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Segunda-feira

O arquitecto é alguém que não é suficientemente macho para ser engenheiro nem suficientemente maricas para ser decorador.

Existe um conflito antigo entre (alguns, porventura muitos) arquitectos e engenheiros, um certo gosto que têm em dizer mal uns dos outros. Esta incompreensão deve-se a uma falta de cultura mútua que resulta na desvalorização do trabalho que o outro faz.
Ao longo da minha carreira de arquitecto tenho tido a sorte de trabalhar com bons engenheiros. Essa experiência tem sido sempre enriquecedora. O bom engenheiro é alguém que, para além da qualidade e domínio técnico do trabalho que desenvolve, tem a consciência de que há aspectos da construção que devem ser salvaguardados na arquitectura, e que a engenharia deve respeitar. A solução de engenharia não pode resultar apenas da concretização de uma equação de factores técnicos, deve ajustar-se aos objectivos (volumétricos, funcionais, estéticos) da solução arquitectónica. Mas a questão não acaba, ou melhor, não começa aqui.
Também o bom arquitecto é aquele que está consciente das implicações que a(s) engenharia(s) vão colocar ao seu trabalho. Significa isto que o arquitecto, sem necessitar de uma formação específica de engenharia, deve conhecer e ter a sensibilidade de que a realidade que está a projectar se sustenta em soluções técnicas, construtivas, que têm regras e limites próprios. Se, por exemplo, o arquitecto quiser levar uma determinada solução estrutural ao limite, ou ir ainda mais além, deve estar consciente disso e trabalhar em estreita colaboração com o engenheiro de forma a procurar novas respostas técnicas para concretizar o seu objectivo.
Quando esta compreensão mútua existe, quando o arquitecto valoriza o trabalho do engenheiro, e este o do arquitecto, o conflito entre ambos deixa de fazer sentido e desaparece.

A guerra entre engenheiros e arquitectos não seria um problema grave se fosse apenas motivo para algumas anedotas de melhor ou pior gosto. Grave é ser sintoma de um problema maior do nosso trabalho, que é o de uma certa desvalorização da componente pluridisciplinar fundamental em algumas áreas da profissão. Isso é ainda mais evidente na área do planeamento.
Todos nós temos, devido à nossa formação, uma sensibilidade maior a algumas questões, em detrimento de outras. Imaginemos, por exemplo, que vamos desenvolver uma solução urbanística para um determinado território. Se encaramos a questão do ponto de vista do arquitecto, certamente valorizamos a qualidade do ambiente construído, a contemporaneidade da solução, os aspectos de relação e integração da malha urbana com a geografia do local, dos eixos visuais, da estética, da vivência humana, das interacções viárias e pedonais, e por aí fora.
Mas se pensarmos do ponto de vista do engenheiro, a ordem de prioridades talvez seja outra. O engenheiro preocupa-se com a racionalização das infra-estruturas, a funcionalidade do sistema viário, das implicações da solução urbana ao nível das drenagens, dos aterros, dos desníveis, etc.
O arquitecto paisagista observará a caracterização morfológica do território, as implicações que uma solução urbanística traz para o terreno e o seu coberto vegetal. Depois, preocupa-se com a qualidade do ambiente urbano, dos espaços exteriores e da sua vivência, das cinturas verdes, da estrutura pedonal, etc. Em sentido lato, o arquitecto paisagista é alguém que se preocupa, como nos tem ensinado Gonçalo Ribeiro Telles, com a integração biofísica da cidade com o território, das suas implicações ao nível da capacidade de infiltração dos solos, dos canais de escorrência das águas, das implicações ao nível dos ventos, e por aí fora.
Mas isto não acaba aqui. Para um sociólogo será importante pensar na estrutura humana que se vai criar, nos tipos de vivência e relação social que se vão estabelecer, na forma como se podem propiciar fenómenos de marginalidade e criminalidade, na qualidade humana da cidade.
Na economia, o gestor urbano irá alertar-nos para a viabilidade da solução urbana do ponto de vista financeiro. Uma determinada solução pode ser muito boa sobre todos os outros pontos de vista, mas se depender de custos incomportáveis ao nível das infra-estruturas ou submeter-se a gastos que põem em causa a sua viabilidade, então, como um todo, não é boa solução porque não pode ser concretizada para além do exercício teórico.
E poderia continuar para o arqueólogo, para o historiador, etc., até chegar ao urbanista que valoriza a forma como todas estas componentes se interligam.

A realidade é complexa, somos nós que a simplificamos na nossa necessidade de encontrar modelos para estudar a natureza das coisas e desenvolver respostas às questões práticas que se nos colocam. O problema começa quando começamos a pensar as prioridades sobre o nosso ponto de vista específico, desvalorizando os outros pontos de vista como algo que “depois alguém há-de resolver”. Ao longo do nosso trabalho, facilmente vamos encontrar pessoas que insistem em trabalhar sempre com aquelas variáveis que aprenderam, aplicando-as e fazendo delas doutrina, sem pensar se essas verdades o são quando confrontadas com outras componentes da realidade. Pessoas que depois ocupam cargos onde emitem pareceres e tomam decisões que afectam conjuntos largos de cidadãos. É preciso combater essa postura, e esse combate devia começar nas escolas e nas universidades, mas para combater um problema é preciso estar consciente de que ele existe. O que fazer então se a falta de consciência do problema é que é o problema?

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