A liberdade de duvidar



Olhando para trás para os piores períodos, parece-nos sempre que foram tempos em que havia pessoas que acreditavam em algo com fé e dogmatismo absolutos. E levavam tão a sério essas crenças que insistiam em que toda a gente concordasse com elas. E em seguida faziam coisas que estavam em contradição directa com essas próprias crenças apenas para manterem que o que haviam afirmado era verdadeiro. (...)

Esta liberdade de duvidar é uma questão importante em ciência e, creio, também noutros campos. Nasceu de uma luta. Foi uma luta ser permitido duvidar, não ter certezas. Não queria que esquecêssemos a importância dessa luta e, como consequência, que a abandonássemos. Sinto uma grande responsabilidade enquanto cientista que sabe do grande valor de uma filosofia da ignorância e do progresso que essa filosofia tornou possível, progresso esse que é fruto da liberdade de pensamento. Sinto a responsabilidade de proclamar o valor dessa liberdade e de ensinar que não devemos temer a dúvida, mas antes devemos acolhê-la como a possibilidade de um novo potencial para os seres humanos. Se sabemos que não temos a certeza, temos a possibilidade de melhorar as coisas. Quero exigir esta liberdade para as gerações futuras.

Richard P. Feynman*, 1963.
*Prémio Nobel da Física em 1965

Um país que voa baixinho



Depois das eleições legislativas do passado Fevereiro publiquei esta fotomontagem do cartaz eleitoral do PS acompanhada do título de um artigo de Medina Carreira. A imagem que então acompanhava um desabafo meio-esperançado, parece aos meus olhos ganhar uma nova força perante a repetição de episódios que, como dantes, tanto têm martirizado esta fraca democracia.

Não sei se é Portugal, se são os portugueses, se é a sua expressão colectiva, mas transparece-me deste um país de gente infantil. É de resto difícil falar de política uma vez que as leituras do que se diz se inquinam na interpretação daquilo que supostamente somos e que parece ser sempre assumido com uma grande presunção de má fé. Será possível viver numa democracia num país em que todos olham para todos com a desconfiança de “o que tu queres sei eu”? Como a verdade, a cidadania também não mora aqui.

Num país infantil é difícil dizer que se votou no governo e que tal facto não nos pode inibir de o criticar no dia seguinte. Porque numa democracia, naquela onde eu quero viver, um voto não é uma profissão de fé. O voto dos cidadãos não é um cheque em branco para uma ditadura de quatro anos mas sim um depósito de confiança num determinado projecto, num conjunto de ideias e de pessoas.
É assim que, ao contrário do que pensam os infantis, o voto não responsabiliza tanto quem votou mas sim quem recebeu o voto dos cidadãos.

O Partido Socialista venceu estas eleições com maioria absoluta porque, tal como eu, um largo numero de portugueses, mais moderados ou mais desesperados, se mobilizaram para o facto de que o país não poderia continuar a viver tempos de instabilidade política como vinha vivendo. Perante uma direita em convulsões partidárias internas que hoje todos reconhecem e uma esquerda agitada, José Sócrates apresentou-se como a imagem de lucidez e ponderação a que o país se podia agarrar; face às alternativas. Sócrates e o seu grupo político esforçaram-se para não quebrar essa imagem, demonstrando para tal a enorme rigidez de quem estudou a lição mas não está disposto a abrir o livro por um segundo sequer.
E, porque não me julgo nenhum génio, como eu muitos portugueses compreenderam mesmo na hora do voto que a qualidade de trabalho dos estrategas da campanha eleitoral não dava garantias de qualidade do governo que se viria a seguir. Eis então que a democracia também é assim: não se vota a preto e branco em candidatos ou partidos perfeitos; antes no mundo cinzento das realidades possíveis.

Não esqueço os suores de Sócrates no discurso da vitória. Talvez fosse apenas o calor da sala e é injusto presumir mais. Mas faz-me lembrar aquele Robert Redford no final do filme “The Candidate” (1972) ganhando uma eleição que estava perdida à partida. O mesmo nervoso “e agora?” de quem não está à vontade para vestir o seu fato novo parecia-me transparecer daquele Sócrates vitorioso.
A maioria absoluta colhida pelo primeiro ministro e o seu partido devia consciencializá-los de que foram eleitos num momento particularmente dramático; e que a própria maioria resultou dessa dramatização que os portugueses legitimamente sentiram. É que este governo foi eleito para não falhar e para não ter desculpas. Os portugueses não querem ouvir a mesma cantiga do défice daqui a quatro anos, que afinal estamos na mesma, que não tomámos sequer os passos da convergência e muito menos os da seriedade.
Por isso, este governo não pode acenar com a indiscutibilidade parlamentar da maioria absoluta para calar as vozes dos que o chamam à pedra e exigem que preste contas das suas decisões. E é por isso que casos como os da OTA e do TGV são tão exemplares dos problemas que enfermam as decisões políticas em Portugal. Não está em causa (ainda) os empreendimentos em si, que talvez se venham a revelar inteiramente justificáveis, ou não, mediante estudos de análise económica que estão por apresentar. Mas está em causa o facto de que os processos que sustentam essas decisões têm de ser tornados inteiramente transparentes e defendidos pelo rigor e a clareza dos números.
É por isso que campanhas como a que o Abrupto tem conduzido ou outras acções tornadas públicas por pessoas preocupadas com a falta de fundamentação pública de grandes investimentos estatais, não podem ser retorquidas com meias respostas e estudos que teimam em permanecer invisíveis.

O que concluir então de um governo maioritário com todos os meios para dar o exemplo de estabilidade e seriedade, que vem agora reconhecer no caso da OTA só existir um estudo de impacto ambiental, estando por fazer os estudos de impacto económico e financeiro do projecto. Se assim é, como se pode dar a decisão como tomada à partida? Trata-se de mais um degrau descendente no caminho para uma credibilidade política já de si em falência.
O governo começa assim a voar baixinho ao vento de interesses que teimam em permanecer ocultos. Para os portugueses moderados, o desalento começa a ser uma nova forma de normalidade. Até quando?

PODE O GOVERNO SFF COLOCAR EM LINHA OS ESTUDOS SOBRE O AEROPORTO DA OTA PARA QUE NA SOCIEDADE PORTUGUESA SE VALORIZE MAIS A “BUSCA DE SOLUÇÕES” EM DETRIMENTO DA “ESPECULAÇÃO”?

Forest Fires in Europe 2004

Deixo o link para o estudo sobre os incêndios florestais na Europa comunitária produzido pelo Centro Comum de Investigação e da Direcção-Geral do Ambiente:
Forest Fires in Europe, formato PDF em inglês.

Ainda: Comissão Europeia – um papel activo na luta contra os incêndios e contra a seca na UE e European Forest Fire Information System - EFFIS.

Pay’n’pray



A entrada na Sé de Évora começou a ser paga desde o início deste mês. Segundo o semanário Expresso, qualquer pessoa que transponha o átrio e se prepare para entrar no templo é abordada pelos funcionários da diocese que a intimam ao pagamento de um euro, ainda que ela argumente que vai somente rezar.

Na base das razões que levaram Évora a ser reconhecida como cidade património da humanidade está em grande parte a sua herança monumental com raízes que remontam a vinte séculos de história. A Sé-Catedral persiste como um dos mais notáveis edifícios da cidade do período medieval, com origens que datam a 1186.
A Sé está classificada como monumento nacional e é hoje pertença do Estado que está obrigado à sua conservação e restauro. São esses os termos da Concordata assinada entre Portugal e a Santa Sé em Maio de 2004, que refere ainda que em relação a este tipo de edifícios incumbe à Igreja a sua guarda; mas não lhe reconhece o direito de cobrar ingressos.
Como atesta o Expresso, a decisão agora tomada pela diocese é inédita ao nível das catedrais portuguesas classificadas de monumento nacional, como a de Lisboa ou a de Braga. Mas o mais surpreendente é o procedimento seguido pelo presidente do Cabido da Sé, cónego Eduardo Silva. Tendo apresentado ao IPPAR (a 21 de Julho) a sua pretensão de cobrar as entradas na Igreja, o IPPAR deliberou analisar a questão para a qual solicitou um parecer jurídico, posição que mereceu a concordância do clérigo. No entanto, o cónego decidiu antecipar-se às conclusões do parecer jurídico dando ordens para que se começasse já a cobrar as entradas.

É difícil aceitar que, não se tratando de um espaço privado da Igreja e estando o encargo da sua manutenção entregue ao Estado, esta se julgue no direito de cobrar ingressos aos seus visitantes. Num acto de discutível generosidade cristã o cónego Manuel Barros afirmou ainda ao Expresso que, caso o IPPAR não permita cobrar as entradas na Sé, o Cabido será obrigado a manter o templo fechado para apenas o abrir no horário das missas. A tradição, de facto, já não é o que era. Para uma diocese supreendentemente conservadora e pouco capaz de atrair os seus cidadãos o turismo talvez pareça a tábua de salvação. Por fim, talvez só lhes reste transformar toda esta Igreja numa peça de museu, fazendo eles parte do espólio para inglês ver? Para mais, com entrada paga.

Design clichés

Design Clichés, aquelas ideias brilhantes que já toda a gente teve, desde a lâmpada ao aperto de mão. Um artigo sobre os lugares comuns da comunicação visual.

Ainda: design a funcionar no sítio web da Rapha e uma listagem de blogs com aspecto muito recomendável pelas mãos da 9rules Network.