Tom Joad



Men walkin' 'long the railroad tracks
Goin' someplace there's no goin' back
Highway patrol choppers comin' up over the ridge
Hot soup on a campfire under the bridge
Shelter line stretchin' round the corner
Welcome to the new world order
Families sleepin' in their cars in the southwest
No home no job no peace no rest

The highway is alive tonight
But nobody's kiddin' nobody about where it goes
I'm sittin' down here in the campfire light
Searchin' for the ghost of Tom Joad

He pulls prayer book out of his sleeping bag
Preacher lights up a butt and takes a drag
Waitin' for when the last shall be first and the first shall be last
In a cardboard box 'neath the underpass
Got a one-way ticket to the promised land
You got a hole in your belly and gun in your hand
Sleeping on a pillow of solid rock
Bathin' in the city aqueduct

The highway is alive tonight
But where it's headed everybody knows
I'm sittin' down here in the campfire light
Waitin' on the ghost of Tom Joad

Now Tom said "Mom, wherever there's a cop beatin' a guy
Wherever a hungry newborn baby cries
Where there's a fight 'gainst the blood and hatred in the air
Look for me Mom I'll be there
Wherever there's somebody fightin' for a place to stand
Or decent job or a helpin' hand
Wherever somebody's strugglin' to be free
Look in their eyes Mom you'll see me."

The highway is alive tonight
But nobody's kiddin' nobody about where it goes
I'm sittin' downhere in the campfire light
With the Ghost of Tom Joad.

Bruce Springsteen, The Ghost Of Tom Joad, 1995.

Os sinais


O sector da construção civil constitui um mercado de comportamento atípico. Diferente dos normais modelos de mercado em que a procura determina o valor da oferta, o imobiliário apresenta uma tendência para a manutenção dos preços até ao limite das expectativas. Na actual situação portuguesa, e apesar da crise económica que estamos a atravessar, o preço de venda da construção tende a manter-se e as ligeiras descidas resultam, em geral, da colocação de fogos de revenda ou usada pelos seus proprietários.
Existem várias teorias a respeito deste fenómeno. Uma delas, expressa na ideia de “mercado imperfeito”, faz reflectir sobre a natureza particular deste sector. No mercado convencional, o preço do produto estabelece-se em função do conjunto de factores que o compõem: matéria prima, custos de transporte, mão-de-obra, maquinaria, packaging, distribuição, publicidade; a que acresce uma margem de lucro relativa. No imobiliário, o promotor tende a definir o seu preço no sentido inverso: o lucro desejado para a mobilização de capital, custos de construção, impostos e taxas, custos de pessoal; chegando finalmente à margem disponível para o terreno de construção. O custo do solo urbano tende assim a definir-se em função da expectativa mais elevada de rentabilidade; tornando-se um valor de referência que “nivela” o mercado em alta. A situação agrava-se uma vez que o solo urbano, matéria prima do sector, é um bem limitado; sendo também o de qualidade, muitas vezes, escasso.
Vários factores contribuem para a complexidade de funcionamento do mercado da construção. Um desses factores deve-se ao envolvimento da banca como interveniente directo na constituição das suas regras. Dado o seu volume, e a quantidade de capital investido com base em crédito, torna-se difícil assumir uma política de redução de preços generalizada, mesmo perante um mercado em baixa. Uma descida repentina do custo de solo urbano fragilizaria gravemente grande parte de investidores, comprometendo a segurança dos seus compromissos financeiros. O sector bancário tem actuado de forma a adiar a tendência para uma regulação do mercado em baixa: criando condições de crédito que permitam aos compradores suportar as margens de lucro, ou pelo menos os investimentos já realizados. Isto é verificável pelos recentes aumentos de prazos de empréstimo no crédito-habitação, na prorrogação parcial do crédito para o fim do empréstimo, entre outras modalidades entretanto criadas. São medidas que procuram criar condições de sustentação do mercado, num momento particularmente frágil da economia.
Os produtos de crédito intercalar para troca de casa tornaram possível a muitos proprietários a compra de casa nova, na expectativa de vender a sua casa antiga até um prazo máximo de três anos. Para muitos destes compradores esse prazo chegará ao fim ainda este ano, enfrentando a urgência de vender a sua velha casa numa situação de mercado em baixa; e correndo os riscos de ver agravar as suas prestações que passarão a incluir capital e juros, caso não realizem a venda. O aumento previsível das taxas de juro irá sobrecarregar ainda mais a pressão sobre os que estão dependentes do crédito no limite das suas possibilidades. Estamos assim perante o perigo real de se verificar uma inundação do mercado imobiliário por produto. Existem já sinais claros de que este fenómeno está a acontecer. A mediação imobiliária é hoje um dos negócios mais expressivos da área do franchising, com inúmeras firmas a procurarem ocupar o seu lugar para rentabilizar esta tendência.
Nesta situação, e no que ao sector imobiliário diz respeito, os elevados lucros da banca relativos ao crédito para compra de construção devem ser vistos com desconfiança. Todos estes sinais aparentes de vitalidade e competitividade poderão não passar do prenúncio da crise. Num país onde a carga fiscal está acima dos limites, é pouco expectável que o sector tenha suficiente dinâmica para suportar o ajuste inevitável. Assim sendo, o equilibrar da balança só poderá resultar com a dor de muitos, e as consequentes ondas de choque sobre a restante economia.

Dia do cão


Roadkill Family Album, Nigel Grimmer, 2003.

A ideia lançada por um conjunto de deputados para a promoção de um Dia do Cão poderia ter sido arremetida para o baú de tantas outras iniciativas de consequência irrelevante. Um dia destinado à questão do desprezo e crueldade para com os animais dificilmente mudará a mentalidade da maioria dos cidadãos deste país. O que surpreende não é tanto a proposta em si ou o seu possível alcance, mas o conjunto repetido de reacções que tem gerado em sua volta.
Opinião sintomática, infelizmente não isolada, a de Helena Matos disponível no Público de hoje. A colunista faz a caricatura habitual da causa da defesa dos direitos dos animais. Escreve:
O Dia do Cão é o reverso duma sociedade decadente, onde os cidadãos já estão a perder direitos e receiam profundamente pelo seu futuro mas onde as elites, incapazes de assumirem as suas responsabilidades no anunciado descalabro, procuram desesperadamente manter a ilusão do progresso. E nessa ilusão progressista nada brilha mais do que a expressão “mais direitos”.
Helena Matos é incapaz de vislumbrar o seu próprio olhar carregado de preconceitos, que toma pela realidade. Talvez lhe seja difícil imaginar que a elite dos membros de associações de defesa dos animais é maioritariamente composta por carolas de bolso curto. Prossegue misturando no saco toda a espécie de “causas ridículas”, pelas quais diagnostica a nossa triste existência contemporânea:
O Estado português, por enquanto, pode continuar entretido com os cães porque, no que à espécie humana diz respeito, falhou rotundamente(…).
A mensagem, de resto, anda de boca em boca não apenas na imprensa escrita mas também na blogosfera, com o Abrupto e o Bloguítica a darem o devido relevo do sentir nacional. A conclusão, extraída do seu embrulho crítico-jornalístico, é a do costume: os que se preocupam com os animais não tem mais nada que fazer da vida; “gostam mais dos animais do que das pessoas” e “com tanta gente a morrer à fome estes andam preocupados com os cães”.
Continuamos longe de perceber que a questão do respeito pelos animais se insere no mesmo tecido sociológico de que faz parte o desenvolvimento da consciência cívica; não estanque da “sociedade das pessoas”. É mais fácil escandalizarmo-nos com o Dia do Cão do que contextualizarmos a nossa realidade e concluir sobre o que ela diz de nós próprios. Longe estamos, decerto, de exemplos como o de Inglaterra, em que uma instituição como a RSPCA gere um orçamento anual de 80 milhões de libras sem apoio estatal, totalmente suportado pelo financiamento e patrocínio de privados e cidadãos independentes. A organização, que desenvolve uma extensa acção no terreno, na iniciativa política e na área educativa, dispõe de um corpo de inspectores próprios que dão seguimento a denúncias de maus-tratos e abandono de animais, sendo um caso exemplar do poder que pode residir na associação cívica gerida na base do lucro social.
Uma realidade longe, é certo, da portuguesa. Estamos, como os indicadores de desenvolvimento apontam, mais próximo da Grécia onde, em vésperas da realização dos últimos Jogos Olímpicos de Atenas, a administração pública promoveu a morte por envenenamento da grande maioria dos animais abandonados da cidade.
Em Portugal o Dia do Cão continuará bem longe das consciências. Afinal aqui, ao que se vê, todos são já dias das bestas.

O fim da DGEMN

A extinção da DGEMN é um golpe pesado na defesa do património arquitectónico português. Acima de tudo, independentemente da operacionalidade da aparente fragmentação de competências que agora se vai instalar, é o gesto final de um longo processo de perda de know-how, naquela que foi uma das escolas de saber na área da preservação do património. Por ali passaram engenheiros, arquitectos, arqueólogos; a instituição construiu um capital de conhecimento que passava de geração em geração de técnicos. A pouco e pouco, a perda de capacidade financeira do estado foi comprometendo a força da DGEMN, como tem sido regra em tantos lugares da administração pública. Deixaram de se fazer aqueles pequenos trabalhos de conservação que levavam os novos técnicos a locais recônditos, para consolidar uma estrutura ou recuperar um telhado; e assim ia dando um conhecimento de valores esquecidos, distribuídos pelo país profundo.
Fica a tristeza de sentir que se poderão fazer as contas desta reorganização estatal que ditou o fim da instituição, mas nunca se saberá o custo do saber perdido que, como sabem os que o sentem, demora gerações a refazer.

Corine Land Cover 2000

O Corine Land Cover 2000 é o estudo recentemente referenciado no Diário de Notícias a propósito do aumento de área construída em Portugal, de 42% em 15 anos (ver notícia; também disponível aqui).
Os dados desse estudo estão acessíveis online no European Topic Centre on Terrestrial Environment, que disponibiliza ainda uma secção de documentos.
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Adenda: a preocupação dos “ambientalistas” (o ambientalismo, isto é alguma licenciatura; e quem são, já agora) pela aprovação de empreendimentos turísticos de grande envergadura no litoral alentejano pode ser legítima, mas associá-la a um fenómeno de expansão destas dimensões que se observa centrado nas grandes áreas urbanas (Algarve, Porto e Lisboa), parece-me confundir um pouco as coisas. Os maus exemplos de Sines, o paradigmático caso de Porto Côvo, ou Tróia se quisermos (que apesar de tudo se está a fazer enquadrado nos termos do planeamento em vigor), são gotas de água na maré de construção que grassa por essas grandes áreas metropolitanas onde já tudo se devassou e nada resta para preservar.