A mortalha do amor



Este texto contém spoilers sobre o filme Like Crazy de Drake Doremus.

Que um filme carregado do mais belo romantismo seja, ao mesmo tempo, uma obra terrivelmente anti-romântica, eis o paradoxo com que nos confronta Like Crazy. Lançado em Portugal com o enganador título Loucamente Apaixonados esta é a história de dois jovens adultos, Anna e Jacob, ele americano e ela inglesa, que se apaixonam.

Realizado por Drake Doremus em 2011, na altura com menos de trinta anos de idade, este é um trabalho independente com produção de baixo orçamento fortemente assente na entrega de dois jovens actores então em ascenção: Felicity Jones e Anton Yelchin. Construído a partir de um argumento pouco rígido, enfatizando a improvisação em muitos dos gestos e dos diálogos, o filme resulta da cumplicidade do par principal, envolto pela extraordinária música para piano de Dustin O'Halloran. É fácil perdermo-nos na magia poética presente no olhar de Doremus e acreditarmos, como acreditam Jacob e Anna, na força daquele amor.



Mas há muito mais em Like Crazy do que a repetição dos muitos clichés do género romântico. Estamos perante uma obra de invulgar maturidade que nega uma qualquer visão pueril do amor puro e purificado. Pelo contrário, trata-se de observar a contaminação desse mesmo amor pelas muitas externalidades inevitáveis que a vida acabará por trazer: seja pela distância ou pela dor da separação, pelos mal-entendidos, pelos erros, pelo ressentimento ou tão só pela prevalência do pragmatismo.

Vêmo-los enfrentar os atritos que desafiam a sua ligação profunda. Partilhamos com eles o desejo do reencontro com a magia daqueles primeiros tempos, que Jacob e Anna continuarão a perseguir até ao fim. É por isso tão mais dolorosa a sua resolução; que o amor afinal se desvaneça sem catarse, sem conflito, sem discussão, revelando-se tão só um lugar a que possa ser impossível verdadeiramente regressar.
Eis um filme que nos convida a questionar a natureza complexa do amor, da sua força e da sua fragilidade, da construção e da desconstrução dos afectos perante as adversidades inevitáveis da vida adulta.

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