Coisas que aprendi a escrever um blogue


Image credits: Oliver Jeffers.

Se a subjectividade é uma qualidade que, em grande medida, devemos celebrar, importa ter em conta que o uso recorrente da primeira pessoa na validação de um argumento é nada mais do que um atalho de pensamento. Era esta a ideia central da anterior reflexão Autobiografia de um pequeno ego, escrita a propósito do simplismo que predomina sobre o exercício da opinião publicada nos meios de comunicação social.

Uma das coisas que aprendi a escrever um blogue ao longo de uma década foi a identificar e corrigir algumas patologias de escrita. A mais recorrente é porventura o uso inadvertido da primeira pessoa do singular como mecanismo de auxílio retórico. Raros são hoje os momentos em que aplico esse tempo verbal e, nas circunstâncias em que tal sucede, correspondem sempre a uma opção reflectida e deliberada.

Existe um forte motivo para tal. É inteiramente diferente produzir reflexão sobre um tema, seja ele qual for, aplicando ou omitindo a primeira pessoa do discurso. Esse facto é particularmente relevante quando o objecto que merece a nossa atenção não diz respeito à nossa experiência de vida, como seja uma opinião sobre questões de sociedade ou política, quer se trate de um tema controverso ou até de uma crítica a uma figura pública.

A introdução da primeira pessoa no discurso permite validar e enfatizar uma opinião a partir de nós próprios, invocando, para tal, os sentimentos que tais temas nos suscitam. Podemos certamente abordar questões complexas como, por exemplo, o casamento e a adopção homossexual, a interrupção voluntária da gravidez ou a morte assistida, recorrendo, para tal, dos juízos éticos, morais ou meramente emocionais que elas nos evocam.

Ao fazê-lo, o autor estará a esquecer-se que a sua experiência de vida é provavelmente irrelevante para o entendimento pleno das matérias em discussão. A nossa vida é apenas nossa e é marcada por um conjunto específico de circunstâncias, desafios, limitações e privilégios – todos eles diferentes do universo mais vasto de pessoas que se confrontam com tais problemas. Mais grave ainda, corremos o risco de ignorar desigualdades e sublimar vantagens estruturais presentes na nossa condição social.

Pelo contrário, quando removemos da argumentação a primeira pessoa vêmo-nos na contingência de encontrar asserções que a sustentem fora de nós próprios. A primeira pessoa oferece-nos respostas. A sua ausência obriga-nos a fazer perguntas; sobre os factos, sobre as circunstâncias que os envolvem, enfim, sobre esse vasto mundo, cheio de dúvidas e interrogações, que importa descobrir lá fora.

Ana Moura+Bruno Ferreira








Com letra e música de Pedro Abrunhosa, Tens Os Olhos De Deus é o segundo single do mais recente álbum de Ana Moura, seguindo-se ao popular tema de lançamento Dia De Folga. O videoclip tem realização de Bruno Ferreira – o homem por detrás da câmara no espectacular Don't Touch My Soul de Da Chick – e percorre diversas paisagens da costa alentejana, destacando-se as vistas da zona industrial de Sines e uma passagem pelo cais palafítico da Carrasqueira. Um pequeno filme em jeito de road movie romântico que assinala o início da digressão da cantora, em Portugal e no estrangeiro, com datas que podem ser consultadas no seu sítio web oficial. Fica o vídeo, para ver, depois do salto.

Autobiografia de um pequeno ego


Image credits: Oliver Jeffers.

Importa exprimir inequívoco repúdio contra qualquer forma de atentado à liberdade de expressão ou ameaça à integridade física de que possa ter sido alvo Henrique Raposo, o Salman Rushdie português. Eu próprio não gostaria de enfrentar as hordas de alentejanos que, envergando capote e sacolejando escabreadamente foices e forquilhas, consta estarem a deslocar-se a grande velocidade pedonal em direcção à ponte 25 de Abril. Antevêem-se os maiores confrontos desde o célebre bloqueio do garrafão de 1994 tendo o Presidente da República, melancolicamente, decidido decretar o estado de alerta máximo e convocar para o local o Corpo de Intervenção da PSP.

Excluindo estes sulistas radicais, será razoável presumir que o fenómeno se circunscreve nos meios urbanos a uma tipologia de indignação ciberespacial – o tipo de acção próprio de uma turba a que, em inglês técnico, poderemos denominar por uma outrage brigade. Ainda assim, não devemos menosprezar o poder das brigadas da indignação. É certo que, de um modo geral, falamos de indivíduos para quem levantar do sofá é já um desafio considerável. No entanto, estando perante uma fatwa alentejana, há sempre a possibilidade do visado sofrer o típico arremesso da linguiça nas ventas – recomendando-se para o efeito, de preferência, a aplicação de um rechonchudo enchido de Estremoz, que vai muito bem com um tinto Monsaraz de 2011.

Falando mais a sério, a falta de magnanimidade é própria dos intelectos menores. Não nos devem assim merecer os indignados qualquer espécie de complacência. Por pequenez intelectual não vislumbram os ofendidos o óbvio: Henrique Raposo é incapaz de escrever sobre qualquer coisa que não ele próprio. Há quem tenha em falar de si mesmo o passatempo preferido. Raposo tem o mérito de fazer disso um modo de vida.

Não se trata de uma caricatura. Dedique-se o leitor a percorrer as crónicas que este verdadeiro João Pereira Coutinho da era dos millenials redige semanalmente para o Expresso. Nove em cada dez textos escritos por Henrique Raposo são sobre Henrique Raposo. Há dias fui. O que senti. O que li. O pequeno episódio caricato que presenciei. As minhas coisas favoritas. Eu. Eu. Eu.
A mesma patologia de pensamento e linguagem podemos identificar no vídeo da polémica: pequenos episódios plenos de subjectividade, contados na primeira pessoa, elevados a retrato sociológico com a superficialidade de quem pensa o mundo em cima do joelho.

Pese embora essa voluptuosa esgrima retórica que hoje se toma por erudição, o uso recorrente da primeira pessoa na validação de um argumento é, na verdade, nada mais do que um atalho de pensamento. Se a subjectividade é uma qualidade intrínseca à própria linguagem que, em grande medida, devemos celebrar, importa ter presente o quanto o ela interfere com a nossa busca de conhecimento e a forma como agimos perante o que nos é exterior.
O que está aqui verdadeiramente em causa é uma mediocridade que é transversal a tantos comentadores que ocupam o espaço mediático, contribuindo para a degradação generalizada do exercício da opinião. Henrique Raposo, como muitos outros, representa bem essa desenvoltura atrevida, “fabulosa” no sentido pewdiepiano do termo, incapaz de distinguir o prisma distorcido do seu pequeno ego com a construção de um olhar crítico sobre o mundo lá fora.

A poesia da sobrevivência



Enquanto tiveres um só fôlego dentro de ti, tu lutas. Tu respiras. Continuas a respirar. Quando a tempestade cai e tu te ergues em frente a uma árvore, olhando para os seus ramos julgarás por certo que vai cair. Mas se atentares no seu tronco, então compreenderás a sua estabilidade.

Em criança recebi um livro de banda desenhada chamado História Sem HeróisHistoire Sans Héros, no original, com texto de Jean Van Hamme e desenhos de Daniel Henrotin – relatando a aventura desesperada de um grupo de homens e mulheres que sobrevivem à queda de um avião no coração da Floresta Amazónica.

Recordo o forte impacto que História Sem Heróis teve em mim nesse tempo. Era novo, porventura demasiado novo, para aquele género de narrativa dirigida a um público mais adulto. É tão mais fácil sermos cativados por heróis estereotipados quando estamos a crescer: personagens corajosas, despojadas de egoísmo e, afinal, de todo o sentido da realidade que habitam a maior parte da ficção popular.
Ora aqui estava um livro que, como o próprio título sugeria, não oferecia heróis claros em quem o leitor pudesse projectar um sentido de identidade. Antes era povoado por personagens plenas de defeitos e contradições, enfrentando os seus próprios demónios – medo, egoísmo, ódio – até compreenderem que apenas em conjunto, com solidariedade e coragem, poderiam encontrar o caminho para a liberdade.

Serve a evocação deste clássico de banda desenhada, publicado nos idos de 1977, para ilustrar a ideia de que também The Revenant é, de certo modo, uma história “sem heróis”. O mais recente filme de Alejandro Gonzáles Iñárritu desafia o espectador com um olhar despojado de juízo moral, confrontando-nos com um mundo habitado por personagens moralmente ambíguas, entranhadas no seu tempo e nas suas circunstâncias.
Convidando-nos a embarcar numa viagem ao passado, o filme recusa-se a produzir um juízo fácil da História pelos padrões culturais do presente. Trata-se apenas de revelar a natureza daquele grupo de homens, na sua complexidade e a partir das suas próprias contingências.



O realizador mexicano faz contrapor a uma narrativa linear um contexto de grande densidade dramática – algo que parece perder-se nas entrelinhas junto de alguns espectadores e de parte da crítica. Certo é que no retrato que rodeia os eventos que nos conta se inscreve o apocalipse da cultura nativa e a voragem predadora, inexorável, da potência ocupante. Dá-nos a testemunhar, acima de tudo, o modo como os homens se tornam monstros, assim se desvanecem os contornos de civilização.

Se The Revenant é uma portentosa viagem visual, muito o deve ao trabalho de direcção de fotografia de Emmanuel Lubezki. A obsessão “Kubrickiana” pela luz natural perseguida por Iñárritu atribui ao filme uma temperatura única e a fotografia de Lubezki faz daquela floresta gelada uma paisagem inesquecível.

É no contraponto entre a imensidão suspensa da paisagem e a desolação humana que a atravessa que tem lugar a odisseia de Hugh Glass. O regresso do homem da fronteira, interpretado por Leonardo DiCaprio com um ímpeto visceral e uma crua fisicalidade, conta-nos uma história maior sobre aquilo que, no mais hostil dos mundos, nos torna humanos: na força e na dureza dos afectos – pela ex-companheira nativa, pelo filho – como substância mais íntima da própria sobrevivência num mundo de violência e agressão.

Fica a ligação para o interessante documentário A World Unseen, reflectindo os temas presentes no filme e o desafio que constituiu a sua rodagem, levada a cabo em condições de grande adversidade.

Exposição Habitar Portugal



A exposição inaugural Habitar Portugal 12-14 está patente na Galeria Municipal do Porto. É a primeira de um conjunto de exposições que, até ao final de 2017, irá percorrer o país, dando a conhecer um registo arquitectónico representativo do período que ficaremos a conhecer como os anos da troika.

Com o provocativo tema “Está a arquitectura sob resgate?”, a iniciativa revela-nos de que formas a produção arquitectónica portuguesa se ressentiu dos impactos da crise. Os comissários do projecto, Luís Tavares Pereira, Bruno Baldaia e Magda Seifert, enfatizam o contexto social e cultural deste tempo: austeridade, escassez, desemprego, diminuição do poder de compra, crise do mercado imobiliário, são tópicos que não conseguimos dissociar de uma reflexão profunda que incide sobre as condições da construção e da arquitetura nos anos 2012, 2013 e 2014.



Com parceria entre a Ordem dos Arquitectos e a Câmara Municipal do Porto, a mostra em exibição na Galeria Municipal é de entrada livre e estará patente até ao dia 25 de Abril. Em simultâneo irá decorrer um programa paralelo com diversas actividades complementares, cujos detalhes podem ser conhecidos no sítio web oficial da iniciativa. Para ficar a par de todas as novidades vale a pena acompanhar a página do Habitar Portugal no Facebook.