation. As for the plausibility of such exercises, we considered that this approach is only sustainable in contexts that already have a rural tradition of some sort, maintaining agricultural practices as a form of alternate survival. The example of Scape Architecture studio for Valencia, as part of the Sociopolis plan, is a reference of transposition of these theories into reality in such a context.

DC: As you describe in your work, this is a natural space that is undergoing a process of slow appropriation, retaining qualities of rurality and a lack of urban references. What where the guidelines to your architectural approach?

E9 Team: As we stared to the site we were able to identify the underlining codes to its organization; the imprinted marks of the territory that revealed the ways in which it was being used by the inhabitants.
What we were aiming for was to deepen the research to understand those codes and the way they where influenced by social and cultural aspects of the local community.
In Galicia, and especially in the area of Pontevedra, the land parcels retain a rural logic, and reflect the strict relationship between the locals and the boundaries of private property. This strong local identity is reinterpreted in the design of the new public spaces, where we introduce parcels destined to agricultural activity within the urban tissue.

DC: There’s also a diagrammatic approach in your design process, interpreting different aspects of the topography, synthesizing them and processing them into the architectural solution. In what way was this practice decisive for the final result?

E9 Team: The diagrammatic design process was crucial to decode the different layers within the rural landscape, (water lines, crops, parcels, slopes, paths), to understand this living organism inside the topography. As we assimilated this system and the scales of these distinctive structures, we were able to reinterpret them in our proposal. Architecture comes as a reflection on the planning of this “nature”, becoming a clear pattern of design and form.

DC: There’s a strong communitarian intention in your project. Do you think that as sustainability issues become dramatized in the urban environment, we’ll witness some sort of return to rurality, or might we be facing a deeper cultural innovation, a reinvention of the city based on new models of productive urban landscape.

E9 Team: We believe that any cultural “innovation” in this context relies on the understanding of the boundaries between public and private space within our cities, and on the ways in which it influences our habits as active elements in the landscape.
As an analogy, the intervention by Agnes Denes on Battery Park, in downtown Manhattan [Wheatfield—A Confrontation], is an example of reinvention of these limits in the urban space.
In Poïo, with its strong relation with the rural world, we interiorized the occupation of free soil as “urban crops” for communitarian use; questioning the way we manage the green areas of our cities and its productive potential in benefit of the biodiversity and human relations.

DC: What will be architecture’s role in this new city?

E9 Team: Architecture, in this “new” city, was thought of in the context of sustainable urban development, going beyond strict environmental issues to become part of a deeper process of social and cultural transformation. In a wider sense, architecture should act as a mediating element, the link between the territory and the individuals that dwell within.

With a big thanks to Marlene dos Santos, Bruno Oliveira and Camilo Vaz.


External links:
Europan 9
Europan España
Camilo Rebocho Vaz, NadA Arquitectos

dARCO Magazine


dARCO Magazine. Click to read (Portuguese text only).

O Directório ARCO é um portal que reúne um conjunto diversificado de informação nas áreas de Arquitectura, Construção e Interiores. O seu blog serve ainda de guia para divulgação de obras recentes de arquitectura internacional.
Presentemente, o Directório Arco está também a promover a sua nova publicação regular, dARCO Magazine, uma revista técnica de arquitectura. O primeiro número encontra-se disponível para consulta online [ver dARCO Magazine 01 – Março/Abril], com projectos da autoria de Valerio Olgiati, Vincent Van Dysen, 3deluxe, Correia Ragazzi (Graça Correia + Roberto Ragazzi), Claudio Vilarinho e A2G Arquitectos.

dARCO Magazine
Directório ARCO is a Portuguese based online portal that gathers extensive information in the fields of Architecture, Construction and Interior Design. Its blog is also intended as a platform for the revelation of recent works of international architecture.
They are now promoting their new regular publication, titled dARCO Magazine. The first issue is available online [read dARCO Magazine 01 – March/April - Portuguese text only], featuring projects by Valerio Olgiati, Vincent Van Dysen, 3deluxe, Correia Ragazzi (Graça Correia + Roberto Ragazzi), Claudio Vilarinho and A2G Arquitectos.

A-cero Works 1996-2006



O estúdio A-cero está a divulgar o livro «A-cero Works 1996-2006», apresentando uma selecção dos melhores trabalhos realizados nos seus primeiros dez anos de existência. Dirigida pelo arquitecto Joaquin Torres, a firma foi inicialmente criada por um grupo de jovens estudantes e reúne já uma vasta obra em Espanha, o seu país de origem. Tendo ganho notoriedade com os primeiros projectos de habitação, caracterizados por uma acentuada pureza geométrica, está agora a desenvolver a sua actividade em outros pontos do globo, em lugares como Santo Domingo e o Dubai.
O livro pode ser encomendado online na página web, cuja visita se recomenda.

Nota: por motivos pessoais não me foi possível dar resposta ao correio electrónico recebido nas últimas duas semanas. Fica a informação para aqueles que me fizeram chegar emails nesse período, com a promessa de que tentarei responder a todos durante os próximos dias.





A-cero Works
Joaquin Torres, head architect of A-cero, an architecture, interior and urban design practice based in Spain, presents a book showcasing the best works made by the firm in its first ten years. The material featured in this publication includes early projects such as the geometrically pure houses that gave the firm its name in Spain, a cubic marble mausoleum or a concrete building for the university of A Coruña, the first competition won by the then young firm created by a group of students, eager to carry out their vision of architecture – an idea where the bounds between architecture and sculpture are blurred, creating buildings at once functional and expressive.
The book is already in display in selected bookstores in Spain and through the studio’s website. [via email]


The only rule is work



(via AA Diploma Unit 9)

Open House 2008 – Festa da Arquitectura da Católica

Estive na Open House 2008 – Festa da Arquitectura da Católica no passado dia 15 de Fevereiro em Viseu. Partilhei algumas ideias em torno da cultura blog e de como a arquitectura se tem apropriado da nova paisagem da rede. Segue-se um curto “draft” da minha apresentação.



Crítico de arquitectura instantâneo. Ou de como os blogs nos permitem assumir um qualquer papel, crítico instantâneo de áreas do saber anteriormente vedadas ao espectador comum, domínio da elite, hoje abertas à opinião pública. A crítica caiu na rua, com tudo o que isso tem de bom, de mau, e de muito mau.
A propósito de blogs comecei por recordar a imagem da roda de relva, projecto muito divulgado no circuito blog, criado por alunos de uma faculdade americana. A ideia é fácil de apreender. Perante a ausência crescente do natural na paisagem urbana, nada melhor do que criar o espaço verde individual, portátil. O nosso pequeno mundo. E isto pareceu-me uma boa metáfora para os blogs, porque são um lugar onde todos podem inventar regras de relação com o exterior, extensões de uma outra forma de existência.

A blogosfera é uma infraestrutura de comunicação global. O blog é um interface. Não mais, não menos. Não é uma entidade social, não acarreta em si mesmo dimensão moral ou ética. Mas o seu exercício constrói espaço, um lugar que é uma construção cultural, pois que os lugares são isso mesmo, instituídos pela prática da expressão humana.
Trocando impressões com várias pessoas vou recolhendo um retrato, em particular nos meios académicos, de um fenómeno apreendido com conotações tendencialmente negativas. Pacheco Pereira descreveu bem esse mundo como o oeste selvagem, território sem parâmetros ou regras. Uma crua descrição da blogosfera portuguesa.

Não é por se usar a mesma ferramenta de software que os americanos, brasileiros, japoneses e chineses que deixamos de ser portugueses, de levar para lá o nosso mundo exterior. Não somos ricos na Rede se somos pobres cá fora, não somos sofisticados em linha, se somos trogloditas cá fora, não sabemos mais e pensamos melhor nas páginas do Blogger do que pensamos cá fora, nos cafés de província, ou no Bairro Alto ou no Lux ou nas páginas dos jornais, não se é cosmopolita lá dentro se se é provinciano cá fora, não se é subserviente cá fora e independente no ecrã diante do computador, não se é burro cá fora e inteligente lá dentro.
O que se passa é que esse verdadeiro mostruário em linha, feito de mil egos à solta, revela mesmo a nossa pobreza, a nossa rudeza, a falta de independência face aos poderosos, grandes, pequenos e médios, os péssimos hábitos de pensar a falta de estudos e trabalho, de leitura e de "mundo", que caracterizam o nosso "Portugalinho". Nem podia ser de outra maneira. Com a diferença que nos blogues o retrato é mais brutal porque mais arrogante e mais solto, ou pelo anonimato, ou pela completa falta de noção de si próprio de quem, por poder escrever sem edição para os milhões de leitores potenciais da Rede, acha que é crítico de cinema instantâneo, engraçadista brilhante, analista político, escritor genial de aforismos, herói único da denúncia dos males do mundo, e portador de todas as soluções que só não são aplicadas porque os outros, a começar pelo blogue do lado e a acabar no fim do mundo, são todos corruptos, vendidos e tristes.
[A cultura de blogue nacional, via Abrupto]

Existirão várias razões para ser esta a nossa blogosfera mais visível e aquela mais facilmente referenciavel em órgãos de comunicação. Em parte porque trazida para o campo dos “media” por pessoas da imprensa escrita e da política, cujas regras de reflexão se pautam por: a) actualidade ruminante (o assunto do dia); e b) conflituosidade latente. O diálogo racional e uma base de referência fundada em valores de cidadania avançada (na tolerância perante “o outro”, na contraposição argumentativa, na prevalência do racional sobre o emocional) sucumbem no caldo cultural dominante. Algo que ninguém parece interessado em questionar “de dentro”. A fazer lembrar a tese de Bjarke Ingels relativamente à cultura de vanguarda – a ideia de rebelião contra o estabelecido, a ideia de que o progresso ou o radical se associa ao negativo, a “estar contra”, que tornando-se na corrente dominante se transforma numa nova forma de seguidismo.
Esta degradação do espaço público das ideias não é exclusiva da rede, mas é agravada pelo esbater de barreiras de comportamento social que existem no exterior. Confunde-se contundência com intolerância, personalidade por “opinião forte”, tantas formas de extremismo intelectual.
A outro nível, processam-se fenómenos de dimensão global resultantes de uma nova cultura de massas. O problema é identificado no livro de Andrew Keen, na tese do Culto do Amador. A dissolução de referência de cultura específica, a submersão do técnico perante o ideológico. A subjectivização indistinta do saber, processado com poucas variáveis. A negação da margem de erro e da complexidade do real.
A blogosfera é por isso um mundo com vários perigos. Mas não é apenas isto. É também uma paisagem promissora para a troca de ideias, a comunicação e a partilha. Falando da blogosfera de arquitectura, referenciei o Postopolis como ilustração exemplar.
O Postopolis foi um evento promovido por Joseph Grima, director da Storefront for Art and Architecture, a célebre galeria de arte nova-iorquina desenhada por Steven Holl e Vito Acconci. Grima convidou quatro dos mais notáveis bloggers de arquitectura - o Geoff Manaugh do BLDGBLOG, a Jill Fehrenbacher do Inhabitat, o Bryan Finoki do Subtopia e o Dan Hill do City of Sound.
E desafiou-os a organizar um evento de cinco dias, preenchido por debates com imensos convidados, especialistas das mais diversas áreas: arquitectura, design, landscaping, ecologia e sustentabilidade, arte digital, música, imprensa de arquitectura, cinema.
Tudo.
Debates intensos em pleno verão, na cidade de Nova-Iorque. Mas o que o Postopolis teve de único e extraordinário foi o facto de ter os seus conteúdos altamente disseminados na rede. Através dos blogs dos organizadores e de uma rede espontânea de bloggers, de visitantes ou de curiosos em todo o mundo, o que ali se passou foi recebido e debatido pelo globo fora. Em meia dúzia de dias apareceram galerias no Flickr com centenas de fotografias do evento. Vídeos das conferências foram colocados no Youtube, vistos, divulgados, comentados. Várias páginas web abriram fóruns de debate. No Archinect, o canal do Postopolis recebeu durante aqueles dias centenas de mensagens. Um exemplo a mostrar que outra blogosfera é possível, capaz de produzir conteúdos, reflexão, inteligência crítica.
Longe da cultura do “o que tu queres sei eu”, da presunção da má fé. Onde a assertividade e a cidadania podem ser não a excepção mas a regra.

Conclui partilhando algumas preocupações que fazem parte do meu percurso pelo mundo da arquitectura. O tema, um cartaz fictício com o título de Architecture is dead. Uma composição feita a partir do cartaz do famoso filme de ficção científica dos anos 50, “Invasion of the Body Snatchers”. Uma visão catastrófica da Torre do Burgo, de Souto Moura, sendo destruída por uma chuva de meteoros com a forma da Casa da Música, de Koolhaas.
No fundo trata-se de reflectir sobre o facto de que a arquitectura está a mudar. O modo de fazer, pensar a arquitectura, está a mudar.
Claro que a arquitectura não morreu, nem vai morrer, pelo facto de sofrer transformações. A mudança sempre fez parte da história da arquitectura, algumas dessas mudanças bastante radicais, e talvez nenhuma mais profunda do que o movimento moderno. Mas a produção de arquitectura é hoje diferente daquela do passado. E esta provocação pretende fazer reflectir sobre isso, sobre aquilo em que consiste essa mudança.
Dizia Alfred Hitchcock que era capaz de visualizar um filme todo, antes de o realizar, na sua mente. O seu anseio por domínio era tal que, ele próprio o disse, ao realizar o filme, até os actores eram um estorvo. Algo que estava entre ele e a obra perfeita, que ele teria de subjugar à sua visão maior.
Também a nossa profissão tem uma dimensão doutrinária em que pesa enormemente o factor autoral. O papel do arquitecto-autor está fortemente entranhado na doutrina académica e é assim de uma forma assumidamente resistente. Mas será esse o nosso papel no mundo de hoje?
Não se trata já de uma questão de opção, em que podemos ser assim ou de outra forma. A esse respeito, várias vezes vi debatida a ambivalência da arquitectura enquanto arte e enquanto técnica. Claro que a arquitectura é uma arte, quando produz emoção estética nas pessoas que a vivem.
A arquitectura, para ser erudita, tem de carregar essa dimensão da arte, da transcendência das ideias. E, quando se alcança essa arquitectura, então estamos perante uma obra capaz de transformar a percepção e as nossas referências, abalando a verdade do que somos, do nosso ponto de partida.
Mas a arquitectura é acima de tudo muitas coisas. Arte, técnica, mas também jurídica, económica, ambiental, com implicações sobre a sociologia e a história. É essa a grandeza da disciplina, o facto de tocar em muitas áreas do saber humano.
E porque as exigências que se colocam à arquitectura são cada vez mais amplas, mais complexas, desafia-nos a desenvolver mecanismos para processar essa complexidade. No fundo, como dizia Mark Wigley, o arquitecto é um especialista em incerteza e em multi-tasking..
Somos arquitectos no tempo da sustentabilidade. Algo que não se traduz por incorporar nos projectos umas quantas tecnologias high-tech green. Sustentável significa fazer uso dos recursos adequados para o fim a que se destinam. Significa combater desperdício. A arquitectura também é um acto de economia, até no que respeita especificamente ao desenho.
Podemos ignorar tudo isso, assumindo como prioritárias as razões de factor estético e elaborando-as à última potência. Mas não somos esteticistas. Fazer perfeitos objectos estéticos não significa necessariamente estar a fazer boa arquitectura. E fazer boa arquitectura não depende apenas de reunir o cardápio de materiais de topo ou fazer uso de meios tecnológicos de última geração.
Pelo contrário, a boa arquitectura estabelece-se a partir da capacidade de encontrar o grau de eficácia mais apurado na resposta a todas as vertentes da complexidade do real.
O mundo lá fora será sempre mais complexo. Não é por se ser jovem, por se ter muito voluntarismo ou vontade, ou opiniões fortes, que lá fora tudo aquilo que foram dificuldades para gerações que nos precederam serão facilidades para os que virão. Lá fora aguarda o mesmo atrito, as mesmas frustrações e até, por vezes, o desânimo.
Mas outra coisa é certa. Não está tudo inventado. Está tudo inventado – grande mentira. Nunca está tudo inventado. É sempre possível fazer melhor, com o menor dos meios. Inovar depende da capacidade de olhar para os problemas de forma diferente, dissecando-os nos seus vários graus, apreendendo os diversos elementos de cuja combinação resulta a complexidade aparente, aparentemente irresolúvel, que neles reside. E por isso o sucesso em arquitectura depende de muitos retornos, de produzir várias iterações, de experimentação, de especulação.
Nada está inventado. Na verdade, está quase tudo, como sempre foi, na arquitectura como em tudo o resto, por descobrir.

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