Antes que tudo acabe



Este texto contém spoilers sobre o filme Before Midnight de Richard Linklater.

Jesse acompanha o filho pré-adolescente no aeroporto, momentos antes de este embarcar para uma viagem de volta aos Estados Unidos, para junto da mãe. Depois de uma breve conversa, o pequeno Hank despede-se do pai e desloca-se para a porta de acesso ao avião. Jesse fica a olhá-lo seriamente enquanto este pousa a mochila na passadeira rolante, atravessa o posto de segurança, recolhe a bagagem e segue o seu caminho, sem nunca olhar para trás.
Assim começa Before Midnight, o terceiro filme de Richard Linklater dedicado ao par romântico protagonizado por Ethan Hawke e Julie Delpy. E começa, exactamente, por aquele olhar.

Em Hank podemos reconhecer a autonomia precoce presente em alguns filhos de casais divorciados. Um rapaz que aprendeu a preencher o vazio deixado pelos pais, ora ausentes ora demasiado ocupados a lidar com os seus fantasmas. O tipo de rapaz que porventura acorda por si próprio, que talvez prepare o seu pequeno-almoço, talvez vá para a escola sozinho. Que, acima de tudo, aprendeu a construir uma certa forma de independência emocional e que, quando as coisas correm mal, guarda os segredos dentro de si.

Jesse pressente a necessidade de acompanhar o crescimento do filho, fruto do seu primeiro casamento, naqueles anos decisivos que o levarão da adolescência à juventude. De volta ao carro, com Celine a seu lado e as filhas gémeas de ambos dormindo no banco de trás, Jesse revela, por entre uma conversa casual, a sua preocupação com Hank. E diz de passagem, num misto de incerteza e sentimento de culpa, que talvez devesse estar lá, junto dele.

A articulação dúbia de Jesse contrasta com a reacção implacável de Celine. Essa é a bomba relógio que vai destruir as nossas vidas – réplica que ele cedo desconsidera como pouco mais do que uma exaltação histérica.
É certo que Jesse não verbaliza a decisão de ir viver para os Estados Unidos, arrastando consigo a sua companheira e as duas filhas, para uma vida em tudo diferente daquela que construíram em Paris. Em boa verdade, ele não o consciencializou ainda – mas a necessidade já lá está, dentro de si, desde aquele momento em que viu partir Hank no aeroporto. Algo que Celine, com superior inteligência emocional ou simples intuição feminina, denuncia com desassombrada clarividência.




É a tensão latente naquele primeiro diálogo que está no centro da discussão que ocupa o longo acto final de Before Midnight. Um confronto que em tudo se distancia daquilo que conhecemos da relação de Jesse e Celine, a partir dos dois filmes anteriores. À semelhança do que nos trouxe com Boyhood, Richard Linklater não perde tempo com grandes gestos melodramáticos. Trata-se apenas de abordar o desenrolar de um conflito de forma despojadamente realista; um conflito em que ninguém tem inteira razão sobre o outro e onde, acima de tudo, ninguém tem culpa.

Jesse não tem culpa de querer estar presente no crescimento do seu filho em anos decisivos da sua vida. Celine não tem culpa de querer manter a sua identidade profissional, sabendo-se, do segundo filme, ter odiado a sua curta experiência de vida em Nova Iorque – sendo fácil presumir que uma educação no seio da cultura americana seria a pior coisa que poderia almejar para as suas filhas.

Ninguém tem culpa e, no entanto, o dilema aí está – que para poderem ficar juntos alguém terá de ceder e, em qualquer dos casos, terão sempre de viver com as consequências das suas escolhas; e porventura o ressentimento por aquilo de que abdicaram.
Aqui reside a genialidade de um filme que nos fala das complexas circunstâncias que podem conformar o destino de uma relação: que os objectivos de vida de ambos possam não ser inteiramente compatíveis com o amor que sentem um pelo outro. No meio do furacão elevam-se muralhas de defesa e atacam-se sem tréguas; ele minimiza as aspirações de carreira de Celine; ela lança acusações de infidelidades passadas – algo que Jesse nunca chega a desmentir – para dizer por fim que já não o ama. E eis que, por momentos, tudo parece perdido.

Se há uma verdade a extrair de Before Midnight é que, ao contrário do que nos dizem mil e um filmes românticos, o amor não conquista tudo. Por isso é tão mais bela aquela última cena, noite adentro, à beira-mar. Que o destino é um lugar incerto e o amor, para persistir, pode ter de ser resgatado de todos os desencantos e reajustamentos, tão próprios da vida adulta.

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