Às voltas no funil do amor



Este texto contém spoilers sobre o filme Only Lovers Left Alive de Jim Jarmusch.

Não será acidental o facto do sítio web oficial do filme Only Lovers Left Alive estar alojado no Tumblr, esse submundo alternativo de todos os nerdismos e fandoms da internet – entre os quais encontramos uma legião de adoradores de Tom Hiddleston, já designados no Urban Dictionary como Hiddlestoners. A opção assinala a dimensão desalinhada ou mesmo marginal da mais recente obra de Jim Jarmusch.

Talvez mais surpreendente seja reconhecer que Jarmusch, com o seu ar irreverente e eternamente jovem, é já um sexagenário; e no entanto o filme confirma-nos, passo a passo, a maturidade do seu autor. Only Lovers Left Alive declina vícios formais da pós-continuidade e outros compromissos rítmicos para entreter o espectador. Longe estamos dos Bayismos da indústria.
O filme é estilizado, planos calculados, tensos, com tempo para respirar. A influência underground é notória, com passagens hipnóticas, se não mesmo psicadélicas. Bem-vindos a um cinema orgulhosamente old-school.

Esta é a história de amor entre dois imortais. Adam e Eve são vampiros. Ela terá milhares de anos. Ele cerca de meio milénio. No presente ela vive em Tânger, ele na Detroit contemporânea. Não por acaso uma parte da história passa-se na colapsada cidade americana, representação de um mundo em declínio que é, ao mesmo tempo, abrigo de outras formas de vida.
Eve, protagonizada brilhantemente por Tilda Swinton, é uma personagem etérea e electrizante. Mas é Adam que merece maior fascínio. Um imortal deprimido, com pensamentos ocasionais de suicídio, que alimenta um olhar desiludido com o mundo dos homens. Refere-se à humanidade não-vampira como os “zombies”. No seu olhar somos nós os mortos-vivos, desesperados por sobreviver, incapazes de viver.

Adam é apaixonado pela cultura e pela música. Todo o seu modo de vida é uma colagem de retalhos de memória e de história. Compõe músicas vagamente hipnóticas, com instrumentos acústicos e velhos aparelhos electrónicos, que grava em fita analógica. A banda sonora reflecte o universo onírico da Detroit que Adam tanto gosta de atravessar pela noite dentro.
O mais interessante neste olhar negro e poético de Jim Jarmusch é oferecer-nos uma perspectiva sobre o tempo que paira sobre a regular experiência humana. Como veríamos o mundo se vivêssemos muitos séculos de vida? Como olharíamos então para as crises e os problemas da existência?

Só os amantes sobrevivem. Ou apenas os amantes são capazes de viver. Only Lovers Left Alive é, nas palavras do seu autor, uma meditação sobre a arte, a história, a memória, e os mistérios do amor imortal. A não perder.

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