A política do mata-mata


Image credits: Adrià Fruitós.

Em Março do ano passado, seis anos depois da Reserva Federal Americana ter iniciado o seu programa de estímulo económico de emergência e cinco anos depois do Banco de Inglaterra fazer o mesmo, o Banco Central Europeu iniciou finalmente o seu próprio programa de expansão quantitativa (quantitative easing).

Em pouco mais de um ano, o BCE terá emitido mais de 1 bilião (1 milhão de milhões) de Euros, que aplicará na compra de títulos de dívida pública dos países da zona Euro em posse de instituições financeiras.
Este modelo de quantitative easing tem, para além do objectivo principal de combater a deflacção, dois objectivos adicionais: capitalizar os bancos com novas reservas – criando condições favoráveis para a emissão de novos créditos – e ainda pressionar negativamente os juros dos títulos de dívida do Eurosistema.

Para levar a cabo esta operação o BCE impõe, como condição prévia à eligibilidade de cada país, que a dívida destes tenha um rating superior à classificação “Ba1” – o limiar abaixo do qual passa a ser designada como “lixo” – por parte de pelo menos uma das grandes agências de notação financeira internacionais: as americanas Standard & Poor’s, Moody’s e Fitch, e a canadiana DBRS.

Actualmente, apenas a DBRS atribui a Portugal uma classificação fora do patamar de “lixo”, ainda que na mais baixa categoria de investment grade. Se, numa das suas próximas revisões, a DBRS descer a notação portuguesa, o país deixará de estar em condições para poder beneficiar do programa de expansão quantitativa do BCE e os títulos de dívida pública deixarão de ser aceites como colateral nas operações de financiamento à banca nacional.

Temos assim que o BCE se auto-impõe uma condição que deixa o destino dos países da zona Euro nas mãos das agências de notação financeira – as mesmas agências que tiveram um papel instrumental na arquitectura das obrigações de investimento associadas ao mercado imobiliário, compostas por contratos de crédito sem qualidade mas validadas com a mais alta categoria de notação, produzidas pelas grandes firmas de Wall Street e vendidas massivamente a entidades públicas e privadas de todo o mundo.

A vulnerabilidade criada por essa condição do BCE é evidentemente mais lesiva para países de pouca influência externa, como a Grécia (que ainda hoje não está coberta pelo programa de quantitative easing) ou Portugal. No nosso caso, o país é deixado à mercê de uma externalidade que poderá despoletar, sem que nada de significativo ocorra na nossa economia, um inusitado alarmismo e consequências trágicas, tanto para o sistema bancário como para o Estado.

Certo é que as movimentações de bastidor que tiveram lugar em Bruxelas durante o período de discussão do orçamento entre o governo Português e a Comissão Europeia, procurando criar entraves a um desfecho favorável, fazem temer o pior. Parecem assim existir actores políticos, de partidos ditos moderados, que estão dispostos a participar activamente na instabilização da imagem externa do país, na esperança que a DBRS nos penalize da mesma forma como o têm feito as três grandes agências Americanas.

Em boa verdade, o que esta circunstância de vulnerabilidade imposta pelo BCE nos revela é o modo como o Euro não é, de facto, a nossa moeda. Os países concederam o controlo da sua soberania monetária a um órgão supranacional que, sem ter de prestar contas a ninguém, pode, a qualquer momento, congelar ou retirar a liquidez a um estado membro. A verificar-se o pior cenário – resultante do agravamento da notação da dívida Portuguesa pela DBRS – Portugal será fortemente penalizado, não por estar insolvente ou incapaz de corresponder aos seus compromissos internacionais, mas pelo simples facto de não alinhar na política fiscal desejada pela União Europeia. Ao fazê-lo, o BCE acaba por assumir um papel político, em prolongamento da acção da Comissão Europeia, que nunca, em qualquer circunstância, poderia assumir.

Infelizmente, o precedente Grego de 2015, em que o BCE não só retirou àquele país o acesso ao financiamento directo como lhe vedou a participação no programa de estímulo económico de emergência, revelam-nos que nesta Europa, tudo, até o mais impensável, é possível.

É o dinheiro, estúpidos! Carta aberta a João Miguel Tavares



Ao contrário do João Miguel Tavares, esta senhora sabe o que é o dinheiro.

Permitam-me o recurso a uma metáfora futebolística, figura tão recorrente no comentário político. Imagine o João Miguel Tavares – imagine o leitor – que o seu clube de futebol de eleição participa num campeonato que você sabe, à partida, estar todo viciado. Os árbitros estão todos comprados contra si, os adversários estão encharcados em “doping”, a vossa equipa tem menos jogadores à disposição. Isso, no entanto, dirão os comentadores, é “a realidade” inevitável que não vale a pena discutir nem pôr em causa – e, se o fizerem, serão expulsos da competição.
Resta-vos apenas debater qual a táctica que deverão aplicar para procurar não perder os jogos.

Boa sorte…

É um pouco isto que nos dizem também mil e um cronistas que vão pregando o fatalismo moralista da realidade. Exemplo disso é o recente texto de João Miguel Tavares no Público, repetindo aos quatro ventos o quanto estamos falidos. Pese embora o tom irreverente que lhe é habitual, o texto é mais um exemplar da ignorância típica da “economia do senso comum” com que se vai intoxicando diariamente a opinião pública.
Desagradado com a ginástica negocial que o governo português procurou estabelecer com a Comissão Europeia, o jornalista começa por dizer que não vale a pena chamar “políticas de direita” à matemática. A matemática não é de esquerda nem de direita – é apenas matemática. Falir não é de esquerda nem de direita – é apenas falir.

Acreditando que a política económica obedece a uma racionalidade ideologicamente neutra – porque os números, supostamente, não têm emoções nem têm ideologia – repete o enunciado da austeridade inevitável. A busca de um caminho político alternativo é, nesse pressuposto, uma “negação da realidade”. E assim conclui João Miguel Tavares: Negar a realidade é uma deserção ideológica: a esquerda, em vez de se colocar ao serviço daquilo que aí está (como distribuir o dinheiro que temos?), coloca-se ao serviço daquilo que não está (como distribuir o dinheiro que não temos?). Ora, este viver em permanente estado de negação da realidade é uma tragédia para o país. Falimos. Arruinámo-nos. Não temos dinheiro. Estamos de mão estendida. Antes de seguir pelo caminho da esquerda ou da direita, será assim tão difícil começar por admitir isto? Falimos. Fa-li-mos. F-a-l-i-m-o-s.

Falimos?

Como nos lembrava há alguns meses Philippe Legrain, ex-consultor de Durão Barroso na Comissão Europeia e uma das vozes mais críticas do rumo político-económico da União Europeia, os anos da “troika” deixaram Portugal com mais dívida, menos PIB, mais desemprego, mais pobreza e valores históricos de emigração.
No entanto, sendo a nossa situação objectivamente pior em 2015 do que aquela em que nos encontrávamos há quatro anos, por que motivo atingiram então os títulos de dívida pública portuguesa juros recorde, superiores a 10%, nos mesmos mercados que hoje nos financiam a juros inferiores a 3% e até a 2%?

A razão porque os juros baixaram tem explicação fácil. O Banco Central Europeu está a levar a cabo, desde o ano passado, uma gigantesca operação de “quantitative easing”, introduzindo dessa forma uma enorme pressão negativa nos juros de títulos dos países da zona Euro e facultando aos bancos reservas disponíveis para suportar a emissão de novos créditos.

Menos consensual é o motivo por que os juros tanto subiram em 2011. A resposta estará na conjugação perigosa de vários factores. Consideremos, em primeiro lugar, a inactividade das instituições da União, em particular do BCE que só iniciou o seu processo de QE em 2015, sabendo-se que os Estados Unidos o fizeram logo a partir de 2008 e o Reino Unido em 2009. A isto somou-se o agravamento violento dos “ratings” dos países mais vulneráveis da zona Euro por parte das agências de notação financeira, catapultando a subida vertiginosa dos juros dos seus títulos de dívida. As mesmas agências (Standard & Poor’s, Moody’s, Fitch) que até 2007 asseguravam “rating” triplo-A aos CDO’s tóxicos com que as grandes instituições financeiras de Wall Street quase fizeram colapsar a economia mundial.

Importa dizer que não está em causa ignorar as responsabilidades dos governos que seguiram políticas de expansionismo imprudente, colocando os seus países numa circunstância de perigosa vulnerabilidade. Mas não podemos deixar de nos interrogar sobre o motivo por que o Banco Central Europeu coloca, ainda hoje, nas suas próprias regras, o destino dos países que devia defender, na mão de tais agências financeiras.
Em boa verdade, tivessem as instituições da União agido em defesa das nações e teríamos sido poupados, no passado como no presente, a anos de austeridade empobrecedora e inútil.

Tudo isto, claro está, leva-nos por fim à grande questão que o João Miguel Tavares aflora mas é incapaz de aprofundar: a questão do dinheiro – que temos, que não temos, que define essa “realidade” tremenda que tantos invocam.



É aqui, na dimensão política, não matemática, do dinheiro, que a ignorância do senso comum se torna perigosa. Ignora João Miguel Tavares – como tantos outros comentadores – que vivemos num sistema financeiro em que a esmagadora maioria do “money stock” em circulação (mais de 95%) foi criado pelos bancos através do processo de emissão de crédito – e não pelos bancos centrais.
Eis um dos grandes paradoxos do nosso tempo: que lidamos com dinheiro todos os dias, durante toda a vida, sem conhecer o que ele é, como se cria e se introduz na economia. Na verdade, a emissão de crédito pela banca comercial corresponde à criação de dinheiro novo e não ao “empréstimo” de dinheiro já existente – como intuem erradamente tantos cidadãos.
Usando e abusando do poder de criar dinheiro “do nada”, ao abrigo dos mecanismos do “fractional reserve banking” e da sucessiva desregulamentação da actividade bancária, os bancos produziram em poucas décadas um aumento geométrico do volume de dinheiro disponível – bem como da dívida que lhe é correspondente.

Trata-se, em boa verdade, de uma trágica concessão da soberania monetária das nações. Algo que nunca foi deliberado democraticamente pelos povos ou assumido publicamente pelos seus governos, e cuja discussão está de todo ausente dos mídia generalistas. Se os cidadãos despertassem para esta outra “realidade”, talvez se interrogassem quanto aos motivos por que no contexto de moedas fiduciárias como o Euro, os Estados se colocam na contingência de se financiarem exclusivamente em instituições privadas que beneficiam da criação de dinheiro sobre a forma de crédito, em vez de se financiarem, de forma necessariamente regulada, junto de instituições centrais de natureza pública.

Ou talvez o público questionasse ainda o absurdo de uma Europa cujo banco central se permite insuflar 1.2 biliões (milhão de milhões) de euros em “quantitative easing” para o interior do sistema financeiro privado, mas que para alavancar um plano (Juncker) de estímulo económico obriga os países a financiarem-se junto da banca comercial, através da emissão de mais crédito, logo com aumento da dívida ao sector privado.

Mas tudo isto, claro está, não se enquadra no discurso moralista da “direita da realidade” que nos apresenta João Miguel Tavares e tantos outros comentadores que laboriosamente, na televisão e nos jornais, vão erguendo o mundo à frente dos nossos olhos, para nos cegar da verdade.

Adenda: para os leitores regulares do blogue, este texto não deixará de parecer revisão de matéria dada. Para os restantes, ficam ligações para artigos anteriores onde se tratam, em maior profundidade, algumas das questões aqui abordadas. A ler: O lastro; De onde vêm as dívidas; Sabia que os bancos criam dinheiro do nada? e A grande questão política do nosso tempo.

Refugees have the right to be protected: António Guterres no TED +



Refugees Have the Right to Be Protected: António Guterres – TED Talks
Participação de António Guterres, ex-Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), na conferência TED Global que teve lugar em Genebra, no passado dia 8 de Dezembro.
UN High Commissioner for Refugees António Guterres thinks that we can solve the global refugee crisis — and he offers compelling, surprising reasons we must try. In conversation with TED's Bruno Giussani, Guterres discusses the historical causes of the current crisis and outlines the mood of the European countries that are trying to screen, shelter and resettle hundreds of thousands of desperate families. Bigger picture: Guterres calls for a multilateral turn toward acceptance and respect — to defy groups like ISIS's anti-refugee propaganda and recruiting machine.

Tendências Globais 2030: Estudo de caso: A tragédia dos refugiados e a resposta internacional
Debate muito recente com a presença de António Guterres realizado no âmbito das Conferências de Serralves, sobre o tema “A tragédia dos refugiados e a resposta internacional”, com moderação do Presidente da Fundação Serralves, Luís Braga da Cruz.

Yanis Varoufakis: Capitalism will eat democracy – unless we speak up
Outra conferência que vale a pena descobrir, realizada no mesmo evento TED Global em que esteve António Guterres, em Genebra, no dia 8 de Dezembro, desta vez com o carismático Yanis Varoufakis.
Have you wondered why politicians aren’t what they used to be, why governments seem unable to solve real problems? Economist Yanis Varoufakis, the former Minister of Finance for Greece, says that it’s because you can be in politics today but not be in power — because real power now belongs to those who control the economy. He believes that the mega-rich and corporations are cannibalizing the political sphere, causing financial crisis. In this talk, hear his dream for a world in which capital and labor no longer struggle against each other, “one that is simultaneously libertarian, Marxist and Keynesian.”

Enough Is Enough
Pequeno ensaio video baseado no livro Enough Is Enough de Rob Dietz e Dan O’Neill, questionando a sustentabilidade de um modelo económico baseado no paradigma do eterno crescimento.
Enough Is Enough lays out a visionary but realistic alternative to the perpetual pursuit of economic growth—an economy where the goal is enough, not more. Based on the best-selling book by Rob Dietz and Dan O'Neill, the film explores specific strategies to fix the financial system, reduce inequality, create jobs, and more. Drawing on the expertise of Tim Jackson, Kate Pickett, Andrew Simms, Natalie Bennett, and Ben Dyson, Enough Is Enough is the primer for achieving genuine prosperity and a hopeful future for all.

Making Money Work - Adair Turner
Conferência promovida pelo think-tank Positive Money com o tema “Making Money Work”, debatendo os perigos de uma política monetária que tem o crédito e o endividamento como base para o crescimento.
On Monday 7th September 2015, Positive Money hosted a high-level panel discussion, “Making Money Work”, with Lord Adair Turner, Professor Steve Keen (Kingston University) and Chris Giles (Financial Times) in Central Hall Westminster. It was the biggest event on monetary financing that has ever taken place. The event was attended by around 200 people, including leading figures in finance and civil society. Those taking part included Richard Murphy, advisor to Jeremy Corbyn, Natalie Bennett, leader of Green Party, as well as ex-banker and economics commentator Frances Coppola. Lord Turner gave a talk on how the monetary system works, the dangers of debt-fuelled growth and monetary financing as a new monetary policy tool that should be considered by governments and central banks. After his presentation, Lord Turner was joined by Professor Steve Keen, Head of School of Economics, History and Politics at Kingston University, London and Chris Giles, Economics Editor of the Financial Times. The discussion was focused on the question “Can innovations in monetary policy promote long-term prosperity?”.

The Story Behind Architecture For Humanity’s Surprising Rebirth
O encerramento do grupo Architecture For Humanity lançou uma sombra sobre o futuro das iniciativas de intervenção social e comunitária no domínio da arquitectura. No entanto, um ano depois, novas organizações sem fins lucrativos estão a erguer-se no seu lugar. O sítio web Fast Company conta a história.

Sound + Vision Magazine: Especial David Bowie
O Sound+Vision, de João Lopes e Nuno Galopim, em mais uma das suas sessões culturais na Fnac Chiado, desta vez celebrando o génio da cultura pop/rock de David Bowie.

Exposição O Círculo Delaunay
O Círculo Delaunay, uma exposição a não perder, patente no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian até ao próximo dia 22 de Fevereiro.
Sonia e Robert Delaunay viveram em Portugal desde Agosto de 1915 até Dezembro de 1916, aprofundando as relações, que já mantinham em Paris, com alguns portugueses – Amadeo de Souza-Cardoso, Eduardo Viana e José Pacheko, e a que se junta junta Almada Negreiros. Esta exposição reconstitui o ambiente criativo gerado pela presença destes artistas que a guerra traz ao seu país de origem ou que empurra para o exílio, apresentando novas investigações sobre as relações dos Delaunays com Amadeo de Souza-Cardoso.

The great architectural divide



The PC [politically correct] takeover of architecture is complete: the Pritzker Prize has mutated into a prize for humanitarian work. The role of the architect is now “to serve greater social and humanitarian needs”, and the new laureate is hailed for “tackling the global housing crisis” and for his concern for the underprivileged. Architecture loses its specific societal task and responsibility, architectural innovation is replaced by the demonstration of noble intentions and the discipline’s criteria of success and excellence dissolve in the vague do-good-feel-good pursuit of ‘social justice’.
I respect what Alejandro Aravena is doing and his "half a good house" developments are an intelligent response. However, this is not the frontier where architecture and urban design participate in advancing the next stage of our global high-density urban civilization.
I would not object to this year’s choice half as much if this safe and comforting validation of humanitarian concern was not part of a wider trend in contemporary architecture that in my view signals an unfortunate confusion, bad conscience, lack of confidence, vitality and courage about the discipline’s own unique contribution to the world.

Patrik Schumacher, via Facebook.

Patrik Schumacher’s very public reaction to this year’s Pritzker Prize announcement didn't exactly come as a surprise. The outspoken director of Zaha Hadid Architects seems to have a propensity for controversy and doesn’t shy away from a good altercation with strangers on the social web.
Despite the severity of his words or the platform used to convey them, it would be wise to avoid any temptation to personalize the discussion. There’s likely much more to consider than the mere clash of individual personalities or “styles”. In fact, however inadvertently, his stance portrays the greater divide that stands before the architectural profession in the 21st century.

At the core of this dispute stands a divergent understanding of the role architecture should play in society today. In his repeated affirmation of Parametricism as the paradigmatic style of our era, the forefront of architectural discourse and innovation in an age of globalization and market-led economies, Patrik Schumacher has emphasized the notion that architecture and politics shouldn't be associated.
Socially-engaged practices, such as the one recognized by this year’s Pritzker, stand on the opposite side of the barricade. Architecture should not only be politically engaged, it is inevitably an extension of a political discourse.


Image credits: Hufton + Crow.

The idea that Parametricism, both as a movement or a conceptual discipline, is devoid of politics seems to have correspondence with the neoliberal stance regarding the “amorality” of economic agents – an affirmation that is everything but neutral concerning “morality”. If anything, it is in fact a politically charged manifestation of the ideas of its time. Paradoxically, the term was officially “coined” by Patrik Schumacher in 2008, at the peak of the greatest financial crisis of our generation.
If Parametricism is indeed an architecture of its time, it seems to reflect the peak of an era of irrationalism, the product of forty years of credit-based monetary expansion. A financial, economic, political, social bubble. An architecture fitting for a culture of "non-crisis".

That era, as we know, began its demise in that same year of 2008. And, just as much, Parametricism runs the risk of becoming an architecture of the past, even in its forthcoming manifestations. What does the world of architecture, and architects around the world, have to learn from it? Hyper-structural buildings often characterized by a gross disproportion between the container and its contents, with an inversely proportional relation between the built and the lived; an architecture fiercely engaged in providing to the visitor the ecstasy before its own obesity.

As we are learning fast, bad politics will always result in bad architecture – and that’s something that not all the rhetoric in the world can hide.


Image credits: Vhils.

One question remains though: where is the forefront of architecture today? What epitomizes the vanguard? Aravena’s “half a good house” or the latest curvy condo in NY? If architecture is to affirm any kind of ethical commitment towards society, these interrogations should be acknowledged: do we really care about the cutting-edge skeletal residential tower by the beach in Copacabana, when you have over one million people living in favelas in the background?

By disregarding socially engaged architectural practices, Patrik Schumacher displays a tragic absence of understanding of the profound transformations that are likely to take place in this century. Having exhausted a financial model of debt-based-growth, beyond all sustainability, we are likely to witness unforeseen changes in our economic paradigm that will ultimately impact our professional landscape.

After the downfall of the CDO market and its worldwide ramifications, after the sovereign debt crisis instigated by the same rating agencies that were giving triple-A status to subprime mortgage-based CDOs right before the collapse, after the recession caused by misguided austerity policies that increased unemployment and poverty, we are now witnessing symptoms of an alarming shutdown of the global economy – impacting heavy industrial machinery enterprises, extracting industries, oil and gas companies, and now, financial markets around the world.

Making matters worse, we are simultaneously facing unquestionable signs of the impact of human activity on the planet. During this century, we are likely to face environmental transformations that will impact agriculture and other forms of human production. We will confront water shortage in several parts of the globe and a dramatic need to embrace more sustainable forms of energetic consumption.


Image credits: JR.

All these changes will impact our political and social landscape in ways we cannot yet perceive, but already we are faced with massive migrations, poverty and relentless inequality. And just as much, architecture too will be summoned to participate in the process of finding answers to these manifestations and the ways in which these will be expressed in the built environment. It's only by facing the prospect of these interconnected transformations that we can establish a true notion of what is critically relevant in our times.

This is the great architectural divide that stands upon us today. One may seek refuge in the ivory towers of globalized corporations, with these harsh realities far away from view, and find a comfortable living designing for the one percent. Just don't act surprised if your work is not particularly engaging, and least of all relevant, to the other ninety-nine.

The Big Short: a história de um crime financeiro contra a Humanidade



The Big Short é um retrato dos anos que precederam a crise financeira de 2007/2008. O filme acompanha um conjunto de analistas que vislumbrou antecipadamente o colapso das obrigações de investimento associadas ao mercado imobiliário (CDO), consideradas até então como produtos de baixo risco, classificadas pelas agências de notação como triplo-A e vendidas massivamente pelas instituições de Wall Street.

Adaptação do livro The Big Short: Inside the Doomsday Machine de Michael Lewis, o filme realizado por Adam Mckay tem o mérito de enveredar para lá da opacidade que habitualmente se esconde por detrás de expressões como derivados complexos, activos tóxicos ou economia de casino. Com o olhar satírico que lhe é peculiar, Mckay consegue tornar acessível para o grande público o emaranhado de conceitos que está na origem de tais produtos financeiros. Mais do que isso, o filme denuncia a chocante falta de ética, o “curto-prazismo”, enfim, a ganância irreprimível que levou Wall Street a perpetrar nada mais do que um autêntico crime financeiro contra a Humanidade.



E isto, senhoras e senhores, é o fim do mundo tal como o conhecemos.

No livro O Minotauro Global, Yanis Varoufakis detalha o modo como os CDO foram instrumentos que conduziram à intoxicação da economia mundial. Explica, em resumo, que os banqueiros pagavam às agências de notação de risco para conceder o estatuto de triplo-A às CDO que eles emitiam; as autoridades reguladoras (incluindo o banco central) aceitavam estas classificações como sendo fidedignas; e os jovens promissores que tinham garantido um emprego mal remunerado com uma das entidades reguladoras em breve começaram a planear a mudança de carreira para o Lehman Brothers ou para a Moody’s. A supervisioná-los estava um bando de secretários e de ministros das Finanças que ou já tinham servido durante anos no Goldman Sachs, no Bear Stearns, etc., ou estavam à espera de se juntar ao círculo mágico depois de deixarem a política. (…) Numa ecologia em que a riqueza do papel parecia auto-propagar-se, seria precisa uma disposição heróica – imprudente – para fazer soar os alarmes, para fazer as perguntas embaraçosas, para lançar dúvidas sobre o pressuposto de que as CDO de triplo-A acarretavam risco zero. Mesmo que algum regulador, corrector ou banqueiro romântico soasse o alarme, ele seria esmagado, acabando como figura trágica na sarjeta da história.

Os heróis acidentais do filme de Adam Mckay são exactamente essas figuras divergentes: analistas e gestores de investimento que, antevendo o colapso inevitável de uma colossal bolha imobiliária, conseguem prever a queda subsequente do mercado de obrigações colateralizadas. Procuram assim subscrever junto dos principais bancos de Wall Street obrigações em regime de swap (CDS), seguras em caso de incumprimento de crédito. Ao fazê-lo, estes investidores estavam a assumir enormes riscos, uma vez que só teriam retorno em caso de falência daquelas obrigações. Estavam, em boa verdade, a jogar contra o mercado – a jogar contra toda a economia. E, no entanto, convencidas da estabilidade do mercado de obrigações imobiliárias e da verdade do paradigma económico-financeiro que havia vigorado durante décadas, as firmas de Wall Street aceitaram a aposta.


Michael Lewis, autor do livro The Big Short: Inside the Doomsday Machine, editado em 2010.

Apesar do recurso a um registo satírico, por vezes caricatural, The Big Short não deixa de ser um drama biográfico sobre o maior crime financeiro da História. Muito mais do que “um filme sobre Wall Street”, esta é uma obra provocadora que aborda eventos que dizem respeito a todos. Trata-se afinal de denunciar os factos que estiveram por detrás do despoletar de uma profunda crise sistémica que continua a desenrolar-se nos dias de hoje.
Com produção de Brad Pitt que também participa ao lado de Steve Carell, Christian Bale e Ryan Gosling, acompanhados de uma lista de notáveis actores secundários onde podemos encontrar Melissa Leo e Marisa Tomei, este é um filme simplesmente obrigatório para todos os que querem conhecer melhor o mundo em que vivemos, para lá do cenário de aparências que tantas vezes se faz passar como “realidade” aos olhos do grande público.