A Barriga de um
Arquitecto

Mais depressa nos ensina a terra do que todos os livros. Porque nos resiste.

9.4.15

Uma mulher chamada Lina Bo Bardi


Não podia ser mais oportuno o interesse renovado que vem suscitando a vida e a obra de Lina Bo Bardi, reflectido através de um vasto conjunto de sítios web de arquitectura e motivado pelo destaque dado à arquitecta italo-brasileira na exibição Latin America in Construction: Architecture 1955–1980 promovida pelo Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (MoMA), bem como pelo anúncio da chegada da exposição itinerante Lina Bo Bardi: Together ao território norte-americano no final deste mês.

Nascida em Roma no ano de 1914 Lina Bo Bardi tornar-se-ia uma activista dos princípios humanistas do Movimento Moderno, sendo hoje reconhecida como uma das grandes figuras da arquitectura do século XX. Nos seus trabalhos, que se estendem também ao domínio do desenho e da pintura, à edição gráfica, à joalharia e à cenografia, revela-se o encontro feliz entre as referências da sua formação Europeia com a espontaneidade da cultura Sul-Americana.
Abraçando o Brasil como sua pátria a partir da segunda metade da década de 1940 Lina viria a desenvolver uma obra muito diversa, vertendo nos seus textos críticos o seu pensamento enquanto defensora diligente da responsabilidade ética da arquitectura e da vontade de sensibilizar a sociedade para uma consciência mais profunda da História.


Se a casa de um arquitecto é a sua confissão, a casa de Lina no Morumbi revela-nos a sua sensibilidade estética de partida. Uma das suas primeiras obras construídas em território Brasileiro, a Casa de Vidro ostenta orgulhosamente a sua matriz modernista com uma frente suspensa sobre o parque: dois planos de betão armado assentes sobre pilotis e uma generosa envolvente envidraçada, aberta para a natureza.


A arquitetura é arte. É arte, só que não no sentido mofado das escolas de belas artes. Vejo a arquitetura profundamente vinculada com a ciência e a técnica. Na verdade não há diferença nenhuma.
A Tecnologia colocada em seu justo lugar nada pode causar de ruim, como impedir a Poesia, o Belo, até os sonhos bonitos.



A elevação e a transparência foram motivos que acompanharam alguns dos seus projectos mais notáveis, destacando-se a proposta para um Museu à Beira do Oceano, desenhada no mesmo ano de 1951, e aquela que é para muitos considerada a sua obra prima, o Museu de Arte de São Paulo, desenvolvido a partir de 1957.
Ícone da arquitectura Brasileira, o MASP é um exercício assumido de democracia e verdade construtiva. Um edifício suspenso sob uma híper-estrutura oferece um extenso espaço público ao nível da Avenida Paulista, bem como um prolongamento visual sobre o Parque Trianon. O volume-museu é todo ele generosamente envidraçado e a permeabilidade visual é acentuada pelos próprios suportes expositivos no interior, desenhados pela arquitecta, formados por lâminas de cristal temperado amparadas por singelos blocos de betão.


Acho que no Museu de Arte de São Paulo eliminei o esnobismo cultural tão querido pelos intelectuais (e os arquitetos de hoje), optando pelas soluções diretas, despidas. O concreto como sai das formas, o não acabamento, podem chocar toda uma categoria de pessoas.



A par com os seus projectos de cariz assumidamente moderno, Lina viria a ensaiar outros trabalhos de expressão mais vernacular, reflexo da sua sensibilidade artística e do seu fascínio pela cultura popular Brasileira. O seu descomprometimento gera, ainda hoje, alguns mal-entendidos naqueles que confundem com populismo a sua capacidade de abraçar com entusiasmo as contingências e os condicionalismos locais.
Em boa verdade, Lina Bo Bardi compreendia – e deixou disso testemunho escrito – o alcance do funcionalismo e da estandardização como instrumentos poderosos para democratizar o acesso à salubridade, ao conforto e à qualidade de vida das pessoas; enfim, à urbanidade – valores base da própria arquitectura moderna num tempo de profundas carências sociais.

Mas Lina tinha de igual modo consciência da necessidade de prover a uma experiência “espiritual” da vida, denunciando uma perda cultural que vinha a par com a especulação urbana e a massificação dos processos do fazer da cidade, dando lugar ao aparecimento de técnicos sem erudição e consciência ética que, nas suas palavras, iam reduzindo a vida humana a uma aventura sem fantasia, alheia à natureza, num divórcio que não pode ser normal, que contradiz as necessidades orgânicas, tendendo para uma arrogância suspeita, como que num desafio às origens das quais não podemos nos esquecer.



Para um arquiteto, o mais importante não é construir bem, mas saber como vive a maioria do povo.
O arquiteto é um mestre de vida, no sentido modesto de se apoderar desde como cozinhar o feijão, como fazer o fogão, ser obrigado a ver como funciona a privada, como tomar banho.
Ele tem o sonho poético, que é bonito, de uma arquitetura que dá um sentido de liberdade.
A arquitetura é profundamente ligada com a vivência, na medida que ela é tudo.




Obra de grande maturidade, que encerra o reencontro decisivo das suas múltiplas ideias e de todo um percurso de vida, encontramos no centro cultural SESC Pompéia projectado em 1977. Ali podemos descobrir uma arquitectura de contenção, de economia de desenho, de envolvimento social e de ética, dando corpo a um equipamento comunitário vibrante erguido sobre o casco de uma antiga unidade fabril.



Em Lina Bo Bardi encontramos alguém para quem a Modernidade foi, acima de tudo, um corpo de princípios, muito mais do que um depositário estilístico de formas e feitios. A sua obra afirma-se como um percurso de consciência cívica e de humildade, palavra tão ao gosto de Lina – uma humildade que nos serve de exemplo da força daqueles que, seguros de si próprios, não fazem de cada gesto autoral uma imposição sobre o espaço “do outro” mas antes uma oportunidade para participar generosamente no território da comunidade, na defesa intransigente de uma vivência rica e plena.
Por isso foi capaz de projectar obras profundamente modernistas, ousadas e híper-estruturais, ou dedicar-se com descomplexada sensibilidade artística a processos minuciosos e participativos, abertos a todas as influências, construídos no seio das maiores limitações materiais e humanas.
A arquitectura de Lina Bo Bardi é assim a antítese da starquitectura e é, também por isso, perene e contemporânea. Fala-nos do passado e continuará a transportar-nos para o futuro.

Lina Bo Bardi faleceu em 1992. Tinha 78 anos de idade. A sua obra vive e continua a ensinar-nos.


Mas o tempo linear é uma invenção do ocidente,
o tempo não é linear,
é um maravilhoso emaranhado onde,
a qualquer instante,
podem ser escolhidos pontos e inventadas soluções,
sem começo nem fim.
30.3.15

Irracionalismo


Uma esplanada composta por cadeiras de resina brancas – à venda no Leroy Merlin pela módica quantia de 4,49 euros cada – repousa num recanto da Cidade da Cultura da Galiza, obra que custou ao governo da região cerca de 400 milhões de euros. O cenário revela-se uma caricatura real das muitas perplexidades que se levantam perante estas arquitecturas mediáticas correntemente designadas como starchitecture.

Um artigo do The Architectural Review traça uma abordagem certeira sobre as contradições em que assenta o discurso “crítico” que tantas vezes se enuncia em torno destas obras – ler Empty gestures: Starchitecture’s swan song. São projectos que enfatizam o gesto híper-estrutural, marcados por uma grosseira desproporção entre o contentor e os seus conteúdos, com uma relação inversamente proporcional no que respeita ao investimento entre o construído e o vivido. Invariavelmente, são edifícios de exacerbada generosidade espacial para pouca ou nenhuma função – grandes átrios, extensos corredores, colossais escadarias; espaços onde persiste apenas o momento contemplativo. Uma arquitectura diligentemente empenhada em oferecer ao visitante o êxtase perante a sua própria obesidade.

O desalento que não podem deixar de nos provocar estas arquitecturas prenuncia a necessidade de revisitar uma história crítica da arquitectura contemporânea tendo presente o entendimento que hoje podemos ter quanto ao processo político e económico que conhecemos nas últimas quatro décadas. Estas são, em boa verdade, arquitecturas “do seu tempo” – de um tempo de irracionalismo que não deixará de invocar, como escreve Peter Buchanan, as maiores perplexidades junto das próximas gerações de arquitectos. E são também já arquitecturas do passado – mesmo nas suas manifestações vindouras. A sua espectacularidade só tem eco na sua profunda irrelevância. O mundo da arquitectura não tem hoje nada a aprender com estes exercícios de grande mediaticidade, presos que estão à singularidade dos seus contextos políticos e a uma visão hipertecnológica do processo construtivo.

A compreensão da singularidade que sustentou o fenómeno da starchitecture obrigará a reflectir sobre a sua fundação política e a efemeridade das circunstâncias económicas e sociais que a envolveram. Não podem nessa discussão os arquitectos julgarem-se espectadores inocentes da História ou fazer crer, como por vezes se ensaia, o papel amoral das suas investigações conceptuais – um discurso que só tem paralelo na retórica neoliberal em torno da pretensa amoralidade da actuação livre dos agentes económicos. Em si mesmo tal prerrogativa é já, ela mesma, uma afirmação carregada de “moralidade”.
O que está aqui em causa é, afinal, algo muito simples: que uma má política resultará sempre numa má arquitectura – eis algo que nem o mais sofisticado parametricismo consegue esconder.

Sobre este tema ler também: Arquitectura do défice: da arquitectura como narrativa política e Retratos da crise.
19.2.15

Infinito e mais além


Though my soul may set in darkness,
it will rise in perfect light;
I have loved the stars too fondly
to be fearful of the night.
— The Old Astronomer to His Pupil, Sarah Williams.

Uma montagem extraordinária em tributo ao cinema de ficção científica. A música é do filme Interstellar, da autoria de Hans Zimmer. A voz é de Anthony Hopkins.
9.2.15

A ler


A zona euro dedicou mais de um terço da sua vida a um ajustamento desequilibrado, que empobreceu toda a zona. Os custos desse ajustamento recaíram quase exclusivamente sobre os países mais pobres. (…)
Tendo identificado erradamente o cerne do problema com que a crise a confrontou, a forma como a zona euro com ela tem lidado revelou-se profundamente errada, porque se concentrou sobretudo nos sintomas mais visíveis ou nas ramificações do problema, descurando a sua raiz.
– Eurocrise: uma outra perspectiva, Vítor Bento, Observador.

Sabia que?...

Será que os nossos comentadores, jornalistas e directores de jornais sabem estes factos sobre o sistema bancário moderno? Eis algumas perguntas simples sobre economia.
5.2.15

Portugal do lado errado da História


Os governantes alinhados com a doutrina dominante na UE, entre os quais encontramos o Primeiro Ministro português, não querem sequer ouvir falar sobre a proposta do novo governo de Alexis Tsipras que gostaria de convocar uma grande conferência europeia sobre a dívida. Qualquer debate sobre estratégias e modelos alternativos de gestão das dívidas públicas é suprimido liminarmente. A palavra reestruturação, essa, tornou-se perigosa e é motivo de despudoradas campanhas de desinformação que procuram capturar os cidadãos no seu próprio pensar.

Jornalistas acorrem a questionar políticos sobre as suas posições a respeito de “intenções de reestruturação unilateral” das dívidas soberanas – uma discussão que simplesmente não existe e algo que ninguém propôs. As perguntas parecem saídas directamente de gabinetes de comunicação próximos do governo, prontas a serem replicadas por funcionários servis que há duas semanas não sabiam sequer quem era Varoufakis – muito menos conhecem as suas propostas.

No essencial, a Proposta Modesta avançada por Yanis Varoufakis e Stuart Holland e, numa posterior revisão, subscrita também por James Galbraith, assenta na transferência parcial (mas expressiva) de dívida para o domínio público, através do BCE, fazendo com que os títulos de dívida dos estados do Euro deixem de estar na dependência de financiamento junto da banca privada.

Tal possibilidade é também deturpada recorrentemente nos meios de comunicação por comentadores que alertam para os perigos que podem advir da criação de dinheiro “do nada” pelo BCE para a compra de dívida pública, ignorando, por desconhecimento ou com dolo, que é exactamente isso que faz o sistema financeiro privado através da banca comercial. No contexto Europeu, à semelhança do que se passa nos Estados Unidos, mais de 95% do money stock em circulação na economia foi criado pelos bancos através da concessão de crédito na forma de depósitos electrónicos. A este respeito tive a oportunidade de escrever aqui no blogue: ler A Grande Questão Política do Nosso Tempo.

Importa dizer que a transferência de dívida pública dos estados para o foro de gestão de um "Tesouro" europeu não significaria qualquer despesa adicional para os cidadãos da zona Euro – muito menos dos trabalhadores dos países mais ricos para os mais endividados. Pelo contrário, teria como principal efeito uma redução imediata de cash-flow da banca comercial em resultado da perda dos juros que esta faz incidir sobre a dívida pública, susceptíveis à influência das agências de rating – empresas igualmente ligadas ao sector financeiro.

Neste xadrez político, o Primeiro Ministro afirma-se contrário à hipótese de reestruturação – contrário até a que sobre o tema se venha a realizar qualquer debate. Assim sendo, importa interrogar qual a estratégia, qual o projecto que o actual governo tem a apresentar para Portugal.

A possibilidade de levar a cabo um processo de investimento público ao abrigo do Plano Juncker afigura-se praticamente vedada a Portugal. Tratando-se de um plano que tem subjacente a co-participação maioritária de fundos da banca comercial, tal significa actuar na dependência de mais endividamento público. Estando Portugal em endividamento excessivo e sobre o efeito de apertados limites orçamentais, a acção do Plano Juncker no nosso país só poderá assim ser residual.

Outra possibilidade seria esperar o relançamento do financiamento privado da economia, em resultado do reforço das reservas bancárias por via da acção de quantitative easing pelo BCE. No entanto, mesmo presumindo que tal reforço de reservas se viesse a traduzir na maior disponibilidade da banca para conceder crédito às empresas – o que de resto contraria a experiência já observada nos Estados Unidos e no Reino Unido – sucede que as empresas portuguesas e os particulares também se encontram numa circunstância de excessivo endividamento.
Incapazes de absorver mais crédito, com um mercado em contracção de consumo, tal via parece também não oferecer quaisquer perspectivas de sucesso.

Em que fica, então, o projecto do governo para Portugal? Sem reestruturação da dívida pública (ou uma alteração substancial do modelo de gestão de dívida dos estados da zona Euro), sem acesso significativo ao investimento europeu e sem viabilidade para financiar a economia privada no mesmo modelo de crédito que vigorou até aqui, só nos resta um resultado: definhar, lenta e inexoravelmente.

Torna-se claro que Pedro Passos Coelho, convergindo com a corrente dominante na União Europeia protagonizada por Angela Merkel, Mario Draghi e Jean-Claude Juncker, e avalizada por Christine Lagarde, não actua na defesa dos contribuintes europeus, muito menos dos portugueses. Ao negarem a possibilidade de instituir um sistema de gestão de dívida pública na zona Euro, os líderes da União estão a actuar em defesa da superestrutura financeira que vem controlando a política monetária, abusando do poder que lhe foi colocado à disposição para gerar uma insustentável bolha de crédito de crescimento exponencial nas últimas décadas.

É isto que está em causa. E é também por isso que qualquer debate sobre reestruturação, seja por via das propostas subscritas por Varoufakis, pelo plano de Wyplosz ou por qualquer outro, é abafado liminarmente do espaço público. Para não ver posto em causa o establishment de poder que vem ditando as regras do projecto Europeu.
4.2.15

Terra incognita


Se a Europa – isto é, a Alemanha – forçar o Governo de Tsipras a capitular, muita gente ficará feliz com o desfecho. Mas são inconscientes: estarão apenas a antecipar o fim da Europa. A capitulação e a humilhação da Grécia detonará, entre muitos povos da Europa, uma onda de ódio antialemão e de frustração com Bruxelas que será terra fértil para extremismos bem mais perigosos e incontroláveis. O desespero nunca foi bom conselheiro. A chancelerina Merkel devia meditar na célebre frase de Kennedy: “Os que tornam impossível a revolução pacífica tornam inevitável a revolução violenta”.
– Miguel Sousa Tavares: Se nós não somos a Grécia é porque somos parvos; Expresso

A imagem fica para a crónica destes tempos. A História desenrola-se em frente dos nossos olhos. Não sabemos ainda, em boa verdade, o que estamos a ver; a capitulação de um funcionário de Bruxelas ou o vôo de Ícaro de Varoufakis. O presente é sempre um espesso nevoeiro que tarda em passar. É a maldição de viver tempos interessantes. Ou tempos estranhos, estes, em que a estabilidade é uma certeza de agonia e na incerteza encontramos a única réstia de esperança.

Arquitectura à Moda do Porto


Arquitectura à Moda do Porto é uma série que dá a conhecer um olhar irreverente sobre obras de arquitectura emblemáticas das últimas duas décadas da cidade invicta. São dez episódios para descobrir no sítio web deste projecto criado pelos arquitectos Filipa Figueira e Tiago Vieira, em colaboração com a Building Pictures.

A equipa pretende dar continuidade à iniciativa estando actualmente à procura de parceiros para estender o conceito a outras cidades. Uma forma interessante de estimular o interesse não só de arquitectos mas do público em geral pelo gosto da arquitectura através de pequenas curtas metragens, leves e divertidas, com uma forte relação com a música. Mais informações disponíveis através do Facebook.
1.2.15

Chicotada na mediocridade


Um jovem baterista frequenta o mais reputado conservatório de Nova Iorque alimentando o sonho de se tornar um músico de jazz fora de série. É então que um mítico mas temível professor o selecciona para fazer parte da banda da escola, dando-lhe a conhecer um tortuoso caminho de aprendizagem que exige, literalmente, suor, lágrimas e até sangue, acabando por subjugar todos os outros aspectos da sua vida e comprometer a sua própria sanidade.

Dirigido por Damien Chazelle, um cineasta de apenas trinta anos, Whiplash é um autêntico extraterrestre na lista de candidatos para os Óscares. A sua enérgica realização conta com o confronto de representação entre Miles Teller – actor revelação do excelente The Spectacular Now – e um assombroso J.K. Simmons no papel do professor, tendo alcançado a nomeação para o Óscar de melhor actor secundário.

O filme não é alheio a alguma controvérsia pela violência imposta pelo professor aos seus alunos. As suas aulas são um espectáculo catártico de abuso verbal, encenações distantes da realidade do ensino musical mas que ensaiam, com grande teatralidade, o custo pessoal que pende sobre aqueles que se entregam ao caminho da verdadeira excelência. Não está assim em causa legitimar a brutalidade do seu comportamento – ele próprio acaba por revelar uma consciência pesada ao mentir sobre a causa da morte de um ex-aluno, numa cena crucial do filme, e a história não foge a mostrar-nos tudo aquilo que é deitado a perder quando se persegue uma obsessão.

Mas Chazelle foge a resolver a “moral” da história ao espectador. O seu filme acaba por revelar-se um tributo a todos aqueles que entregam a sua vida em busca da perfeição, tornando este mundo um lugar melhor com a dádiva da sua arte. A verdade de Whiplash transcende afinal o campo musical para se tornar universal. A grandiosidade só está ao alcance daqueles que se dispõem a pagar o preço da sua paixão em muitas horas de trabalho e empenho, seja no jazz ou em tantas outras formas de expressão humana. Um dos grandes filmes do ano, entusiasmante e provocador, para ver e discutir durante horas a fio.
31.1.15

Tiro ao lado


Será injusto acusar Clint Eastwood de alimentar uma visão bidimensional sobre a guerra. Falamos do autor de um díptico da Segunda Guerra Mundial – Flags of our Fathers e Letters from Iwo Jima – que se propôs evocar os dois lados de um mesmo conflito armado num exercício sem paralelo na história do cinema.
American Sniper não beneficia dessa multiplicidade de pontos de vista. Pelo contrário, o filme começa exactamente por convocar a perspectiva subjectiva que condiciona todo o percurso da sua personagem. Numa das primeiras cenas do filme Chris Kyle, o atirador interpretado por Bradley Cooper, é confrontado com a decisão difícil de abater uma criança. A sequência marca o trajecto sem retorno para todos os que vivem a brutalidade do cenário de guerra. Acima de tudo, Clint Eastwood sublinha desde o início a ambiguidade cruel do conflito que compromete a metáfora definidora da natureza de Kyle – um cão pastor que protege as ovelhas dos lobos. Mas quem se atreve a dizer quem são afinal os lobos e as ovelhas nesta história?

Como retrato dos efeitos psicológicos da guerra American Sniper começa por se revelar um objecto de invulgar complexidade, dando a conhecer os motivos que levam alguns homens a voltar ao combate em múltiplas jornadas de serviço. Kyle não regressa ao Iraque em busca de aventura mas, pelo contrário, pela compulsão maior de um sentido de defesa para com seus companheiros. Pouco vulnerável a estados de alma, encontrando justificação para os seus actos num necessário sentido de dever, Kyle é alguém que não verbaliza o processo psicológico que atravessa – na verdade, não está sequer consciente do que lhe está a acontecer. O desafio notável da representação de Bradley Cooper é exprimir esse processo não através da exposição mas da supressão de emoções, revelando-nos um homem incapaz de regressar a uma normalidade que ele próprio se tornou incapaz de compreender.

As fragilidades de American Sniper tornam-se no entanto evidentes no modo como se revela incapaz de confrontar os demónios que ele próprio invoca. Apresentando-nos a dinâmica interior conturbada da sua personagem, o filme carece de uma resolução também ela psicológica. Lamentavelmente a narrativa acaba por se centrar no duelo entre Kyle e um atirador iraquiano, enredo fictício enfatizado por Steven Spielberg numa das revisões do argumento aquando do seu envolvimento na produção, numa altura em que ponderava ainda realizar o filme.

Esse fio narrativo contamina de forma irremediável as motivações da personagem central, colocando em primeiro plano o confronto da acção e desvalorizando o processo mental que torna o regresso tão difícil. A tempestade de areia que marca a resolução narrativa assume-se assim uma metáfora terrivelmente ambígua. Resolvido o conflito, tudo se apaga? Kyle parece por fim apaziguar-se com os actos cometidos, votando a crua realidade daquele país em conflito a uma mera decoração de fundo da sua viagem.

Como nos lembra Brian Turner, veterano da guerra do Iraque e autor do livro My Life as a Foreign Country, o problema de American Sniper é também o problema mais vasto da América no modo como vê o mundo. Que, em American Sniper, os iraquianos, homens, mulheres, crianças, existem e são definidos apenas na sua relação com o conflito e no risco potencial que representam. As suas vidas interiores são uma folha branca; em boa verdade, não chegam a ser pessoas – e se a sua humanidade fosse reconhecida, ruiría a narrativa mental que permite ao herói cavalgar por fim, em paz, em direcção ao horizonte.

Clint Eastwood acaba por nos trazer uma obra que se parece perder na sua própria ambiguidade, comprometida que fica na vontade de afirmar Chris Kyle como um herói americano – condenando-se assim a dividir plateias entre os que o acusam de patriotismo cego, por um lado, e os que aplaudem o tiro decisivo da narrativa por outro. Talvez o filme beneficiasse em providenciar uma perspectiva mais vasta, dando a conhecer o homem na sua verdadeira dimensão, com os seus defeitos e as suas virtudes, as suas motivações e circunstâncias, revelando-o simplesmente humano e deixando o resto para a audiência.