[por outras palavras]

Domingo

O impasse português é o estado da nação que decorre da multiplicação dos diagnósticos sobre os seus problemas, da sua tão fácil consensualização como da sua paradoxal inutilidade; que resulta do facto de os diagnósticos nascerem não para terem consequências, mas para consolação da alma nacional, um consolo que se alimenta da ilusão de que o que nos sobra em saber difuso compensa o que nos escasseia em acção concreta. Ele está, por isso, na origem de todos os conformismos e de todos os missionarismos.

Nestas condições, o cidadão dos nossos dias acaba por se tornar num nicho onde se concentram todas as contradições: que quer mais direitos sem mais responsabilidades, que reclama mais e melhores serviços públicos com menos impostos, que ambiciona mais igualdade mas também mais diferença, que exige mais liberdade sem diminuição das segurança, etc.

O mais desesperante, na vida como na política, é quando percebemos que, ingénua ou cinicamente, se está a lidar com problemas novos com base em respostas há muito esgotadas. Portugal passa hoje por um destes momentos, e o drama - seja ao nível político, jornalístico ou empresarial - é que há cada vez mais gente a viver dos problemas, parasitando-os, e cada vez menos gente a resolvê-los, enfrentando-os.

A ler: O Impasse Português de Manuel Maria Carrilho.

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