A crise em câmara lenta


Imagem: Gwen M.Y. Yip.

A falta de cultura científica manifesta-se de diversas formas. Talvez a mais trágica se revele no unanimismo com que se estabelecem certas verdades, a incapacidade de questionarmos aquilo que todos, à nossa volta, aceitam.

Uma das verdades deste tempo de pandemia é a ideia de que “a sociedade não pode voltar ao confinamento porque a economia não aguenta”. Dizer que a economia não aguenta é aceitar a economia como uma realidade. Uma realidade sentenciada por outra frase tão recorrente: não há dinheiro. Quem se atreve a questionar isto?

Talvez o maior desafio em estabelecer análises assertivas sobre qualquer tema seja a dificuldade em identificar a dimensão ideológica daqueles pressupostos que damos como certos e, pior ainda, neutrais. Um campo particularmente vulnerável a esta patologia é o da economia, porventura a mais complexa de todas as ciências sociais e a mais difícil de abarcar, em particular por muitos economistas que se debruçam a dela estudar apenas uma pequena parte.

Em boa verdade somos vassalos de um sistema totalitário. Se o sistema é totalitário é exactamente porque ele é inquestionável. Ele é a realidade; e a realidade é esse dinheiro que “não há”. Vale a pena começar por questionar esse paradoxo. Nunca houve tanto dinheiro como hoje e, no entanto, não há dinheiro para nada.

Peço-vos que me acompanhem neste pequeno desvio. Se a crise de 2008 foi já uma crise motivada por uma expansão monetária sem precedentes, espécie de fim de linha para a desregulação financeira, o que se seguiu foi uma irreconhecível fuga para a frente: a instituição de um sistema de resgate permanente pelas nações e os seus bancos centrais.

Em 2008, sob forte controvérsia pública e enorme discussão política, o Senado americano aprovou o bailout da banca proposto pelo Departamento do Tesouro dos EUA no valor de 700 mil milhões de dólares. Pouco mais de dez anos passados, as regras mudaram para que as intervenções levadas a cabo pela Reserva Federal não sejam já sujeitas a qualquer escrutínio político. Injeções de capital sistemáticas ascendendo a vários biliões de dólares, destinadas a contrariar as oscilações do sistema financeiro, são agora o novo normal, sem que tal seja sequer notícia.

Também a Europa, de forma um pouco mais conservadora, segue o mesmo caminho, com o BCE a seguir a via da expansão monetária através de avultadas injeções de liquidez. Sejamos claros: se o cenário que estamos a viver fosse apresentado a um qualquer economista, da esquerda à direita, há trinta ou quarenta anos, ele seria considerado uma aberração impensável. E, no entanto, estamos a vivê-lo.

Voltemos ao princípio. Se a economia não aguenta é porque o sistema político não está disposto a tomar as medidas de excepção adequadas ao tempo excepcional que estamos a viver. Medidas inéditas, sem precedentes, que desafiem o equilíbrio de poder.

O mesmo cidadão que foi levado a aceitar este novo normal – um sistema em bailout automático, que canaliza um volume infindável de nova massa monetária para a elite próxima do sistema financeiro, criando uma desigualdade sem precedentes na história contemporânea – foi também convencido de que medidas como o jubileu de dívidas ou o helicopter money para todos são uma aberração.

O sistema é totalitário porque conquistou as nossas mentes. O sistema não pode cair, mesmo que todas as pessoas fiquem pelo caminho – e nós fomos feitos seus soldados e doutrinados a defendê-lo. Mas a crise, mais cedo ou mais tarde, ditará o momento de pensar o impensável.