Máquina de embutir

No excelente Coffee With An Architect Jody Brown pergunta-se porque blogamos. Sim, o que andamos nós afinal a fazer por aqui?
Ainda bem que não sou o único a deitar-me no divã da interwebz. Pertenço a uma geração de bloggers – aqueles que começaram entre 2000 e 2005 – que entrou para a rede com algum entusiasmo, antes de se pressentir que íamos ficar todos famosos. Aí veio a enxurrada e muitos de nós, com o passar dos anos, desiludiram-se com a opacidade que tomou conta da blogosfera. Os outros continuaram por teimosia, porque já não sabemos viver sem isto, porque somos, de facto, bloggers.

Muitas vezes me questionei porque não existe uma blogosfera portuguesa de arquitectura. Ocorre-me, entre vários motivos, um. Porque todos os arquitectos que entrarem na rede com a expectativa de encontrar aqui um palanque para o mundo estão condenados a desistir. Porque só sabemos escrever para nós próprios.
Porque saímos das nossas academias de matriz sul europeia intoxicados por um arquitectês insuportável. É a primeira coisa que se aprende na Escola. Uma layer de pomposidade retórica mofada, que alimenta e se auto alimenta do pequeno mundo da especialidade. O acknowledgment é meio caminho andado para o sucesso. E aí vamos nós, felizes por falar e escrever à arquitecto, vida fora.
Não se trata de defender o abandono da erudição do discurso da arquitectura. Apenas notar que a pomposidade dos termos e dos modos não adiciona valor ao que sabemos e dizemos.

Talvez seja só um preconceito. Como escreve o Jody Brown, talvez a maioria de nós não encaixe no molde, na imagem do arquitecto pompous ass. Mas temo que ler demasiados blogues estrangeiros – nota-se no meu inglesing a mais, eu sei – possa fazer-nos esquecer que não habitamos a matriz de pensamento das línguas saxónicas. Já dei de caras com muitos arquitectos melindrosos para perceber que o retrato do asno pomposo pode estar mais próximo da nossa realidade do que seria desejável. Que as nossas academias se continuam a comportar como máquinas de embutir, programadas para produzir novos clones falantes.
Certo é que o melindre é um luxo que só os financeiramente independentes podem suportar. Há por aí uma geração inteira a aprender isso. Muito depressa…

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