Architecture is dead



We replace the traditional notion of authorship: "I created this object," with a new one: "We nurtured this process.
REX

What is architecture anyway? Is it the vast collection of the various buildings which have been built to please the varying taste of the various lords of mankind? I think not.
No, I know that architecture is life; or at least it is life itself taking form and therefore it is the truest record of life as it was lived in the world yesterday, as it is lived today or ever will be lived. So architecture I know to be a Great Spirit....
Architecture is that great living creative spirit which from generation to generation, from age to age, proceeds, persists, creates, according to the nature of man, and his circumstances as they change. That is really architecture.

Frank Lloyd Wright

Vazios Urbanos foi o tema central da Trienal de Arquitectura de Lisboa. O conceito de “vazio” é interessante, como demonstrou Mark Wigley num dos melhores momentos da conferência da Trienal. Wigley definiu a própria arquitectura como um sistema de vazios; o vazio como substância, um tecido infraestrutural que torna a arquitectura possível. Mas como arquitectos somos muitas vezes impelidos a definir o vazio como uma falha – física ou funcional – no espaço urbano. Numa abordagem simplista poderíamos considerá-lo como um vazio conceptual, um esvaziamento urbano a ser preenchido com arquitectura, como forma de o resgatar e tornar novamente parte da cidade.
A conferência da Trienal foi – simbolicamente – intitulada O Coração da Cidade, numa referência directa ao tema do CIAM 8. O que também não deixa de ser um paradoxo, pois que no nosso entendimento do que é a cidade ainda persiste esta ideia de “centro” – uma ideia de centralidade de onde derivaria a própria identidade da cidade.
Mas o que é a cidade de hoje? Wigley diria, na sua maneira sempre fascinante, que a beleza da cidade resulta de não sabermos de facto o que ela é. E por isso insistimos em teorizá-la, em criar uma hipótese para a “cidade”.
Penso que este desconhecimento é a essência do problema da arquitectura, hoje, numa perspectiva urbana, e reflecte a cisão contemporânea da prática arquitectónica. E assim recordo uma das minhas passagens favoritas de Terre des Hommes de Exupéry: “Muito embora as palavras continuem a ser as mesmas, as noções de separação, de ausência, de distância, de retorno, já não contêm as mesmas realidades. Para a compreensão do mundo de hoje, usamos uma linguagem criada para o mundo de ontem. E afigura-se-nos que a vida do passado parece corresponder melhor à nossa natureza pela única razão de corresponder melhor à nossa linguagem”.
O que é então a arquitectura; o que é a cidade? Estas perguntas regressam recorrentemente para nos assombrar, lembrando-nos que não lhe conhecemos as respostas. Os próprios conceitos, as próprias palavras parecem escassas perante a rápida transformação do ambiente construído. Inventamos novas palavras – cidades globais, megacidades – para definir estes ambientes complexos com multi-centralidades e interacções exponenciais. E assim persistimos numa busca pela “verdade”, no contínuo diálogo com os velhos mestres, e reconhecemo-nos nas palavras de Frank Lloyd Wright, que certamente “a arquitectura é vida”, e assim é a cidade.
Houve, para mim, um momento essencial na conferência da Trienal de Lisboa: durante uma das sessões de debate, Thom Mayne e Carrilho da Graça trocaram argumentos que revelaram a fricção entre duas práticas arquitectónicas bem distintas. Num artigo recente publicado na Arq./a, Ana Vaz Milheiro definiu este momento, de uma forma algo condescendente, como uma confrontação entre duas atitudes opostas – uma arquitectura fluída embebida na prática Americana contemporânea; e as formas estáveis, euclidianas de Carrilho, encastradas na doutrina Europeia. O argumento desviou-se para a questão da ideia de democraticidade na arquitectura – e qual arquitectura seria mais democrática. Que é um debate interessante, mas também estúpido se centrado num plano conceptual.
E assim pareceu-me: eis dois grandes arquitectos. São ambos “arquitectos”, e no entanto é como se não fossem praticantes da mesma profissão. E, de facto, não são, e não é uma questão formal, mas algo que deriva de abordagens programáticas antagónicas ao acto de projectar.
Ora, um deles – Carrilho – apresentou os seus belos edifícios e as suas ideias sobre o fazer de um “objecto” arquitectónico. E o outro – Mayne – falou da gestão da complexidade, do processamento programático e de multi-tasking; sobre arquitectura não como uma disciplina centrada na fisionomia do “objecto” mas como uma ferramenta poderosa para gerar processos criativos que resolvam problemas urbanos reais através de uma investigação sobre a forma.
E assim, ainda que alguns possam qualificar de genial uma dissertação sobre “o paralelepípedo de pé e o paralelepípedo deitado”, fico tentado a dizer que é uma pobre reminiscência de uma arquitectura morta. Uma evidência de um outro vazio, um vazio doutrinário entre o arquitectónico e o urbano, entre o conceptual e o matemático. Porque a arquitectura, no mundo de complexidade em que vivemos, precisa de lacerar as fronteiras de uma cultura compartimentalizada do design, para reaver a sua importância e pertinência urbana – ser tecido para a elaboração dos processos complexos e os fluxos da cidade. Como se a própria arquitectura deixasse de ser primordialmente uma disciplina de desenho para tornar-se uma disciplina de não-desenho. Porque nela residem múltiplos planos do real: o artístico e o tecnológico, mas também o económico, o social, jurídico, ambiental e outros.
A arquitectura morreu. E uma nova arquitectura é necessária. Uma arquitectura que é, em muitas maneiras, a suprema forma de engenharia e design. Arquitectura como uma plataforma colaborativa para processar novas formas de questionar as muitas complexidades da vida. Uma complexidade que não se ajusta a objectos abstractos, sem vida, mas antes requer soluções formais que implementem estratégia e visão. Pois que a “arquitectura é vida”, e viva deve ser feita.
Adeus Torre do Burgo, o meteorito está a chegar…

Architecture Is Dead
Urban Voids was the main theme of the Lisbon Architecture Triennale. The concept of “void” is an interesting one, as Mark Wigley proved in one of the greatest moments of the Triennale’s main conference. Wigley defined architecture itself as a system of voids; void as substance, the very infrastructural fabric that makes architecture possible. But as architects we are often impelled to define the void as a flaw – physical or functional – in the urban space. In a simplistic approach we could then consider it to be a conceptual void, an urban emptiness to be filled with architecture, so as to be rescued and become again a part of the city.
The conference of the Triennale was actually - and symbolically - titled The Heart of the City, in a direct reference to the theme of the CIAM 8. Which is also a bit of a paradox, for in our understanding of what the city is we’re still bound to that focusing on it’s “core” – an idea of centrality from which the identity of the city is to be perceived.
But what is the city today? Wigley would say, in his own fascinating way, that the beauty of it is that we don’t really know what it is. And so we thrive to theorize it, to create an hypothesis of the “city”.
I believe that this unknownability is the very essence of the problem of architecture today in an urban perspective, and it reflects a contemporary split in architectural practice. And so I often remember one of my favourite passages from Exupéry’s Terre des Hommes: “Although words remain the same, the notions of separation, longing, distance, return, do not contain the same realities. For the understanding of the world of today we use a language created for the world of yesterday. And it seems to us that life from the past is better fitting to our nature for the single reason that it better fits our language”.
So what is architecture today; what is the city? These questions come back to haunt us from time to time as a reminder of the fact that we do not know the answers. The very concepts, the very words and terminology seem lacking before the rapid transformations of the built environment. We invent new words - global cities, megacities - to define these complex environments with multiple centers and exponential interactions. And so we thrive in that search for “truth”, in our ongoing dialog with our dead masters, and we recognize ourselves in the wider words of Frank Lloyd Wright, that surely “architecture is life”, and so is the city.
There was, to me, a defining moment of the Lisbon Triennale’s conference: during one of the debate sessions, Thom Mayne and Carrilho da Graça had a short argument, much revealing of the friction between two very dissimilar architectural practices. In a recent article published in Arq./a, portuguese architect and critic Ana Vaz Milheiro defined this moment, a bit condescendingly, as a confrontation between two distinctive attitudes – a flowing architecture embedded in the contemporary American practice; and the stable, euclidean forms of Carrilho, rooted in the European doctrine. The argument was impelled towards the idea of democraticity in architecture - and which architecture is more democratic. Which is a great debate, but also a stupid one if centered in a conceptual plane.
And it seemed to me: here are two great architects. They both are architects, and yet it’s as if they’re not practitioners of the same profession. And in fact they’re not, and it’s not a formal issue, but something that derives from antagonistic programmatic approaches to the very act of project.
Now one of them – Carrilho – presented his wonderful buildings and his ideas in the making of an architectural “object”. And the other – Mayne – talked about managing complexity, of programmatic processing and multi-tasking; about architecture not as a discipline focused on the physiognomy of the “object” but as powerful tool to generate creative processes that solve real urban problems through an investigation on form.
And so, although some may qualify a presentation on “the standing and the lying paralleliped” brilliant, I’m bound to say that it’s a poor reminescence of a dead architecture. An evidence to another kind of void, a doctrinary void between the architectural and the urban, between the conceptual and the mathematic. For architecture, in the complex world we live in, needs to overcome the boundaries of a compartmentalized design culture to regain it’s urban dimension and pertinence – a fabric for elaboration on the complex processes and flows of the city. It’s almost as if architecture would cease to be, primarily, a design discipline, to become a non-design discipline. For in it dwell many different layers of reality: artistic, technological, but also economic, social, juridical, environmental and more.
Architecture is dead. And a new architecture is needed. An architecture that is, in many ways, the supreme form of engineering and design. Architecture as a collaborative platform, processing new forms of questioning the many complexities of life. A complexity that no longer fits into abstract, lifeless objects, but rather needs formal solutions that implement strategy and vision. For “architecture is life”, and alive it should be.
Bye-bye Burgo Building, there’s a meteor coming...

7 comentários:

  1. Prezado Daniel,
    gostei muito da sua resenha da Trienal de Lisboa. Voltarei com certeza ao seu blog.
    abracos,
    Fernando

    ResponderEliminar
  2. olá daniel, sou o joao caria lopes atento leitor do teu blog, que acho muito fixe e importante para o panorama actual dos arquitectos portugueses.
    bem sei que controlas estes comentários, e compreendo que nao os queiras postar quando sao negativos ou perjurativos, se assim for fica a mensagem apenas para ti.

    Tb concordo que a arquitectura internacional sofre, há já algum tempo, de falta de essencia para cair apenas no seu lado mais formal. Tb concordo que a maneira de pensar dos nossos grandes arquitectos portugueses, ainda se exprime na linguagem "antiga". Mas queria te alertar para a tua falta de abertura, nestas questões.
    Não é a chamar estupida à opinião da ana vaz milheiro, ou morta à arquitectura do Carrilho da Graça, que conseguirás atingir o nivel seguinte, estou certo disso. Nesse ponto nivelas-te com todos os outros que recusam ver o que está para além da primeira vista e que acha que o que está lá fora (da vista) é que é muita bom. O Tom Mayne diria o mesmo, não te preocupes! Para chegar a raciocinios mais complexos e arquitecturas condensadoras, é necessária a critica (é claro) mas também a compreensão do real, e não das aparências. E o real não se deixa ler tão levianamente.

    com a máxima consideração pelo que tens feito ao longo destes anos,

    joao caria lopes

    ResponderEliminar
  3. Aproveito para agradecer os comentários e avançar com um pequeno esclarecimento. Não escrevo uma argumentação deste tipo – e com este título – sem esperar a possibilidade de crítica. Não faço manifestos todos os dias e o que aqui escrevi é um pequeno manifesto. O que não deixa de ser um exercício de arrogância. Seja como for, não se chama à arquitectura de suprema forma de engenharia sem estar à espera de despertar anti-corpos.
    Ainda assim, dirigindo-me ao João Caria Lopes, confesso que não esperava esse tipo de reacção. Não pretendo catalogar a Ana Vaz Milheiro de estúpida – e várias vezes pensei o quanto gostaria de escrever sobre arquitectura como ela o faz. O que escrevi foi considerar condescendente – no sentido de uma excessiva cautela que está tantas vezes presente no exercício da crítica – a análise que fez da fricção entre Mayne e Carrilho,que me pareceu bem mais significativa do que isso. E também não estou a dizer que a arquitectura de Carrilho da Graça está morta. O mesmo seria fazer a interpretação literal deste manifesto e pensar que gostaria de ver a Torre do Burgo de Souto Moura arrasada. Acho que estou a falar de coisas sérias mas uma provocação é uma provocação – ou não começaria isto com um cartaz saído do “Invasion of the Body Snatchers”.
    Sem tempo para continuar, espero poder adiantar mais alguns argumentos brevemente. Entretanto, a caixa de comentários fica aberta às vossas críticas.

    ResponderEliminar
  4. Ivo Costa, AspirinaLight.com9:57 da tarde, julho 28, 2007

    Deixe-me dizer-lhe Daniel que nos oferece mais um artigo muito bem escrito e com um grau de pertinência que só encontramos provavelmente numa pesquisa áquilo que foram os primórdios do Barriga (eu ainda sou do tempo em que os títulos apareciam |separados|deste|género|).
    Dito isto digo-lhe que discordo totalmente do que escreve.
    Discordo por várias razões mas vou cingir a minha posição a uma passagem do artigo, quando refere Exupéry no Terre des Hommes, e cito duplamente: “Muito embora as palavras continuem a ser as mesmas, as noções de separação, de ausência, de distância, de retorno, já não contêm as mesmas realidades. Para a compreensão do mundo de hoje, usamos uma linguagem criada para o mundo de ontem. E afigura-se-nos que a vida do passado parece corresponder melhor à nossa natureza pela única razão de corresponder melhor à nossa linguagem”. E aqui entra-se numa contradição insólita.
    Não tenho grande paciência (e cada vez o digo mais) para conversas onde nos sentamos e tentamos ser todos muito interessantes e atiramos temas fantásticos que procurem ao máximo atestar a nossa intelectualidade em conversas apimentadas pelo protagonismo verbal de quem nelas participem e por isso vou procurar ser o mais curto possível.
    É precisamente por dependermos tanto da interpretação do passado que a própria linguagem se traduz em reminiscências infinitas a estilos gastos e cuja validade, por se encontrar categorizada nos manuais da prática, não questionamos. É uma arquitectura banal e tão redutora que como diz se pode tratar como “o paralelepípedo de pé e o paralelepípedo deitado”, mas a questão é falsa e mentirosa porque em toda a largura de banda da prática da arquitectura mais contemporânea (chamem-lhe high-tech ou orgânica, ou simplesmente funcionalista) a expressão formal do objecto depende também desse raciocínio, e no caso é mais grave ainda. Mayne pode dizer que aborda o problema a partir de uma consciência critica que lhe cria a assumpção de variáveis à partida que acabam por condicionar imediatamente o resultado final. Não o fazem Souto Moura e Carrilho da Graça também?
    A diferença aqui faz-se pela manha americanizada de produzir um discurso facilmente categorizável, e aí eles fazem-no melhor que ninguém. Da genialidade de Kubrick ao provicianismo de Moore ou à falta de tacto de Tarantino, a história tem comprovado que é na forma como a coisa se publicita que atinge a sua dimensão perante as massas onde Koolhas é rei, e aí permita-me dizê-lo Daniel, você parece-me ser um consumidor fácil.
    Mayne produz objectos exactamente do mesmo ponto de vista de qualquer outro arquitecto contemporâneo. Fá-lo a partir de uma linguagem que lhe é próxima e que resulta enquanto máscara do seu nome e isso a mim parece-me muito desinteressante. Vejo os processos de abordagem ao projecto de Patxi Mangado e fico siderado com a variedade formal que o homem alcança. Não são raciocínios assinados, talvez sejam discursos mais voltados para dentro, para os seguidores da aresta rígida do cubo que parece fazer-nos hoje tantas cócegas ao orgulho ferido do arquitecto que se sente frustrado por se não conseguir reinventar a si mesmo, mas na base do pensamento também ali se desenha arquitectura, também ela sustentável, e melhor que tudo isso, toda ela incatalogável. Ás tantas muito parola na sua existência redutora. De um formalismo muito subestimável, mas onde as variáveis das pessoas, da escala e do uso, do produto e da utilização, do desenho e da resposta, conseguem ser suficientemente generosas para ali se entender que o arquitecto está a responder a um problema, e isso é muito diferente do que se fazer de interessante perante o problema que tem de resolver.

    A arquitectura está a mudar. Os processos e os fundamentos devem mudar sob pena de a coisa se perder na sua insuficiência tecnológica, e eu considero que a arquitectura (a boa arquitectura) será sem duvida o resultado da mais perfeita execução de engenharia, mas de repente começar-se a subverter aquilo que é uma forma de abordagem ao problema em função de outra que é pura e simplesmente mais condimentada e por isso mesmo muito mais fácil de convencer enquanto demonstração de um processo de projecto.
    No final a diferença é apenas e só Formal, apesar de se dizer que há muito mais do que isso na génese da coisa. Eles bem gostavam que houvesse. Não há.
    A coisa não morre assim tão facilmente.

    ResponderEliminar
  5. Ivo,
    agradeço-te a atenção que disponibilizaste para contra-argumentar. Como dizes, dependemos da interpretação do passado. A arquitectura tem fundações tão antigas que dizer que a arquitectura morreu é uma arrogante provocação. Estamos sempre a reinventá-la, ainda recentemente dizia o Paulo Mendes da Rocha que estamos sempre a fazer as mesmas coisas, a reinventar soluções sobre os mesmos problemas. A arquitectura faz-se muito assim, de ver como outros resolveram situações semelhantes, e por isso gosto da definição que citei do Frank Lloyd Wright que não diz que a arquitectura é isto ou aquilo, mas uma ideia em constante (r)evolução criativa de acordo com a nossa natureza e as nossas circunstâncias no tempo.
    A ideia que aqui desabafei carrego-a desde aqueles três dias de conferência – algo que seria muito difícil transportar para o blogue da trienal mas que inevitavelmente teria de escrever: que existem de facto hoje duas arquitecturas – aceito a simplificação – sendo que uma delas começa a definir a nossa profissão como uma forma de processamento complexo, uma coisa que leva a arquitectura de substantivo a verbo. Lembro-me – desculpa outra citação – o que disse também Mendes da Rocha: que se lhe dissessem para fazer um projecto onde quisesse como quisesse, sem território e contingências, não conseguiria desenhar uma linha. E cada vez mais me convenço que a arquitectura é isso mesmo – uma ferramenta para resolver problemas e não para fantasiar formas.
    A questão não é meramente formal, aí discordo de ti. E acho que temos uma visão muito superficial sobre o que vários arquitectos produzem, misturando Mayne com Zaha no saco dos starchitects como se fosse tudo igual. Para mim não podiam estar mais longe um do outro.
    Não sei se viste a apresentação do Bjarke Ingels na conferência da trienal. Foi daqueles momentos de abrir a cabeça, arrasador. Ele mostrou bem que o que está em causa, na origem dos problemas de projecto, é o modo como se pensam os dados em presença em cada território e situação. Claro que nada disso se transforma em arquitectura se não conduzir a uma excelente solução de forma, mas a forma não é o ponto de partida. E assim quando ele falava das varandas da VM House não exprimiu devaneios de querer fazer uma fachada com varandas em bico. Falou de criar uma noção de espaço comunitário, uma grande assinatura espacial convidativa a ver e conviver, o que é de facto pensar sobre arquitectura. Sobre isso convido apenas a ver os muitos projectos expostos no site da BIG, exemplares de como se constrói forma a partir de ideias sobre problemas. O mesmo podem ver no site da REX.ny. Ou dos AllesWirdGutt Este tipo de abordagem interessa-me cada vez mais, e acho que é por aqui que se vai descobrir a próxima geração de arquitectos portugueses; deixo o exemplo das investigações gráficas de base de projecto que o Carlos Sant’ana da S’A tem vindo a desenvolver.
    Quando avanço a provocação máxima de dizer que a arquitectura se está a tornar na suprema forma de engenharia, não estou a falar da perfeita execução da engenharia – ou das engenharias. Mais uma vez não me refiro ao substantivo mas ao verbo – qualquer coisa como o verdadeiro sentido de engineering, de processamento de complexidade com vista à elaboração de forma. Uso a expressão porque é a melhor colisão que consigo avançar contra essa visão passadista de arquitectura como algo que se processa no aquário mental de um mestre qualquer, a arquitectura é cada vez menos assim, e cada vez mais colaborativa – a Casa da Música não seria a mesma sem o Fernando Romero e a multidão de colaboradores excelentes por detrás da OMA, cujo nome não chega às revistas.
    Fico por aqui. Um abraço e felicidades para o teu blog.

    ResponderEliminar
  6. Ivo Costa, AspirinaLight.com12:43 da manhã, julho 31, 2007

    Percebo o sentido da provocação e não fiz uma ressalva no meu comentário que acrescento agora: a provocação, no tempo e no espaço em que se localiza é importante e as bases que a mesma assume serão eventualmente aquelas que no futuro se irão fazer dissertar sobre o tema em questão, acredito que seja inevitável.
    Ainda hoje com uma colega de atelier comentava isso mesmo e ela defendia o texto e o fundamento enquanto que eu procurava argumentar noutro sentido. Ás tantas percebemos que a conversa de que estávamos a dissertar veio deste recanto da internet, por isso venham então mais manifestos apoiados neste tema, acredito que todos lhe acabaremos por agradecer um dia por ter de uma forma muito franca (e acrescento, generosa) ter dado o mote.
    Muito obrigado :)

    ResponderEliminar
  7. Li os textos do vosso diálogo.
    Não tenho a vossa eloquência na escrita. Vou ser breve.
    Quando “a arquitectura se está a tornar na suprema forma de engenharia” ela não está a morrer, antes pelo contrário, está a renascer. Nota-se que esta conciliação de engenharia com a arquitectura está a criar um novo processo de resolver problemas.
    Podemos afirmar então que tanta a arquitectura como a engenharia e restantes especialidades estão a convergir numa nova arquitectura.
    Logo discordo que a Arquitectura esteja a morrer.

    ResponderEliminar