O que vemos nestas imagens? O acto heróico de um jornalista que não hesita em despir a sua condição profissional para se tornar parte dos eventos que testemunha? Ou a transferência do olhar jornalístico sobre um drama real para a interposição de uma súbita narrativa de reality-tv?
Não está em causa questionar a coragem e o gesto genuíno de Anderson Cooper e a sua acção resoluta em auxílio de um rapaz ferido numa escaramuça urbana. E não estará em causa a filmagem do acto em si, captada pelo operador de câmara no decurso de uma reportagem sobre actos de pilhagem num bairro de Port-au-Prince. A questão coloca-se no sentido editorial daquele breve episódio em toda a sua dimensão icónica. Entendamos, são imagens que poderemos inscrever desde já na galeria de momentos importantes do jornalismo do ano que ainda agora se inicia. E talvez nenhuma televisão do mundo deixasse de passar aquela sequência, como vem sendo repetida na CNN, sem que se sobreponha uma devida contextualização dos factos e dos seus intervenientes. Sejamos francos: nós queremos ver aquelas imagens e, pior, gostamos de ver aquelas imagens. Mas no momento em que o jornalista se torna no centro do drama – e se escolhe, na posterior montagem, como motivo da notícia – levantam-se vários problemas. Deixamos de estar no plano da grande reportagem para entrar no domínio do reality journalism. Para compreendê-lo importa ver a reportagem integral de Anderson Cooper, que começa por contextualizar as pilhagens a que assistimos e a situação dramática que lhes dá sentido. Mas quando ele se torna participante activo introduz uma espécie de clímax narrativo, em que ele se torna personagem central do evento e aquele jovem se reduz a figurante secundário. Afinal, o que sabemos nós sobre ele? O que faz ele ali e para onde é levado a seguir? E em que contexto entendemos aqueles actos, na fronteira da marginalidade oportunista ou do desespero da carência absoluta?
I love Anderson Cooper * isn't he sexy? mmhmmm:)
Via Twitter.
Assistimos assim ao poder de um momento decisivo que parece dar sentido ao drama mas que introduz sobre ele uma dimensão de natureza ficcional. Ou seja, estamos no domínio do grande plano emocional ou, no caso concreto, de um jornalismo que despreza que aqueles eventos se inscrevem numa dimensão maior – e que a vida daquelas pessoas continua muito para além do breve instantâneo de reportagem. E que não nos pode fazer perder o foco sobre o pesadelo logístico que é a situação no terreno, com a transferência de quatrocentas mil pessoas sem casa para fora da capital, e o esforço de inúmeras agências de apoio internacional que tentam garantir a todo o custo um fio de suporte de vida em mantimentos, medicamentos e segurança.
Um motivo de reflexão, distante mas com paralelismo considerável, que vale a pena aprofundar relembrando as palavras de James Reston, Jr., citado no filme Frost/Nixon, a propósito do poder redutor da imagem. Trata-se de interrogar o papel da televisão – e do jornalismo em televisão – enquanto espelho ilusório da verdade. Estamos afinal na presença de um poderoso mecanismo de simplificação da realidade complexa num instantâneo simbólico que a sintetiza. Em boa verdade, importa continuar a questionar os veículos da comunicação enquanto promotores da cultura da imagem em que vivemos.
You know the first and greatest sin of the deception of television is that it simplifies; it diminishes great, complex ideas, trenches of time; whole careers become reduced to a single snapshot. At first I couldn't understand why Bob Zelnick was quite as euphoric as he was after the interviews, or why John Birt felt moved to strip naked and rush into the ocean to celebrate. But that was before I really understood the reductive power of the close-up, because David had succeeded on that final day, in getting for a fleeting moment what no investigative journalist, no state prosecutor, no judiciary committee or political enemy had managed to get; Richard Nixon's face swollen and ravaged by loneliness, self-loathing and defeat. The rest of the project and its failings would not only be forgotten, they would totally cease to exist.
James Reston, Jr., citado no filme Frost/Nixon.









The technological advancements in digital imagery have now made everything virtually, quite literally, possible. And still, for the generation that grew up watching the flying bicycles in E.T. and the archaeological adventures of one mister Henry Walton Jr., aka Indiana Jones, something may feel lost in the process. A sense of reality drawn from the physical representation of space as captured through visual storytelling and metaphor. Something entirely misplaced in many current productions, as in the digitally overdosed misadventure of Indy in The Kingdom of the Crystal Skull.
Avatar is very much centered on the recreation of a physical atmosphere. We are introduced to the splendid and hostile landscape of Pandora, an alien paradise depicted in full 3Delicious glory. For a film so overloaded with digital technology, James Cameron has the merit of never underestimating the material dimension of its environment. And still, with all its epic backgrounds, the finest moments in Avatar lie in Jake Sully’s intimate dreamlike experience: «Sooner or later though, you always have to wake up», says Jake as he begins to question where his true nature lies. The complexities of this transition – the blurry boundary between the human and the alien experience – regrettably, never fully become a main theme with visual, cinematic, implications. The digital hyper-realism of Pandora takes its toll on a desirable abstraction of the eye. Technology takes central stage over a more subjective and humane mise-en-scène.
Now, I’m a sci-fi nerd and I would recommend Avatar to everyone. It’s just so compelling at what it’s good at. It’s a film driven by passion for its world and characters, making no concessions to fully explore the many details of Na’vi culture, language and religion. It may have its shortcomings but, while it rolls, it’s a feast of popular cinema and one of the most imaginative cinematic experiences I can remember. Here is the kind of megalomaniac extravaganza that comes but once in a decade. And if you know what it was like watching a Star Wars movie as a kid, well then, you know that feeling.