Castelo de Portalegre



O projecto de intervenção promovido para o Castelo de Portalegre no âmbito do Programa Polis constitui um exemplo digno de reflexão a propósito dos méritos mas também de algumas indefinições que pontuam certos exemplos da prática contemporânea da arquitectura no nosso país, em especial no domínio das obras públicas.
Da autoria do arquitecto Cândido Chuva Gomes, o edifício concebido para ocupar uma parte importante da zona do Castelo revela-se um exemplo de uma prática arrojada de intervenção - tanto mais interessante quanto assenta num território sobre o qual padecem recorrentemente conservadorismos exacerbados que acabam por impedir a sua real recuperação e revitalização. Estamos assim perante um trabalho corajoso e, em grande medida, exemplar de uma afirmação erudita e descomplexada sobre a cultura e a história, de que resultam benefícios notáveis para o património.
O corpo principal da nova construção constitui-se por um objecto de formas regulares que reconfigura volumetrias perdidas ao longo do tempo, dotando o espaço de um conjunto diverso de novas funções. A grande caixa ergue-se desde a Torre de Menagem, desenvolvendo-se sobre uma base de muralha e abrindo-se para o piso térreo de contorno transparente, onde se situam a recepção e os acessos verticais. Seguem-se dois pisos destinados às funções principais que incluem uma sala polivalente e, futuramente, um espaço comercial, restaurante, esplanada e espaço web.
O edifício desenvolve-se também para o exterior, reocupando um espaço anteriormente vazio e disfuncional do Castelo, para dotá-lo de condições para ocupação de tempos livres. Um pequeno anfiteatro de desenho não convencional rodeado por passadiços modulares pretende vir a servir actividades diversas como ensaios de música, teatro ou dança, realização de colóquios ou simples estadia. A proposta revela um enorme potencial de ocupação pela sua versatilidade, de textura humana que o jogo das madeiras e paramentos de pedra ajudam a consolidar.
Os méritos desta construção não podem no entanto deixar de motivar alguma reflexão quanto ao seu enquadramento promocional e as opções que estão na base da sua materialização. Para além de tratar-se de um objecto de manutenção pesada, a não garantia de uma eficaz estanquidade ambiental revela-se penosa, tanto para um comportamento energético racional como para o seu eficaz funcionamento no suporte à instalação de materiais expositivos. Ao mesmo tempo, estamos perante um modo habitual de produção de obra pública, revelador de uma desproporção de investimentos entre o “objecto arquitectura” e os conteúdos que supostamente devem servir a sua vivência. A experiência do edifício transmite-se assim vaga e incompleta, tornando-o alvo fácil de crítica por revelar-se como peça algo abstracta, como se de uma instalação se tratasse.
Não posso deixar de confessar o quanto me é ingrato registar esta reflexão, cujo contorno está quase sempre ausente no discurso crítico da prática profissional. São, no entanto e no meu entender, problemas aos quais o exercício da arquitectura não pode ser alheio. Que o papel do arquitecto enquanto gestor do projecto significa ser gestor-ele-mesmo, com a consequência ética que lhe é devida na justeza dos meios, dos materiais e das soluções pautadas pela racionalidade do discurso formal. Fica assim a expectativa e a esperança que o futuro deste edifício lhe venha a conferir garantias de uma perene dignidade, para que possa perdurar enquanto referência e boa prática de intervenção num contexto de elevado valor patrimonial.









7 comentários:

  1. Subscrevo inteiramente! O dedo na ferida...


    obvious

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  2. Não concordo com o suposto problema de manutenção e durabilidade. Quanto à estanquidade, desconheço o comportamento do edifício porque nunca lá fui nem vi os pormenores construtivos, mas a madeira é um excelente isolante térmico e as estruturas de madeira são extremamente duráveis desde que resolvidos eventuais problemas de infiltrações que surjam com o tempo (conheço diversas casas do século 18 e 19 que ainda mantêm as estruturas de madeira originais em pleno funcionamento; quero ver quantas casas de betão e tijolo estarão em pé daqui a 200 anos!).

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  3. Caminhar nas muralhas, subir nas torres, apreciar a vista sobre a cidade, descobrir a sua história(s), o que o tempo levou e acrescentou... viver o espaço. Nada disto encontro na actual intervenção no Castelo de Portalegre. Simplesmente decepcionante!

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  4. Estudei em portalegre, `fui elemento da Tuna do IPPortalegre,e a torre de menagem era o local dos nossos encontros, reuniões e ensaios, conheci e vivi grandes momentos neste espaço. Fiquei decepcionado com esta intervenção, não encontro explicação para justificar tamanha ruptura com que ali existia...

    Duarte

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  5. o castelo simplesmente desapareceu escondido pela "arrojada" intervenção, dita arquitectónica.

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  6. Se deixassem a mete retrógrada para trás talvez percebessem a intervenção arquitectónica! Modernizem-se!! Deixem as mentes quadradas expandirem-se! O carácter do lugar está lá, apenas lhe foi acrescentado um toque de modernidade, através de uma intervenção que está muito boa!

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