Parabéns ao Abrupto

Critiquei, por mais que uma vez, o Abrupto por razões de design web. Citei, por mais que uma vez, o blogue de Pacheco Pereira pela inteligência das suas reflexões sobre a blogosfera portuguesa.
Hoje o Abrupto completa seis anos de existência, assinalando a data com um poema inédito - e bastante divertido - de Vasco Graça Moura. Também A Barriga de um Arquitecto confessa a sua perplexidade pela «obsoletização» a que está votada pelo acordo ortográfico. A justificar uma micro-causa?

Parabéns ao JPP.

DARCO Magazine 02


DARCO Magazine 02. Click to read (Portuguese text only).

Já se encontra à venda o segundo número da DARCO Magazine. Neste volume encontram-se em destaque obras do Estudio Barozzi Veiga, de Wespi De Meuron e de Paulo Providência.
A DARCO é uma revista publicada pelo Directório ARCO onde se destaca a apresentação detalhada de obras de arquitectura, conjugando a fotografia e desenhos técnicos de projecto. Este número está também disponível para consulta online.

dARCO Magazine 02
The second volume of DARCO Magazine has just been released. This issue features works by Estudio Barozzi Veiga, Wespi De Meuron and Paulo Providência.
DARCO Magazine is a portuguese publication produced by Directório ARCO and is available online.

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DIAGRAMMING FOR THE PEOPLE
Texto publicado na revista DARCO Magazine 02.

Dizia Gonçalo Byrne que em arquitectura deveríamos considerar sempre em primeiro lugar a obra construída, depois o projecto que lhe deu origem e apenas num distante terceiro lugar o seu autor. Só a obra é sujeita ao atrito da terra e à lenta apropriação do público. A obra de arquitectura existe entre a resistência e a capacidade de adaptação ao futuro, firmando no tempo a sua impressão cultural e um registo mais perene da dimensão teórica.

Que vivemos numa época contaminada pela imagem é uma afirmação banal. Partindo daqueles princípios enunciados por Byrne poderíamos dizer que isso contribuiu para uma inversão desta ordem de valores. Quantas vezes a projecção mediática se centra, em primeiro lugar, sobre o arquitecto, para se debruçar sobre o que ele vai fazer e onde. O que corresponde a um descentramento da teoria; o abandono da reflexão em benefício da antecipação. O projecto ascende assim sobre a obra; as suas imagens extravasando a novidade, o fantástico, os sonhos e as ambições deste tempo. Nunca como hoje o “render” ocupou as revistas de arquitectura para ilustrar até as suas capas – uma simulação que não requer já reflexão para se legitimar, como se a imagem, espectacular e bela, se bastasse a si mesma.

Um mundo sobrecarregado de imagem comporta o risco de relativização dos seus significados mais profundos, em detrimento da celebração da superfície. Também os “media” contribuem para promover ideias simples e reduzir o complexo processo criativo da arquitectura em rasgos de génio individual. É por certo mais fácil celebrar um objecto concreto do que o processo abstracto que lhe dá origem. E, no entanto, é a visão colectiva, colaborativa, entre promotores e projectistas que define o sucesso da realização arquitectónica – de uma arquitectura que é hoje muito mais que uma das artes do desenho mas todo um processo de gestão de objectivos, de meios, de tempos, de bases contratuais, de estratégias de implementação.

Devemos por isso ser prudentes relativamente aos juízos que fazemos sobre as imagens da arquitectura – tanto na celebração irreflectida da sua grandeza como na negação preconceituosa e desconhecedora de conteúdos menos aparentes. Cabe-nos, enquanto profissionais da área, o dever de distinguir esses conteúdos e produzir sobre eles inteligência crítica. Identificar as diferenças e trazer à luz os contextos e os processos que lhes dão origem.

Também enquanto arquitectos afirmamos repetidas vezes o papel de coordenação entre os domínios técnicos presentes em projecto. Fazemo-lo com um sentido adquirido de legitimidade, raras vezes questionando os motivos que o justificam. Raras vezes meditando sobre a responsabilidade (“accountability”) devida a essa função, e muitas vezes procurando levar a reboque os promotores e restantes técnicos envolvidos em nome de pouco mais do que a intenção estética; do que a “imagem”. Nos vazios deixados pelo cliente, na ausência de uma cultura programática que processe com exigência os objectivos do projecto e os meios à disposição para o concretizar, arquitectos assumem o protagonismo. Fracos clientes de nós próprios, parecemos esquecer que as verdadeiras ferramentas do projecto de arquitectura são hoje os orçamentos, os calendários, os regulamentos, as políticas, as condições do sítio – limitações que encerram todas as oportunidades e podem potenciar as soluções mais inovadoras.

Talvez pudéssemos dizer que, na sua aparência, Portugal é um país resistente à cultura da imagem. O discurso consolidado das academias parece ter eco no conservadorismo da instituição pública e na desconfiança de promotores e do público perante a inovação e a audácia. Mas talvez a nós, arquitectos, seja devido mais esclarecimento. Pois que tantas vezes julgamos uma arquitectura mais espectacular na sua forma ignorando os complexos processos que a sustentam – a dinâmica económica, a hiper-racionalização e gestão complexa que nela se processa.
E assim devemos questionar se não é alguma da nossa arquitectura, na sua expressão reservada, acanhada e modesta, mais devedora de uma contenção meramente formalista, também ela devedora de uma mera lógica de “imagem”. Que o superficial também se pode esconder sob muitas formas, na ambiguidade retórica de uma parede branca.

Uma Escola para um mundo de incerteza


If you think of it, children starting school this year will be retiring in 2065. Nobody has a clue, despite all the expertise that's been on parade for the past four days, what the world will look like in five years' time. And yet we're meant to be educating them for it.
So the unpredictability, I think, is extraordinary.

Sir Ken Robinson – Do Schools Kill Creativity?, via TED.

A Educação motiva as paixões de muitos e desperta por certo os desesperos de tantos outros. Sobre a Escola projectam-se expectativas tanto quanto se revelam as disfunções do fazer colectivo. Algo que podemos sentir com alguma facilidade nestes tempos cheios de complexidade e incerteza quanto ao futuro.

Entrei para a Escola há pouco menos de trinta anos. Pensando nisso, é quase inacreditável pensar em como as coisas mudaram – na nossa relação com o conhecimento, na comunicação global, no sistema económico e nas expectativas laborais, na estrutura social. Em tudo.

A exposição sedutora de Ken Robinson no TED é um bom pretexto para pensar nesse futuro imprevisível que nos maravilha e inquieta ao mesmo tempo. As suas preocupações quanto ao papel da criatividade numa nova economia baseada no conhecimento deixam claro o desafio assente à Escola de hoje. Uma Escola que tem de servir de abrigo para a experimentação e a expressão de formas de inteligência bem diferentes daquelas promovidas por modelos passados. Um lugar onde o objectivo não se pode resumir a evitar o erro; antes promover o risco, a originalidade, a criatividade.

É muito acertada a observação de Robinson: que o propósito da educação pública em todo o mundo parece ser produzir professores universitários – “são aqueles que saem no topo da pirâmide”. Temos assim um sistema educativo predicado na ideia de “academicabilidade”. Ou seja, as universidades delinearam o sistema à sua imagem – o que reflecte toda uma visão sobre a “inteligência humana”. Aqueles que seguirem os parâmetros estabelecidos, tocarem as teclas certas, obterão sucesso. Um “processo retroactivo de acesso à universidade”.

Mas o mundo muda, de facto, ainda que os sistemas educativos e as academias possam não o fazer. Onde antes uma licenciatura era garantia de emprego, temos hoje uma realidade de inflação académica. Ou seja, as qualificações do sistema vão perdendo adequação a uma realidade económica em que outros valores se sobrepõem.

Sou arquitecto e não um especialista em Educação. Nestas breves reflexões abordei o papel que a arquitectura pode desempenhar para suportar novas ideias e novos modelos para o ensino. Porque na Escola a arquitectura não é tanto um fim mas um meio para consolidar um lugar capaz de albergar as novas funções que se lhe exigem.

Ao fazê-lo, confesso, tenho perfeita noção do distanciamento que este registo de discussão de arquitectura tem perante os critérios de uma análise super-académica da arquitectura. O exemplo de planificação tipológica presente na página da DesignShare é o tipo de coisa votada ao mais completo desprezo – uma espécie de discussão arquitectónica de segunda categoria, de tão básica na sua forma e tão evidente na sua substância. Mas o que me importa dramatizar é a importância em valorizarmos não apenas as manifestações de arquitectura de elite – que nos podem e devem motivar um justo entusiasmo – mas considerar igualmente o alcance da doutrina da arquitectura na elevação de padrões e tipologias. Naquilo que têm de expressão no território vivido pela comunidade colectiva. Da realidade massificada. Na vida de todos.

Um paralelismo que faço muitas vezes ao pensar em urbanismo; ponderar sobre os ideais que deviam estar subjacentes na construção do espaço da comunidade e pensar no vazio doutrinário que se exprime na definição jurídica que temos do que é um passeio, uma rua, um bairro. Uma realidade construída com base em indicadores quantitativos, estritos, despidos de conteúdos morfológicos, de um desígnio para o que se pretende da “cidade”.

Também ao olhar para a nossa Escola questiono que visão se pretende que esta sirva afinal. Escolas, também elas um produto quantitativo, onde se definem salas e gabinetes, mas em que não se alimenta uma visão para o Ensino enquanto plataforma para promover os valores em que se pretende instituir uma ideia de sociedade e construir a nossa capacidade de competir na economia global do conhecimento – em que as pessoas são um recurso inestimável.

Deixo o exemplo de um projecto de ensino promovido pelo Department of Culture, Arts and Leisure – Northern Ireland, com o envolvimento activo de Ken Robinson e intitulado de Unlocking Creativity Initiative:

Unlocking Creativity (1): A Strategy for Development;
Unlocking Creativity (2): Making it Happen;
Unlocking Creativity (3): A Creative Region.

Nela se inscrevem os princípios para um sistema de ensino orientado para a promoção das capacidades de iniciativa individual, na base de uma estratégia de desenvolvimento económico. Também aqui se faz referência ao papel da arquitectura como mais-valia para consolidar um ambiente criativo e estimulante; valores essenciais para a qualidade da aprendizagem. E se estabelecem metodologias para o envolvimento dos arquitectos no desenho das escolas, afinal os lugares de promoção da educação cultural dos jovens.

Independente dos modelos que adoptemos, com estas ou outras prioridades, não podemos descurar o motivo primeiro de tudo isto: que à frente de uma instituição deve estar uma ideia, e que na sua execução deve assentar uma estratégia.
E que, mais importante que tudo o resto, não basta falar a linguagem, é preciso fazer o caminho. “Talk the talk, walk the walk”. Sem um desígnio que a alimente não haverá esperança para a nossa Escola. Mas sem fazer o caminho prático das ideias, de nada servem as mais bem intencionadas teorias, sobre a educação como sobre tudo o resto.
E como diz o coelho da Alice no País das Maravilhas: “é tarde, é tarde”.

Um jardim em cada escola

A Barriga de um Arquitecto feita pelos seus leitores. Fica a participação de Tiago Torres Campos, arquitecto paisagista colaborador do projecto Um Jardim em Cada Escola, falando da necessidade em cuidar dos espaços exteriores dos recintos escolares – uma dimensão diferente mas igualmente importante das preocupações que aqui tenho reflectido. Via email.

Caro Daniel,

Elogio desde já as reflexões que tem feito sobre a Escola em Portugal. Curiosamente este tema, basilar na formação da pessoa, tem sido estranhamente votado ao silêncio. Que significa este silêncio? E mais importante do que isso, como poderá o Arquitecto participar activamente na redescoberta daquilo que é o Parque Escola.

Sou Arquitecto Paisagista e interesso-me bastante pelo tema da Escola, principalmente porque considero que no nosso País há um longo e burocrático caminho a percorrer na sua melhoria. Estou, desde Setembro de 2007, envolvido no projecto Um jardim em cada escola, um projecto pedagógico de carácter ambiental, cujo principal objectivo é a requalificação dos espaços exteriores escolares. A ideia fundamental desta equipa de profissionais não é a simples implementação de projectos paisagistas nas escolas, mas o envolvimentos de todos - crianças, pais, docentes e comunidade - na construção dos espaços que afinal são o principal lugar de brincadeira durante largos anos.

A nossa experiência na divulgação do projecto Um jardim em cada escola, junto de quase trinta escolas públicas e mais de dez colégios privados, na Área Metropolitana de Lisboa, tem sido positiva, sendo a receptividade total e o interesse muito grande. Por parte dos corpos executivos e docentes, dos alunos, dos pais e da comunidade envolvente.

O que nos move é sobretudo a intervenção em escolas públicas, pela urgência na sua recuperação. Embora os recreios sejam, em geral, espaços funcionais para os alunos brincarem e descontraírem, eles são acima de tudo "uma terra de ninguém". Ninguém é responsável, ninguém cuida deles, e ninguém parece ficar realmente incomodado com isso. Encontram-se bastante descuidados, sendo na sua maioria constituídos por pavimentos estéreis e equipamentos obsoletos e degradados. Transformar parte destes espaços em jardins, abre a possibilidade de proporcionar aos alunos, além de uma qualidade ambiental inestimável, experiências interessantes e saudáveis que os aproximem do mundo natural e, por outro lado, tragam esse novo mundo para as salas de aulas.

As crianças e jovens que venham a estar envolvidos neste projecto aprenderão a compreender e a cuidar do ambiente que os circunda, adquirindo conhecimentos e competências de grande valor prático e cívico, que os acompanharão ao longo da vida.

Temo-nos deparado, naturalmente, com problemas na implementação dos projectos, relacionados, por um lado, com a angariação de fundos, e por outro, com a resolução de toda a burocracia junto de todas as entidades que têm uma palavra a dizer sobre a Escola. A minha opinião geral é a de que, ressalvando as pouquíssimas excepções, muita gente tem alguma coisa a dizer sobre a Escola, mas pouca gente quer realmente fazer alguma coisa.

Quero acreditar que esta é uma ideia sólida, pelos objectivos que nos propomos alcançar, pelas preocupações ambientais que caracterizam a nossa geração e por uma genuína componente educacional e pedagógica. Neste domínio muito está por fazer. Um jardim em cada escola propõe-se a começar.

Os melhores cumprimentos,
Tiago Torres Campos

Escola: o exemplo vem de cima

Segue-se a transcrição de um email de Joana Pestana Lages, arquitecta de 29 anos, que partilha a sua opinião e algumas ideias sobre a experiência de renovação de edifícios escolares no Reino Unido.


Kingsdale School, de Rijke Marsh Morgan Architects.

Caro Daniel,
(...) Gostei bastante da reflexão que fez sobre a problemática das escolas. E que escolas queremos nós?
Em Inglaterra existe um programa governamental chamado Building Schools for the Future (BSF). Foram desenvolvidos projectos por Wilkinson Eyre, Sir Norman Foster, Future Systems, entre outros. Entre esses "outros" mais pequenos destaco um, premiado diversas vezes pela RIBA, de Rijke Marsh Morgan Architects, onde trabalhei entre 2005 e 2007.

A primeira grande encomenda que tiveram, fruto de um 1º lugar num concurso, foi exactamente a remodelação de uma escola dos anos 60, a Sul de Londres, no âmbito deste programa. Antes da renovação, os alunos (muitos com desordens de comportamento e/ou problemas de aprendizagem) vandalizavam a escola, melindravam professores, enfim metiam a escola no mapa pelas piores razões.
Agora não só existem estatísticas que provam que os resultados escolares melhoraram consideravelmente, como a postura dos alunos mudou; gostam de estar na escolar e gostam de cuidar da escola. Kingsdale School é tudo isso; lugar de encontro da comunidade, espaço de aprendizagem, espaço para crescer e formar carácter.
Destaco duas razões simples para o sucesso: a realização de um extenso processo de consultoria, onde pais, professores, alunos e toda a equipa projectista foi largamente envolvida, e a procura constante de soluções de projecto que servissem a ESCOLA.

Estas soluções de projecto podem ser encontradas aqui - School Works - de forma expedita, numa simples lista onde se apontam problemas, a visão estratégica escolhida e as soluções encontradas. Sem imagens, ou com poucas, sucinto e directo - uma das boas características dos ingleses. Podem ver um tour virtual da própria escola.
Imagens da escola de música e pavilhão do desporto (Music & Sports Pavillion), último parte do projecto, independente em relação ao bloco das aulas podem ser vistas aqui - thecoolhunter.net. Este atelier vê na utilização de painéis estruturais sólidos em madeira (cross laminated timber) uma solução sustentável. As preocupações ambientais são também um dos principais vectores no desenvolvimento de cada projecto.
Tenho um enorme orgulho por ter trabalhado com as pessoas que tornaram isto possível. Embora o meu contributo tenha sido feito noutros projectos, não pude deixar passar a oportunidade de mostrar um bom exemplo daquilo se faz na Europa, quer através deste programa do governo inglês, quer através da respostas dadas pelas equipas escolhidas.

Acredito que os arquitectos perderam terreno em Portugal. E continuam a perder peso no mundo. Como disse Prince-Ramus na última Icon: it's our own damn fault. Architects have become stylists, people who do window dressing. We're taught to say 'that's my vision' and the client says 'but that's not what I need'. Meanwhile, all the important stuff that has a moral or social agenda, we have no involvement in anymore. That gets carried out by developers.

A juntar ao debate da travessia da ponte, do novo aeroporto, é urgente um debate sobre a instituição da escola entre nós, os "formadores do espaço" que vai formar pessoas. (...)

Este contributo da Joana Lages, a quem deixo o meu agradecimento, sublinha algumas preocupações que julgo importantes - não apenas na intervenção dos arquitectos no campo da arquitectura escolar mas quanto ao papel que gostaríamos de assumir como participantes da construção do espaço social, do espaço colectivo das comunidades em que vivemos. São questões que abordarei em breve, concluindo esta série dedicada ao tema das escolas.