Fazer de conta



A entrevista tem lugar sobre o pano de fundo verde do chroma-key. O cenário é virtual. A crise em formato telejornal, a retórica suspensa num lugar sem espaço e sem tempo. Como se o todo das circunstâncias que nos envolvem se resumisse a uma mão cheia de dias: o discurso presidencial de uma quarta-feira, o anúncio de um plano de austeridade na sexta, as declarações do líder da oposição no sábado, a cimeira da semana que vem. E nada mais. A realidade sem história, sem contexto, sem passado e, mais grave ainda, sem futuro.

Quem acompanhou o evoluir da situação portuguesa não deixará de olhar com perplexidade para os dias que correm. Uma perplexidade feita não de surpresa mas de entorpecimento para com a materialização do inevitável. Um inevitável, diga-se, anunciado há muito. Certo é que aqueles que venderam o seu voto por 3.2% de aumento de salário, como muitos dos que agora se manifestam nas ruas, não quiseram ver e ler o mundo em que vivem. Medina Carreira, Ernâni Lopes, Campos e Cunha, António Barreto, Miguel Sousa Tavares, Carlos Moreno, José Gomes Ferreira, João Duque… E por aí fora.

E agora? Agora é tarde. E mais tarde ainda para as respeitáveis figuras da República que vêm a público exprimir estados de alma, angústias e apelos à estabilidade, à dignidade, à responsabilidade. Anedota maior é pensar que o governo se apresentará fragilizado perante o conselho europeu, como se pudesse ainda ser detentor de palavra nos termos e nas condições em que a ajuda externa se irá concretizar. Ao governo português resta ir a Bruxelas fazer a acta e trazer o caderno de encargos que se seguirá e penderá sobre todos, independentemente da clarificação democrática com que estaremos entretidos nos próximos meses.

No final da entrevista de 15 de Março, depois das reacções de vários representantes partidários e dos vários participantes do painel de comentadores da SIC, José Gomes Ferreira deixava a denúncia: Não deixo de aqui dizer que estranho... que negócios de Estado que nos conduziram à ruína, parecerias público-privadas que nos conduziram à ruína, feitas pelo estado e grandes grupos financeiros, com as grandes construtoras e agências e empresas de consultoria e gabinetes de advogados... esses grandes negócios, nenhum está a ser revisto e eu pergunto porquê, porquê? Se é possível pedir mais sacrifícios a toda a gente, porque é que esses interesses não são tocados?

É o preço dos erros que foram cometidos nos últimos anos, entre os quais se encontra este pequeno monstro que ascende a 40 mil milhões de euros, que agora se abaterá sobre todos nós sem contemplação. Porque os números, como alguém escrevia em tempos na caixa de comentários deste blogue, não têm emoções nem ideologias.

O tempo de fazer de conta chegou ao fim. Agora, é fazer as contas

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