Um outro lugar



Por estes dias vou preenchendo algum do meu tempo com a banda sonora de Hereafter, o último filme de Clint Eastwood. Todo o álbum se faz em torno de um mesmo tema, variações sobre uma composição do próprio realizador cuja inspiração recai, por sua vez, sobre o célebre Concerto para Piano nº 2 de Rachmaninov.

Descobri Clint Eastwood como realizador num filme do início da década de oitenta chamado Honkytonk Man (A Última Canção). Filme menosprezado, praticamente desconhecido, sobre um cantor em busca de redenção num momento decisivo da sua vida, é uma história marcada pela aspereza empoeirada típica de uma balada country. Uma obra estranha e anómala para um tempo em que o actor-realizador protagonizava regularmente como herói de acção, é no entanto um dos primeiros trabalhos em que encontramos tudo aquilo que viria a fazer dele um autor sem par na história do cinema americano contemporâneo.

Tenho para mim que os filmes de Eastwood se dividem em duas categorias. As obras-primas, passe a latitude da expressão, onde encontramos títulos como Unforgiven, A Perfect World, Mystic River, Million Dollar Baby e ainda a adaptação de The Bridges of Madison County – e quem não se comoveu com a sequência de despedida faça o favor de marcar desde já uma consulta de psiquiatria. A esta lista junto ainda, separadamente, o extraordinário Gran Torino, o seu filme-testamento que é toda uma filosofia de vida e uma das obras que marcará a leitura futura da cinematografia do grande Dirty Harry.

Hereafter não fará parte desta primeira divisão de obras de Eastwood mas é, ainda assim, um filme que vale a pena descobrir. Obra minimal sobre três personagens suspensos na fronteira da vida por motivos diversos, uma simples história da ligação entre pessoas que vivem no horizonte entre este e um outro lugar. O filme não deixa de criticar sem rodeios a profusão de impostura e charlatanice que rodeia o mundo do sobrenatural. Mas de igual modo nos desafia a questionar aquilo que temos por certo, aquilo que nos transcende. Seja como for, é um trabalho que nos mostra um dos últimos grandes humanistas do cinema americano, capaz de olhar para aquilo que não se vê para expor as fragilidades do que significa ser-se humano.

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