A história de Aaron Swartz
The Internet’s Own Boy é um documentário que dá a conhecer o percurso de vida de Aaron Swartz. De jovem prodígio da informática – com participação no desenvolvimento do protocolo RSS e na fundação da rede Reddit – a activista pela liberdade de acesso à informação na internet, tendo tido uma acção decisiva na campanha Stop Online Piracy Act.
Aaron Swartz foi alvo de um processo judicial por ter descarregado elevadas quantidades de informação da JSTOR, uma base de dados de trabalhos académicos de acesso pago. Apesar da desistência do processo por parte da JSTOR as autoridades federais americanas prosseguiram com a acusação, com uma condenação potencial de 35 anos de prisão e mais de 1 milhão de dólares de multa. A pressão colocada sobre Swartz levá-lo-ia ao suicídio em Janeiro de 2013.
O documentário sobre a sua vida é também um trabalho fundamental para compreender as tensões que pendem sobre a internet, entre a possibilidade de acesso ilimitado à informação e o seu condicionamento por corporações que dominam os principais veículos de navegação na rede. Legendas disponíveis em inglês e espanhol.
Lá em cima
A nave Rosetta vista do veículo auxiliar Philae pouco tempo depois da separação. Hoje, 12 de Novembro de 2014, às 16:04 GMT, o pequeno Philae aterrou no cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko. Imagem via European Space Agency.
Adenda: Eis a primeira fotografia captada pela sonda Philae depois de pousar na superfície do cometa 67P/C-G. Apesar das adversidades, o relato da missão continua empolgante.
Adenda (2): Após uma manobra de aterragem difícil, com três contactos distintos com a superfície, a Philae acabou por pousar numa zona irregular do cometa 67P. A insuficiente exposição ao Sol ditou a incapacidade de recarregar as baterias da pequena sonda. Os controladores da ESA viram-se assim na contingência de aproveitar as suas poucas horas de autonomia para levar a cabo diversas experiências, que foram bem sucedidas. Depois de enviar os dados recolhidos a Philae entrou em modo silencioso, situação que deverá perdurar muitos meses. Mantém-se a esperança que, no próximo Verão, a sonda receba luz solar suficiente para regressar à actividade. Ficam, por agora as magníficas imagens da paisagem alienígena do cometa, bem como uma reflexão no BLDGBLOG sobre o seu carácter bizarro e matematicamente complexo.
Momento geek
Em 1979 Ridley Scott revolucionou o cinema de ficção científica com a realização de Alien. O filme tornou-se uma referência de culto no género, em grande parte pela inovação conceptual e cenográfica que resultou da colaboração de artistas visionários como Ron Cobb e Chris Foss e, numa fase posterior, os míticos Moebius (Jean Giraud) e H. R. Giger.
Alien não seria o mesmo sem a colaboração do visionário Suiço que imprimiu aos seus estudos conceptuais a dimensão perturbante do hostil xenomorfo. Ridley Scott deve ao seu argumentista Dan O’Bannon a presença de Giger, por ter trazido até si o livro Necronomicon publicado pelo artista em 1977.
Foi também O’Bannon que referenciou os restantes artistas ao cineasta britânico. Da feliz colaboração de Ron Cobb e Chris Foss nasceria uma das mais icónicas naves espaciais da história do cinema: a célebre Nostromo.
O hiper-realismo aplicado por Stanley Kubrick à ficção científica uma década antes em 2001: Odisseia no Espaço tornara-se uma referência inescapável. Se até ali as naves espaciais pecavam pela falta de autenticidade, filmes como Silent Running (1972) e Dark Star (1974) procuravam já dar passos no sentido de exprimir uma funcionalidade aparente à sua dimensão cenográfica.
Seria no entanto Alien que ditaria, dali para a frente, as regras do que deveria ser uma nave espacial. Destacado para criar os interiores da Nostromo, Ron Cobb seria guiado pela sua procura obsessiva por um desenho fundado em ideias técnicas plausíveis no domínio da engenharia espacial. O design teria assim de servir a narrativa do argumento mas deveria de igual modo exprimir uma dimensão funcional credível, dentro das regras do seu universo ficcional.
A cenografia de Alien ficaria a cabo do director artístico Roger Christian. A partir das ideias de Dan O’Bannon e da arte conceptual de Ron Cobb, Christian deu forma aos interiores robustos e desgastados próprios de um cargueiro espacial de longo curso. Acima de tudo, a Nostromo deveria parecer usada e vivida, contrastando a brancura asséptica da ala médica e da câmara de híper-sono com a desarrumação da cantina e a sujidade das áreas técnicas do porão.
Trinta e cinco anos passados da estreia de Alien, um videojogo convida-nos a revisitar a sua atmosfera cenográfica com um detalhe sem precedentes. Alien: Isolation tomou como ponto de partida os desenhos conceptuais e os storyboards do filme para criar uma atmosfera rigorosamente fiel à da obra de Ridley Scott. A equipa de artistas de Isolation seguiu a sua visão futurista pré-digital, própria da ficção científica de finais da década de setenta, contando para tal com o acesso ilimitado a um avultado material de produção incluindo anotações de design e construção de adereços e cenários, fotografias e vídeos, bem como as gravações áudio de música e efeitos sonoros.
O resultado desse trabalho de investigação é verdadeiramente notável. Os espaços que servem de base à acção parecem extraídos das entranhas da Nostromo original, com alguns dos melhores ambientes de ficção científica alguma vez criados para um videojogo. Os corredores exibem uma robustez industrial, os gadgets são pesadamente mecânicos, os monitores são monocromáticos e apresentam gráficos ostensivamente arcaicos.
O aspecto mais interessante do jogo é revelar-se como um autêntico tributo ao talento visionário dos artistas de Alien. A sua expressão analógica demonstra resistir ao teste do tempo, parecendo adequar-se à natureza robusta e industrial própria de naves e estações espaciais criadas para durar muitas décadas no espaço longínquo.
Apesar da narrativa de Alien: Isolation ter lugar num cenário alternativo ao do filme – o porto espacial Sevastopol – os seus autores não quiseram deixar de homenagear os mestres por detrás da obra original oferecendo, como pequeno extra, uma viagem virtual à Nostromo, tal como foi imaginada e construída para o filme. Uma experiência obrigatória para todos os adeptos da sci-fi.
Vídeo: Other Places: USCSS Nostromo (Alien: Isolation) por Ultrabrilliant.
Às voltas no funil do amor

Este texto contém spoilers sobre o filme Only Lovers Left Alive de Jim Jarmusch.
Não será acidental o facto do sítio web oficial do filme Only Lovers Left Alive estar alojado no Tumblr, esse submundo alternativo de todos os nerdismos e fandoms da internet – entre os quais encontramos uma legião de adoradores de Tom Hiddleston, já designados no Urban Dictionary como Hiddlestoners. A opção assinala a dimensão desalinhada ou mesmo marginal da mais recente obra de Jim Jarmusch.
Talvez mais surpreendente seja reconhecer que Jarmusch, com o seu ar irreverente e eternamente jovem, é já um sexagenário; e no entanto o filme confirma-nos, passo a passo, a maturidade do seu autor. Only Lovers Left Alive declina vícios formais da pós-continuidade e outros compromissos rítmicos para entreter o espectador. Longe estamos dos Bayismos da indústria.
O filme é estilizado, planos calculados, tensos, com tempo para respirar. A influência underground é notória, com passagens hipnóticas, se não mesmo psicadélicas. Bem-vindos a um cinema orgulhosamente old-school.
Esta é a história de amor entre dois imortais. Adam e Eve são vampiros. Ela terá milhares de anos. Ele cerca de meio milénio. No presente ela vive em Tânger, ele na Detroit contemporânea. Não por acaso uma parte da história passa-se na colapsada cidade americana, representação de um mundo em declínio que é, ao mesmo tempo, abrigo de outras formas de vida.
Eve, protagonizada brilhantemente por Tilda Swinton, é uma personagem etérea e electrizante. Mas é Adam que merece maior fascínio. Um imortal deprimido, com pensamentos ocasionais de suicídio, que alimenta um olhar desiludido com o mundo dos homens. Refere-se à humanidade não-vampira como os “zombies”. No seu olhar somos nós os mortos-vivos, desesperados por sobreviver, incapazes de viver.
Adam é apaixonado pela cultura e pela música. Todo o seu modo de vida é uma colagem de retalhos de memória e de história. Compõe músicas vagamente hipnóticas, com instrumentos acústicos e velhos aparelhos electrónicos, que grava em fita analógica. A banda sonora reflecte o universo onírico da Detroit que Adam tanto gosta de atravessar pela noite dentro.
O mais interessante neste olhar negro e poético de Jim Jarmusch é oferecer-nos uma perspectiva sobre o tempo que paira sobre a regular experiência humana. Como veríamos o mundo se vivêssemos muitos séculos de vida? Como olharíamos então para as crises e os problemas da existência?
Só os amantes sobrevivem. Ou apenas os amantes são capazes de viver. Only Lovers Left Alive é, nas palavras do seu autor, uma meditação sobre a arte, a história, a memória, e os mistérios do amor imortal. A não perder.
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