Escola: o fazer de um lugar

Para ir um pouco mais longe na reflexão sobre novas abordagens na área da arquitectura escolar recomendo uma leitura aprofundada de alguns textos de Jeff Lackney, um arquitecto especialista em psicologia ambiental. No documento Teachers as Placemakers são apresentadas algumas questões prévias importantes na relação entre o espaço construído e o processo de ensino. Refere-se que aspectos tão simples como a temperatura da sala de aula, a iluminação e a qualidade do ar parecem ter efeitos sobre a aprendizagem. Adicionalmente, a limpeza, a arrumação e as características transmitidas pelo ambiente da escola são identificadas pelos professores como tendo influência sobre o comportamento dos alunos. A própria organização do mobiliário ou a distribuição dos espaços dentro da sala podem fazer beneficiar em grande medida o sucesso da missão do professor.

Podemos observar o elaborado nível de preocupações tidas em conta na concepção de espaços escolares num outro documento intitulado Twelve Design Principles Based on Brain-based Learning Research. Entrando já no domínio das neurociências, estabelecem-se diversos princípios sobre a relação próxima entre espaço e comportamento. Ambientes ricos em estímulos, na cor e na textura; criação de “lugares” para diferentes formas de socialização; valorização de ligações entre espaços interiores e exteriores; simbologia e sinalética; diversidade de espaços e funções – permitindo tanto a convivência como a reflexão e a introspecção – são apenas alguns dos aspectos importantes a ter em conta. Lackney exprime preocupação pela existência de escolas baseadas num conceito homogéneo e inexpressivo, reforçando a necessidade de incorporar a complexidade e a flexibilidade para acomodar um conjunto diverso de processos de aprendizagem.

O próprio autor refere alguma prudência no modo como estas pesquisas devem ser incorporadas, reconhecendo que a neurociência é uma especialidade extremamente recente e por isso mesmo justificando um trabalho continuado de pesquisa. Mas a base de conhecimentos e princípios que se expressam são demasiado evidentes para continuarem a ser desprezados. Sublinha alguma frustração no modo como alguns especialistas da área de ensino “falam a linguagem” mas persistem na prática na utilização de metodologias antigas.
Tomaria a liberdade de prolongar esta preocupação para o modo como arquitectos assumem a concepção de equipamentos escolares. Em Portugal bastará consultar alguns projectos-tipo – ainda divulgados por entidades da área da Educação – e ver como os correctos pressupostos enunciados na teoria não têm a mais pequena correspondência com o objecto construído, onde afinal esses princípios deveriam tomar forma.

Na sua conclusão Lackney refere a necessidade de adoptar o conceito do “fazer de um lugar”, em oposição ao mero desenho dos seus espaços. O que em arquitectura significa ir além do ambiente físico para enquadrar a dimensão social, organizativa, pedagógica e emocional. Um trabalho que devia desafiar modos de operar pré-definidos ou tipificados para abraçar uma interacção disciplinar fértil, tanto na definição de princípios teóricos como na sua realização prática. As mais bem intencionadas ideias não servirão, caso contrário, nem para nada nem em benefício de ninguém.

Uma Escola para o século XXI

A educação mobiliza o sentimento colectivo de formas que poucas outras áreas são capazes de fazer. Na escola parecem advir todos os entusiasmos e todos os temores da comunidade, como demonstrou o recente episódio de afronta estudantil divulgado à exaustão, primeiro no Youtube e depois na comunicação social.
À emotividade imediata seria útil seguir-se a reflexão sobre o que queremos da Escola do século XXI. Num país em que a educação parece ocupar um lugar de tamanha importância enquanto tema social e político, é interessante observar a enorme carência de saber técnico aplicado no domínio da arquitectura escolar. O sistema público continua subserviente da lógica do “projecto tipo”, sem que se reflicta mais profundamente sobre os conteúdos para produzir uma nova “tipologia de escola”. Assim, ao falar de uma Escola para o século XXI, não será demais lembrar que estamos a falar deste mesmo século em que já estamos a viver. Aqui e agora.

A arquitectura – mesmo a boa arquitectura – não é uma panaceia para os males do mundo. Uma boa escola não suprime a envolvente social que a rodeia ou as pulsões do tempo em que existe. Mas o ambiente construído é um reflexo visível da filosofia que lhe dá origem. E assim também a escola é um símbolo daquilo que a comunidade dramatiza, aquilo a que dá importância.
A escola preenche hoje um conjunto muito diverso de funções. É um lugar de aprendizagem para aptidões a muitos níveis diferentes – das ciências às artes, à actividade física e ao relacionamento social e interpessoal. Para além disso, a escola ocupa cada vez mais um lugar de instituição comunitária, em que jovens mas também adultos se podem reunir para ocupações bastante flexíveis.
Mas para que a escola possa desempenhar eficientemente essas funções tem de existir um propósito que lhe dê origem. O “espaço da comunidade” não acontece por acaso. É necessária uma intenção que o promova, que dê corpo a um conjunto de preocupações muito específicas na sua concepção, de cuja execução depende o seu sucesso futuro.

Como ponto de partida para uma longa reflexão vale a pena conhecer o sítio web da DesignShare. Trata-se de uma página de divulgação de boas práticas de arquitectura escolar em todo o mundo. Nela podemos encontrar a referência ao livro Design Patterns for 21st Century Schools - ver The Language of School Design (PDF summary) - onde se sintetiza um conjunto de conhecimentos em torno das melhores práticas no planeamento e construção de edifícios escolares.
Num formato de manual técnico quase elementar, sem teorizações obscuras, processa-se em doutrina aplicável uma série de factores complexos com vista a funções muito específicas. Temos assim o oposto da solução-tipo, antes a busca de ideias experimentadas, o padrão comum entre muitas formas possíveis para a boa prática que se procura implementar.



O site oferece um ensaio introdutório acerca de alguns dos princípios que se propõem para esta escola do século XXI. Partindo do modelo Ford da escola de início do século XX, observa-se a expansão do espaço de corredor para se tornar num lugar de interacção social.





A própria sala de aula sofre mutações diversas, na forma e no tipo de relação com o exterior e interior do edifício. Promove-se a interacção e a multi-funcionalidade – não uma polivalência inespecífica, mas a afectação de sub-áreas a funções bem definidas.



Uma referência particularmente curiosa é a ênfase colocada no desenvolvimento de aptidões relacionais: A maioria das escolas tradicionais, na verdade, desmotiva a interacção social dentro da escola por considerá-la uma “distracção” e por medo que da socialização dos estudantes resulte uma ameaça para o objectivo de disciplina e obediência às regras dos adultos. Sabemos hoje que a capacidade discursiva e a aprendizagem colaborativa são aspectos críticos para o desenvolvimento de cidadãos completos. Estas chamadas “aptidões leves” estão no topo da lista de qualificações para o sucesso em qualquer profissão.





Igualmente importantes são as considerações feitas em torno do objecto-escola enquanto parte do coração da comunidade. Algo que extravasa necessariamente as considerações de ordem meramente arquitectónica. A Escola vista no contexto da comunidade global, o verdadeiro ambiente da aprendizagem – que tem por isso de encontrar novas formas de ocupar o ambiente urbano para deixar de ser uma fortaleza de ensinar e relacionar-se com suportes tecnológicos, o ensino à distância, as parcerias com entidades externas, públicas e privadas – e assim tornar-se uma verdadeira instituição para o presente e o futuro daqueles que por ela passam.

O tema é longo e merecerá por certo uma reflexão continuada. Mas seria importante que, também por cá, estes princípios tomassem corpo em formas de proceder, planear e projectar, mais esclarecidas. Para que a escola possa realmente contribuir para o futuro mais lúcido e mais próspero que todos desejam.

A Barriga reloaded

Apresento-vos a versão 2008 do blog, a marcar o início de uma nova fase de actividade. Opiniões – e reclamações – na caixa de comentários ou para o email do costume. A Barriga regressa à velocidade de cruzeiro já na próxima semana. Até lá!

The Belly reloaded
And here is the 2008 version of the blog, celebrating the beginning of a new period of blogging activity. Opinions – and complaints – are welcome in the commentary box or via email. The Belly returns in full speed next week. See’ya.

De volta com Norman Foster



O blog regressa à actividade após duas longas semanas de ausência. Fica para já a divulgação obrigatória da palestra de Norman Foster na Digital Life Design Conference em Munique, recentemente publicada no TED. Uma reflexão profunda sobre a introdução de preocupações de sustentabilidade na arquitectura na década de 70, com referências a algumas das suas obras desse período antecipando a transformação cultural que entretanto veio a ocorrer. Muito interessante pela relação entre a aplicação de tecnologia e design ao serviço das questões ambientais e energéticas, entretanto tão disseminadas no domínio público.
Como referência adicional, vale muito a pena ver a exposição de Ken Robinson com o título Do schools kill creativity? - defendendo a necessidade de um sistema educativo que estimule a criatividade e a inovação experimental, e promova um novo conceito de ecologia humana.

We’re back – with Norman Foster
Blog activity returns after two long weeks of absence, with the mandatory posting of Norman Foster’s presentation at the Digital Life Design Conference in Munich, recently published on TED. An extensive analysis on how sustainability started to be a part of architecture during the seventies, with reference to some of his works of that period that anticipated the wide cultural transformation that took place in the world afterwards – and how technology and design became essential tools to support an effective environmental agenda.
As an additional reference, I strongly recommend Ken Robinson’s talk titled Do schools kill creativity?; assessing the need for an educational system that promotes creativity and experimental innovation.

Europan 9: Poïo - 1º Prémio [entrevista]

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A equipa formada por Camilo Vaz, Marlene dos Santos e Bruno Oliveira constituiu a única participação portuguesa a vencer um primeiro prémio em território estrangeiro no concurso internacional de ideias Europan 9. A sua proposta, intitulada "Cultivos Urbanos", incidiu sobre uma área situada em Poïo, nos arredores da cidade de Pontevedra, capital da província com o mesmo nome da comunidade autónoma da Galiza.

A mais recente edição do Europan teve como temas a “Urbanidade Europeia, Cidade Sustentável e Novos Espaços Públicos”. Ao todo estiveram propostas a concurso 73 cidades distribuídas por 22 países europeus. Trata-se da mais vasta competição de arquitectura da Europa, sendo dirigida a profissionais com idade inferior a 40 anos. Os vencedores têm a oportunidade de tornar a sua visão em realidade, trabalhando numa fase posterior com os promotores de cada uma das intervenções apresentadas.
O projecto da equipa portuguesa para Poïo tinha por objectivo definir uma ocupação de tipologia multifamiliar urbana num sítio periférico, ainda marcado por um parcelamento afecto a uso agrícola. O desafio consistiu em introduzir uma malha construída e estabelecer novas regras de relação com o território, mantendo vivo o desejo de contacto com o solo e a sua utilização complementar para fins de pequena agricultura de subsistência. A solução encontrada define-se na tensão entre uma ideia de “paisagem rural” e o conceito de utilização comunitária de “cultivos urbanos”, que dão nome à proposta.
Trata-se de um modelo de territorialidade que questiona os termos de campo e cidade; a expansão urbana como algo que não ocorre sobre espaço abstracto, inerte, mas antes sobre o seu conjunto de marcas sobrepostas no tempo que lhe conferem uma realidade de paisagem.
Os novos edifícios aparentam faces texturadas, enunciando uma difusão de escalas cujo efeito é reforçado na diversidade volumétrica das massas construídas. É da relação próxima entre arquitecturas e sistemas naturais que as antecedem que se definem estas novas formas de espacialidade, de vivência, de habitar.
Segue-se uma apresentação deste trabalho premiado e uma breve troca de impressões com a equipa projectista.

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CULTIVOS URBANOS
EUROPAN 9 - “Urbanidade Europeia Cidade Sustentável e Novos Espaços Públicos”
Local: Poïo, Pontevedra – Galiza (Espanha) - 1º Prémio
Equipa: Camilo Vaz (coordenador), Marlene dos Santos, Bruno Oliveira [pt]


Alex Maclean: Cultivos Experimentais, Barlow, North Dakota


We harvested the crop on August 16 on a hot, muggy Sunday. The air was stifling and the city stood still. All those Manhattanites who had been watching the field grow from green to golden amber and had gotten attached to it (...) stood around in sad silence. Some cried. We harvested almost 1000 pounds of healthy, golden wheat.
Agnes Denes: “Wheatfield – A Confrontation”, Battery Park Landfill, Ny, 1982


1. PAISAGEM

«Paisagem pode significar entre outras coisas, o conjunto de marcas deixadas no território pelas diversas comunidades que o compartilham enquanto suporte individual e colectivo de sobrevivência, sobrepostas às marcas da génese do próprio território e às deixadas pelas transformações a que é alheia a comunidade viva.
O conceito de Paisagem esta directamente associado às marcas de cada momento, de cada geração, de cada cultura que se sobrepõem no mesmo lugar, que se encontra profundamente relacionado com a transformação. Paisagem é, por definição, algo dinâmico, em continua evolução, em função das convicções que a cada momento apontam para gestos diferentes, a que correspondem marcas diferentes, para a resolução dos problemas de sobrevivência das comunidades.

De facto, como podemos distinguir os gestos geradores destas marcas, que correspondem à materialização das convicções de cada geração, de cada comunidade, de cada cultura? Sendo um tema bastante actual, o aquecimento global e as suas consequências no nosso habitat, pela primeira vez merecem a atenção global e generalizada numa sociedade onde predomina o individualismo. É nesta atitude que queremos centrar a nossa reflexão sobre o território e a consequente influência do Homem, propondo uma apreciação sobre o Indivíduo, da sua atitude ao longo da história na construção da paisagem que consecutivamente transformamos.»


Sobreposição de tramas - urbana e hortas existentes


Local de intervenção


Esquema de desenvolvimento da proposta
1. Organização das parcelas segundo directrizes existentes
2. Canais de rega e colectores de aguas pluviais
3. Espaços verdes “hortas urbanas” y jardins
4. Sobreposição de colectores e verdes
5. Novos espaços urbanos
6. Desenvolvimento da proposta


2. “CULTIVOS URBANOS”

«Em Poïo, entramos a fazer parte de um processo já iniciado de apropriação de um espaço natural, onde ainda é possível potenciar uma relação sustentável entre a natureza e o Homem. O local de intervenção, nos arredores de Pontevedra, tem ainda hoje em dia, um carácter predominantemente rural. Aqui vive uma parte considerável da população que trabalha no centro de Pontevedra, que procura na proximidade com o centro urbano a oportunidade de emprego e por outro lado procura no campo, tranquilidade e contacto com o meio natural.

A paisagem local é fortemente caracterizada pelas parcelas agrícolas que se estendem pelo território como se de uma “manta de retalhos” se tratasse, retratam um passado ainda muito presente, vinculado ao meio rural de subsistência. Neste contexto a proposta actua como uma “semente”, que pretende ir de encontro a uma solução urbana que sirva de modelo para a área em análise, adaptando-se às directrizes do território redefinindo novos espaços públicos e abordando o conceito de utilização comunitária de “cultivos urbanos”, onde se pretende estimular o uso de hortas inseridas no traçado urbano como meio de subsistência alternativo para as comunidades locais.

A ligeira pendente do terreno para sudoeste, e a via de acesso ao centro da Cidade sugerem a necessidade de densificar o programa proposto nesta zona, facilitando os acessos e permitindo libertar grande parte do solo. A gravidade permite ainda desenvolver um sistema de colectores de água pluviais para rega dos jardins e hortas (sendo a Galiza a região onde existe o maior índice de pluviosidade da Península Ibérica).

A implantação dos novos edifícios habitacionais não se sobrepõe á malha das hortas, permitindo a sua permeabilidade com o solo, funcionam como um jardim vertical, ventilado, com sistemas de produção e armazenamento de energias renováveis, sistemas locais de recolha e tratamento de águas residuais.

Esta “semente” que se gera em Poio, tem a capacidade de adaptação noutros territórios com potencial agrícola semelhante, incluindo muitos dos vazios urbanos nas nossas cidades, que descontinuamente se estendem pelo território. A ocupação do solo livre através de “hortas urbanas” de utilização comunitária em contextos e cidades de media dimensão, poderá ter um papel fundamental na forma como gerimos os espaços verdes das nossas cidades, na melhoria do microclima, na manutenção da biodiversidade e relações entre indivíduos.»


Planta de implantação [+]


Maqueta da proposta [+]


Vista geral [+]


Edifícios multifamiliares - Espaço comum e galeria de acesso [+]


Tratamento do espaço publico existente [+]


Planta Parcial [+]


Secção [+]


Edifício Tipo – Tipologias [+]

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ENTREVISTA

Dos autores da proposta, Marlene dos Santos e Bruno Oliveira mantêm um percurso paralelo na sua formação de arquitectura, que se iniciou na Universidade de Évora e se prolongou com a experiência académica e profissional em Espanha. Acreditam que uma das formas de pensar a arquitectura contemporânea passa pela formação de equipas experimentais de investigação, com o objectivo de dar resposta a situações concretas.
Juntamente com o arquitecto Camilo Vaz, com formação pela Universidade de Coimbra e com atelier próprio, formaram uma equipa de investigação para o Europan 9 – Poïo [Pontevedra], onde iniciam este conceito de “equipa nómada”.

DC: A vossa proposta começa por ser uma reflexão sobre a paisagem, sobre um modelo diferente de apropriação do território que não pretende anular o natural, antes integrá-lo num processo paralelo de densificação urbana.
Este tipo de assimilação entre o urbano e o rural tem sido explorado, por exemplo, em projectos como a Farmadelphia, a Agro-Housing ou mesmo o Vertical Farm Project. São, quase sempre, trabalhos de base teórica, manifestos ou exercícios especulativos estimulantes mas pouco compatíveis com uma operação real.
O vosso trabalho, pelo contrário, soma um olhar experimental com a busca de plausibilidade da solução, muito específica ao lugar e ao desejo de apropriação pela sua comunidade.

Quais foram os principais desafios que encontraram ao olhar para o programa e o sítio da intervenção pela primeira vez?

Equipa E9: Ao olhar para o sítio de intervenção pela primeira vez e simultaneamente pensar no programa que para ali se propunha, confrontamo-nos com uma situação contraditória. Estávamos perante um local de forte tradição rural que se propunha converter num centro urbano estruturante para o futuro crescimento da periferia de Pontevedra.
É aqui que se inicia o nosso trabalho, na análise deste território específico e na reflexão em geral sobre a problemática do desenho de novos espaços urbanos nas periferias das nossas cidades Europeias.

Quando te referes a projectos como o Farmadelfia ou a Ago-Housing, de facto a proposta que desenvolvemos para Poïo pode dizer-se que tem uma base teórica semelhante, ou mesmo uma linha de investigação próxima.
Relativamente à plausibilidade destes exercícios, considerámos que esta abordagem apenas é sustentável em contextos com um passado rural recente ou que ainda mantêm práticas agrícolas como forma de subsistência alternativa. O exemplo da proposta do atelier Scape Architecture para Valência, integrado no plano Sociopolis é uma referência da transposição destas teorias para a realidade num contexto com estas características.

DC: Como referem no projecto, trata-se de um espaço natural que atravessa um processo de apropriação lenta, com características de ruralidade e falta de referências de cidade. O programa de trabalho introduz um novo processo de apropriação, desta vez com tecido urbano. Que preocupações estiveram na concepção desta arquitectura que pretende não consumir ou apenas absorver território, mas antes estabelecer uma relação de quase simbiose com o seu contexto?

Equipa E9: A certa altitude ao contemplarmos o território, permitem-se identificar os seus códigos de organização, marcas impressas no território ao longo dos anos, que nos revelam formas de apropriação do espaço.
O que procurávamos aqui era aprofundar uma pesquisa de entendimento dos códigos impressos neste sítio e da forma como eram influenciados pelos aspectos sócio – culturais dos habitantes locais.
Na Galiza e em particular na zona de Pontevedra, as parcelas agrícolas além de estruturantes do espaço rural, são o reflexo da estrita relação entre os habitantes e os limites de propriedade. Esta forte identidade local é reinterpretada no desenho dos novos espaços públicos, onde se propõe a introdução de parcelas de cultivo no tecido urbano.

DC: No vosso processo de projecto parece existir uma abordagem diagramática, interpretando diferentes aspectos da topografia, sintetizando-os e fazendo evoluir uma solução de arquitectura. De que forma é que esta prática foi decisiva na definição do resultado final?

Equipa E9: O processo de desenho diagramático foi crucial na descodificação dos vários layers que compunham a malha rural, (linhas de água, cultivos, parcelas, pendentes, caminhos) e no entendimento deste organismo vivo na topografia. Ao assimilarmos o seu funcionamento e a escala do desenho das distintas estruturas, reinterpretamo-lo na proposta. A arquitectura surge da reflexão da sua implantação nesta “natureza”, que a partir deste processo de desenho resulta de forma quase evidente.

DC: Existe uma definição social muito forte neste projecto, que toma forma na apropriação comunitária do espaço da cidade. Pensam que a dramatização de preocupações de sustentabilidade no ambiente urbano poderá promover uma espécie de regresso à ruralidade, ou estaremos perante uma inovação cultural mais profunda, uma reinvenção de cidade através de novos modelos de paisagem urbana produtiva?

Equipa E9: Pensamos que qualquer “inovação” cultural neste âmbito passa por apreender os limites entre o espaço público e o espaço privado das nossas cidades e de que forma influenciam os nossos hábitos como elementos activos no meio.
Como analogia, a intervenção do artista Agnes Denes para o Battery Park na baixa de Manhattan, [Wheatfield—A Confrontation] é um exemplo da desdramatização destes limites no espaço urbano, onde Denes ao cultivar um quarteirão desocupado da cidade suscitou um novo envolvimento dos residentes com aquele espaço privado, apenas pelo processo e tempo de amadurecimento do trigo(*).
Em Poïo, marcado pela relação com a meio rural, entendemos que a ocupação do solo livre com “hortas urbanas” de utilização comunitária, poderá representar uma reflexão sobre a forma como gerimos os espaços verdes das nossas cidades; que potencial produtivo pode representar e que papel pode desempenhar na melhoria do microclima, manutenção da biodiversidade e relações entre indivíduos.
(*) “We harvested the crop on August 16 on a hot, muggy Sunday. The air was stifling and the city stood still. All those Manhattanites who had been watching the field grow from green to golden amber and had gotten attached to it (...) stood around in sad silence. Some cried. We harvested almost 1000 pounds of healthy, golden wheat.” Agnes Denes, "Wheatfield - A Confrontation", Battery Park Landfill, NY, 1982.

DC: Que papel pode desempenhar a arquitectura nesta nova cidade?

Equipa E9: A arquitectura nesta “nova” cidade foi pensada num contexto de desenvolvimento urbano sustentável, que além das preocupações ambientais procura integrar-se no processo de transformação social e cultural desse contexto.
De um modo geral a arquitectura deve actuar como elemento mediador que se assume como o elo de ligação entre as relações do Indivíduo que a habita e o lugar onde se implanta.

Com um grande agradecimento a Marlene dos Santos, Bruno Oliveira e Camilo Vaz.

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Europan 9: Poïo – 1st Prize [interview]

The team established by Camilo Vaz, Marlene dos Santos and Bruno Oliveira was the only portuguese participation in foreign territory to achieve a first Prize at the international competition Europan 9. Their proposal, titled “Urban Crops”, was developed for a site located in the area of Poïo, in the outskirts of the city of Pontevedra, capital of the homonymous province of Galicia, in Spain.

The latest edition of Europan focused on the themes of “European Urbanity, Sustainable City and New Public Spaces”. It’s by far the largest architectural competition organized in Europe, now gathering up to 73 different cities in 22 countries, and is aimed at young professionals of ages under 40. The winners get a chance to turn their vision into a reality by working closely with the promoters of each individual initiative.
The winning project for the selected location of Poïo proposed the insertion of a multi-unit housing typology in the fringes of an urban setting – a peculiar site for the enduring presence of small-scale agricultural use. The portuguese team submitted a design that merged a new constructed grid with the territory, maintaining a purpose of close relation to the land. The final solution is defined by that tension between an idea of “rural landscape” and the concept of a communitary use of “urban crops”.
It´s a model of territoriality that questions previous notions of city and country; assuming the urban expansion as something that doesn’t occur on abstract, inert space, but over the setting of superimposed marks that define the reality of its landscape.
The new buildings propose textured faces, essaying a diffusion of scales that is reinforced by the volumetric diversity of the built masses. It is from the close relationship between architecture and pre-existing natural systems that new forms of spatiality are defined, with new chances for public life and dwelling.

1. LANDSCAPE

«The landscape is the portrait left imprinted in the land by people’s beliefs; the roads, power lines, railways, dams and the harbours should be as much landscape as the farmlands, the cities, villages and all the signs left by human communities. How can we identify the gestures that create these marks, which correspond to the materialization of the will of each generation, each community and each culture? What is the development that looks to satisfy the needs of the current generation, without compromising the capacity of future generations to satisfy their own needs?

This means enabling people, now and in the future, to reach a satisfactory level of social and economical development, human and cultural fulfilment, while, at the same time, sensibly using the land’s resources and preserving species in their natural habitats.»

2. «URBAN FARMS»

«A set of sensitive places, like Poïo, are the result of uncontrolled development, with no planning or concerns for the future growth. Solving problems like these requires knowledge of the site and it’s ecological and cultural problems and also knowledge of its potential regarding natural resources, as a way to educate society, enlighten their mind and prepare the generations to come.
The seed of the project tries to respect the area in which it encompasses; the farmlands, responsible mostly for corn production and vineyards, have a large significance in the area, for subsistence and also as a print in the territory. According to the existing guidelines for the site, the existing farmlands will be maintained and new ones are proposed: “urban farms”.
The current system of farms corresponds to single-family buildings close to a large plot of land, while the new plots will correspond to multi-family buildings, and will be integrated in the new concept of public spaces – “urban farms”.

Urban agriculture will play a significant role in the general “greening” of the city, helping to improve the microclimate, and will also play an important part in maintaining local biodiversity.»

INTERVIEW

Project team members Marlene dos Santos and Bruno Oliveira share a similar background. Both studied architecture in the University of Évora, in Portugal, followed by a professional experience in Spain. They claim that a contemporary architectural practice should embrace the exercise of experimental research workgroups. Collaborating with architect Camilo Vaz they decided to put into practice the spirit of a “nomad team” and participate in Europan 9.

DC: Your proposal begins as a reflection on landscape, on a different model of appropriation of the territory that doesn’t try to erase the natural but to embrace it in the process of urban densification. This kind of assimilation between urban and rural has been explored, for example, in projects such as Farmadelphia, Agro-Housing or even the Vertical Farm Project. These seem to be, however, theoretical works, stimulating manifestos and speculative exercises, but still seemingly incompatible with a real operation.
Your work, on the contrary, adds an experimental approach to the search for a real solution, specific to the site and the desire of success among its community.

What challenges did you face as you first tried to address the program and the site?

E9 Team: Looking to the project site for the first time, and simultaneously thinking in the proposed program, we found ourselves in a contradictory situation. We faced a place with strong rural traditions that was to be converted into an urban centre, strategic to the future growth of the periphery of Pontevedra.
This is where our work started, from the analysis of these specificities, reflecting upon the design problems that are always present as one tries to create new urbanities in the boundaries of our European cities.

When you refer to projects as Farmadelfia or Agro-Housing, in fact our proposal to Poïo has a similar theoretical basis, or a close research speculation. As for the plausibility of such exercises, we considered that this approach is only sustainable in contexts that already have a rural tradition of some sort, maintaining agricultural practices as a form of alternate survival. The example of Scape Architecture studio for Valencia, as part of the Sociopolis plan, is a reference of transposition of these theories into reality in such a context.

DC: As you describe in your work, this is a natural space that is undergoing a process of slow appropriation, retaining qualities of rurality and a lack of urban references. What where the guidelines to your architectural approach?

E9 Team: As we stared to the site we were able to identify the underlining codes to its organization; the imprinted marks of the territory that revealed the ways in which it was being used by the inhabitants.
What we were aiming for was to deepen the research to understand those codes and the way they where influenced by social and cultural aspects of the local community.
In Galicia, and especially in the area of Pontevedra, the land parcels retain a rural logic, and reflect the strict relationship between the locals and the boundaries of private property. This strong local identity is reinterpreted in the design of the new public spaces, where we introduce parcels destined to agricultural activity within the urban tissue.

DC: There’s also a diagrammatic approach in your design process, interpreting different aspects of the topography, synthesizing them and processing them into the architectural solution. In what way was this practice decisive for the final result?

E9 Team: The diagrammatic design process was crucial to decode the different layers within the rural landscape, (water lines, crops, parcels, slopes, paths), to understand this living organism inside the topography. As we assimilated this system and the scales of these distinctive structures, we were able to reinterpret them in our proposal. Architecture comes as a reflection on the planning of this “nature”, becoming a clear pattern of design and form.

DC: There’s a strong communitarian intention in your project. Do you think that as sustainability issues become dramatized in the urban environment, we’ll witness some sort of return to rurality, or might we be facing a deeper cultural innovation, a reinvention of the city based on new models of productive urban landscape.

E9 Team: We believe that any cultural “innovation” in this context relies on the understanding of the boundaries between public and private space within our cities, and on the ways in which it influences our habits as active elements in the landscape.
As an analogy, the intervention by Agnes Denes on Battery Park, in downtown Manhattan [Wheatfield—A Confrontation], is an example of reinvention of these limits in the urban space.
In Poïo, with its strong relation with the rural world, we interiorized the occupation of free soil as “urban crops” for communitarian use; questioning the way we manage the green areas of our cities and its productive potential in benefit of the biodiversity and human relations.

DC: What will be architecture’s role in this new city?

E9 Team: Architecture, in this “new” city, was thought of in the context of sustainable urban development, going beyond strict environmental issues to become part of a deeper process of social and cultural transformation. In a wider sense, architecture should act as a mediating element, the link between the territory and the individuals that dwell within.

With a big thanks to Marlene dos Santos, Bruno Oliveira and Camilo Vaz.


External links:
Europan 9
Europan España
Camilo Rebocho Vaz, NadA Arquitectos