Tempos pouco científicos



Preocupa-me que, à medida que nos vamos aproximando do novo Milénio, a pseudo-ciência e a superstição possam parecer, com o passar dos anos, cada vez mais tentadoras, e o canto de sereia da falta de razão mais sonora e atrativa.

– Carl Sagan, «Um Mundo Infestado de Demónios: A Ciência Como Uma Luz Na Escuridão», Edições Gradiva, 1997 (1ª Edição).

Poucas são as vozes que vêm reflectindo sobre a passividade da classe política perante esse cilindro compressor de cultura em que se tornou o fenómeno televisivo – o crítico de cinema João Lopes é, entre nós, uma das raras excepções. É nesse panorama de silêncio e complacência generalizada, em que a televisão vai instituindo formas de entendimento do mundo fundadas na pré-formatação do pensamento e no preconceito estético, que também a Ciência se vai tornando numa das suas trágicas vítimas.

Parecem assim confirmar-se os receios que Carl Sagan exprimiu relativamente a este novo Milénio; um tempo vulnerável à ascenção da pseudo-ciência e da superstição, perdendo-se a compreensão da importância da Ciência como instrumento essencial para a sustentação de uma sociedade democrática.
Em boa verdade, a televisão tornou-se hoje o palco apoteótico da decadência do pensamento científico. Canais generalistas de televisão dedicam horas de emissão a programas de astrologia e “consultas” de tarot. Nos canais de “documentários” do cabo somos brindados com uma parafernália de programas de ocultismo e casas assombradas, videntes que falam com os mortos, visitas de extraterrestres e caçadas a figuras míticas como o abominável homem das neves. O prospecto é desanimador.



Uma das lições mais tristes da História é esta: se tivermos sido enganados durante o tempo suficiente, tendemos a rejeitar qualquer evidência do embuste. Deixamos de estar interessados em descobrir a verdade. O engano capturou-nos. É simplesmente demasiado doloroso reconhecer, até para nós próprios, que fomos ludibriados. A partir do momento em que entregamos o poder a um charlatão sobre nós mesmos, dificilmente o teremos de volta. Assim, o velho engano tende a persistir, enquanto outros despontam.

– Carl Sagan, «Um Mundo Infestado de Demónios: A Ciência Como Uma Luz Na Escuridão», Edições Gradiva, 1997 (1ª Edição).

Aspecto paradoxal nestes tempos pouco científicos em que vivemos: que à generalização da pseudo-ciência tenha correspondido também a instituição da mais indigente forma de tecnocracia. Exemplo disso é o modo como a informação económica se reveste tantas vezes de um risível exercício de “psicanálise dos mercados”, despojado de qualquer profundidade analítica. Na Economia, como em tantos outros campos de actividade intelectual, os especialistas deixaram de ser pensadores da complexidade do mundo para desempenharem apenas uma função na construção de visões sectárias da realidade. Afinal, no tempo sempre curto da televisão não há lugar à análise; tudo é síntese.

Momento superlativo dessa degradação do pensamento encontramos, como não podia deixar de ser, no próprio campo de debate político. Não está em causa o entendimento pueril de julgarmos que duas pessoas com a mesma informação chegam necessariamente às mesmas conclusões”. Na verdade, como nos disse Carl Sagan, a Ciência está longe de ser um instrumento perfeito de conhecimento. É apenas o melhor de que dispomos. A esse respeito, como em tantos outros, é um pouco como a Democracia. (…) A Ciência convida-nos a deixar os factos entrar, mesmo quando estes não se conformam com os nossos pressupostos.
Aconselha-nos a considerar hipóteses alternativas na nossa mente e verificar qual é aquela que melhor se enquadra com os factos. Confronta-nos com o balanço difícil entre estarmos incondicionalmente abertos a novas ideias, por mais heréticas que possam parecer, e o mais rigoroso escrutínio céptico de tudo – tanto das novas ideias como da sabedoria estabelecida. Este tipo de pensamento é também um instrumento essencial para uma Democracia num tempo de mudança
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Citação no texto: «Why We Need To Understand Science», The Skeptical Inquirer Vol. 14, Issue 3, 1990.

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