Comecei a escrever este blogue, há dez anos, com uma citação de Richard Feynman:
Podemos saber o nome de um pássaro em todas as línguas do mundo, mas no fim, não sabermos nada sobre esse pássaro... Por isso, vamos olhar para o pássaro e ver o que ele está a fazer – é isso que interessa. Eu aprendi bem cedo a diferença entre saber o nome de algo e saber algo.
Sempre me intrigou a forma como construímos as nossas ideias. Aquele lugar
por defeito de onde todos partimos com as nossas certezas, tudo aquilo que pensamos saber, tudo aquilo que lemos algures, e de como todas essas certezas nos afastam do mundo. Recordo outra das citações favoritas deste blogue, uma passagem de
Terre des Hommes de Exupéry, que
mais depressa nos ensina a terra do que todos os livros. Porque nos resiste.
Não sei se escrevo bem, tantas são as vezes em que tropeço nos meus próprios erros, mas sei que escrevo muito melhor do que há dez anos. Hoje não publicaria mais de metade dos textos de então. Hoje não pensaria sequer as mesmas coisas. O blogue mudou-me, e a vida com ele, e com o passar dos anos tornei-me
blogger.
Em tempos pensei na vergonha que seria estar ainda a fazer isto a anos de distância. Hoje imagino que se me deixarem um tablet nas mãos estarei, daqui a umas quantas décadas, a blogar, ou talvez já a
youtubar, do lar. Com ou sem retorno, com mais ou menos leitores. Se os blogues existem para estabelecer ligações, aprendi também que não existem para chegar a toda a gente. O público que importa é uma pessoa apenas.
Por fim, se existiu um fio condutor nestes dez anos de escrita foi a vontade de traduzir pelas palavras um olhar lúcido sobre as coisas. Falhei redondamente, tantas vezes. Mas o blogue ensinou-me a desconstruir todo um modo de falar, escrever e, acima de tudo, pensar, que se cola a nós como uma segunda pele na passagem pelos corredores da academia. Por vezes, não há maior inimigo da arquitectura do que as palavras.