O arquitecto compartimentado

Um dos maiores problemas que encontro na forma como se faz um projecto é a reduzida interacção entre os diferentes técnicos que nele participam. No processo de projecto habitual, o arquitecto desenvolve o desenho base a partir dos dados do cliente, definindo a implantação e a organização interna do edifício. Posteriormente, passa o trabalho para o engenheiro de estruturas, que desenvolve a sua fase, passando depois pela mão de uma longa lista de especialistas que definem os vários sistemas funcionais, iluminação, electricidade, mecânica e por aí fora. Por vezes, em certo tipo de edifícios específicos, entram então os seus próprios técnicos que seleccionam o equipamento e a sua distribuição. Por essa altura, estão criados tantos constrangimentos que se torna impossível manipular o projecto com vista a melhorá-lo de forma participativa. Cada etapa do desenho de projecto fecha a porta atrás de si, impedindo que se pense em outras soluções que poderiam melhorar a qualidade, reduzir os custos e tornar a construção mais eficiente.
Neste processo de trabalho compartimentado, o perigo prende-se com o facto de cada pessoa ter apenas uma visão reduzida do seu segmento técnico; perdendo-se uma visão unificada que guie o design. Em vez de uma equipa trabalhando em conjunto para criar um projecto apropriado e de boa qualidade, cada indivíduo faz o melhor com o que pode com aquilo que lhe é dado. Perdem-se assim os benefícios de uma visão mais ampla e uma criatividade colaborativa. Numa realidade em que os prazos e as margens de rentabilidade são cada vez mais apertadas, torna-se ainda mais difícil promover as reiterações fundamentais para que as ideias se maturem e consolidem. O próprio arquitecto se demite muitas vezes de impulsionar essa dinâmica, fechando-se na elaboração do seu monumento de arquitectura sem penetrar a fundo nas outras implicações técnicas.
A resposta, distante mas óbvia por ser sempre a mesma, é que a arquitectura devia ser um trabalho solidário realizado por pessoas com sentido de colaboração cívica. O ambiente construído é demasiado importante para ser feito de outra forma.

17 comentários:

  1. Sem dúvida, devia ser e não é um trabalho de equipa (ou é, mas incipiente).

    A forma de mudar isso passa (parece-me) por formar, mesmo, uma equipa, em que um manda (coordena, como se diz eufemisticamente)e empenha os outros que trabalham; essas equipas (project development) funcionam, pior ou melhor, mas funcionam, como a realização de uma ideia e vontade comum... paga (e bem) pelo promotor da equipa, que muitas vezes nem é arquitecto.

    Há um domínio onde isso funciona na perfeição: a indústria e design automóvel (há mais paralelismos interessantes deste campo com a arquitectura)

    No sistema habitual em Portugal de profissionais liberais agregados ao momento (mais ou menos solidários), não sai melhor que isto, a que estamos habituados.
    E é quando é, ou seja, quando há trabalho :)

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  2. Daniel, apesar da arquitectura não ser a minha área de formação, actualmente, por motivos profissionais, tive que lidar mais de perto com ela... Daí que compreenda bastante bem o teor deste teu post, uma vez que o projecto que temos entre mãos (de construção de um novo Centro para Refugiados), também, passou por todas essas vicissitudes de um trabalho compartimentado, em que não houve alguém (como diria o CBS) que tivesse uma visão global do projecto e pudesse ir acompanhando todas as suas fases.
    O problema derivado deste trabalho compartimentado aparece, então, depois na prática, quando um edifício está a ser construído.

    Possivelmente, tens razão, quando dizes que "a arquitectura devia ser um trabalho solidário realizado por pessoas com sentido de colaboração cívica".
    Mas olha que, na maioria das vezes, nem nas profissões/ramos em que deveria existir essa solidariedade, como seja o caso das ONG's, ela existe :(

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  3. Com este post pode-se facilmente retirar algo de muito importante para a resolução do problema.
    Tem que existir alguém suficientemente forte e capaz de liderar um projecto e uma equipa do principio ao fim.
    E é aqui que entra talvez o papel do arquitecto. Por alguma razão se pode facilmente separar Arquitectos de licenciados em arquitectura, o que muitos dirão que é a mesma coisa mas não é bem assim. Cada vez existem mais licenciados em arquitectura e não se vê a mesma quantidade de " arquitectos".
    E isto tudo para dizer que tem que existir alguém que queira fazer melhor e isto só se consegue com a ajuda de todos.

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  4. Infelizmente é o que mais acontece...

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  5. Será que o "Todo" é apenas a soma das "Partes"?!... Não creio... Caros colegas... O acto de projectar vai muito para além de resolver problemas (tarefa que eu deixo para os engenheiros)... Uma obra deve ser encarada como um "Ser Uno", e o projecto é o seu "ADN"...
    A verdade é só uma... Temos que "Conceber a Obra", e isso não é para "Arquitectos Licenciados" (como já foi dito)... É para "Arquitectos"!... A colaboração com outros intervenientes (engenheiros, advogados, psicólogos, etc...) deve ser apenas no âmbito da identificação e resolução de problemas... É por isso que a Arquitectura não é uma ciência exata... Eu sei! Não é fácil! Mas quem corre por gosto, nunca se cansa!

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  6. Um "Ser Uno"!... Ahahahaha.... AHAHAHaHaha.... pude sentir a minha cabeça a inchar! Muito bom.

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  7. Desculpa lá!... É que eu nunca gostei dessa estória de transformar o acto de projectar numa "Linha de produção"... Para mim existe algo de "mágico" neste processo. Algo que se perdeu neste frenesim de tecnologias e globalização... Talvez seja por isso que os arquitectos estão cada vez mais mal vistos pela sociedade (Não só em Portugal)... E o legado dos arquitectos gregos, góticos e renacentistas ainda é mundialmente apreciado.

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  8. Caro Mediocre, sem querer polemizar, que não sou pra grandes conversas, não posso deixar de discordar, com todo o respeito.

    Pois eu não penso que cada projecto, cada casa, tenha de ser uma obra de arte, e acho mesmo que é por aí que se foi perdendo muita arquitectura.
    Há de facto obras de carácter monumental, público ou singular por qualquer outro aspecto, e que por isso merecem um tratamento tipo artesanal, que as singularize.

    Mas o comum da arquitectura deve ser mesmo industrial, pois a realção preço/qualidade deve situa-la ao alcance de todos.
    E isto não quer dizer que não seja excelentemente construída, bonita e funcional; volto aos carros, são precisamente produzidos em série, sem prejuízo nenhum das dimensões estética ou funcional.

    Caro Mediocre (e medíocre sou eu, creia) parece-me que a desgraça da arquitectura, especialmente em Portugal, é cada menino que desenha um objecto, quer fazere dele um "ser uno", único e artístico, ou uma obra de arte, tout court.
    E o comum dos mortais, apenas quer uma casa cómoda, bem executada, não muito cara e que funcione.
    E o que temos obtido são edifícios disfuncionais e pretenciosos; as nossas cidades parecem por vezes um atropelo de discursos, cada um a "falando" o mais alto que pode.

    Mas isto é apenas a minha modesta opinião...

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  9. Apesar de não concordar consigo, obrigado pela crítica construtiva cbs! :-)

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  10. Depois de tudo o que li, resta-me dizer que na minha humilde opinião, podemos retirar verdades em todos eles. A arquitectura pode e deve ser um "Único", ter qualidade e ser funcional. São mesmo estes valores que me definem a Arquitectura da Construção.
    Qualidade, Funcionalidade e Artístico (Estético).

    emn***

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  11. CORRENTES O APRENDIZ5:27 da tarde, maio 22, 2006

    Boa cbs, voltemos então ao funcionalismo puro e duro.
    O problema´não são os "meninos" que querem que cada projecto seja uma obra de arte, mas sim aqueles "meninos" que se divertem a fazer projectos sem território, totalmente desprovidos de relações com a sua envolvente, daí o território resultar num imenso supermercado onde compra quem quer (diga se estilos ou imagens... os à moda de...)
    E ja foi por aqui demonstrado que se pratica esse acto de pseudo projectar umas "coisas fixes" sem território.
    Alguem me perguntou se todos nós não o fazemos, quando eu meti em causa este acto.... eu respondo outra vez que não, não o fasso.

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  12. É o que eu penso... Não queria ser arquitecto nos dias de hoje. Mas há dois tipos: os que se remetem à arrogância da imutabilidade do seu projecto - que julgam ser o mais importante de todos - e aqueles que vão transformando o seu projecto consoante as exigências que vão surgindo. Estes últimos são raros, corajosos e têm de possuir já um estatuto elevado.
    É mais fácil pertencer ao primeiro grupo...
    obvious

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  13. isso parece-me demasiado castrante e cortante, obvious, mas isso já te é um pouco de imagem de marca ;).

    O problema que difere a arquitectura dos carros ou dos portáteis ou todos os objectos de "design" não é um, são vários e a saber:

    1. Território. Cada casa estabelece-se num prédio (diz-se prédio de um pedaço de terreno sobre a qual o edifício é construído) e instala-se lá definitivamente. Logo define não só o seu prédio mas também a sua vizinhança, sendo que um conjunto de prédios cria já um centro geográfico qualquer. Este é único e irrepetível, por mais "igual" que pareça ser, pelas características do seu lugar. Não se esqueçam que vivem em Portugal, país cheio de morfologias acidentadas e portanto geradoras de situações únicas em cada ponto.

    2. A dificuldade da adequação ao lugar. É de obra. Será urbano ou rural, que índices deveremos optar por estabelecer, que tipo de casa ou construção em que tipo de lugar, e como adaptar a construção à árvore que ali se encontra, à rua que se abeira, ao declive que o sustenta?

    3. A particularidade da pessoa. Pronto, não irei tão longe, mas cada "lugar" não tem só características físicas mas também culturais e psicológicas. Tradicionais. Sou adepto do chamado "regionalismo crítico".

    4. A imobilidade e obrigatoriedade da Arquitectura. Se o carro é feio ou se o vestido saiu de moda, é fácil, substitui-se, gerando grande velocidade em termos de mercado de adequação do design ao gosto. Mas se ao fim de dez anos deixamos de gostar da nossa casa? Deita-se abaixo? Como vêm é bem mais delicado. É muito mais responsável. Porque se fosse assim tão simples, Massamá ou Cacém já não existiriam concerteza.

    5. A casa, a nossa casa é do mais íntimo e pessoal que possamos imaginar. É nas nossas casas que depositamos todas as nossas memórias e vivências. Não há lembranças que não tenham o suporte arquitectónico. Porquê tornar todas as casas iguais e repetíveis, todas monótonas?

    Mas alguém ainda quer mais Massamás?!? Parece que sim!

    6. Último. A "arquitectura" está como está não por causa dos artistas, mas por causa precisamente das necessidades económicas das bases e do embaratecimento brutal da construção no séc. XX, gerando a possibilidade de construir qualquer coisa por tuta e meia e assim destruir toda a malha urbana...

    O que faz falta é mais exigência por parte do público. Mais exigência depende no entanto de maior conhecimento dos problemas em causa. Dos problemas da energia. Dos problemas da mobilidade, da boa vivência urbana (qual será?), da qualidade construtiva e arquitectónica.

    Por último, isto de estarmos rodeados de "arte", nos ratos, nos teclados, nos telemóveis, nos portáteis, etc e tal, e depois desprezarmos a arte nas nossas casas que são essas sim para toda a vida, parece-me um enorme contra-senso.

    1 Abraço.

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  14. A conversa tá com graça :)
    então surgem-me três remoques, com a vossa licença:

    1.aqueles "meninos" que se divertem a fazer projectos sem território/ a dificuldade da adequação ao lugar.
    O território é uma referencia cuja importancia prezo e reconheço, mas não passa disso, há outras; há até integrações por contraste que só beneficiam o todo onde se colocam; e pergunto eu, como se integra no território a arquitectura da Space Station, por exemplo? :) a arquitectura confina-se aqui ao quintal? :))
    Parece-me que a referencia essencial é o Homem, não o "décor" (e digo isto, sem menosprezo da paisagem)

    2.Porquê tornar todas as casas iguais e repetíveis, todas monótonas?
    Mas depende da escala dos objectos! se virmos um conjunto urbano, um quarteirão, ou o desenho de uma rua, por exemplo, como é melhor?
    dar unidade ao todo com elementos repetidos que criam um efeito de conjunto, eventualmente tão belo como uma sinfonia (que também são feitas de silencios e monotonias)?
    ou criar a disparidade total, cada objecto diferente em cacafonias de imagem e cor, numa vertigem de criatividade Taveiresca, que no final se transforma numa massa informe?
    Em especial no desenho da cidade, estéticamente o que conta é o conjunto urbano, diferente da ideia de edifício isolado com que se discute muitas vezes a arquitectura.

    3.alguém ainda quer mais Massamás? Todos as épocas geram modelos de desenho, e claro que a arquitectura não é excepção; os modelos são fabricados pelos melhores arquitectos e tornam-se referencias; o que se segue é sempre a degradação do original, e nisso o Movimento Moderno deixou-nos uma estética funcional (às vezes) mas horrível, daí Massamás, que sempre existirão (ou pior, Sacavéns); no entanto o melhor do Modernismo pede meças ao melhor Classicismo.

    Por aqui me fico, mas caro correntes aprendiz, esclareço-o que sim sou funcionalista, não vejo nenhuma imcompatibilidade entre funcionalidade e beleza (pelo contrário), mas a arquitectura não é escultura, tem obrigatóriamente que funcionar.
    Mas não ligue, são coisas da idade, da mediocridade dos anos 50 :)

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  15. CORRENTES O APRENDIZ7:09 da tarde, maio 23, 2006

    A conversa ta interessante sim sr ;)

    Ah mas no meu comentário não meti em causa a relação beleza/funcionalidade nem tão pouco se a arquitectura tem que funcionar, pois no meu entender, se a arquitectura não responde ao programa que a origina, não faz sentido. Se bem que também não é branco no preto, basta lembrar o quartel de bombeiros da zaha hadid na alemanha, uma autentica escultura habitável que não responde á função para que foi criada, mas como ja disse, não meti isso em causa.


    O sr compara o acto de projectar ao acto de produção em série de automóveis... Ora bem então "peguemos" numa habitação de Campo Baeza e vamos produzi-la em série, tou certo que responde a todas as necessidades e que funciona, mas inda assim não me parece bem, que raio, até podemos ter catalogos... turegano house, com extras, ar condicionado, e jantes de liga leve apenas por XXX e inda se habilita a ganhar um televisor e um Ipod.
    Considero a arquitectura arte sim, uma luz que banha uma parede e que vai desenhando rigorosos traços á medida que o dia passa, para mim é arte.... o rasgo deixa de ter apenas o sentido funcional de fornecer luz e/ou ventilação e passa a ser algo mais. E acho que não é nenhuma excentricidade fora do alcançe das massas.
    Quanto ao desenho urbano, concordo completamente a respeito do sentido de conjunto e unitário, relembrando que o espaço não se experencia em planta nem em alçado. Isto remete outra vez para a leitura territorial e o compreender das interrelaçoes existentes. Não me parece que todas as casas iguais e a monotonia sejam das soluções mais eruditas para atribuir um sentido de um todo no conjunto urbano até porque "a paisagem urbana é o que está entre os edificios".
    Para finalizar, ligo sim :) tento ligar ao que se passa á minha volta e a quem sabe mais que eu, esforçando-me para manter uma mente aberta só tenho a ganhar.

    Abraço

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  16. Já lá vai o tempo em que se comprava o projecto de uma vivenda por umas dezenas de contos à beira da estrada, assim como quem compra melões. Mas passando a coisas sérias, aborrece-me esta mania de ouvir mal o que os outros dizem, e depois julgá-los pelos nossos mal-entendidos. O exemplo que o cbs avançou da indústria automóvel refere-se directamente ao mesmo sentido colaborativo, em que os aspectos de design, estética, técnica, tecnologia, estão intimamente interligados. O ponto de partida era exactamente a falta deste espírito de colaboração na prática da arquitectura, de que falava no texto original.
    Discordei, em tom de brincadeira, mas em absoluto, com o comentário inicial de “medíocre”. Dito isto, concordo que um projecto de arquitectura não se faz em plenário ou em comité. Alguém tem de dar o jogo, mas esse alguém também tem de ver as cartas que os outros lançam na mesa. Nesse sentido, a participação das outras valências técnicas não pode servir apenas para resolução de problemas específicos; elas têm de estar consciencializadas no acto de projectar para que a arquitectura possa resultar, mesmo na sua dimensão “artística”. Quando fala no legado dos gregos, góticos e clássicos, não duvide que o seu sucesso resultou de um igual apogeu de técnica construtiva, sem a qual não haveria suporte à perfeição que lhes reconhece.
    Eu acredito que a arquitectura também é uma forma de arte, não no sentido pobre de divagação estética, da opção formal subjectiva, do capricho do senhor autor, mas enquanto lugar de promoção de formas de transcendência da experiência humana; o que é a arte senão essa experiência que transforma o olhar e nos faz “ver” diferente. No entanto, a arquitectura também tem de ser humilde. Uma casa é uma casa, não é um museu – e Siza também já disse isto. O território é para mim um conceito cada vez mais essencial. Não o território da aparência, da mimesis, mas o verdadeiro sentido do lugar; um sentido que quase se perdeu na voragem da pato-bravice nacional. Massamás e afins, lugares de coisa nenhuma, de uma não memória de vida. E agora? Vamos substituí-los pelo reboliço da imagem para consumo? Tradicional ou contemporâneo? Americanizemo-nos: quer shingle, beach-house, classic ou modern? Não me surpreende que cada vez mais se mascare a casa de estilos de coisa nenhuma. A casa deve reflectir aquilo que somos, e o que somos é uma coisa que o cidadão (do emigrante ao senhor que aparece na revista vip) não sabe o que é. Nem está preocupado com isso, desde que não atrase a novela nem a selecção tropece.

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  17. Só quero registar que não confundo casas com carros, jantes e afins.
    A minha referencia ao design automóvel (que me apaixona tanto como a arquitectura) dizia respeito ao trabalho em equipa (no segundo comment já quase me esquecera, obrigado por lembrar Daniel) e também à estética; ninguém se queixa de ter um Alfa Romeo 156 pior que o do vizinho lá porque são iguais, e ambos acahm que têm uma jóia de beleza.
    Mas a estética, a função e o tempo das casas é diferente; insurjo-me é com a mania de fazer de cada casa uma obra de arte, esquecendo a mais finalidade de servir quem a usa; já ouvi dizer que primeiro tem que ser bela, e se funcionar melhor...
    Em relação ao tempo, aí parece-me que, ao contrário do automóvel que muda de forma frequentemente, na arquitectura é prefivel a contenção formal (penso nos contrastes Siza/Taveira) em vez de elementos fortes que envelhecem depressa e cansam.

    De resto, acompanho os dois ultimos comentários apenas com uma resalva:
    quando o Daniel diz "O território é um conceito essencial" e fala do "sentido do lugar" (não nego que exista, mas não me parece fácil defini-lo), sabendo que quase todos os arquitectos me refutam, tenho reticencias em colocar sempre aí a directriz do projecto.
    Como disse vejo o sítio (aparente ou subjectivo) como uma referencia de onde se pode partir; mas não mais que isso, posso partir de outra referencia (nunca dispenso o lugar, mas secundarizando), como a função, a dimensão, a tecnologia (aquática, solar, etc); posso também ter um sítio tão mau, que jogue na integração por contraste, afirmando algo de diferente (se bem que aqui o lugar está primeiro), e também fazer boa arquitectura.
    A cidade espacial ou as mega estruturas que Paolo Soleri desenhava, são também arquitectura, e o referencial não é o sítio (no caso de Soleri sim, mas a dimensão urbana contava pelo menos o mesmo)
    Sei que digo sacrilégios, mas discordo da sacralição da arquitectura.
    Agora não passa de uma opinião, não tenho carta descansem...
    :)

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