Arquitectura à Moda do Porto



Arquitectura à Moda do Porto é uma série que dá a conhecer um olhar irreverente sobre obras de arquitectura emblemáticas das últimas duas décadas da cidade invicta. São dez episódios para descobrir no sítio web deste projecto criado pelos arquitectos Filipa Figueira e Tiago Vieira, em colaboração com a Building Pictures.

A equipa pretende dar continuidade à iniciativa estando actualmente à procura de parceiros para estender o conceito a outras cidades. Uma forma interessante de estimular o interesse não só de arquitectos mas do público em geral pelo gosto da arquitectura através de pequenas curtas metragens, leves e divertidas, com uma forte relação com a música. Mais informações disponíveis através do Facebook.

Chicotada na mediocridade



Um jovem baterista frequenta o mais reputado conservatório de Nova Iorque alimentando o sonho de se tornar um músico de jazz fora de série. É então que um mítico mas temível professor o selecciona para fazer parte da banda da escola, dando-lhe a conhecer um tortuoso caminho de aprendizagem que exige, literalmente, suor, lágrimas e até sangue, acabando por subjugar todos os outros aspectos da sua vida e comprometer a sua própria sanidade.

Dirigido por Damien Chazelle, um cineasta de apenas trinta anos, Whiplash é um autêntico extraterrestre na lista de candidatos para os Óscares. A sua enérgica realização conta com o confronto de representação entre Miles Teller – actor revelação do excelente The Spectacular Now – e um assombroso J.K. Simmons no papel do professor, tendo alcançado a nomeação para o Óscar de melhor actor secundário.

O filme não é alheio a alguma controvérsia pela violência imposta pelo professor aos seus alunos. As suas aulas são um espectáculo catártico de abuso verbal, encenações distantes da realidade do ensino musical mas que ensaiam, com grande teatralidade, o custo pessoal que pende sobre aqueles que se entregam ao caminho da verdadeira excelência. Não está assim em causa legitimar a brutalidade do seu comportamento – ele próprio acaba por revelar uma consciência pesada ao mentir sobre a causa da morte de um ex-aluno, numa cena crucial do filme, e a história não foge a mostrar-nos tudo aquilo que é deitado a perder quando se persegue uma obsessão.

Mas Chazelle foge a resolver a “moral” da história ao espectador. O seu filme acaba por revelar-se um tributo a todos aqueles que entregam a sua vida em busca da perfeição, tornando este mundo um lugar melhor com a dádiva da sua arte. A verdade de Whiplash transcende afinal o campo musical para se tornar universal. A grandiosidade só está ao alcance daqueles que se dispõem a pagar o preço da sua paixão em muitas horas de trabalho e empenho, seja no jazz ou em tantas outras formas de expressão humana. Um dos grandes filmes do ano, entusiasmante e provocador, para ver e discutir durante horas a fio.

Tiro ao lado



Será injusto acusar Clint Eastwood de alimentar uma visão bidimensional sobre a guerra. Falamos do autor de um díptico da Segunda Guerra Mundial – Flags of our Fathers e Letters from Iwo Jima – que se propôs evocar os dois lados de um mesmo conflito armado num exercício sem paralelo na história do cinema.
American Sniper não beneficia dessa multiplicidade de pontos de vista. Pelo contrário, o filme começa exactamente por convocar a perspectiva subjectiva que condiciona todo o percurso da sua personagem. Numa das primeiras cenas do filme Chris Kyle, o atirador interpretado por Bradley Cooper, é confrontado com a decisão difícil de abater uma criança. A sequência marca o trajecto sem retorno para todos os que vivem a brutalidade do cenário de guerra. Acima de tudo, Clint Eastwood sublinha desde o início a ambiguidade cruel do conflito que compromete a metáfora definidora da natureza de Kyle – um cão pastor que protege as ovelhas dos lobos. Mas quem se atreve a dizer quem são afinal os lobos e as ovelhas nesta história?

Como retrato dos efeitos psicológicos da guerra American Sniper começa por se revelar um objecto de invulgar complexidade, dando a conhecer os motivos que levam alguns homens a voltar ao combate em múltiplas jornadas de serviço. Kyle não regressa ao Iraque em busca de aventura mas, pelo contrário, pela compulsão maior de um sentido de defesa para com seus companheiros. Pouco vulnerável a estados de alma, encontrando justificação para os seus actos num necessário sentido de dever, Kyle é alguém que não verbaliza o processo psicológico que atravessa – na verdade, não está sequer consciente do que lhe está a acontecer. O desafio notável da representação de Bradley Cooper é exprimir esse processo não através da exposição mas da supressão de emoções, revelando-nos um homem incapaz de regressar a uma normalidade que ele próprio se tornou incapaz de compreender.

As fragilidades de American Sniper tornam-se no entanto evidentes no modo como se revela incapaz de confrontar os demónios que ele próprio invoca. Apresentando-nos a dinâmica interior conturbada da sua personagem, o filme carece de uma resolução também ela psicológica. Lamentavelmente a narrativa acaba por se centrar no duelo entre Kyle e um atirador iraquiano, enredo fictício enfatizado por Steven Spielberg numa das revisões do argumento aquando do seu envolvimento na produção, numa altura em que ponderava ainda realizar o filme.

Esse fio narrativo contamina de forma irremediável as motivações da personagem central, colocando em primeiro plano o confronto da acção e desvalorizando o processo mental que torna o regresso tão difícil. A tempestade de areia que marca a resolução narrativa assume-se assim uma metáfora terrivelmente ambígua. Resolvido o conflito, tudo se apaga? Kyle parece por fim apaziguar-se com os actos cometidos, votando a crua realidade daquele país em conflito a uma mera decoração de fundo da sua viagem.

Como nos lembra Brian Turner, veterano da guerra do Iraque e autor do livro My Life as a Foreign Country, o problema de American Sniper é também o problema mais vasto da América no modo como vê o mundo. Que, em American Sniper, os iraquianos, homens, mulheres, crianças, existem e são definidos apenas na sua relação com o conflito e no risco potencial que representam. As suas vidas interiores são uma folha branca; em boa verdade, não chegam a ser pessoas – e se a sua humanidade fosse reconhecida, ruiría a narrativa mental que permite ao herói cavalgar por fim, em paz, em direcção ao horizonte.

Clint Eastwood acaba por nos trazer uma obra que se parece perder na sua própria ambiguidade, comprometida que fica na vontade de afirmar Chris Kyle como um herói americano – condenando-se assim a dividir plateias entre os que o acusam de patriotismo cego, por um lado, e os que aplaudem o tiro decisivo da narrativa por outro. Talvez o filme beneficiasse em providenciar uma perspectiva mais vasta, dando a conhecer o homem na sua verdadeira dimensão, com os seus defeitos e as suas virtudes, as suas motivações e circunstâncias, revelando-o simplesmente humano e deixando o resto para a audiência.

De acreditar



As pessoas precisam de esperança. Precisam de acreditar numa visão, num projecto que prometa um futuro melhor para si e para as suas comunidades. Os países Europeus ofereceram em tempos esse sentido de esperança. Mas a crise, e a resposta oficial a ela, trocou a esperança pela frustração e pelo desencanto.

– Javier Solana: Europe’s Jihadi Generation; Social Europe

Javier Solana escreve sobre a geração da Jihad da Europa. É sempre bom quando encontramos ecos daquilo que pensamos nas palavras daqueles não comprometem a sua humanidade para defender os seus próprios valores. Para ler no sítio web Social Europe, uma página que vale a pena conhecer e acompanhar.

Lembrete



É já depois de amanhã! Mais informações aqui.