Super gorila

King Kong: um filme excepcional ou uma grande pastilha? Descubra já a seguir...



Quando eu era miúdo via musicais. No tempo em que só existiam dois canais de televisão, a antiga RTP passava constantemente os velhos clássicos de Hollywood. As matinés e os serões eram preenchidos pelos grandes musicais de Gene Kelly, Fred Astaire e as suas sensuais parceiras de dança, mil aventuras de capa e espada, filmes de guerra com William Holden, tiroteios de John Wayne e Dean Martin e ainda, num fim de semana de sorte, um duelo desesperado sob o sol implacável com Gary Cooper.
Cresci a acreditar que certos filmes são talhados de uma fonte especial, dos lugares onde mora a imaginação mais profunda. Mais do que histórias, são ícones da própria vida e da experiência de se ser humano neste mundo. É o King Kong agarrado ao topo do Empire State Building, é o Errol Flynn a descer de uma árvore nas Aventuras de Robin Hood, é o Marshal Will Kane numa cidade abandonada do velho oeste em High Noon. Não sabemos explicá-lo, mas reconhecemo-lo em Gene Kelly a dançar à chuva, nos pássaros de Hitchcock ou nas bicicletas voadoras de Spielberg. E reconhecemo-lo porque são a expressão daquilo que há de mais íntimo nos sentimentos humanos, da alegria ao temor, do arrependimento à redenção.

Numa época em que os gostos estão tão compartimentados, padronizados em grupos-alvo, tomados como definidores de carácter mais do que ferramentas de aprendizagem, é difícil defender a importância plástica e temática que se encerra em certas obras daquilo a que chamamos o domínio da cultura popular. Claro que não consideraria Os Salteadores Da Arca Perdida como um dos filmes da minha vida. Mas, invariavelmente, imagens como a do mítico herói em fuga de uma bola gigante de pedra fazem parte da minha infância como fragmentos de uma paisagem maior. Uma paisagem que compõe a iconografia do nosso imaginário.
Ora eu sou suspeito para escrever estas linhas sobre a nova versão de King Kong de Peter Jackson. Possuidor da colecção completa de versões longas do Senhor dos Anéis e fã da desmesurada Terra Média criada pelos anciãos da Weta sob a batuta do realizador neo-zelandês, parti de malas e bagagens para Skull Island com predisposição para me encantar. Tão certo como estar aqui, muitos não se deixarão comover por este filme-monumento nem pelo entusiasmo que me deu a sentir. Cada um vê aquilo que sabe, e o que eu sei diz-me que em Jackson tudo é rédea-solta, exagerado e a transbordar, maior que a vida. Assim é King Kong desde o início, numa viagem à Nova Iorque dos anos 30 que percorre um curioso mosaico de contrastes sociais, o esplendor vivendo a par com a pobreza destroçada da depressão. A história que se segue é bem conhecida: uma grande tragédia com contornos de filme de aventuras. No meio está Skull Island, a viagem fantástica ao mundo dos medos e do desconhecido onde residem, lado a lado, todas as virtudes e defeitos desta obra agora revisitada.

Uma das coisas que mais me entusiasma num filme é a construção do espaço através de referências de montagem; a compreensão do território da acção com que o realizador monta uma sequência. Não é novidade; a capacidade de definir personagens no espaço e estabelecer relações entre si é um dos traços mais marcantes dos grandes mestres. Os exemplos são mais que muitos: o rigor cénico de Hitchcock (Janela Indiscreta ou o muito arquitectónico North By Norhwest); os espaços psicológicos de Kubrick (2001, The Shining, Eyes Wide Shut); o território absoluto de David Lean (Lawrence Of Arabia); ou, ainda, Spielberg e o lugar como tecido da história (a Normandia de Saving Private Ryan, ou o diferente mas muito menosprezado The Terminal). E por aí fora...
King Kong contém algumas sequências espacialmente fenomenais: veja-se a chegada tumultuosa à ilha, a fuga dos brontossauros, a queda de Kong e dos V-Rex no desfiladeiro ou todo o desenlace final em Nova Iorque. São momentos visualmente esmagadores e maravilhosas peças de concepção artística. É certo que por vezes nos deparamos com as costuras do digital, levado aos limites daquilo que é tecnicamente possível, mas mesmo esses pequenos defeitos dificilmente farão menosprezar esta capacidade de criar paisagens de fantasia pura e todas as belas telas que este filme vai compondo ao longo das três horas de duração.
A desmesura é o ponto forte e fraco do filme. Certas sequências da ilha são levadas ao extremo exagero e, numa cena particular, a um nível de grotesco que nada fica atrás dos filmes mais gore do início de carreira de Jackson. Talvez alguns desses momentos fossem desnecessários ao conjunto da história, mas é fácil imaginar o sorriso insano do realizador ao lançar mais e mais coisas para cima do espectador. No fim dessa verdadeira montanha russa, os apaixonados pela fantasia e aventura encontrarão em King Kong um filme à altura dos grandes clássicos, por vezes empolgante, outras mergulhado em tremenda emoção, mas sempre uma deliciosa viagem a um mundo que muitas vezes julgamos perdido no tempo em que tinhamos o olhar mágico da infância.

2 comentários:

  1. Cromo da bola de neve5:02 da tarde, janeiro 18, 2006

    Grande macacada!
    O que tu queres sei eu...

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  2. Confesso que não tive paciência para ler o post na sua totalidade, queria apenas dizer que na Fnac está À venda um DVD com o making of ou o uma espécie de documentário sobre o tal do Super Gorila.

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