Montanha


Na visão daquela montanha escutei o silêncio maior da minha vida. Estático como a paisagem que me envolvia, não estava já ali mas nas profundezas de um mundo maior onde tudo era invisível. Nunca estivera tão longe de casa.
Entre mim e aquele silêncio está um oceano de coisas, pequenos nadas que se pulverizariam na base daquela montanha como poeira no deserto. Coisas, pequenas gotas de chuva na torrente em que sou submerso, no meio de uma multidão que braceja para ver a superfície.
Provavelmente, não voltarei a ver aquela montanha com os meus olhos. Esta verdade, simples, define-me. Prestes a afundar-me, posso compreender com uma última mas transparente clareza a razão do montanhista. Uma montanha só tem um sentido, uma razão de ser: a subida. Quando perguntaram a George Mallory porque subia o Everest, ele ofereceu uma resposta digna daquele assombro da Natureza: Porque está lá. Porque triste é a vida sem trilho, sem uma montanha nas nossas vidas.
Sim, é por ali!

(imagem via)

4 comentários:

  1. Já temos dois gostos em comum: as montanhas e a arquitectura. As montanhas, mesmo as mais pequenas e menos longincuas do que esta, cada vez me atraem mais.
    Um abraço.
    ZM

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  2. Bonito.
    Lembra-me uma máxima que alguém sustentava:
    e como saber que estamos no trilho certo?
    é porque é íngreme!
    :)

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  3. Na visão daquela montanha escutei o silêncio maior e melhor da minha vida: a Liberdade. Foi no Outono.Quando a descia, no Inverno, fui deixando de o escutar sem perceber porquê, tal foi o impulso gravitacional da descida. Aterrei com os pés na lama e deixei de conseguir movê-los durante todo o degelo do início da Primavera. Veio o Verão que secou a papa dos meus sapatos que finalmente consegui sacudir. Comecei a caminhar lentamente e encontrei outra montanha. Estou a subi-la porque ela existe e é por aqui.
    Talvez amanhã consiga escutar-me de novo.Talvez consiga encontrar a Serenidade.Disseram-me que era por este trilho...
    Porque excitante é a vida com trilhos e muitas montanhas para subir.
    Beijinhos

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  4. Cromo da bola de neve5:05 da tarde, janeiro 06, 2006

    Machhapuchhare!
    Tu nunca estiveste sozinho, nem nunca estarás, lembra-te sempre disso.

    Antes de mergulhares inspira fundo, para voltares ao de cima depressa.

    "Provavelmente, não voltarei a ver aquela montanha com os meus olhos."
    Porque não?
    Só precisas de uma mochila e de atitude positiva.
    (ainda para mais, já lá estiveste, sabes o caminho e com quem podes contar)

    "Porque triste é a vida sem trilho, sem uma montanha nas nossas vidas."
    O nosso trilho somos nós que o fazemos, vai em frente, sem medos.

    Como alguém disse uma vez, entre o nada e a dor, eu prefiro a dor.

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