Ellen van Loon (OMA): conferência Distância Crítica
Conferência de Ellen van Loon, arquitecta sénior da OMA, integrada no ciclo Distância Crítica organizado pela Trienal de Arquitectura de Lisboa. Gravado no dia 17 de Fevereiro de 2016. Os mais interessados não devem deixar de subscrever o canal da Trienal no YouTube.
Ellen van Loon, from OMA, at Critical Distance, Lisbon, February 17, 2016. Fast-forward to minute 4:45 to access Ellen’s lecture in English. Conference promoted by Lisbon Architecture Triennale.
Aos 87 anos, o Óscar
Quando, em 2001, Ennio Morricone falhou receber o Óscar pela quinta vez, muitos terão pensado que apenas a entrega de um prémio honorário poderia salvar a face da Academia de Hollywood. Com uma carreira que se estende a mais de meio século, o compositor italiano deixou a sua marca em inúmeros momentos icónicos da História do Cinema: A Missão, Era Uma Vez Na América, Era Uma Vez No Oeste, Os Intocáveis, Frantic, A Lenda de 1900, Malèna, entre tantos outros.
Recebe, aos 87 anos de idade, um justo reconhecimento pelo seu trabalho em The Hateful Eight de Quentin Tarantino, celebrando uma vida que não precisa já de qualquer validação. Deixo uma das suas mais belas melodias, o tema do inesquecível Nuovo Cinema Paradiso de Giuseppe Tornatore, realizador com quem viria a colaborar diversas vezes. Curiosa ironia: a música de Cinema Paradiso não chegaria a merecer sequer, em 1990, a nomeação para o Óscar. É, no entanto, uma das suas composições mais amadas e considerada por muitos a banda sonora das suas vidas. Para ouvir, depois do salto.
Coisas que aprendi a escrever um blogue

Image credits: Oliver Jeffers.
Se a subjectividade é uma qualidade que, em grande medida, devemos celebrar, importa ter em conta que o uso recorrente da primeira pessoa na validação de um argumento é nada mais do que um atalho de pensamento. Era esta a ideia central da anterior reflexão Autobiografia de um pequeno ego, escrita a propósito do simplismo que predomina sobre o exercício da opinião publicada nos meios de comunicação social.
Uma das coisas que aprendi a escrever um blogue ao longo de uma década foi a identificar e corrigir algumas patologias de escrita. A mais recorrente é porventura o uso inadvertido da primeira pessoa do singular como mecanismo de auxílio retórico. Raros são hoje os momentos em que aplico esse tempo verbal e, nas circunstâncias em que tal sucede, correspondem sempre a uma opção reflectida e deliberada.
Existe um forte motivo para tal. É inteiramente diferente produzir reflexão sobre um tema, seja ele qual for, aplicando ou omitindo a primeira pessoa do discurso. Esse facto é particularmente relevante quando o objecto que merece a nossa atenção não diz respeito à nossa experiência de vida, como seja uma opinião sobre questões de sociedade ou política, quer se trate de um tema controverso ou até de uma crítica a uma figura pública.
A introdução da primeira pessoa no discurso permite validar e enfatizar uma opinião a partir de nós próprios, invocando, para tal, os sentimentos que tais temas nos suscitam. Podemos certamente abordar questões complexas como, por exemplo, o casamento e a adopção homossexual, a interrupção voluntária da gravidez ou a morte assistida, recorrendo, para tal, dos juízos éticos, morais ou meramente emocionais que elas nos evocam.
Ao fazê-lo, o autor estará a esquecer-se que a sua experiência de vida é provavelmente irrelevante para o entendimento pleno das matérias em discussão. A nossa vida é apenas nossa e é marcada por um conjunto específico de circunstâncias, desafios, limitações e privilégios – todos eles diferentes do universo mais vasto de pessoas que se confrontam com tais problemas. Mais grave ainda, corremos o risco de ignorar desigualdades e sublimar vantagens estruturais presentes na nossa condição social.
Pelo contrário, quando removemos da argumentação a primeira pessoa vêmo-nos na contingência de encontrar asserções que a sustentem fora de nós próprios. A primeira pessoa oferece-nos respostas. A sua ausência obriga-nos a fazer perguntas; sobre os factos, sobre as circunstâncias que os envolvem, enfim, sobre esse vasto mundo, cheio de dúvidas e interrogações, que importa descobrir lá fora.
Ana Moura+Bruno Ferreira






Com letra e música de Pedro Abrunhosa, Tens Os Olhos De Deus é o segundo single do mais recente álbum de Ana Moura, seguindo-se ao popular tema de lançamento Dia De Folga. O videoclip tem realização de Bruno Ferreira – o homem por detrás da câmara no espectacular Don't Touch My Soul de Da Chick – e percorre diversas paisagens da costa alentejana, destacando-se as vistas da zona industrial de Sines e uma passagem pelo cais palafítico da Carrasqueira. Um pequeno filme em jeito de road movie romântico que assinala o início da digressão da cantora, em Portugal e no estrangeiro, com datas que podem ser consultadas no seu sítio web oficial. Fica o vídeo, para ver, depois do salto.
Autobiografia de um pequeno ego

Image credits: Oliver Jeffers.
Importa exprimir inequívoco repúdio contra qualquer forma de atentado à liberdade de expressão ou ameaça à integridade física de que possa ter sido alvo Henrique Raposo, o Salman Rushdie português. Eu próprio não gostaria de enfrentar as hordas de alentejanos que, envergando capote e sacolejando escabreadamente foices e forquilhas, consta estarem a deslocar-se a grande velocidade pedonal em direcção à ponte 25 de Abril. Antevêem-se os maiores confrontos desde o célebre bloqueio do garrafão de 1994 tendo o Presidente da República, melancolicamente, decidido decretar o estado de alerta máximo e convocar para o local o Corpo de Intervenção da PSP.
Excluindo estes sulistas radicais, será razoável presumir que o fenómeno se circunscreve nos meios urbanos a uma tipologia de indignação ciberespacial – o tipo de acção próprio de uma turba a que, em inglês técnico, poderemos denominar por uma outrage brigade. Ainda assim, não devemos menosprezar o poder das brigadas da indignação. É certo que, de um modo geral, falamos de indivíduos para quem levantar do sofá é já um desafio considerável. No entanto, estando perante uma fatwa alentejana, há sempre a possibilidade do visado sofrer o típico arremesso da linguiça nas ventas – recomendando-se para o efeito, de preferência, a aplicação de um rechonchudo enchido de Estremoz, que vai muito bem com um tinto Monsaraz de 2011.
Falando mais a sério, a falta de magnanimidade é própria dos intelectos menores. Não nos devem assim merecer os indignados qualquer espécie de complacência. Por pequenez intelectual não vislumbram os ofendidos o óbvio: Henrique Raposo é incapaz de escrever sobre qualquer coisa que não ele próprio. Há quem tenha em falar de si mesmo o passatempo preferido. Raposo tem o mérito de fazer disso um modo de vida.
Não se trata de uma caricatura. Dedique-se o leitor a percorrer as crónicas que este verdadeiro João Pereira Coutinho da era dos millenials redige semanalmente para o Expresso. Nove em cada dez textos escritos por Henrique Raposo são sobre Henrique Raposo. Há dias fui. O que senti. O que li. O pequeno episódio caricato que presenciei. As minhas coisas favoritas. Eu. Eu. Eu.
A mesma patologia de pensamento e linguagem podemos identificar no vídeo da polémica: pequenos episódios plenos de subjectividade, contados na primeira pessoa, elevados a retrato sociológico com a superficialidade de quem pensa o mundo em cima do joelho.
Pese embora essa voluptuosa esgrima retórica que hoje se toma por erudição, o uso recorrente da primeira pessoa na validação de um argumento é, na verdade, nada mais do que um atalho de pensamento. Se a subjectividade é uma qualidade intrínseca à própria linguagem que, em grande medida, devemos celebrar, importa ter presente o quanto o ela interfere com a nossa busca de conhecimento e a forma como agimos perante o que nos é exterior.
O que está aqui verdadeiramente em causa é uma mediocridade que é transversal a tantos comentadores que ocupam o espaço mediático, contribuindo para a degradação generalizada do exercício da opinião. Henrique Raposo, como muitos outros, representa bem essa desenvoltura atrevida, “fabulosa” no sentido pewdiepiano do termo, incapaz de distinguir o prisma distorcido do seu pequeno ego com a construção de um olhar crítico sobre o mundo lá fora.
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