O rasto da Troika



Tenho vindo a partilhar algumas das entrevistas que Harald Schumann realizou aquando da preparação do seu documentário «The Trail Of The Troika». Está agora finalmente disponível na versão inglesa com legendas em português (acessíveis através do menu do YouTube na barra inferior).



Um testemunho importante para compreender o processo de sobreendividamento que teve lugar em países como a Grécia, Portugal e Irlanda e o enquadramento financeiro e político que determinou a actuação das instituições europeias e do FMI no resgate a estes países.

O académico



Yanis Varoufakis vem-se revelando como um dos mais lúcidos e pertinentes pensadores do que é hoje a Europa e da encruzilhada em que vive o velho continente. Num discurso que apresentou recentemente numa conferência em Berlim deixou um novo e poderoso testemunho desta União dividida por uma mesma moeda, mantida agora não por um qualquer desígnio colectivo mas apenas pela força das dívidas.
No entanto, pese embora o contributo que vem dando para despoletar um debate alargado sobre as causas da crise da dívida pública na Europa e as escolhas que se devem colocar no plano político, Varoufakis é tratado como uma caricatura por grande parte dos media europeus e também em Portugal.

O conflito político que hoje divide o governo grego e as instituições europeias é também retratado nos meios de comunicação e opinião com um penoso simplismo. Mesmo esses cinco por cento da população tida como "cidadãos diferenciados”, espectadores frequentes dos canais de informação por cabo que ocasionalmente até lêem jornais económicos, papagueiam a narrativa superficial em que vivem submersos, reféns de uma visão pré-concebida e acrítica assente em pressupostos maniqueístas quanto à real natureza da crise, quanto ao funcionamento e às consequências do modelo monetário em que laboraram as economias do Euro até à crise 2008/2010 – um modelo que, diga-se, em nada mudou até aos dias de hoje.

Os que avançam o argumento tantas vezes repetido de que a Grécia falida precisa do dinheiro dos contribuintes Europeus para suportar as suas políticas sociais deviam fazer um esforço em tentar compreender que o contexto monetário europeu não é uma lei natural, uma força da natureza "inevitável" como a gravidade, mas o resultado de um modelo instituído com regras – e assim procurar compreender que regras são essas.

Compreender, por exemplo, a relação directa entre a criação de dinheiro e a dívida; o papel e o envolvimento que a banca europeia (maioritariamente alemã e francesa) teve nas políticas de expansionismo que a Grécia conduziu (tal como Portugal e Espanha) até finais da década passada. Ou como pode hoje o BCE criar do nada um bilião (um milhão de milhões) de euros numa ambiciosa operação de quantitative easing para compra de títulos de dívida pública junto da banca comercial, mas que essa mesma Europa não se pode empenhar num programa de financiamento da economia europeia ou na implementação de um mecanismo alternativo de gestão das dívidas públicas dos países do Euro que não os coloque na dependência de financiamento directo junto da banca privada.

Deviam, por outro lado, compreender o que foi o processo de resgate grego. Recomendo a entrevista que Harald Schumann fez a Philippe Legrain, ex-consultor de Durão Barroso na Comissão Europeia, que dá conta, de forma desassombrada, dos verdadeiros contornos daquilo que foi imposto ao governo grego em 2010. Deveriam aliás relembrar-se que a Troika se encontra na Grécia há cinco anos e ajuizar quanto aos resultados económicos e sociais das políticas que ali foram conduzidas por imposição externa.

A verdade é que a “Europa” não é mais um agente neutro. Exemplo flagrante desta realidade é a forma como o "apolítico" BCE retirou de imediato o reconhecimento da dívida grega como garantia nos empréstimos à banca do país, no dia 4 de Fevereiro, uma semana depois da vitória de Alexis Tsipras e no dia em que se iniciavam as conversações do seu novo governo com os parceiros europeus. Um acto que nada tem de apolítico – pelo contrário, tratou-se de uma medida claramente hostil. Dizer também que a fuga de capitais – que de resto é uma constante desde 2010 – pode ser imputada ao actual governo grego, ou que a instabilidade ali criada é da sua exclusiva responsabilidade, é nada mais do que uma dolosa deturpação da verdade.

No entanto, apesar desta complexidade de circunstâncias, é esse discurso simplista da austeridade versus anti-austeridade que vingou nos principais meios de comunicação. A barragem da propaganda tornou-se o principal obstáculo a uma discussão lúcida sobre de onde viemos, o ponto em que estamos e os caminhos que poderíamos, em conjunto, prosseguir na Europa. A cidadania avançada é todos os dias destruída por esse pensamento binário reinante, movido pela força da opinião fácil e do soundbyte.

Perante tudo isto, em boa verdade, talvez o principal defeito político de Yanis Varoufakis tenha sido o de se tratar primeiramente de um académico. E talvez o seu grande erro tenha sido, por isso mesmo, a ingenuidade de acreditar que a razão dos factos e dos argumentos seria suficiente para demover tal demagogia.
O que é afinal um académico senão alguém para quem a razão acabará sempre sobrepor-se ao erro e à falsidade. Terá Varoufakis pensado que avançar uma tese sólida – uma análise racional da situação vivida no seu país sustentada em factos e números – perante os seus parceiros do Eurogrupo seria suficiente para provocar uma resposta igualmente racional em busca da solução para esses problemas?

O drama, afinal, é que os parceiros europeus não se revelam sequer disponíveis para ir a jogo em tais termos. As agendas políticas dos diferentes governos e das “instituições” sobrepõem-se a qualquer hipótese de reflexão racional, colaborativa e construtiva, baseada no reconhecimento dos factos. A resposta assentou sistematicamente no discurso vago dos “princípios” e na imposição de programas de duvidosa legitimidade e confirmada ineficácia. No meio de tudo isto estão os cidadãos gregos, mero dano colateral cuja realidade vivida é irrelevante para os que habitam em tais círculos.

A Grécia não encontrará assim qualquer solidariedade entre os actuais parceiros europeus. “Redesenhar a união monetária”, como vem invocando Varoufakis, careceria de um consenso quanto às origens do problema estrutural do Euro. Nada mais distante da agenda das instituições europeias e do Fundo Monetário Internacional – uma agenda escondida dos discursos públicos mas escrita na pedra dos “memorandos de entendimento”: desregulação das leis laborais, redução do rendimento do trabalho, privatização de sectores de interesse público (infra-estruturas, energia, água, etc), limitações à soberania nacional na legislação financeira e relações comerciais, e por aí fora.

O académico Varoufakis não encontrará interlocutor entre tais parceiros. A mais medíocre geração de políticos “moderados” da Europa, capturados e subservientes, está a falhar tragicamente, abrindo a porta para a ascensão dos extremismos que navegarão as ondas do descontentamento com populismo e ainda mais demagogia.
Esquecidas que estão as lições repetidas da História, poderá a Democracia ainda assim encontrar o seu caminho? Talvez, surpreendentemente, para lá de todas as probabilidades, sim. E talvez esse caminho esteja a iniciar-se agora mesmo, nestes estranhos dias, ali onde tudo começou.

Derelict



A remontagem de filmes coloca questões tão interessantes quanto controversas. Como lidar, por um lado, com a apropriação de trabalhos com chancela autoral, muitas vezes de forma amadora e genuinamente desinteressada no plano comercial, mas violando regras estabelecidas de direito de autor. Por outro, como ignorar a pertinência que tais exercícios podem ter, pela possibilidade de revisitar e repensar obras passadas e contemporâneas, trazendo-as de novo à reflexão e ao debate público.

Partilhei aqui no blogue bem recentemente a reedição do clássico 2001: Odisseia no Espaço remontada por Steven Soderbergh, entretanto retirada da internet a pedido da família de Stanley Kubrick e do estúdio que detém os direitos do filme. É, no entanto, tão só o caso mais visível de uma actividade que vai ganhando dimensão entre estudantes e entusiastas da cinefilia, sabendo-se que existem remontagens de filmes tão conhecidos como a trilogia da Guerra das Estrelas (episódios 1 a 3), a trilogia The Hobbit ou a série Matrix (Reloaded + Revolutions), para dar apenas alguns exemplos.

Eis que nos chega agora Derelict, uma remontagem que conjuga Prometheus e Alien, transformando-os numa obra única de cerca de duas horas e meia de duração. Retirando a Prometheus cerca de meia hora de filme – incluindo algumas das suas passagens mais frágeis – e intercalando-o com a narrativa do clássico de ficção científica de 1979, Derelict revela a cinematografia de Ridley Scott em todo o seu esplendor, surpreendentemente enfatizada com recurso a um solene preto e branco.
Uma curiosidade cinematográfica que vale a pena descobrir, sendo certo que deverá ficar indisponível muito em breve. Para ver, aqui.

Adenda: infelizmente o vídeo foi retirado da internet poucas horas depois da publicação deste texto sob a alegação de violação de direitos de autor.

Habitar Portugal 12-14



É hoje lançada uma nova edição do Habitar Portugal, uma iniciativa promovida pela Ordem dos Arquitectos que pretende dar a conhecer uma selecção de obras construídas por arquitectos portugueses que, pela sua relevância, sejam representativas do panorama da arquitectura em Portugal.
Esta edição irá acolher obras concluídas entre 1 de Janeiro de 2012 e 31 de Dezembro de 2014, em território nacional e também no estrangeiro.

Num tempo de crise interna profunda, em que os arquitectos são obrigados a repensar, tantas vezes em circunstâncias adversas, a sua forma de viver a profissão, torna-se ainda mais relevante fazer um retrato da arquitectura portuguesa contemporânea que faça reflectir os efeitos de uma tal conjuntura e o seu significado, presente e futuro. Este é também um tempo de esbatimento de fronteiras, marcado pela forte emigração dos mais jovens, que importa registar nas suas muitas dinâmicas, porventura contraditórias, mas que não deixarão de marcar a herança destes anos difíceis. Um retrato que não deixará de dramatizar o papel de resistência que continuará a marcar o trajecto dos arquitectos portugueses, dentro e fora do país.

O lançamento da edição Habitar Portugal 2012-14 é marcado pela abertura de um novo sítio web oficial, bem como pela sessão pública de apresentação que tem lugar hoje às 18h00 na Carpe Diem, Rua de O Século 79 (Bairro Alto), em Lisboa, com a presença do Presidente da Ordem dos Arquitectos João Santa-Rita e com os comissários da presente edição. A sessão será acompanhada por um debate que pretende colocar em perspectiva o momento que a arquitectura atravessa em Portugal e o modelo da iniciativa, através da reflexão e comparação pela voz de comissários de cada uma das edições desde 2003.

O Habitar Portugal 12-14 pretende ser um olhar sobre a produção arquitectónica portuguesa do último triénio a partir de um ponto de vista que articula duas ideias fundamentais. A primeira decorre do momento que o País vive a que, presumimos, a produção de arquitectura não será alheia. O tema proposto - está a arquitectura sob resgate? - estabelece desde logo um contexto onde situar as obras e um enquadramento para as poder ver e analisar. Acreditamos que este é o pano de fundo do espaço onde, ao longo deste tempo, acontecem as práticas arquitectónicas em Portugal cuja maior ou menor presença o HP vai tratar de analisar.
O Habitar Portugal é uma selecção, uma escolha das obras de arquitectura que, a partir de vários programas, lugares, escalas ou condições, se consideram desde o ponto de vista de cada um dos seus comissariados, exemplares, no seu tempo e na sua condição. Esta é a quinta edição do Habitar Portugal o que significa que esta iniciativa acumulou um acervo de cerca de 400 obras ao longo de 15 anos de existência que deve ser valorizado. Os registos desse acervo permitem-nos hoje estabelecer pontos de comparação com a situação actual, as potenciais transformações na prática projectual ou edificatória afectada pelas condições de austeridade e escassez provocadas pelo resgate da Troika. É essa a segunda ideia fundamental, trazer à luz um palimpsesto que resulta das obras que fizeram parte das quatro edições anteriores e assim encontrar os registos que o lastro que elas deixaram faz emergir em contraste ou continuidade com o momento que vivemos. Crise, resgate e palimpsesto são as marcas da condição actual, estão presentes no quotidiano e na paisagem do país onde hoje vivemos. Que impacto têm na arquitectura em Portugal?


Via Habitar Portugal.

Sinais de Fogo – ciclo de debates



Está a decorrer o ciclo de debates Sinais de Fogo, uma iniciativa promovida pelo centro de artes transdisciplinares O Espaço do Tempo sob a direcção de Rui Horta e Ana Sousa Dias.

São conversas de periodicidade mensal que têm lugar no Convento da Saudação em Montemor-o-Novo, sempre numa manhã de sábado. A próxima sessão tem data marcada para dia 23 de Maio sob o tema «A Loucura das Religiões», contando com a presença de Frei Bento Domingues, Joana Carneiro e Carlos Fiolhais. O calendário completo pode ser consultado no sítio web oficial do projecto, onde podem também ser visionadas as gravações vídeo dos eventos anteriores.



Fica o registo para a mais recente sessão, com o título «Turbo-capitalismo», com João Ferreira do Amaral, partilhando a sua visão sobre a actual circunstância de Portugal na Europa e no contexto da moeda única.