O professor corajoso

Tinha olhos e nome de rapina. Em mim, tudo nele inspirava um medo terrível. Talvez fosse o rigor do seu bigode enrolado à inglesa ou o brilho cintilante dos botões de punho, mas tremia ao ouvir o ranger dos seus sapatos percorrer a sala de aula.
Aos treze anos tudo é de vida ou morte. O temível professor de história tinha-nos na palma da mão e na ponta do taco de bilhar que esgrimia sobre as nossas cabeças. Imaginava o taco incendiar-se como um sabre laser e o espadachim ser dominado por uma pesada respiração. Sim, ele era o lado negro da Força.
Certo dia percorri o meu pesado manual de caneta em punho disposto a vandalizar o seu domínio. Encontrei a Vénus de Milo, desnudada e desprotegida, e sobre ela descarreguei a minha ira adolescente. Na imagem da deusa grega desenhei um provocante soutien e ligas a condizer, dignas da mais pura alta costura.
O destino é fatal e assim foram as aulas de história. Meses passados e o professor bateu de novo as asas, sentenciando a abertura do livro na página cento e oitenta e quatro. Folhas rolaram soando como o ressoar da roleta. Nas minhas mãos o livro abriu em câmara lenta, revelando finalmente a garbosa Vénus em todo o seu esplendor.
Um centésimo de vacilante horror foi quanto bastou. O cérebro rapidamente enviou os primeiros sinais aos dedos que rodaram mais uma folha, assim se ficando como o meu corpo inteiro gelado sob o olhar do mestre. Os olhos da águia enegreceram e não mais deixaram de me fitar. Os sapatos chiaram até mim como a ave que se lança cega sobre a presa. Parou de taco em punho e olhou o meu livro. “Mas está na página errada” - afirmou com indizível prazer. E eu já não dominava o corpo e os dedos e, seguindo as instruções do professor, recuei a folha para revelar o inevitável.
Sob o olhar atento daquela Afrodite renascida, do professor e da sala inteira li, em voz alta e de uma ponta a outra, todo o texto daquelas duas páginas abertas. E os lentos minutos arderam na minha mente para eternamente se gravarem, a dor pior que todos os castigos que poderia vir a sofrer.

No ano seguinte encontrei, naquela mesma disciplina, o melhor professor que alguma vez conheci. Alma e coração de aviador, os seus olhos doces planavam sobre a nossa admiração atenta. E a história universal enchia-se de vento e nós voávamos com ele pelo passado distante. Nos intervalos falava-se de tudo; culinária, cinema ou os estreantes passos de dança de Michael Jackson que o novo professor imitava com perfeição. Era mestre e era actor, cabelos e barba levemente soltos e rebeldes como o próprio.
Um dia, talvez algures entre o renascimento e o último disco dos Simple Minds, o mestre aviador descobriu esquecido no canto da sala o taco de bilhar do seu arquinimigo. Dominou o ceptro maldito e lançou-nos perguntas avulsas imitando o seu verdadeiro dono. E nós respondíamos e ríamos daquela atrevida representação. E eis que, de repente, o professor de olhos brilhantes ergue o taco e lança-se pelo corredor entre as mesas simulando um salto à vara - e Plim! Mal calculado, o toque da ponta da vara no chão revelava-se fatal para a madeira envelhecida. Diante de nós, o taco parte-se a trinta centímetros do topo e os seus poderes esfumam-se para sempre. Tornou-se, na minha mente, um momento histórico. A velha rapina perdera finalmente a sombra e eu estava para sempre livre do seu negro poder.
Recordo com magia aqueles tempos de colégio. E recordo, hoje com saudade, todos aqueles professores que nos metiam medo ou nos inspiravam.
Magia, verdadeiramente, é o que fazem dia após dia os verdadeiros professores, os que se entregam de alma e coração à conquista da compreensão dos seus alunos. De todos eles, os melhores professores não são os que querem apenas ensinar, mas os que se dispõem a compreender. Os que todos os dias fazem a barba ou se maquilham das suas próprias dores; e nos encantam entre o rigor do palco e um passo de dança e nos abrem o mundo para lá do cenário pardacento. Que com coragem nos fazem acreditar no poder das ideias e das palavras e, quem sabe, num futuro um pouco melhor.

5 comentários:

  1. A VOZ do POVO, em nome de todos os colaboradores deste blogue deseja a todos os amigos e leitores!

    UM BOM ANO 2007!

    Tenhamos como objectivo, contribuir e ajudar a que o nosso mundo, seja um local, de paz, para todos os povos. Que acabem as injustiças, que sejamos solidários, com os nossos irmãos, que sofrem e que os homens se entendam e contribuam definitivamente para um mundo melhor.Um mundo aonde todos, sejamos iguais em oportunidades, fraternidade e no acesso ao bens e cuidados necessários. Em especial, para todas as zonas aonde se verificam conflitos bélicos, por razões, políticas, religiosas ou económicas!

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  2. Post tocante, um pequeno conto auto-biográfico. Fez-me percorrer alguns rostos e situações da infância e, enquanto professor, colocou-me num ponto de interrogação. Amanhã mesmo voltarei a pensar nisto.

    Desejo-lhe, Daniel, um bom 2007, como se fosse para mim.

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  3. Belíssimo texto! Não pude evitar uma viagem aos meus tempos de carteira e à lembrança de alguns "profs" com características parecidas.

    Cumprimentos,
    Paulo Dumas

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  4. A sua evocação levou-me ao AMARCORD de Felini. Há uma passagem divertida, encontrei a parte que interessa no youtube

    http://www.youtube.com/watch?v=bBWbRjbhl4c


    Um abraço

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  5. Maria da Gloria Guerra Padilha1:51 da tarde, janeiro 19, 2007

    Visito teu blog com freqüência, consigo viajar através das tuas imagens e textos. Fiquei fascinada com o professor corajoso.

    Porto Alegre-RS
    BRASIL

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