DARCO Magazine 02


DARCO Magazine 02. Click to read (Portuguese text only).

Já se encontra à venda o segundo número da DARCO Magazine. Neste volume encontram-se em destaque obras do Estudio Barozzi Veiga, de Wespi De Meuron e de Paulo Providência.
A DARCO é uma revista publicada pelo Directório ARCO onde se destaca a apresentação detalhada de obras de arquitectura, conjugando a fotografia e desenhos técnicos de projecto. Este número está também disponível para consulta online.

dARCO Magazine 02
The second volume of DARCO Magazine has just been released. This issue features works by Estudio Barozzi Veiga, Wespi De Meuron and Paulo Providência.
DARCO Magazine is a portuguese publication produced by Directório ARCO and is available online.

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DIAGRAMMING FOR THE PEOPLE
Texto publicado na revista DARCO Magazine 02.

Dizia Gonçalo Byrne que em arquitectura deveríamos considerar sempre em primeiro lugar a obra construída, depois o projecto que lhe deu origem e apenas num distante terceiro lugar o seu autor. Só a obra é sujeita ao atrito da terra e à lenta apropriação do público. A obra de arquitectura existe entre a resistência e a capacidade de adaptação ao futuro, firmando no tempo a sua impressão cultural e um registo mais perene da dimensão teórica.

Que vivemos numa época contaminada pela imagem é uma afirmação banal. Partindo daqueles princípios enunciados por Byrne poderíamos dizer que isso contribuiu para uma inversão desta ordem de valores. Quantas vezes a projecção mediática se centra, em primeiro lugar, sobre o arquitecto, para se debruçar sobre o que ele vai fazer e onde. O que corresponde a um descentramento da teoria; o abandono da reflexão em benefício da antecipação. O projecto ascende assim sobre a obra; as suas imagens extravasando a novidade, o fantástico, os sonhos e as ambições deste tempo. Nunca como hoje o “render” ocupou as revistas de arquitectura para ilustrar até as suas capas – uma simulação que não requer já reflexão para se legitimar, como se a imagem, espectacular e bela, se bastasse a si mesma.

Um mundo sobrecarregado de imagem comporta o risco de relativização dos seus significados mais profundos, em detrimento da celebração da superfície. Também os “media” contribuem para promover ideias simples e reduzir o complexo processo criativo da arquitectura em rasgos de génio individual. É por certo mais fácil celebrar um objecto concreto do que o processo abstracto que lhe dá origem. E, no entanto, é a visão colectiva, colaborativa, entre promotores e projectistas que define o sucesso da realização arquitectónica – de uma arquitectura que é hoje muito mais que uma das artes do desenho mas todo um processo de gestão de objectivos, de meios, de tempos, de bases contratuais, de estratégias de implementação.

Devemos por isso ser prudentes relativamente aos juízos que fazemos sobre as imagens da arquitectura – tanto na celebração irreflectida da sua grandeza como na negação preconceituosa e desconhecedora de conteúdos menos aparentes. Cabe-nos, enquanto profissionais da área, o dever de distinguir esses conteúdos e produzir sobre eles inteligência crítica. Identificar as diferenças e trazer à luz os contextos e os processos que lhes dão origem.

Também enquanto arquitectos afirmamos repetidas vezes o papel de coordenação entre os domínios técnicos presentes em projecto. Fazemo-lo com um sentido adquirido de legitimidade, raras vezes questionando os motivos que o justificam. Raras vezes meditando sobre a responsabilidade (“accountability”) devida a essa função, e muitas vezes procurando levar a reboque os promotores e restantes técnicos envolvidos em nome de pouco mais do que a intenção estética; do que a “imagem”. Nos vazios deixados pelo cliente, na ausência de uma cultura programática que processe com exigência os objectivos do projecto e os meios à disposição para o concretizar, arquitectos assumem o protagonismo. Fracos clientes de nós próprios, parecemos esquecer que as verdadeiras ferramentas do projecto de arquitectura são hoje os orçamentos, os calendários, os regulamentos, as políticas, as condições do sítio – limitações que encerram todas as oportunidades e podem potenciar as soluções mais inovadoras.

Talvez pudéssemos dizer que, na sua aparência, Portugal é um país resistente à cultura da imagem. O discurso consolidado das academias parece ter eco no conservadorismo da instituição pública e na desconfiança de promotores e do público perante a inovação e a audácia. Mas talvez a nós, arquitectos, seja devido mais esclarecimento. Pois que tantas vezes julgamos uma arquitectura mais espectacular na sua forma ignorando os complexos processos que a sustentam – a dinâmica económica, a hiper-racionalização e gestão complexa que nela se processa.
E assim devemos questionar se não é alguma da nossa arquitectura, na sua expressão reservada, acanhada e modesta, mais devedora de uma contenção meramente formalista, também ela devedora de uma mera lógica de “imagem”. Que o superficial também se pode esconder sob muitas formas, na ambiguidade retórica de uma parede branca.

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