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Km0



Ciclovia de Lisboa por João Gomes da Silva, Global Arquitectura Paisagista. Via Pinterest.

Superkilen: fazer, do espaço, público



Superkilen é um parque urbano localizado em Copenhaga. O projecto resultou da colaboração entre três equipas: as dinamarquesas Superflex e BIG, e a alemã Topotek 1.

O parque foi inaugurado em 2011 e tem merecido destaque recorrente em publicações de arquitectura e em blogues. Não se trata, por isso, de uma novidade; mas presumo que quem busca novidades não faça desta página o seu ponto de partida. Ainda assim o vídeo que partilho acima é um bom motivo para revisitar a obra e os princípios que orientaram aquela intervenção. É, acima de tudo, motivo para reflectir sobre o que torna, um espaço, público.

O processo colaborativo que esteve na base do trabalho tomou como ponto de partida a natureza multicultural daquela comunidade: um bairro onde coexistem famílias de 57 origens culturais diferentes. O sítio assenta numa faixa de terreno residual que foi sendo envolvida por construções, maioritariamente habitacionais, na continuidade de um espaço naturalizado existente. O projecto definiu três áreas em manchas dominantes de cor (o encarnado, o preto e o verde) pontuadas pela instalação de diversos equipamentos (mobiliário urbano, esculturas e objectos interactivos) inspirados nos países de origem dos seus residentes. Trata-se assim de uma abordagem que conjuga a natureza urbana e paisagística daquele território, reforçando a sua diversidade com variações de desenho e pequenas “anomalias” topográficas.

Visto à luz da experiência recente em intervenções sobre o espaço público promovidas na nossa realidade sul-Europeia, saltam à vista contrastes profundos. Aqui encontramos uma visão contida nos aspectos materiais; as opções predominantes, extensivas, são em geral de custo reduzido: o betão colorido, o betuminoso, o solo permeável. Como contraponto, o investimento parece traduzir-se alternativamente nos aspectos pontuais da intervenção, os momentos em que os utilizadores interagem fisicamente e em proximidade com o espaço: os objectos, o mobiliário e, excepcionalmente, algumas peças de iluminação; e ainda assim reforçando a robustez das soluções construtivas, em detrimento da mera “nobreza” do material.

Outro aspecto curioso: a dada altura (por volta do minuto 1:40) vemos imagens de uma área de recreio infantil. Em Portugal aquele espaço teria de estar obrigatoriamente delimitado com uma vedação de cerca de 1 metro de altura. A ausência de tal dispositivo resultaria na aplicação de pesadas coimas, da ordem dos vários milhares de euros, à instituição gestora do equipamento (o município, por exemplo) por parte da entidade fiscalizadora (a ASAE).
Ora, não tomando a Dinamarca como um país sub-desenvolvido, temos de nos interrogar sobre o facto de nos termos tornado uma nação dominada pela híper-legislação a ponto de nos impormos normas de aplicabilidade cega, sem atender às especificidades dos projectos e dos locais em que se desenvolvem. O que serve às crianças dinamarquesas não servirá às portuguesas?

Questão semelhante se colocaria a respeito das esculturas “interactivas”, que vemos ocupadas também por crianças, certamente classificáveis como ilegais por não se tratarem de equipamentos de recreio certificados. Também aí o nosso extremismo jurídico-burocrático, acompanhado de falta de bom senso, contribui para que as intervenções paisagísticas e urbanas sejam liminarmente remetidas à repetição de modelos normalizados, em detrimento da criatividade e da originalidade.

Pelo contrário, entre nós vigorou – chegando até a ser celebrada “criticamente” – a enunciação de intervenções predominantemente “contemplativas” do espaço público, dominadas por soluções extensivamente onerosas: vastas superfícies de lajedo de pedra, guias e remates de aço corten, painéis e “decks” de madeira, mobiliário e iluminação “topo de gama”; opções que raras vezes se traduzem na adequabilidade e perenidade das escolhas encontradas.

Do parque urbano Superkilen vale a pena registar a negação dessa visão “contemplativa” do espaço, onde só resta “sentar” e “olhar” (e fazer lixo, porque papeleiras sempre abundam) para oferecer múltiplas formas de apropriação e relação com o mundo urbano. O espaço, para ser público, tem que ter acções e funções e estabelecer, acima de tudo, uma relação cultural com as pessoas que o habitam. Não é, por isso, o dinheiro que nos afasta de viver uma cidade melhor; antes um pouco de saber fazer.


Pulse Park






There’s nothing more exciting than the perfect blend of imagination, architecture and landscape design. The Pulse Park, a public playground located in the Danish town of Ry, is one of those magical places where everything seems to come together perfectly. The project was created by multidisciplinary architecture office CEBRA. Now, I'm sure there are things the mighty nordic peoples of Denmark can't do very well, I just can't seem to figure out what those are...

The steps of Punta Pite









Punta Pite, landscape architecture by Teresa Moller. Don’t miss the beautiful video of this project directed by Pablo Casals-Aguirre, available here.

Ears to the wind




What a beautiful example of design motivated by the will to explore and interact with the natural environment. Inclusive Studio’s intervention on the austere landscape of the Parc Natural del Garraf in Cataluña is guided by principles of accessibility, delivering a path of sensorial discovery. The outstanding sound capturing trumpets reveal the echoes of the mountain, the frogs and the crickets, the wind in the trees. The touching wheels invite to discover the texture of the branches and the surface of the rocks. Don’t miss Inclusive Studio’s website for this and other projects. Via Edgar Gonzalez.




Europan 9: Poïo - 1º Prémio [entrevista]

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A equipa formada por Camilo Vaz, Marlene dos Santos e Bruno Oliveira constituiu a única participação portuguesa a vencer um primeiro prémio em território estrangeiro no concurso internacional de ideias Europan 9. A sua proposta, intitulada "Cultivos Urbanos", incidiu sobre uma área situada em Poïo, nos arredores da cidade de Pontevedra, capital da província com o mesmo nome da comunidade autónoma da Galiza.

A mais recente edição do Europan teve como temas a “Urbanidade Europeia, Cidade Sustentável e Novos Espaços Públicos”. Ao todo estiveram propostas a concurso 73 cidades distribuídas por 22 países europeus. Trata-se da mais vasta competição de arquitectura da Europa, sendo dirigida a profissionais com idade inferior a 40 anos. Os vencedores têm a oportunidade de tornar a sua visão em realidade, trabalhando numa fase posterior com os promotores de cada uma das intervenções apresentadas.
O projecto da equipa portuguesa para Poïo tinha por objectivo definir uma ocupação de tipologia multifamiliar urbana num sítio periférico, ainda marcado por um parcelamento afecto a uso agrícola. O desafio consistiu em introduzir uma malha construída e estabelecer novas regras de relação com o território, mantendo vivo o desejo de contacto com o solo e a sua utilização complementar para fins de pequena agricultura de subsistência. A solução encontrada define-se na tensão entre uma ideia de “paisagem rural” e o conceito de utilização comunitária de “cultivos urbanos”, que dão nome à proposta.
Trata-se de um modelo de territorialidade que questiona os termos de campo e cidade; a expansão urbana como algo que não ocorre sobre espaço abstracto, inerte, mas antes sobre o seu conjunto de marcas sobrepostas no tempo que lhe conferem uma realidade de paisagem.
Os novos edifícios aparentam faces texturadas, enunciando uma difusão de escalas cujo efeito é reforçado na diversidade volumétrica das massas construídas. É da relação próxima entre arquitecturas e sistemas naturais que as antecedem que se definem estas novas formas de espacialidade, de vivência, de habitar.
Segue-se uma apresentação deste trabalho premiado e uma breve troca de impressões com a equipa projectista.

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CULTIVOS URBANOS
EUROPAN 9 - “Urbanidade Europeia Cidade Sustentável e Novos Espaços Públicos”
Local: Poïo, Pontevedra – Galiza (Espanha) - 1º Prémio
Equipa: Camilo Vaz (coordenador), Marlene dos Santos, Bruno Oliveira [pt]


Alex Maclean: Cultivos Experimentais, Barlow, North Dakota


We harvested the crop on August 16 on a hot, muggy Sunday. The air was stifling and the city stood still. All those Manhattanites who had been watching the field grow from green to golden amber and had gotten attached to it (...) stood around in sad silence. Some cried. We harvested almost 1000 pounds of healthy, golden wheat.
Agnes Denes: “Wheatfield – A Confrontation”, Battery Park Landfill, Ny, 1982


1. PAISAGEM

«Paisagem pode significar entre outras coisas, o conjunto de marcas deixadas no território pelas diversas comunidades que o compartilham enquanto suporte individual e colectivo de sobrevivência, sobrepostas às marcas da génese do próprio território e às deixadas pelas transformações a que é alheia a comunidade viva.
O conceito de Paisagem esta directamente associado às marcas de cada momento, de cada geração, de cada cultura que se sobrepõem no mesmo lugar, que se encontra profundamente relacionado com a transformação. Paisagem é, por definição, algo dinâmico, em continua evolução, em função das convicções que a cada momento apontam para gestos diferentes, a que correspondem marcas diferentes, para a resolução dos problemas de sobrevivência das comunidades.

De facto, como podemos distinguir os gestos geradores destas marcas, que correspondem à materialização das convicções de cada geração, de cada comunidade, de cada cultura? Sendo um tema bastante actual, o aquecimento global e as suas consequências no nosso habitat, pela primeira vez merecem a atenção global e generalizada numa sociedade onde predomina o individualismo. É nesta atitude que queremos centrar a nossa reflexão sobre o território e a consequente influência do Homem, propondo uma apreciação sobre o Indivíduo, da sua atitude ao longo da história na construção da paisagem que consecutivamente transformamos.»


Sobreposição de tramas - urbana e hortas existentes


Local de intervenção


Esquema de desenvolvimento da proposta
1. Organização das parcelas segundo directrizes existentes
2. Canais de rega e colectores de aguas pluviais
3. Espaços verdes “hortas urbanas” y jardins
4. Sobreposição de colectores e verdes
5. Novos espaços urbanos
6. Desenvolvimento da proposta


2. “CULTIVOS URBANOS”

«Em Poïo, entramos a fazer parte de um processo já iniciado de apropriação de um espaço natural, onde ainda é possível potenciar uma relação sustentável entre a natureza e o Homem. O local de intervenção, nos arredores de Pontevedra, tem ainda hoje em dia, um carácter predominantemente rural. Aqui vive uma parte considerável da população que trabalha no centro de Pontevedra, que procura na proximidade com o centro urbano a oportunidade de emprego e por outro lado procura no campo, tranquilidade e contacto com o meio natural.

A paisagem local é fortemente caracterizada pelas parcelas agrícolas que se estendem pelo território como se de uma “manta de retalhos” se tratasse, retratam um passado ainda muito presente, vinculado ao meio rural de subsistência. Neste contexto a proposta actua como uma “semente”, que pretende ir de encontro a uma solução urbana que sirva de modelo para a área em análise, adaptando-se às directrizes do território redefinindo novos espaços públicos e abordando o conceito de utilização comunitária de “cultivos urbanos”, onde se pretende estimular o uso de hortas inseridas no traçado urbano como meio de subsistência alternativo para as comunidades locais.

A ligeira pendente do terreno para sudoeste, e a via de acesso ao centro da Cidade sugerem a necessidade de densificar o programa proposto nesta zona, facilitando os acessos e permitindo libertar grande parte do solo. A gravidade permite ainda desenvolver um sistema de colectores de água pluviais para rega dos jardins e hortas (sendo a Galiza a região onde existe o maior índice de pluviosidade da Península Ibérica).

A implantação dos novos edifícios habitacionais não se sobrepõe á malha das hortas, permitindo a sua permeabilidade com o solo, funcionam como um jardim vertical, ventilado, com sistemas de produção e armazenamento de energias renováveis, sistemas locais de recolha e tratamento de águas residuais.

Esta “semente” que se gera em Poio, tem a capacidade de adaptação noutros territórios com potencial agrícola semelhante, incluindo muitos dos vazios urbanos nas nossas cidades, que descontinuamente se estendem pelo território. A ocupação do solo livre através de “hortas urbanas” de utilização comunitária em contextos e cidades de media dimensão, poderá ter um papel fundamental na forma como gerimos os espaços verdes das nossas cidades, na melhoria do microclima, na manutenção da biodiversidade e relações entre indivíduos.»


Planta de implantação [+]


Maqueta da proposta [+]


Vista geral [+]


Edifícios multifamiliares - Espaço comum e galeria de acesso [+]


Tratamento do espaço publico existente [+]


Planta Parcial [+]


Secção [+]


Edifício Tipo – Tipologias [+]

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ENTREVISTA

Dos autores da proposta, Marlene dos Santos e Bruno Oliveira mantêm um percurso paralelo na sua formação de arquitectura, que se iniciou na Universidade de Évora e se prolongou com a experiência académica e profissional em Espanha. Acreditam que uma das formas de pensar a arquitectura contemporânea passa pela formação de equipas experimentais de investigação, com o objectivo de dar resposta a situações concretas.
Juntamente com o arquitecto Camilo Vaz, com formação pela Universidade de Coimbra e com atelier próprio, formaram uma equipa de investigação para o Europan 9 – Poïo [Pontevedra], onde iniciam este conceito de “equipa nómada”.

DC: A vossa proposta começa por ser uma reflexão sobre a paisagem, sobre um modelo diferente de apropriação do território que não pretende anular o natural, antes integrá-lo num processo paralelo de densificação urbana.
Este tipo de assimilação entre o urbano e o rural tem sido explorado, por exemplo, em projectos como a Farmadelphia, a Agro-Housing ou mesmo o Vertical Farm Project. São, quase sempre, trabalhos de base teórica, manifestos ou exercícios especulativos estimulantes mas pouco compatíveis com uma operação real.
O vosso trabalho, pelo contrário, soma um olhar experimental com a busca de plausibilidade da solução, muito específica ao lugar e ao desejo de apropriação pela sua comunidade.

Quais foram os principais desafios que encontraram ao olhar para o programa e o sítio da intervenção pela primeira vez?

Equipa E9: Ao olhar para o sítio de intervenção pela primeira vez e simultaneamente pensar no programa que para ali se propunha, confrontamo-nos com uma situação contraditória. Estávamos perante um local de forte tradição rural que se propunha converter num centro urbano estruturante para o futuro crescimento da periferia de Pontevedra.
É aqui que se inicia o nosso trabalho, na análise deste território específico e na reflexão em geral sobre a problemática do desenho de novos espaços urbanos nas periferias das nossas cidades Europeias.

Quando te referes a projectos como o Farmadelfia ou a Ago-Housing, de facto a proposta que desenvolvemos para Poïo pode dizer-se que tem uma base teórica semelhante, ou mesmo uma linha de investigação próxima.
Relativamente à plausibilidade destes exercícios, considerámos que esta abordagem apenas é sustentável em contextos com um passado rural recente ou que ainda mantêm práticas agrícolas como forma de subsistência alternativa. O exemplo da proposta do atelier Scape Architecture para Valência, integrado no plano Sociopolis é uma referência da transposição destas teorias para a realidade num contexto com estas características.

DC: Como referem no projecto, trata-se de um espaço natural que atravessa um processo de apropriação lenta, com características de ruralidade e falta de referências de cidade. O programa de trabalho introduz um novo processo de apropriação, desta vez com tecido urbano. Que preocupações estiveram na concepção desta arquitectura que pretende não consumir ou apenas absorver território, mas antes estabelecer uma relação de quase simbiose com o seu contexto?

Equipa E9: A certa altitude ao contemplarmos o território, permitem-se identificar os seus códigos de organização, marcas impressas no território ao longo dos anos, que nos revelam formas de apropriação do espaço.
O que procurávamos aqui era aprofundar uma pesquisa de entendimento dos códigos impressos neste sítio e da forma como eram influenciados pelos aspectos sócio – culturais dos habitantes locais.
Na Galiza e em particular na zona de Pontevedra, as parcelas agrícolas além de estruturantes do espaço rural, são o reflexo da estrita relação entre os habitantes e os limites de propriedade. Esta forte identidade local é reinterpretada no desenho dos novos espaços públicos, onde se propõe a introdução de parcelas de cultivo no tecido urbano.

DC: No vosso processo de projecto parece existir uma abordagem diagramática, interpretando diferentes aspectos da topografia, sintetizando-os e fazendo evoluir uma solução de arquitectura. De que forma é que esta prática foi decisiva na definição do resultado final?

Equipa E9: O processo de desenho diagramático foi crucial na descodificação dos vários layers que compunham a malha rural, (linhas de água, cultivos, parcelas, pendentes, caminhos) e no entendimento deste organismo vivo na topografia. Ao assimilarmos o seu funcionamento e a escala do desenho das distintas estruturas, reinterpretamo-lo na proposta. A arquitectura surge da reflexão da sua implantação nesta “natureza”, que a partir deste processo de desenho resulta de forma quase evidente.

DC: Existe uma definição social muito forte neste projecto, que toma forma na apropriação comunitária do espaço da cidade. Pensam que a dramatização de preocupações de sustentabilidade no ambiente urbano poderá promover uma espécie de regresso à ruralidade, ou estaremos perante uma inovação cultural mais profunda, uma reinvenção de cidade através de novos modelos de paisagem urbana produtiva?

Equipa E9: Pensamos que qualquer “inovação” cultural neste âmbito passa por apreender os limites entre o espaço público e o espaço privado das nossas cidades e de que forma influenciam os nossos hábitos como elementos activos no meio.
Como analogia, a intervenção do artista Agnes Denes para o Battery Park na baixa de Manhattan, [Wheatfield—A Confrontation] é um exemplo da desdramatização destes limites no espaço urbano, onde Denes ao cultivar um quarteirão desocupado da cidade suscitou um novo envolvimento dos residentes com aquele espaço privado, apenas pelo processo e tempo de amadurecimento do trigo(*).
Em Poïo, marcado pela relação com a meio rural, entendemos que a ocupação do solo livre com “hortas urbanas” de utilização comunitária, poderá representar uma reflexão sobre a forma como gerimos os espaços verdes das nossas cidades; que potencial produtivo pode representar e que papel pode desempenhar na melhoria do microclima, manutenção da biodiversidade e relações entre indivíduos.
(*) “We harvested the crop on August 16 on a hot, muggy Sunday. The air was stifling and the city stood still. All those Manhattanites who had been watching the field grow from green to golden amber and had gotten attached to it (...) stood around in sad silence. Some cried. We harvested almost 1000 pounds of healthy, golden wheat.” Agnes Denes, "Wheatfield - A Confrontation", Battery Park Landfill, NY, 1982.

DC: Que papel pode desempenhar a arquitectura nesta nova cidade?

Equipa E9: A arquitectura nesta “nova” cidade foi pensada num contexto de desenvolvimento urbano sustentável, que além das preocupações ambientais procura integrar-se no processo de transformação social e cultural desse contexto.
De um modo geral a arquitectura deve actuar como elemento mediador que se assume como o elo de ligação entre as relações do Indivíduo que a habita e o lugar onde se implanta.

Com um grande agradecimento a Marlene dos Santos, Bruno Oliveira e Camilo Vaz.

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Europan 9: Poïo – 1st Prize [interview]

The team established by Camilo Vaz, Marlene dos Santos and Bruno Oliveira was the only portuguese participation in foreign territory to achieve a first Prize at the international competition Europan 9. Their proposal, titled “Urban Crops”, was developed for a site located in the area of Poïo, in the outskirts of the city of Pontevedra, capital of the homonymous province of Galicia, in Spain.

The latest edition of Europan focused on the themes of “European Urbanity, Sustainable City and New Public Spaces”. It’s by far the largest architectural competition organized in Europe, now gathering up to 73 different cities in 22 countries, and is aimed at young professionals of ages under 40. The winners get a chance to turn their vision into a reality by working closely with the promoters of each individual initiative.
The winning project for the selected location of Poïo proposed the insertion of a multi-unit housing typology in the fringes of an urban setting – a peculiar site for the enduring presence of small-scale agricultural use. The portuguese team submitted a design that merged a new constructed grid with the territory, maintaining a purpose of close relation to the land. The final solution is defined by that tension between an idea of “rural landscape” and the concept of a communitary use of “urban crops”.
It´s a model of territoriality that questions previous notions of city and country; assuming the urban expansion as something that doesn’t occur on abstract, inert space, but over the setting of superimposed marks that define the reality of its landscape.
The new buildings propose textured faces, essaying a diffusion of scales that is reinforced by the volumetric diversity of the built masses. It is from the close relationship between architecture and pre-existing natural systems that new forms of spatiality are defined, with new chances for public life and dwelling.

1. LANDSCAPE

«The landscape is the portrait left imprinted in the land by people’s beliefs; the roads, power lines, railways, dams and the harbours should be as much landscape as the farmlands, the cities, villages and all the signs left by human communities. How can we identify the gestures that create these marks, which correspond to the materialization of the will of each generation, each community and each culture? What is the development that looks to satisfy the needs of the current generation, without compromising the capacity of future generations to satisfy their own needs?

This means enabling people, now and in the future, to reach a satisfactory level of social and economical development, human and cultural fulfilment, while, at the same time, sensibly using the land’s resources and preserving species in their natural habitats.»

2. «URBAN FARMS»

«A set of sensitive places, like Poïo, are the result of uncontrolled development, with no planning or concerns for the future growth. Solving problems like these requires knowledge of the site and it’s ecological and cultural problems and also knowledge of its potential regarding natural resources, as a way to educate society, enlighten their mind and prepare the generations to come.
The seed of the project tries to respect the area in which it encompasses; the farmlands, responsible mostly for corn production and vineyards, have a large significance in the area, for subsistence and also as a print in the territory. According to the existing guidelines for the site, the existing farmlands will be maintained and new ones are proposed: “urban farms”.
The current system of farms corresponds to single-family buildings close to a large plot of land, while the new plots will correspond to multi-family buildings, and will be integrated in the new concept of public spaces – “urban farms”.

Urban agriculture will play a significant role in the general “greening” of the city, helping to improve the microclimate, and will also play an important part in maintaining local biodiversity.»

INTERVIEW

Project team members Marlene dos Santos and Bruno Oliveira share a similar background. Both studied architecture in the University of Évora, in Portugal, followed by a professional experience in Spain. They claim that a contemporary architectural practice should embrace the exercise of experimental research workgroups. Collaborating with architect Camilo Vaz they decided to put into practice the spirit of a “nomad team” and participate in Europan 9.

DC: Your proposal begins as a reflection on landscape, on a different model of appropriation of the territory that doesn’t try to erase the natural but to embrace it in the process of urban densification. This kind of assimilation between urban and rural has been explored, for example, in projects such as Farmadelphia, Agro-Housing or even the Vertical Farm Project. These seem to be, however, theoretical works, stimulating manifestos and speculative exercises, but still seemingly incompatible with a real operation.
Your work, on the contrary, adds an experimental approach to the search for a real solution, specific to the site and the desire of success among its community.

What challenges did you face as you first tried to address the program and the site?

E9 Team: Looking to the project site for the first time, and simultaneously thinking in the proposed program, we found ourselves in a contradictory situation. We faced a place with strong rural traditions that was to be converted into an urban centre, strategic to the future growth of the periphery of Pontevedra.
This is where our work started, from the analysis of these specificities, reflecting upon the design problems that are always present as one tries to create new urbanities in the boundaries of our European cities.

When you refer to projects as Farmadelfia or Agro-Housing, in fact our proposal to Poïo has a similar theoretical basis, or a close research speculation. As for the plausibility of such exercises, we considered that this approach is only sustainable in contexts that already have a rural tradition of some sort, maintaining agricultural practices as a form of alternate survival. The example of Scape Architecture studio for Valencia, as part of the Sociopolis plan, is a reference of transposition of these theories into reality in such a context.

DC: As you describe in your work, this is a natural space that is undergoing a process of slow appropriation, retaining qualities of rurality and a lack of urban references. What where the guidelines to your architectural approach?

E9 Team: As we stared to the site we were able to identify the underlining codes to its organization; the imprinted marks of the territory that revealed the ways in which it was being used by the inhabitants.
What we were aiming for was to deepen the research to understand those codes and the way they where influenced by social and cultural aspects of the local community.
In Galicia, and especially in the area of Pontevedra, the land parcels retain a rural logic, and reflect the strict relationship between the locals and the boundaries of private property. This strong local identity is reinterpreted in the design of the new public spaces, where we introduce parcels destined to agricultural activity within the urban tissue.

DC: There’s also a diagrammatic approach in your design process, interpreting different aspects of the topography, synthesizing them and processing them into the architectural solution. In what way was this practice decisive for the final result?

E9 Team: The diagrammatic design process was crucial to decode the different layers within the rural landscape, (water lines, crops, parcels, slopes, paths), to understand this living organism inside the topography. As we assimilated this system and the scales of these distinctive structures, we were able to reinterpret them in our proposal. Architecture comes as a reflection on the planning of this “nature”, becoming a clear pattern of design and form.

DC: There’s a strong communitarian intention in your project. Do you think that as sustainability issues become dramatized in the urban environment, we’ll witness some sort of return to rurality, or might we be facing a deeper cultural innovation, a reinvention of the city based on new models of productive urban landscape.

E9 Team: We believe that any cultural “innovation” in this context relies on the understanding of the boundaries between public and private space within our cities, and on the ways in which it influences our habits as active elements in the landscape.
As an analogy, the intervention by Agnes Denes on Battery Park, in downtown Manhattan [Wheatfield—A Confrontation], is an example of reinvention of these limits in the urban space.
In Poïo, with its strong relation with the rural world, we interiorized the occupation of free soil as “urban crops” for communitarian use; questioning the way we manage the green areas of our cities and its productive potential in benefit of the biodiversity and human relations.

DC: What will be architecture’s role in this new city?

E9 Team: Architecture, in this “new” city, was thought of in the context of sustainable urban development, going beyond strict environmental issues to become part of a deeper process of social and cultural transformation. In a wider sense, architecture should act as a mediating element, the link between the territory and the individuals that dwell within.

With a big thanks to Marlene dos Santos, Bruno Oliveira and Camilo Vaz.


External links:
Europan 9
Europan España
Camilo Rebocho Vaz, NadA Arquitectos

Livro: Rio Côa – A Arte Da Água E Da Pedra



O autor descreve a viagem que realizou, em constante diálogo com os seus colaboradores, o que permite ao leitor desde diário compreender o porquê do pormenor das construções e o sentido poético que respiram e, simultaneamente, entender que essas construções são parte integrante da grandiosa paisagem que o rio percorre e a que dá alma e de que recebe a razão de ser.
Gonçalo Ribeiro Telles in prefácio

Recentemente publicado pela Casa do Sul Editora e pelo Centro de História da Arte da Universidade de Évora, o livro Rio Côa – A Arte Da Água E Da Pedra documenta uma viagem de investigação realizada a pé, ao longo do rio, pelo professor Nuno de Mendoça e os seus alunos de Arquitectura Paisagista. Este primeiro volume que agora é dado a conhecer ao público cobre o troço da nascente ao Moinho da Ervaginha, a poente de Vale de Espinho. [Ver Google Maps]

É um livro que respira do melhor que pode existir no espírito académico, movido pelo desejo de sair para o terreno ao encontro dos sinais da presença humana de outrora, nos vales e no leito do rio. Sustentando-se numa metodologia criteriosa de observação e análise somos apresentados a uma paisagem notável onde se foram estabelecendo os sinais da acção do homem, num diálogo com uma ruralidade carregada de saber arcaico. A viagem leva-nos a descobrir antigas presas, muros, diques, registados com fotografias e um denso trabalho de desenho de grande qualidade artística e conteúdo interpretativo.
O relato da jornada é cheio de surpresas. Entre avanços e paragens descobrimos pequenos povoados e aldeias, documentando-se a sua relação com o rio; o casario na meia encosta abrigada dos ventos, o moinho mais abaixo e as áreas mais férteis junto ao leito. Por vezes laboriosos sistemas de rega desenham a paisagem; noutras somos confrontados com um cuidadoso trabalho de arte da pedra usado na consolidação das margens.

O relato da jornada faz-se acompanhar de observações e registos de diálogo com as gentes locais. Confronta-nos por vezes com reflexões sobre o território percorrido e as transformações que vem sofrendo; o fino balanço entre a natureza e a introdução abrupta de processos que lhe são hostis. É também um livro sobre a perda de uma memória e a urgência de a recuperar, em prejuízo de formas de património menos fáceis de classificar mas profundamente entranhadas no saber que conduziu a nossa acção durante séculos.

O trabalho coordenado por Nuno de Mendoça demonstra o delicado equilíbrio entre arte e ciência; entre a leitura técnica dos locais e dos processos que os constituiram, e uma visão alargada, poética, do sábio entendimento da paisagem e do lugar que nela ocupou o homem. É um daqueles livros que merece ser descoberto, fazendo regressar a um saber mais vasto outras formas de saber que devemos, a todo o custo, preservar.





(1) O livro Rio Côa – A Arte Da Água E Da Pedra é uma publicação da Casa do Sul Editora e do Centro de História da Arte da Universidade de Évora, com coordenação de Nuno de Mendoça e prefácio de Gonçalo Ribeiro Telles.

(2) Nuno de Mendoça nasceu em Lisboa em 1939. Escultor, pintor, professor universitário, doutorado em Estética da Paisagem, é investigador do Centro de História da Arte da Universidade de Évora, onde leccionou de 1976 a 1998. Repartiu a sua actividade pela arquitectura, urbanismo, artes gráficas e a docência. Actualmente dedica-se à investigação e à pintura. Como artista plástico, está representado nomeadamente nas colecções do Museu de Évora, do Governo de Macau e da Fundação Oriente.

(3) As ilustrações que acompanham este texto fazem parte da apresentação “A Vida e Arte no Rio” – Conjunto de trabalhos realizados sob a orientação do Prof. Doutor Nuno de Mendoça, em exposição online no espaço galeria do sítio web do Centro de História da Arte da Universidade de Évora.

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Nota: este livro pode ser adquirido na Livraria Casa dos Livros.
Casa dos Livros, Rua dos Caldeireiros 19-21, Évora
Tel: 266 785 265 / Tm: 937 858 501
Email: casadoslivros[arroba]sapo[ponto]pt

Os jardins de Monticello



I am as happy no where else and in no other society, and all my wishes end, where I hope my days will end, at Monticello. Too many scenes of happiness mingle themselves with all the recollections of my native woods and fields, to suffer them to be supplanted in my affection by any other.

Monticello é a mítica propriedade onde Thomas Jefferson ergueu a sua famosa casa neoclássica. Os jardins que a envolvem são considerados como uma das mais ricas colecções botânicas do mundo, contendo plantas ornamentais, hortícolas e florestais de todo o mundo. O espectacular sítio web da fundação com o mesmo nome dá a conhecer a sua vasta história, apresentando um original interface de navegação com imagens e animações que são, por si só, um bom motivo de visita.
Fica esta lição de como uma boa história se pode contar de tantas maneiras diferentes, numa página para percorrer durante alguns minutos ou por horas a fio.

Das Cercas dos Conventos Capuchos




...como em valles baixos, se achão abundantes frutos de boas obras: dos elementos da terra e o mais baixo, porém o mais seguro: alto está o ar; e mais alto o fogo, porém nenhum delles dá fruto: as fragosas serras, e outeiros altos não são de proveito, os humildes valles são os que se lavrão, e os que se estimão.
Frei Manuel de Monforte - Chronica da Provincia da Piedade (1751).

Não é possível falar deste pequeno livro sem falar um pouco sobre o seu autor que tenho o prazer de conhecer. O António Xavier é um daqueles homens que cativam à primeira vista pela humanidade que encerra no olhar. Mas é a sua voz que verdadeiramente seduz os que o escutam; uma voz de contador de histórias na alma de um amante da História. Com o alento jovem de investigador de coisas que a sedimentação do tempo persiste em esconder, aliado à sua sensibilidade de paisagista, Xavier compõe neste seu ensaio Das Cercas dos Conventos Capuchos uma visão sobre a instituição da espiritualidade no território e abre a porta a uma reflexão sobre parte importante da construção da Paisagem em Portugal.
Nele vamos descobrir o importante património cultural que encerram as cercas conventuais como importantes manifestações da arte paisagista portuguesa. Fazendo um percurso pelos Conventos Capuchos da Província da Piedade (território continental a sul do Tejo), faz o retrato urgente de um bem grandemente exposto ao abandono e à ruína, ameaçado tanto pela acção do tempo como pelo esquecimento e a ignorância.

O percurso dos frades Capuchos em Portugal nasce na sombra da perseguição. A sua busca pelo ascetismo espiritual levou-os ao refúgio em lugares distantes, no interior do Alentejo e no Algarve. A sua devoção encontrava eco em ambientes obscuros, encerrados e por vezes insalubres. O vale surgia como a imagem dessas virtudes de convergência entre o solo terrestre e a água celestial; o encontro humilde da alma humana com a graça divina.
Apesar da sua adopção por uma vida de isolamento, os Conventos Capuchos dispunham de normas próprias à sua localização que dependia da aprovação do Capítulo Provincial. Deviam assim ser pobres, pequenos e recolhidos, mas situar-se em lugar não demasiado distante de uma povoação, idealmente pequenos centros urbanos. A excepção é feita pelo Convento de São Vicente do Cabo, caso particular justificado pelas notáveis características do ermo promontório.

António Xavier mostra-nos como, no decurso do tempo, os Conventos Capuchos se foram aproximando das povoações que lhes serviam de auxílio, por um conjunto de razões. Na maioria dos casos, é a consolidação da ocupação do território e o desenvolvimento urbano que vai fazer integrar os edifícios conventuais, tornando-se parte da estrutura das novas aglomerações urbanas. Os conventos, apesar de fundados em meio rural, estabeleciam com a urbe uma relação de dependência e orientavam a expansão urbanística nessa direcção. Acentuavam eixos viários que permitiam sustentar novas malhas construídas. Os espaços conventuais marcariam assim o urbanismo das cidades portuguesas, muito para lá do tempo de vivência das Ordens que lhes deram origem.
Neste ensaio podemos conhecer um pouco da tipologia e simbologia subjacente à origem das cercas dos Conventos Capuchos, e o seu profundo significado enquanto determinantes da religiosidade no espaço e todas as suas implicações. Manifestações de uma cultura íntimamente mergulhada na Natureza, as cercas são também uma reminiscência importante para compreender as raízes da nossa cultura espacial e a forma como nos relacionamos com o território. O tempo, nas suas muitas vagas, trouxe o esquecimento sobre essas ideias, esses materiais, essas soluções tradicionais que foram a génese do nosso fazer urbano. É contra esse vazio de conhecimentos que o pequeno livro de António Xavier se vem erguer, como marca de uma forte esperança em recuperar essas raízes culturais e assim fazer renascer um novo interesse em investigar, conhecer e proteger este património escasso e inegavelmente valioso.
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O livro Das Cercas dos Conventos Capuchos de António Manuel Xavier é uma publicação da Casa Do Sul Editora em colaboração com o Centro De História De Arte Da Universidade De Évora, podendo ser comprado ou encomendado na Livraria Som Das Letras.

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