Passou algo despercebida a entrevista de Eduardo Souto de Moura ao Expresso:
«Caiu-se num arraial» - clique para ler na íntegra.
Com assertividade e alguma ironia que lhe é habitual, Souto de Moura percorre vários problemas da arquitectura particulares à nossa situação portuguesa. A sua voz junta-se à reflexão que se vem fazendo por outros profissionais manifestando perplexidade para com a política legislativa dirigida para a preservação e recuperação dos centros históricos. Como conciliar as qualidades históricas dos velhos centros com as necessidades práticas da vivência contemporânea – com repercussões ao nível da oferta e da procura, em cujo apelo de mercado depende em parte o sucesso dessas mesmas políticas na sua participação privada? O arquitecto portuense propõe algum pragmatismo na necessidade de introduzir novas funcionalidades em tecidos urbanos antigos – uma mediação de interesses que se revela, por vezes, um pouco dramática mas sobre a qual importa reflectir sem dogmas que persistem em defender a paralisia e a musealização da cidade, espécie de negação da vida transformadora que sempre existiu e de que dependerá sempre a sua existência futura. Mas não deixa de sublinhar a necessidade de rigor numa intervenção historicamente esclarecida, fazendo prevalecer os valores materiais e um sentido genuíno da construção naqueles lugares em que está em causa a sua identidade patrimonial.
Abordando as implicações da crise no sector da construção e as nossas particularidades de mercado faz também o justo levantamento das difíceis condições de trabalho dos arquitectos, com evidente gravidade sobre os profissionais mais jovens que se vêem submetidos a exigências de sobrevivência degradantes.
Em conclusão, Souto de Moura aponta baterias sobre a mentalidade com que tanto no sector público como privado se considera o papel do projecto como parte de um mais vasto processo de implicações económicas. A sua resposta à pergunta “o que é necessário mudar na arquitectura” expõe de forma crua várias questões pouco aprofundadas num debate sério de âmbito nacional. Passa por aqui toda uma envolvência cultural que menospreza o lugar do projecto como fase crucial da boa gestão de custos de qualquer empreitada – uma fase que se pretende cada vez mais esmagada nos custos e nos tempos, em desprezo daquilo que deviam ser boas práticas aceites em qualquer país desenvolvido. Um desprezo que tem implicações graves, ainda para mais no caso da obra pública, onde a rapidez se torna sinónimo de fraco rigor, nulo espaço de participação pública e desvios financeiros na fase de construção. Mais grave ainda: décadas de persistência nas más práticas não parecem reproduzir qualquer efeito de ponderação, qualquer estímulo jurídico ou cultural no sentido contrário.
São problemas vários que vão persistindo e que, lamentavelmente, acabam por não repercutir sobre o nosso espaço profissional ecos de um maior debate. Pior que os vazios urbanos serão estes vazios humanos em que vivemos – ausência de espaço público, défice de cidadania, diversos nomes para um estranho fenómeno que tem na sua representação mediática – e também bloguística - uma espécie de vácuo engolidor de qualquer consequência dos factos e das ideias.

O que é necessário mudar na arquitectura?
O problema número um para mudar: não se pode continuar a fazer projectos com os prazos que os clientes nos impõem. Não é que não se consiga, o que se faz é mau. Copia-se tudo lá de fora, por que não se copia isso? Por exemplo, um projecto importante, num sítio importante, onde todos vão ver durante anos, que vai afectar muita gente, que custa muito dinheiro, e cá dão-nos um prazo de três ou quatro meses? Tudo atabalhoado. Depois diz-se: a obra resvalou. Uma mentira. O Estado e os clientes gostam de mentir a eles próprios. O português gosta de ser o 'chico esperto'. A arquitectura é uma arte social que desenha espaços, mas a coisa mais importante para desenhar espaços é o tempo. É mais importante o tempo na arquitectura que o espaço. E lá fora, os projectos demoram o que for preciso, um ano, dois. E, se forem coisas complicadas em sítios públicos muito importantes, levam três anos, porque há um período de debate com maquetas, todas as câmaras têm um "stand" com os novos projectos, as pessoas fazem sugestões, vêm os partidos, as juntas de freguesia e o arquitecto vai anotando e mudando. E quando está tudo decidido, a construção é muito cara e então é tudo detalhado ao milímetro e ninguém pode falar, nem o arquitecto pode ir à obra para não baralhar tudo. E a obra tem de andar muito rapidamente, seis ou sete meses. Aqui é ao contrário. Ou há eleições, ou porque vai chover no Inverno e é preciso começar no Verão, ou porque vamos perder a verba da UE, os projectos são mal feitos. E como são mal feitos, têm pouca informação, levam o dobro do tempo. Depois há improvisos e isto dá um dispêndio de energia e financeiro brutal. E o Estado tem de dar o exemplo e não pode entregar obras de arquitectura por concurso ao mais barato, que é o que faz. O Estado tem de exigir o número de peças, de desenhos e de informação que estava legislado pelo Ministério das Obras Públicas (MOP) e que neste momento liberalizou - cada um entrega e leva o que quer. Chegando ao ponto de me pedirem para fazer um palácio da Justiça e perguntarem quanto levava. Eu respondi: levo de acordo com a tabela do MOP. E disseram-me: mas o Ministério da Justiça não segue a tabela do MOP, queremos 20 a 30% de desconto. A partir daí estava tudo dito. Não aceitei fazer o projecto por uma questão de princípio, nem era pelo dinheiro. Quando chegamos ao ponto em que o próprio Estado mente a ele próprio, não vale a pena. Este é o problema principal, porque isto degrada. Porque as pessoas gostam de fazer arquitectura, submetem-se a condições incríveis, e como não são super-homens nem super-mulheres, os projectos sofrem e nem sempre são bem feitos. Por isso também estou na Ordem dos Arquitectos porque tem de existir uma nova legislação e vai ser muito difícil. Por exemplo, a Europa liberalizou e a Bélgica não aceitou este estatuto e levou uma repreensão da Comunidade Europeia. Os arquitectos andam entusiasmados com as formas e pensam pouco nisto, mas acho que é fundamental arrumar a casa. O cliente, os bancos, as pessoas que têm dinheiro, os construtores, os projectistas, estabelecem as regras do jogo. Com um baralho de cartas posso jogar à sueca, bisca ou canasta, mas tenho de saber o que vou jogar. E eles também. O importante são os projectos serem mais bem pagos, até já me contento com a tabela existente, mas que seja aquela, e a seguir tem 10 a 20 páginas a dizer: pagando este tanto, o projectista terá de fazer isto, isto, etc, e de certeza que os projectos ficam melhor. Os projectos são divididos em quatro fases: programa base, estudo prévio, anteprojecto e projecto de execução. Obriga a revê-los quatro vezes, a fazer maquetas quatro vezes e, nas últimas duas fases, a entregar orçamentos e saber na fase final se o projecto fica muito caro ou barato e rectificar para melhorar. Ontem pediram-me para fazer um projecto num mês. Não merecemos isto. A questão do tempo dos projectos é o principal. E há outras coisas que se arrastam, como por exemplo ter-se uma tabela e ser-se melhor remunerado. Porque, no fundo, os arquitectos não falam muito nos honorários, mas eu falo muito. Porque como me reduzem o tempo, e como é pouco tempo, mesmo que o pagamento seja mau, dá ela por ela. Mas não pode ser...
[Eduardo Souto de Moura, arquitecto, em entrevista ao Semanário Expresso]
The Portuguese likes to be the “smart-ass”
A recent interview by architect Eduardo Souto de Moura sheds a light on several issues relevant to the Portuguese architectural practice - click to read full interview (Portuguese text only).¶ Read the rest of this entry
There’s a good amount of misunderstanding towards his ideas on creativity, as something that refers specifically to the realm of Arts. Robinson emphasises the importance of creativity in all areas of human intelligence – creativity as a manifestation of intellectual complexity, an ability to make connections between learned references and individual experiences. Something that’s in fact not so much a talent but a learned ability to solve problems. Creativity should not be perceived as a mysterious art to be practiced only by the most gifted minds, but a thinking tool that allows for the connection of ideas through an open process of reasoning.
PART TWO: Schools killing creativity? – Riz Kahn interviews Ken Robinson for Al Jazeera English.
Ken Robinson speaks about the need to raise standards and introduce a whole new approach towards the assessment of creativity, stating that school systems don’t need to be reformed, they need to be transformed. Our collective failure to promote creative capacities is a tragedy for the future of our economies; something that we should all realize we just can’t afford.
Via Core77, Designverb.