Os blogues ainda resistem?



No Verão de 2007 teve lugar na cidade de Nova Iorque o Postopolis!. Promovido pela Storefront for Art and Architecture, o evento era organizado por quatro bloggers muito conhecidos e teve por base uma série de debates e conversas com especialistas das mais diversas disciplinas, incluindo domínios exteriores à arquitectura tais como o design, paisagismo, ecologia e sustentabilidade, arte digital, música, cinema ou jornalismo. Nos cinco dias em que decorreu o evento, transmitido em directo para todo o mundo, passaram pela icónica galeria nova-iorquina desenhada por Steven Holl e Vito Acconci figuras incontornáveis como Lebbeus Woods, Mark Wigley e Michael Sorkin, entre tantos outros.

O Postopolis! sinalizava o alcance pluridisciplinar da blogosfera de arquitectura, caracterizando-se tanto pela informalidade da abordagem como pela capacidade de promover uma interacção directa entre leitores e criadores de conteúdos, convocando bloggers, a academia e o público.

Apenas uma década passada podemos verificar o quanto mudou a paisagem do mundo online. A ascensão das redes sociais ditou a secundarização da blogosfera enquanto espaço de debate público na internet. No caso da arquitectura, muitos dos principais blogues de então desapareceram, em especial os de autoria individual, e os que ficaram evoluíram do formato blogue para se assumirem como autênticas plataformas de divulgação de conteúdos. O universo da opinião e da crítica deu lugar a um vasto caudal de informação asséptica assente na divulgação descontextualizada de imagens, entre pré-visualizações de projectos virtuais a fotografias profissionais de obras construídas.

Os sítios de maior visibilidade são hoje agregadores de informação e competem para partilhar o mais recente material visual disponível na rede aos seus leitores. Press-releases corporativos são publicados em apenas alguns minutos numa competição frenética onde todos tentam chegar em primeiro lugar, sem que lhes seja aditado contexto ou reflexão, sem tempo para elaborar um olhar crítico mais aprofundado.

Apesar de todas as contradições que marcaram o fenómeno da blogosfera é inquestionável que os blogues tiveram um papel determinante na definição de um espaço público global sem precedentes na História, protagonizando a primeira vaga de expressão individual na Internet com repercussão no mundo exterior. Na sua subjectividade, no seu descontrolado imediatismo, os blogues abriram uma constelação de novos lugares de expressão pessoal capazes de estabelecer infinitas ligações entre si, no directo da rede.

Alimentando a ilusão de uma horizontalidade democrática, importa reconhecer que os blogues deram também corpo a manifestações de grande toxicidade e, por vezes, de devastadora terraplanagem intelectual. Não estando sujeitos aos constrangimentos de uma supervisão editorial – com toda a responsabilidade pública ou institucional que esse exercício encerra – os blogues ensaiavam-se sem escrutínio prévio, não tendo monitores e sem responder perante ninguém. Para o bem, e para o mal, aí residia a sua força e, como seria fácil de depreender, a sua latente fraqueza.

Talvez tenham sido os ecos dessa rede contraditória e caótica feita de mil egos à solta – como caricaturava Pacheco Pereira n’A cultura de blogue nacional – a motivar o desinteresse generalizado das universidades por esta nova infraestrutura de comunicação, porventura por pudor em concorrer com o ruído emergente de uma multidão de vozes não credenciadas. Prevaleceu assim entre nós o distanciamento das academias e da generalidade da crítica quanto a este espaço de debate de ideias, tornando inimaginável uma experiência semelhante àquela que o Postopolis! protagonizara de forma tão cosmopolita e promissora.

Chegados aqui vale a pena reflectir sobre o momento crítico que hoje vive a Internet. A ascensão das novas plataformas, em particular as redes sociais, relevaram o fenómeno blogue para longe dos holofotes mediáticos e vieram conformar uma nova paisagem corporativa da comunicação global. Nesta realidade, o caos e a anarquia do passado – mas também a liberdade de expressão e o pluralismo – estão a dar lugar a um panorama onde um conjunto reduzido de mega-empresas detém o domínio dos principais veículos de transmissão da informação.

Em resultado da consolidação deste oligopólio assistimos à tendência para a conformação de uma Internet subjugada a sofisticados mecanismos de selecção e filtragem de conteúdos, constituindo, em alguns casos, formas insidiosas de censura automática através de complexos algoritmos, tais como a ocultação de resultados de busca no Google, a desmonetização de conteúdos no YouTube ou ainda a utilização de técnicas de ghost-deleting no Facebook, no Twitter e nos espaços de comentário em inúmeras plataformas digitais.

A eficácia destes mecanismos deriva directamente da desfragmentação do factor humano na mediação do conhecimento através da Internet, onde os blogues constituíram, no passado recente, um exemplo particularmente bem-sucedido de debate público, divulgação e confronto de ideias. Perante os riscos que tal introduz, em concreto pela perda de uma curadoria humanizada do saber, importa mais do que nunca resistir ao predomínio da cultura do mínimo denominador comum, dos gostos e das partilhas das redes sociais, ou à imposição de restrições ao pensamento em função daquilo que corporações privadas julgam ser ou não aceitável.

Se os blogues deixaram de fazer sentido enquanto fenómeno mediático do momento – que porventura nunca voltarão a ser – talvez o seu papel enquanto espaço de resistência crítica seja hoje mais relevante do que nunca, na arquitectura e em tudo aquilo que nos rodeia. Num tempo em que múltiplas crises se intersectam, um pouco por toda a parte, é ainda mais urgente instituir referências de saber que nos permitam em conjunto, de forma colaborativa e livre, vislumbrar o sentido do mundo, sempre tão difícil de conhecer e interpretar.

Debate de encerramento: exposição Fernando Guerra na Garagem Sul do CCB



A exposição Fernando Guerra: Raio X de uma prática fotográfica, patente na Garagem Sul do CCB, entra agora na reta final. Os visitantes poderão aproveitar esta oportunidade única para conhecer a obra de um dos mais reconhecidos fotógrafos de arquitectura, até ao dia 15 de Outubro.

Já no próximo sábado, dia 7 de Outubro pelas 17:00 horas, terá lugar o Debate de Encerramento com a presença de Daniel Malhão e Carles Muro. Também a não perder, no mesmo dia às 15:00 horas, a última visita guiada à exposição com a monitorização dos arquitectos Ana Custódio e Filipe Araújo.



A trajectória de Fernando Guerra no panorama mundial da fotografia de arquitectura é indissociável da sua capacidade de comunicar imagens através do sítio web Últimas Reportagens, a sua plataforma profissional no mundo online. Num tempo de desmaterialização e fragmentação de conteúdos no espaço digital esta exposição revela-se mais pertinente pela possibilidade de nos fazer confrontar presencialmente com a sua obra, para muitos pela primeira vez, através de vários suportes materiais complementados com projecções e registos audiovisuais muito diversos.

O seu percurso pessoal atravessa um período particularmente crítico da produção arquitectónica nacional e internacional: da primeira década deste século marcada por uma notável expansão da profissão e a emergência de uma nova e promissora geração de arquitectos, percorrendo os anos da crise e os seus impactos, para chegarmos a um presente marcado por interrogações, receios e novas possibilidades. A fotografia de arquitectura participa nesse debate pleno de ramificações críticas e, inevitavelmente, também políticas, por ocupar um espaço de intermediação entre os arquitectos e o público.



A extensa colecção de reportagens de Fernando Guerra permite-nos observar o presente mas convoca-nos, acima de tudo, a reflectir sobre o lugar que ocupará a comunicação visual da arquitectura no futuro? Tal como a própria arquitectura, também a sua fotografia continuará a evoluir para acompanhar os processos de reconfiguração estrutural da profissão, no balanço de tensões entre o processo económico corrente e as responsabilidades culturais, sociais e ambientais que pendem sobre o horizonte.

Contemporânea do novo milénio, a fotografia de Fernando Guerra imprimiu uma nova dinâmica à arquitetura portuguesa. Com o apoio do mundo digital e das redes sociais, as reportagens de FG+SG passaram a retransmitir quase de imediato uma imagem vibrante da produção arquitetónica. A novidade desse processo foi a condição digital das imagens e da sua circulação, condição que também acompanhou a crise dos media impressos e a transformação das práticas e plataformas de crítica. Nesse contexto, as fotografias FG+SG combinaram o rigor e a originalidade do olhar de Fernando Guerra com a versatilidade das suas imagens, capazes de responder com eficiência às exigências da comunicação de arquitetura. O êxito destas imagens interpela a própria disciplina da fotografia sobre a sua capacidade de reinvenção, a sua história e os seus limites. Como se enquadra a prática de Fernando Guerra no campo alargado da fotografia? Qual o potencial e quais os riscos da objetividade e subjetividade do meio fotográfico? E, para a crítica e a divulgação da arquitetura, o que trazem e o que escondem as imagens Fernando Guerra?

A creative’s guide to Lisbon +



A creative’s guide to Lisbon
Lisboa em destaque no Creative Boom.

The British Library Releases 570 Pages of Leonardo da Vinci's Manuscripts Online
As 570 páginas do Codex Arundel, um caderno de anotações escritas e desenhadas de Leonardo da Vinci, digitalizadas e partilhadas pela British Library, aqui.

On Fire
O Pedro Gadanho voltou a escrever no seu blogue.

O Templo Romano de Évora em "obras" 146 anos depois
O arqueólogo António Carlos Silva percorre a história da restauração do Templo Romano de Évora, erradamente popularizado como Templo de Diana, levada a cabo há quase um século e meio.

Amazing Instagram Feeds for Sketching
Bob Borson, o senhor do Life of an Architect, dá a conhecer páginas de Instagram dedicadas a partilhar esquissos de arquitectura.

This video shows you how to hand-letter like an architect
Como escrever à arquitecto que nem um pro. Não se afigura nada fácil.

The Architecture of Video Games
Martin Gaston, no White Noise, sobre o modo como os videojogos procuram capturar a alma de cidades imaginárias.

Everything You Never Thought You Needed to Know About Pipe-Weed in Middle-Earth
Tudo o que precisam de saber sobre o cultivo e utilização do tabaco da Terra Média. Aquelas coisas que verdadeiramente interessam…

Na encruzilhada da Porto Editora
Vivemos num país em que os olhos e os ouvidos das crianças são todos os dias agredidos por modelos formatados que estiolam a sua imaginação narrativa (telenovela) ou pervertem qualquer saudável educação sexual (reality TV). Em todo o caso, há décadas — sublinho: décadas — que não ouvimos um pedagogo, muito menos um político, a levantar a mais tímida dúvida sobre o matraquear quotidiano de tais objectos. Seja como for, uns caderninhos azuis, outros cor de rosa, são motivo duma agitação completamente deslocada. João Lopes, brilhante, como sempre, no Sound+Vision.

"Largo mulher e filhos e de joelhos vou te seguir"
Ainda João Lopes, desta feita sobre a pequena polémica em torno da mais recente música de Chico Buarque.

Agenda: fotografia e cinema

Duas iniciativas em destaque esta semana, a não perder: a sessão de Homenagem a Baptista-Bastos na Cinemateca, já esta quarta-feira às 19h00, e a abertura da exposição Fernando Guerra: Raio X de uma prática fotográfica, na Garagem Sul do CCB, que estará patente até ao dia 15 de Outubro.



Baptista-Bastos (1933-2017), jornalista, cronista e escritor sobejamente conhecido, cruzou-se cedo com o cinema quando assinou a coluna de crítica “Comentário de Cinema” n’ O Século Ilustrado, de que foi subchefe de redação aos 16 anos. A sua cumplicidade lisboeta com Fernando Lopes, com quem colaborou na RTP e de quem era amigo chegado, confunde-se no entanto com as suas incursões no cinema português. Sobre ela, escreveu o próprio em 1996 para o catálogo da Cinemateca Fernando Lopes por Cá, “Dissertação sobre o Ofício da Amizade”. Vale a pena lê-lo, sobre a amizade, o cinema, a experiência de BELARMINO, em que Lopes o filmou a entrevistar Belarmino Fragoso. “[…] O nosso ‘gentleman’s agreement’ não exigia total aceitação das ideias de cada qual; mas implicava, pelo menos, a sua compreensão e discussão. Deixando-se de compreender e de discutir, a validade da união tornava-se ambígua e inútil por insubstancial. Éramos quantos? Fomos todos. [….]”. É com BELARMINO e AS PALAVRAS E OS FIOS, de Fernando Lopes, que evocamos Baptista-Bastos, na próxima quarta-feira, numa sessão de homenagem na Sala M. Félix Ribeiro, às 19h.



A fotografia de arquitetura ganhou, com o novo milénio, uma preponderância exponencial na relação dos arquitetos com a sociedade. O escritório FG+SG tem assumido os desafios da mediatização da arquitetura, sendo hoje uma prática fotográfica premiada e reconhecida internacionalmente. A afirmação progressiva de Fernando Guerra tem acompanhado a produção arquitetónica contemporânea e as suas reportagens fotográficas, difundidas a uma escala global através da plataforma virtual Últimas Reportagens, constituem um ponto de vista privilegiado sobre a arquitetura de hoje. Por outro lado, a sua prática fotográfica responde à evolução técnica do campo da fotografia nas últimas décadas, marcada essencialmente pela afirmação dos novos meios digitais. Esta exposição apresenta o trabalho autoral de Fernando Guerra atravessado por uma cartografia da atividade do escritório FG+SG, convocando o seu arquivo de imagens e evidenciando os seus processos de produção. Mostrando a obra fotográfica e os seus modos de fazer, a prática de Fernando Guerra é assim exposta como que submetida a um Raio X.

Dos algoritmos enquanto construtores de mundos


Imagem: Javier Jaén.

No dia 19 de Dezembro de 2013 o conhecido blogger Jason Kottke decretava a morte dos blogues, sinalizando o declínio social e mediático da blogosfera perante a ascenção das redes sociais.

O aparecimento das plataformas globais de comunicação em rede, tais como o Facebook ou o Twitter, ditou muito mais do que o ocaso do fenómeno blogue. Mais do que a sua perda de relevância enquanto lugar de produção de conteúdos, até aí com grande expressão nos agregadores de informação da rede, estava em causa o declínio do formato cronológico invertido que se havia tornado quase universal na internet partir de 1997, em benefício da adopção de algoritmos automáticos de selecção de conteúdos.
Esta alteração de paradigma viria configurar uma profunda revolução na forma como nos relacionamos com a informação no mundo online. Neste novo ecossistema da internet os conteúdos são valorizados sem interacção humana directa tendo por base um grande conjunto de variáveis: o número de “gostos”, comentários e partilhas de uma publicação, mas também inúmeros factores de selecção e quantificação só conhecidos para os proprietários destas plataformas.

Nesta paisagem corporativa da comunicação global sistemas complexos de análise de dados categorizam os utilizadores definindo o seu perfil específico, seja a partir das coisas que escrevem, gostam e partilham, mas também a partir da rede de amigos que construíram, das páginas que subscrevem e até dos sítios que simplesmente visitam (onde o perfil da rede social seja usado como forma de registo ou identificação).
Sendo capazes de estabelecer um retrato particular de cada utilizador, abrangendo campos muito diversos do seu universo de interesses, as redes sociais conseguem também oferecer uma experiência de utilização específica, diferente para todos e dedicada a cada um de nós. Desta forma, os algoritmos tornaram-se muito mais do que meros auxiliares de selecção e valoração de conteúdos num mundo saturado de informação. Em boa verdade os algoritmos são agora verdadeiros construtores de mundos, capazes de fabricar bolhas individuais onde vemos cada vez mais aquilo que queremos ver mas onde nos é filtrada a diversidade da realidade exterior. Trata-se de um fenómeno sem precedentes cujas implicações culturais à escala global são ainda desconhecidas e difíceis de prever.

Tendo presente este cenário emergente torna-se particularmente preocupante verificar que a maioria dos utilizadores das redes sociais – mais de 75% no caso do Facebook – desconhece que os “murais” de leitura são automaticamente filtrados por algoritmos e apenas uma pequena minoria sabe utilizar os mecanismos de edição dos parâmetros de visualização. Está em causa não apenas aquilo que nos é dado a ver mas também as publicações que nos são ocultadas segundo critérios que desconhecemos e sobre os quais não dispomos de qualquer possibilidade de escrutínio.
Temos assim que a este desconhecimento generalizado se soma a opacidade que as plataformas de social media assumem relativamente ao modo como processam a informação pessoal e social dos utilizadores. Afinal, apenas o Facebook, e mais ninguém, sabe como o seu algoritmo escolhe as “melhores histórias” e oculta o que não nos quer dar a ver.

O que está em causa na transformação profunda que teve lugar na internet na última década é um grave abandono do factor humano na curadoria do conhecimento sobre o mundo que nos rodeia. Vivemos rodeados de filtros digitais que nos proporcionam “redes egocêntricas” e nos gratificam a cada passo. Se os blogues eram um deserto, as redes sociais são um laboratório de optimização de interacções. Eis o último estágio do capitalismo aplicado à nossa vida social: um poderoso sistema de estímulos que proporciona “gostos” instantâneos e partilhas fáceis, mas que oculta os mecanismos, os motivos e os interesses que estão por detrás do “mural” que coloca em frente aos nossos olhos.