Quando a cidade é o vilão



Este texto contém spoilers sobre o filme Joker de Todd Phillips.

O vilão de Joker é a cidade de Gotham, imersa numa crise de lixo, palco de uma sociedade à beira da desagregação. Gotham é um lugar para onde convergem todos os males, reflexo último de um tempo tomado pela desigualdade e pelo abandono. Um mundo em decadência apoteótica.

É por esse deserto de humanidade que vemos Arthur Fleck caminhar dia após dia, subindo aquela longa escadaria que o seu corpo, abatido e vencido, enfrenta tortuosamente a caminho de casa. Arthur é um homem tão à beira do colapso como aquela cidade, procurando existir no meio de uma indiferente normalidade, tudo fazendo para conter o distúrbio mental, tal como vai reprimindo o riso patológico que, quando menos deseja, transborda de si.

O maior feito de Joker é navegar por entre a estreita linha do bem e do mal. Longe de conformar um olhar empático e desculpabilizador do vilão enquanto vítima, Todd Phillips filma a vertigem de um homem em queda, entre a fragilidade e a monstruosidade, como retrata o corpo anguloso de Joaquin Phoenix e assinala com minimalismo magistral a perturbante trilha sonora de Hildur Guðnadóttir.

Estranha circunstância, que na queda de Gotham, Arthur acabará por receber das mãos de uma multidão em fúria o único gesto de afecto que irá conhecer. É àquele caos à solta que Arthur se entrega, no derradeiro momento, desenhando um sorriso de sangue na própria face e sacrificando-se no altar de Joker, tornando-se assim na sua primeira vítima.

Por fim, o destino ditará que Joker e Batman acabarão por nascer no mesmo dia de caos, ambos filhos daquela cidade malsã onde não podem mais existir vilãos nem heróis.

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