[o não saber de todas as coisas]

Quarta-feira

A ONU lançou o alerta para o aumento do consumo de antidepressivos em Portugal em 45 por cento nos últimos cinco anos. A notícia preocupante tem obtido algum destaque nos meios de comunicação, ainda que não sejam de esperar grandes consequências. No Público, uma pequena chamada de rodapé era também a nota mais relevante: As razões deste consumo exagerado de drogas legais não são conhecidas pelas autoridades portuguesas.

Recordo-me de uma notícia mais antiga, talvez com mais de cinco anos. Num telejornal, uma reportagem denunciava o facto de cerca de um em cada cinco jovens portugueses em idade escolar apresentarem comportamentos indiciadores de depressão, ainda que muito poucos casos viessem a ser reconhecidos (no contexto familiar ou escolar) e devidamente diagnosticados ou merecedores de acompanhamento médico.
Recordo-me porque aquela notícia me assustou. Estamos a falar de pelo menos vinte por cento dos nossos jovens que passam por processos depressivos. Julguei que esta notícia iria provocar alguma espécie de reflexão, mas não. Passou como mais uma onda na maré informativa sem obter eco social ou político. Como mais um daqueles miseráveis factos da vida que fazem parte do fado português.

A pouco e pouco, vamos somando as peças de um grande puzzle que nunca chegamos a ver na totalidade. Recordo então uma outra notícia que nada tem que ver com as anteriores: um inquérito realizado à escala europeia, questionava as famílias sobre quais os valores que gostavam de ver incutidos na educação dos seus filhos. E lá de fora apareciam respostas muito interessantes: a auto-confiança, a imaginação, a sabedoria, a responsabilidade, a capacidade de expressão, entre outras. E em Portugal vinham as prioridades bolorentas do costume: a disciplina, a obediência, o respeito pelos mais velhos.
Chamou-me a atenção porque a auto-confiança (que me recordo aparecia em vários países e chegava a ser a primeira resposta entre os ingleses) nem sequer aparecia entre nós. Parece então que não valorizamos a necessidade dos nossos filhos se sentirem bem na sua pele, de estarem de bem consigo, confiantes com as suas ideias e as suas escolhas. E isso é evidente à nossa volta: não cultivamos a frontalidade, a capacidade de discussão aberta e inteligente. Queremos que os nossos filhos não digam mentiras mas não nos importa se são realmente honestos. Queremo-los obedientes mas não pensantes. Importa-nos que saibam ler mas não necessariamente que saibam falar. Valorizamos a crítica mas não o sentido crítico.

E quem somos nós portugueses afinal senão os filhos de nós próprios. Quem poderíamos nós ser senão os filhos dessa grande depressão, sem auto-confiança e sem imaginação que séculos de obscurantismo, pobreza e repressão religiosa tanto ajudaram a cimentar?
Julgaram alguns intelectuais que depois do 25 de Abril a liberdade saíra à rua e condenados estavam todos os tabus. Mas continuamos a ser os filhos de uma educação onde não se valoriza ou se investe nas pessoas. Um lugar onde não se promove o comportamento consciente, submetido ao flagelo da depressão, da insegurança, aos relacionamentos sustentados na submissão lesiva e na alienação social. Somos todos os filhos deste não saber de todas as coisas.

Escreveu Exupéry: Uma criança mamava numa mãe tão cansada que parecia adormecida. A vida transmitia-se no absurdo e na desordem dessa viagem. Eu considerei o pai. Um crânio pesado e nu como uma pedra. Um corpo curvado no sono desconfortável, comprimido no fato de trabalho, feito de altos e baixos. O homem fazia lembrar um montão de argila. Assim, despojos informes carregam à noite os bancos dos mercados. E eu pensei: o problema não reside de maneira alguma nesta miséria, nesta imundície, nem nesta fealdade. Mas este mesmo homem e esta mesma mulher um dia conheceram-se e o homem certamente sorriu à mulher e por certo depois do trabalho trouxe-lhe flores. Tímido e desajeitado, tremia talvez à ideia de se ver repelido. A mulher, porém, por garridice natural, a mulher segura da sua graça, divertia-se porventura a inquietá-lo. E o outro, que hoje não é mais que uma máquina de cavar ou de martelar, experimentava desse modo uma angústia deliciosa no coração. O mistério está em que eles se tivessem tornado nestes volumes de argila. Em que terrível molde foram metidos e por ele marcados como por uma máquina de embutir? Um animal envelhecido conserva a sua graça. Por que razão este belo barro humano se estragou?
E eu prossegui na minha viagem por entre este povo cujo sono era turvo como um prostíbulo. Pairava no ar um vago ruído feito de roncos roucos, de gemidos débeis, do raspar dos sapatorros dos que, maçados de um lado, experimentavam o outro. E sempre em surdina esse interminável acompanhamento de seixos revolvidos pelo mar.
Sentei-me diante de um casal. Entre o homem e a mulher, o filho, bem ou mal, aninhara-se e dormia. Mas a dormir voltou-se e o seu rosto surgiu-me à luz da lampadazinha. Ah! que rosto adorável! Nascera daquele casal uma espécie de fruto dourado. No meio dessa grosseira manada nascera este prodígio de encanto e de graça. Debrucei-me sobre essa fronte lisa, sobre esse doce trejeito dos lábios, e disse de mim para mim: eis um rosto de músico, eis Mozart criança, eis uma bela promessa de vida. Os principezinhos das histórias em nada se diferenciavam dele: protegido, resguardado, instruído, que não poderia ele vir a ser! Quando, por mutação, nasce nos jardins uma nova rosa, eis que todos os jardineiros se comovem. Isolam a rosa, cultivam a rosa, protegem-na. Mas para os homens não há jardineiro algum. Como os demais, Mozart menino será marcado pela máquina de embutir. Mozart fará as suas alegrias mais altas da música de pacotilha, na fedorentina dos cafés-concertos. Mozart está condenado.

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