A Barriga de um
Arquitecto

Mais depressa nos ensina a terra do que todos os livros. Porque nos resiste.

26.7.15

“Direita é rigor” e outras histórias


Naquela que é a dimensão económica do debate político a direita conquistou um território determinante ao fazer passar uma ideia muito simples: “direita é rigor”; a esquerda pode ser idealismo, lirismo, poesia e bons sentimentos, mas para grande parte do público é sinónimo de falta de rigor e ausência de realismo.

A ascensão desta ideia teve como pano de fundo o desencanto dos cidadãos para com a Política, por um lado, e a forma hábil como a direita foi adoptando uma linguagem de formulação técnica e de aparência apolítica. As ideias passaram a sustentar-se não como produto de vontades mas em função da sua validade académico-científica. Assim, também o debate transitou do campo do confronto das ideias para se dirimir no plano da construção da própria realidade. E é essa “realidade” – de que tão bem nos fala Pacheco Pereira – que é fabricada laboriosamente todos os dias por comentadores e consultores de comunicação que, nas televisões, nos jornais, nos blogues e nas redes sociais, trabalham o desfile selectivo de índices parcelares e variações homólogas que pincelam o pequeno quadro do mundo que lhes importa relevar, ignorando tudo o que não tem lugar nas suas narrativas.

Em boa verdade, o predomínio do económico no debate político acabou por favorecer uma profunda iliteracia económica junto da opinião pública. Uma iliteracia fundada em ideias simples, de “senso comum” que “todas as pessoas percebem”. Que fazem sentido no mundo do dia-a-dia mas que são absurdos no mundo real da política monetária e financeira.
Comentadores que falam de economia com metáforas da economia familiar, da dona de casa que gere bem o lar, de que não se pode gastar mais do que se ganha. “Isto é uma coisa que toda a gente percebe!”.

Dizer que “quem não paga as dívidas é caloteiro” (como dizia em entrevista Marinho e Pinto há alguns meses) todos compreendem. É uma ideia que passa numa frase. Explicar que vivemos num sistema financeiro em que o dinheiro é criado sobre a forma de crédito já demora cinco ou dez minutos. É preciso fazer referências, citar documentos, para a partir daí ponderar sobre uma complexa teia de implicações que nada tem de senso comum.

Explicar o que foi a expansão monetária das últimas quatro décadas e a bolha exponencial do crédito da década pré-2008 demora outro tanto. Como dá trabalho explicar o absurdo que leva países em regime de moeda fiduciária a submeterem-se a financiamento exclusivo junto da banca privada, ou do absurdo de uma Europa cujo banco central se permite insuflar 1.2 biliões de euros em quantitative easing para o interior do sistema financeiro privado, mas que para alavancar um plano (Juncker) de estímulo económico obriga os países a financiarem-se junto da banca comercial, através de emissão de mais crédito, logo com aumento de dívida pública ao sector privado.

O “rigor” e o “realismo” que nos impõe a corrente política dominante da Europa tornou-se afinal uma repressão do pensamento, uma submissão a uma construção que nada tem de lógico ou racional, uma construção que é apenas uma de muitas alternativas possíveis. Um sistema distorcido pela desregulação financeira, que perverteu as regras do próprio capitalismo e subjugou a sociedade ao poder financeiro, através da dependência do crédito como base do seu modelo de crescimento.

A Europa que se nos revelou nas últimas semanas só pode deixar tranquilos aqueles que vivem na “realidade” dessa iliteracia. Aquilo a que assistimos foi ao cair de uma máscara, deixando a descoberto a verdadeira face do poder. E ficámos a saber – se dúvidas ainda persistissem – que a União Europeia é uma estrutura que defenderá, a qualquer preço, o mesmo sistema financeiro que gerou monstruosas bolhas de endividamento, de que foi o principal beneficiário.
Os cidadãos podem falir, as nações podem falir, mas os bancos não. Para as pessoas e até para os países não há risco sistémico. Afinal, “se um sair, ficam dezoito”.

Está escrito nos tratados: “A União é fundada nos valores do respeito pela dignidade humana, da liberdade, da democracia, da igualdade, do primado da lei e do respeito pelos direitos humanos”. Ao lermos hoje estas palavras, não podemos deixar de ser invadidos por um profundo e doloroso desalento. E talvez um dia, mais cedo do que imaginamos, sejamos confrontados com essa pergunta: como foi possível destruir tanto por tão pouco, em tão pouco tempo.
24.7.15

Isto não é jornalismo


Image credits: Bobby Becker.

A célebre reportagem de José Rodrigues dos Santos sobre ”Os Gregos”, transmitida pela primeira vez em Janeiro deste ano, devia ser um caso de estudo para o jornalismo televisivo português. Trata-se de uma peça que enferma de diversos erros formais conhecidos no que respeita a um retrato fiel e rigoroso dos factos: falácias lógicas e truques de retórica que transmitem uma mensagem tão provocatória quanto perigosa.

O tom grave com que Rodrigues dos Santos dá início à peça cedo se dilui num relato maniqueísta da realidade, dando conta de diversos casos notáveis para elencar um retrato moral da sociedade grega. O primeiro exemplo dessa narrativa é-nos contado dando conta do suborno que “muitos dos Gregos” fazem a médicos corruptos de modo a obter uma declaração fraudulenta de invalidez para beneficiar de “mais um subsidiozinho”. A este seguem-se outros casos igualmente sensacionais tais como um programa estatal não quantificado de “férias para os pobres” ou as casas de Atenas com piscina não declarada para efeitos fiscais, para derivar numa conclusão mais abrangente sobre “os gregos”, “o povo da zona Euro que mais foge aos impostos”.

Aqui podemos testemunhar dois importantes mecanismos de retórica destinados a conduzir a audiência a uma conclusão pré-determinada. O jornalista começa por estabelecer um conjunto de cenários que envolve invariavelmente grupos minoritários de cidadãos para derivar, por correlação, na culpabilização da sociedade grega na sua generalidade. Trata-se de uma falácia de composição assente na presunção de que se determinados factos são verdade para uma parte de um todo, devem ser igualmente a verdade do todo.
Em segundo lugar encontramos uma falácia de falsa equivalência. Rodrigues dos Santos denuncia a corrupção e a evasão fiscal como causas centrais da crise económica grega, ignorando a complexa teia de factores que conduziu ao sobreendividamento do país na década anterior à crise. Também aqui estamos perante uma simplificação argumentativa em que se um fundamento é verdadeiro, nenhum outro tem de ser invocado.

A este respeito o jornalista acaba por desenvolver a sua argumentação “em directo”, com uma frouxa análise, referindo de passagem “o colapso do Lehman Brothers em 2007 que pôs a nu um conjunto de problemas, designadamente os problemas da arquitectura do Euro” – uma frase incompreensível enquanto tradução de um qualquer pensamento político-económico.
Mas Rodrigues dos Santos vai tão longe quanto justificar que “o que a Troika diz é vocês têm um bolso roto e nós estamos a dar-vos dinheiro, e o bolso está roto de onde o dinheiro desaparece logo. Vocês têm de coser o bolso e, portanto, se nós parármos de fazer pressão vocês vão parar de fazer reformas”. Aqui entramos já no domínio da opinião e de um pensamento político bem definido. Frases como “nós estamos a dar-vos dinheiro” ignoram grosseiramente a complexidade dos mecanismos financeiros que foram postos em prática pelo programa de intervenção externa da Troika e os fins a que se destinaram. De igual modo, sobre aquilo que se entende por reformas e sobre os seus resultados, nada é dito.

Prossegue depois para o discurso da culpabilização: “Os Gregos defendem que a Europa é que tem de resolver os problemas. Não lhes cabe a eles resolver estes problemas. (…) Eles entendem que, embora reconheçam que hajam problemas sérios na economia do seu país, não são eles que têm de fazer o esforço para os resolver. Tem que ser a Europa a resolver tudo por artes mágicas”. Seria interessante podermos ouvir o testemunho directo d'"os gregos" que defendem este ponto de vista.
O ponto final do discurso odioso de Rodrigues dos Santos revela-se em pleno na sua conclusão final: “E sobre a pobreza na Grécia é importante acrescentar uma coisa. A Grécia é um país que é mais pobre do que Portugal, mas onde as pessoas durante muitos anos ganhavam mais do que em Portugal”- uma argumentação que prossegue na linha mais básica do incitamento à inveja, alheia ao enquadramento geopolítico do país e à situação laboral que hoje se vive.

Em tudo isto podemos encontrar tácticas bem conhecidas de distorção informativa que devem ser denunciadas. Estamos afinal perante um testemunho que contribui para pintar um quadro genérico junto da opinião pública, representando os gregos como os vilãos de uma história de modo a validar um juízo moral maniqueísta, do bem contra o mal, que legitima a intervenção punitiva sobre um país, independentemente das consequências – e de quem as sofre. De resto, quase tudo aquilo que ali é revelado poderia ser dito, com exemplos mais ou menos próximos, sobre nosso país. Os leitores do Bild haveriam de gostar.
8.7.15

Diz que é um programa sobre economia


A Cor do Dinheiro, “programa semanal de debate sobre assuntos económicos e financeiros” da RTP Informação, dedicou o seu ultimo episódio ao tema da subida de preços no imobiliário. O jornalista e apresentador Camilo Lourenço deu a conhecer o enquadramento do tema interrogando-se sobre os eventuais efeitos da recuperação económica, da disponibilidade de emissão de crédito por parte da banca, da influência do turismo ou do interesse dos cidadãos estrangeiros em adquirir imóveis em território nacional.

Tendo como ponto de partida um diálogo com um consultor na área do imobiliário, o programa é um caso exemplar da superficialidade com que o fenómeno da construção é tratado nos meios da especialidade. De todo omisso está um olhar abrangente sobre a natureza sistémica que a crise de 2007/2008 teve sobre este sector da economia, em particular quanto aos mecanismos financeiros que sustentaram a evolução excepcional que se registou em Portugal desde 1970.
Igualmente ausente está uma qualquer reflexão sobre os efeitos que a injecção de liquidez resultante do programa de quantitative easing levado a cabo pelo BCE está a operar na banca comercial, favorecendo a valorização de activos no domínio imobiliário – a partir do qual poderíamos reflectir sobre a sustentabilidade da subida de preços enquanto reflexo de um efectivo crescimento económico.

Temos assim um diálogo travado com a desenvoltura própria dos “homens do meio”, um patamar acima de um vendedor de automóveis e muitos furos abaixo de um qualquer pensamento académico-científico sobre economia. Somos brindados com um chorrilho de lugares comuns, do país de brandos costumes – “que dá para controlar” (sic) – e do bom clima, culminando numa visão optimista assente em considerações dignas da sabedoria à Futre. Ao que parece estão a vir charters de Chineses da China para comprar casa em Portugal por causa desse grande pilar estratégico do nosso crescimento económico que são os vistos Gold.

De passagem, o consultor Pedro Santos refere um aspecto que vale a pena reter: em Lisboa, a procura de imóveis para investimentos no domínio da reabilitação parece estar a exceder a oferta disponível. Este facto devia motivar uma reflexão profunda, que fica igualmente por fazer, por dar conta do efeito que a paralesia do mercado da construção pode estar a ter no aumento do preço dos imóveis – revelando-nos, afinal, que tal fenómeno pode não decorrer de uma efectiva vitalidade do mercado mas antes dos efeitos inflacionários da compressão da oferta.
A verificar-se, estaremos a confundir com retoma aquilo que poderá não passar de uma distorção de preços, impeditiva para o seu ajustamento em baixa, lesiva para o futuro da economia da construção – aspecto particularmente grave para a aposta tão necessária no domínio da reabilitação urbana.

Sobre este tema ler também: Alguns dados para compreender a crise da construção em Portugal, A layer zero da arquitectura e do urbanismo (pensamentos sobre a criação de dinheiro e o problema das cidades) e Uma história de sobreaquecimento da economia.
3.7.15

Ground Z€ro


May your choices reflect your hopes, not your fears.
— Nelson Mandela

Uma interrogação que vale a pena colocar nos dias que correm.

Assistimos em 2008 à maior crise financeira da nossa geração, a que se seguiu um ataque especulativo aos títulos de dívida pública dos países mais frágeis da zona Euro.

Não se trata aqui de ignorar os erros dos países que se colocaram nessa situação – políticas de expansionismo económico levadas ao limiar da insustentabilidade. Mas a interrogação persiste.

Que diálogo despoletou esta crise no seio das lideranças europeias? Que discussão teve lugar no contexto do projecto europeu e da união monetária: do que aconteceu, dos erros cometidos – e por quem? Que lições foram extraídas afinal desta crise?

Como foi possível que à maior crise das nossas vidas não se tenha seguido um debate europeu profundo, alargado, plural, sobre o projecto da união e da moeda única? Pelo contrário, prevaleceu o dogmatismo da letra dos tratados, das regras vigentes, do sistema monetário, da salvaguarda das instituições financeiras, a qualquer preço. Da intocável ordem estabelecida.

É esta paz podre ideológica que veio ser perturbada por esses desalinhados, irreverentes, impreparados, ingénuos líderes gregos.

E assim continuam as instituições da união a fugir de uma discussão sobre o processo que conduziu à crise das dívidas soberanas na Europa, fruto de bolhas de endividamento público acentuadas no período do euro, em particular entre 2000 e 2008 – que, importa não esquecer, as orientações europeias apoiaram até 2010.

O caso grego é paradigmático – tendo, em muitos aspectos, paralelismo com o caso português. Um processo de endividamento que sobreaqueceu a economia, com taxas de crescimento aceleradas que corresponderam, naquele país, a aumentos de nível de vida desconformes com a média europeia.

Alguns comentadores analisam a bolha de endividamento da Grécia concluindo que o pesado processo de ajustamento fez apenas a economia do país regressar ao ponto em que estaria se tivesse tido um crescimento normal, lento e gradual, e não sobreaquecido pelas políticas de expansionismo económico.

Mas esta conclusão enferma de um erro. A Grécia não voltou ao ponto de partida, onde devia estar. Voltou ao ponto em que estaria, mas a que se soma o peso da dívida entretanto constituída pelo estado grego. Dívida de dinheiro que, entenda-se, já lá não está – mas que os gregos agora terão de pagar, com a gravitas de uma exigência moral.

O ponto é este: se a Europa das instituições tivesse perante este processo um papel de genuína seriedade – uma postura moral – seria a primeira a exigir como ponto prévio à intervenção externa auditorias a esses processos de endividamento.

Claro que, se o fizesse, viria ao de cima que tais bolhas foram promovidas por governos dos dois principais blocos políticos da UE. Viria ao de cima que essas bolhas alimentaram dívidas que beneficiaram países como a França e a Alemanha, que financiaram, através da sua banca privada, esses processos – um bom exemplo são as aquisições significativas no campo militar levadas a cabo pela Grécia, exactamente à França e à Alemanha.
E saberíamos então quem gastou o dinheiro e para onde ele foi.

Mas esse é um tema de que esta Europa não quer sequer ouvir falar. A ideia de auditoria das dívidas é repudiada e catalogada nos principais media como uma agenda de radicais.

E os gregos, como ficam. Ficam com a “canga” da dívida, com pesados cortes de salários e pensões, com desemprego de um quarto da população, com uma geração jovem estilhaçada pelo desemprego, com uma vaga de emigração de quadros superiores, com um aumento de pobreza que leva milhares de cidadãos caídos da classe média para a condição de sem-abrigo, com um extenso programa de privatizações levado a cabo em circunstâncias de emergência lesivas para o Estado, com sistemas públicos como a saúde à beira do colapso, e uma economia eternamente incapaz de crescer.

Onde está então a solidariedade da Europa – sabendo nós agora que a parte principal dos fundos de resgate foram dirigidos á transferência dos títulos de dívida grega (que financiaram a bolha) do sector financeiro para o sector institucional – onde temos, por exemplo, o sistema de pensões grego, que foi fortemente atingido pelo "perdão" de 2012.


É este o outro lado da história que os líderes europeus recusam reconhecer, alimentando o conto de fadas da “solidariedade” e da “generosidade” dos programas de assistência – assim incitando à divisão irremediável dos povos da Europa.

É a isso que importa dizer “não”.
20.6.15

Muito mais do que a Grécia


O conflito político que divide a Grécia dos restantes parceiros da zona Euro veio expor as muitas fragilidades daquilo em que se tornou a União Europeia. Observemos o modo como os representantes políticos dos diversos países renunciam a participar num debate sobre os muitos factores que estiveram por detrás da crise que vivemos. Será talvez o aspecto mais revelador deste prolongado e equívoco processo negocial: a completa irrelevância do Eurogrupo enquanto fórum de discussão e decisão.

Os ministros das finanças que o compõem mais não são hoje do que intermediários no processo de aprovação nacional das medidas impostas pelas principais instituições europeias aos países intervencionados. Na verdade, tanto os eleitos nacionais como os deputados do parlamento Europeu nada querem quanto ao envolvimento directo na imposição dessas medidas, muitas das quais seriam inaceitáveis se não mesmo ilegais nos seus países.
O papel odioso da execução dos memorandos de entendimento é assim deixado para as “instituições” e em particular para os técnicos que as representam, agentes cuja actuação vem sendo crescentemente questionada quanto à sua legitimidade democrática pela ausência de mandato institucional no quadro dos tratados da própria União.

É assim muito revelador o modo como os principais responsáveis governamentais dos diversos países deixaram de acalentar qualquer discurso sobre o futuro do projecto Europeu para insistirem, na discussão com a Grécia, numa redutora exigência do cumprimento das “regras” do Euro que “todos têm de cumprir” e perante as quais “não podem existir excepções”. Não está em causa ignorar as debilidades estruturais do país ou as co-responsabilidades políticas que anteriores governos tiveram no processo de endividamento excessivo que ali teve lugar – algo que o actual governo grego vem exprimindo desde a primeira hora. Trata-se apenas de reconhecer a situação de crise económica, social e agora humanitária que ali se vive.

Falemos claro: a Grécia não tem e não terá capacidade económica e social para sustentar a sua dívida. O actual governo herda do processo de “ajustamento” levado a cabo pela Troika desde 2010 uma queda de mais de um quarto do PIB, um desemprego de 27% (com o desemprego jovem na casa dos 50%), um terço da população abaixo do limiar da pobreza e uma vaga de emigração jovem sem precedentes na sua História. No entanto, é a este país que as “instituições” exigem que tenha um crescimento de 2% em 2016 e 3,5% em 2017.

Refira-se que mesmo a estabilidade alcançada em Portugal no que se refere ao financiamento dos títulos de dívida nos mercados financeiros é uma ilusão de curto prazo. Sem a assistência directa do BCE ou perante alterações conjunturais que venham a instabilizar a economia mundial os nossos cofres cheios não passarão de um pequeno muro de areia à beira do mar. Mais do que isso, o volume de dívida do país, tanto pública como privada, é uma monstruosidade insustentável que ninguém dos partidos do chamado “arco da governação” parece querer discutir.

O que está afinal em causa é muito mais do que a Grécia. A Comissão Europeia e o BCE, com a conivência do FMI, estão a construir um monumental embuste em torno dos problemas estruturais do Euro. Países como a Grécia e Portugal foram subjugados a agendas políticas inúteis, destrutivas no campo laboral e depredatórias no plano das privatizações, instituídas através de “programas de ajustamento” que tiveram como fundamental prioridade a transferência das suas dívidas dos bancos credores externos para o plano institucional e interno.

A ausência de entendimento com a Grécia resulta apenas e só da falta de vontade política para admitir qualquer cenário que fragilize o discurso oficial e dê força às vozes que contestam as orientações políticas dominantes na UE. No entanto, mesmo que venha a prevalecer a lei dos mais fortes, sem a correcção das assimetrias da moeda única, sem uma política conjunta de combate à evasão fiscal e à fuga de capitais, sem a regulação bancária e uma alteração profunda do mandato do BCE que permita o financiamento directo e a intervenção nos mercados que proteja a zona Euro de ataques especulativos, estaremos apenas a adiar a crise de fundo inevitável.

Eis uma Europa incapaz de acalentar hoje qualquer desígnio para o futuro dos seus cidadãos. Os “anos da Troika” mais não fizeram do que segmentar e dividir os europeus; o contrário daquilo que devia ser feito para sustentar uma agenda conjunta de investimento interno para o crescimento e a criação de emprego que ofereça estabilidade e trave a alienação de toda uma geração.

Algumas referências:
As propostas da Grécia para acabar com a crise por Yanis Varoufakis (original aqui);
O Poder dos Loucos por Daniel Oliveira;
Bad Faith. Why Real Debt Relief Is Not On The Table For Greece por James Galbraith;
Why Greece Should Reject the Latest Offer From Its Creditors por Philippe Legrain;
The Eurozone’s Cover-up over Greece por Simon Wren-Lewis;
Europe’s Last Act? por Joseph Stiglitz;
Sabe o peso da canga que leva ao pescoço? por Francisco Louçã.
18.6.15

O rasto da Troika


Tenho vindo a partilhar algumas das entrevistas que Harald Schumann realizou aquando da preparação do seu documentário «The Trail Of The Troika». Está agora finalmente disponível na versão inglesa com legendas em português (acessíveis através do menu do YouTube na barra inferior).

Um testemunho importante para compreender o processo de sobreendividamento que teve lugar em países como a Grécia, Portugal e Irlanda e o enquadramento financeiro e político que determinou a actuação das instituições europeias e do FMI no resgate a estes países.
16.6.15

O académico


Yanis Varoufakis vem-se revelando como um dos mais lúcidos e pertinentes pensadores do que é hoje a Europa e da encruzilhada em que vive o velho continente. Num discurso que apresentou recentemente numa conferência em Berlim deixou um novo e poderoso testemunho desta União dividida por uma mesma moeda, mantida agora não por um qualquer desígnio colectivo mas apenas pela força das dívidas.
No entanto, pese embora o contributo que vem dando para despoletar um debate alargado sobre as causas da crise da dívida pública na Europa e as escolhas que se devem colocar no plano político, Varoufakis é tratado como uma caricatura por grande parte dos media europeus e também em Portugal.

O conflito político que hoje divide o governo grego e as instituições europeias é também retratado nos meios de comunicação e opinião com um penoso simplismo. Mesmo esses cinco por cento da população tida como "cidadãos diferenciados”, espectadores frequentes dos canais de informação por cabo que ocasionalmente até lêem jornais económicos, papagueiam a narrativa superficial em que vivem submersos, reféns de uma visão pré-concebida e acrítica assente em pressupostos maniqueístas quanto à real natureza da crise, quanto ao funcionamento e às consequências do modelo monetário em que laboraram as economias do Euro até à crise 2008/2010 – um modelo que, diga-se, em nada mudou até aos dias de hoje.

Os que avançam o argumento tantas vezes repetido de que a Grécia falida precisa do dinheiro dos contribuintes Europeus para suportar as suas políticas sociais deviam fazer um esforço em tentar compreender que o contexto monetário europeu não é uma lei natural, uma força da natureza "inevitável" como a gravidade, mas o resultado de um modelo instituído com regras – e assim procurar compreender que regras são essas.

Compreender, por exemplo, a relação directa entre a criação de dinheiro e a dívida; o papel e o envolvimento que a banca europeia (maioritariamente alemã e francesa) teve nas políticas de expansionismo que a Grécia conduziu (tal como Portugal e Espanha) até finais da década passada. Ou como pode hoje o BCE criar do nada um bilião (um milhão de milhões) de euros numa ambiciosa operação de quantitative easing para compra de títulos de dívida pública junto da banca comercial, mas que essa mesma Europa não se pode empenhar num programa de financiamento da economia europeia ou na implementação de um mecanismo alternativo de gestão das dívidas públicas dos países do Euro que não os coloque na dependência de financiamento directo junto da banca privada.

Deviam, por outro lado, compreender o que foi o processo de resgate grego. Recomendo a entrevista que Harald Schumann fez a Philippe Legrain, ex-consultor de Durão Barroso na Comissão Europeia, que dá conta, de forma desassombrada, dos verdadeiros contornos daquilo que foi imposto ao governo grego em 2010. Deveriam aliás relembrar-se que a Troika se encontra na Grécia há cinco anos e ajuizar quanto aos resultados económicos e sociais das políticas que ali foram conduzidas por imposição externa.

A verdade é que a “Europa” não é mais um agente neutro. Exemplo flagrante desta realidade é a forma como o "apolítico" BCE retirou de imediato o reconhecimento da dívida grega como garantia nos empréstimos à banca do país, no dia 4 de Fevereiro, uma semana depois da vitória de Alexis Tsipras e no dia em que se iniciavam as conversações do seu novo governo com os parceiros europeus. Um acto que nada tem de apolítico – pelo contrário, tratou-se de uma medida claramente hostil. Dizer também que a fuga de capitais – que de resto é uma constante desde 2010 – pode ser imputada ao actual governo grego, ou que a instabilidade ali criada é da sua exclusiva responsabilidade, é nada mais do que uma dolosa deturpação da verdade.

No entanto, apesar desta complexidade de circunstâncias, é esse discurso simplista da austeridade versus anti-austeridade que vingou nos principais meios de comunicação. A barragem da propaganda tornou-se o principal obstáculo a uma discussão lúcida sobre de onde viemos, o ponto em que estamos e os caminhos que poderíamos, em conjunto, prosseguir na Europa. A cidadania avançada é todos os dias destruída por esse pensamento binário reinante, movido pela força da opinião fácil e do soundbyte.

Perante tudo isto, em boa verdade, talvez o principal defeito político de Yanis Varoufakis tenha sido o de se tratar primeiramente de um académico. E talvez o seu grande erro tenha sido, por isso mesmo, a ingenuidade de acreditar que a razão dos factos e dos argumentos seria suficiente para demover tal demagogia.
O que é afinal um académico senão alguém para quem a razão acabará sempre sobrepor-se ao erro e à falsidade. Terá Varoufakis pensado que avançar uma tese sólida – uma análise racional da situação vivida no seu país sustentada em factos e números – perante os seus parceiros do Eurogrupo seria suficiente para provocar uma resposta igualmente racional em busca da solução para esses problemas?

O drama, afinal, é que os parceiros europeus não se revelam sequer disponíveis para ir a jogo em tais termos. As agendas políticas dos diferentes governos e das “instituições” sobrepõem-se a qualquer hipótese de reflexão racional, colaborativa e construtiva, baseada no reconhecimento dos factos. A resposta assentou sistematicamente no discurso vago dos “princípios” e na imposição de programas de duvidosa legitimidade e confirmada ineficácia. No meio de tudo isto estão os cidadãos gregos, mero dano colateral cuja realidade vivida é irrelevante para os que habitam em tais círculos.

A Grécia não encontrará assim qualquer solidariedade entre os actuais parceiros europeus. “Redesenhar a união monetária”, como vem invocando Varoufakis, careceria de um consenso quanto às origens do problema estrutural do Euro. Nada mais distante da agenda das instituições europeias e do Fundo Monetário Internacional – uma agenda escondida dos discursos públicos mas escrita na pedra dos “memorandos de entendimento”: desregulação das leis laborais, redução do rendimento do trabalho, privatização de sectores de interesse público (infra-estruturas, energia, água, etc), limitações à soberania nacional na legislação financeira e relações comerciais, e por aí fora.

O académico Varoufakis não encontrará interlocutor entre tais parceiros. A mais medíocre geração de políticos “moderados” da Europa, capturados e subservientes, está a falhar tragicamente, abrindo a porta para a ascensão dos extremismos que navegarão as ondas do descontentamento com populismo e ainda mais demagogia.
Esquecidas que estão as lições repetidas da História, poderá a Democracia ainda assim encontrar o seu caminho? Talvez, surpreendentemente, para lá de todas as probabilidades, sim. E talvez esse caminho esteja a iniciar-se agora mesmo, nestes estranhos dias, ali onde tudo começou.
15.6.15

Derelict


A remontagem de filmes coloca questões tão interessantes quanto controversas. Como lidar, por um lado, com a apropriação de trabalhos com chancela autoral, muitas vezes de forma amadora e genuinamente desinteressada no plano comercial, mas violando regras estabelecidas de direito de autor. Por outro, como ignorar a pertinência que tais exercícios podem ter, pela possibilidade de revisitar e repensar obras passadas e contemporâneas, trazendo-as de novo à reflexão e ao debate público.

Partilhei aqui no blogue bem recentemente a reedição do clássico 2001: Odisseia no Espaço remontada por Steven Soderbergh, entretanto retirada da internet a pedido da família de Stanley Kubrick e do estúdio que detém os direitos do filme. É, no entanto, tão só o caso mais visível de uma actividade que vai ganhando dimensão entre estudantes e entusiastas da cinefilia, sabendo-se que existem remontagens de filmes tão conhecidos como a trilogia da Guerra das Estrelas (episódios 1 a 3), a trilogia The Hobbit ou a série Matrix (Reloaded + Revolutions), para dar apenas alguns exemplos.

Eis que nos chega agora Derelict, uma remontagem que conjuga Prometheus e Alien, transformando-os numa obra única de cerca de duas horas e meia de duração. Retirando a Prometheus cerca de meia hora de filme – incluindo algumas das suas passagens mais frágeis – e intercalando-o com a narrativa do clássico de ficção científica de 1979, Derelict revela a cinematografia de Ridley Scott em todo o seu esplendor, surpreendentemente enfatizada com recurso a um solene preto e branco.
Uma curiosidade cinematográfica que vale a pena descobrir, sendo certo que deverá ficar indisponível muito em breve. Para ver, aqui.

Adenda: infelizmente o vídeo foi retirado da internet poucas horas depois da publicação deste texto sob a alegação de violação de direitos de autor.
26.5.15

Habitar Portugal 12-14


É hoje lançada uma nova edição do Habitar Portugal, uma iniciativa promovida pela Ordem dos Arquitectos que pretende dar a conhecer uma selecção de obras construídas por arquitectos portugueses que, pela sua relevância, sejam representativas do panorama da arquitectura em Portugal.
Esta edição irá acolher obras concluídas entre 1 de Janeiro de 2012 e 31 de Dezembro de 2014, em território nacional e também no estrangeiro.

Num tempo de crise interna profunda, em que os arquitectos são obrigados a repensar, tantas vezes em circunstâncias adversas, a sua forma de viver a profissão, torna-se ainda mais relevante fazer um retrato da arquitectura portuguesa contemporânea que faça reflectir os efeitos de uma tal conjuntura e o seu significado, presente e futuro. Este é também um tempo de esbatimento de fronteiras, marcado pela forte emigração dos mais jovens, que importa registar nas suas muitas dinâmicas, porventura contraditórias, mas que não deixarão de marcar a herança destes anos difíceis. Um retrato que não deixará de dramatizar o papel de resistência que continuará a marcar o trajecto dos arquitectos portugueses, dentro e fora do país.

O lançamento da edição Habitar Portugal 2012-14 é marcado pela abertura de um novo sítio web oficial, bem como pela sessão pública de apresentação que tem lugar hoje às 18h00 na Carpe Diem, Rua de O Século 79 (Bairro Alto), em Lisboa, com a presença do Presidente da Ordem dos Arquitectos João Santa-Rita e com os comissários da presente edição. A sessão será acompanhada por um debate que pretende colocar em perspectiva o momento que a arquitectura atravessa em Portugal e o modelo da iniciativa, através da reflexão e comparação pela voz de comissários de cada uma das edições desde 2003.

O Habitar Portugal 12-14 pretende ser um olhar sobre a produção arquitectónica portuguesa do último triénio a partir de um ponto de vista que articula duas ideias fundamentais. A primeira decorre do momento que o País vive a que, presumimos, a produção de arquitectura não será alheia. O tema proposto - está a arquitectura sob resgate? - estabelece desde logo um contexto onde situar as obras e um enquadramento para as poder ver e analisar. Acreditamos que este é o pano de fundo do espaço onde, ao longo deste tempo, acontecem as práticas arquitectónicas em Portugal cuja maior ou menor presença o HP vai tratar de analisar.
O Habitar Portugal é uma selecção, uma escolha das obras de arquitectura que, a partir de vários programas, lugares, escalas ou condições, se consideram desde o ponto de vista de cada um dos seus comissariados, exemplares, no seu tempo e na sua condição. Esta é a quinta edição do Habitar Portugal o que significa que esta iniciativa acumulou um acervo de cerca de 400 obras ao longo de 15 anos de existência que deve ser valorizado. Os registos desse acervo permitem-nos hoje estabelecer pontos de comparação com a situação actual, as potenciais transformações na prática projectual ou edificatória afectada pelas condições de austeridade e escassez provocadas pelo resgate da Troika. É essa a segunda ideia fundamental, trazer à luz um palimpsesto que resulta das obras que fizeram parte das quatro edições anteriores e assim encontrar os registos que o lastro que elas deixaram faz emergir em contraste ou continuidade com o momento que vivemos. Crise, resgate e palimpsesto são as marcas da condição actual, estão presentes no quotidiano e na paisagem do país onde hoje vivemos. Que impacto têm na arquitectura em Portugal?


Via Habitar Portugal.
12.5.15

Sinais de Fogo – ciclo de debates


Está a decorrer o ciclo de debates Sinais de Fogo, uma iniciativa promovida pelo centro de artes transdisciplinares O Espaço do Tempo sob a direcção de Rui Horta e Ana Sousa Dias.

São conversas de periodicidade mensal que têm lugar no Convento da Saudação em Montemor-o-Novo, sempre numa manhã de sábado. A próxima sessão tem data marcada para dia 23 de Maio sob o tema «A Loucura das Religiões», contando com a presença de Frei Bento Domingues, Joana Carneiro e Carlos Fiolhais. O calendário completo pode ser consultado no sítio web oficial do projecto, onde podem também ser visionadas as gravações vídeo dos eventos anteriores.


Fica o registo para a mais recente sessão, com o título «Turbo-capitalismo», com João Ferreira do Amaral, partilhando a sua visão sobre a actual circunstância de Portugal na Europa e no contexto da moeda única.