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Viagem ao fim do mundo



Aqueles que têm acompanhado o desastre do Rio Doce – de que escrevi aqui – não devem perder o artigo publicado hoje no sítio web Jornalistas Livres; ler Do Lucro À Lama: uma viagem de Mariana ao fim do mundo. Trata-se de um verdadeiro trabalho de grande reportagem, muito bem escrito e documentado, que faz o retrato completo dos antecedentes da tragédia, da influência política das empresas envolvidas, dos avisos ignorados e da extensão da catástrofe ambiental que está a ser vivida pela população do estado de Minas Gerais. Chocante mas obrigatório.

A tragédia do Rio Doce (2/2)



No passado dia 5 de Novembro duas barragens de contenção de resíduos de uma exploração mineira situada na região de Mariana, município do estado brasileiro de Minas Gerais, colapsaram, libertando 50 milhões de metros cúbicos de lamas contaminadas. [1/2]

As águas contaminadas do Rio Doce chegaram à costa Atlântica no dia 20 de Novembro. A maré de lamas tóxicas precorreu mais de 500 quilómetros de curso de rio, deixando atrás de si um rasto de destruição de consequências difíceis de contemplar.
Uma reportagem fotográfica da revista americana The Atlantic oferece um testemunho doloroso daquele que é considerado o maior desastre ambiental da história do Brasil, sabendo-se agora que o despejo poluente contém níveis elevados de metais pesados tais como o mercúrio e o arsénico.



O jornal brasileiro O Tempo produziu um mini-documentário sobre a devastação causada por este crime ambiental, focando-se nas perspectivas futuras de todos aqueles que dependem directa e indirectamente do rio para a sua sobrevivência. O pequeno filme é também um retrato da tragédia humana que se soma ao desastre causado ao meio ambiente, dando conta do desalento daqueles que hoje pouco mais podem fazer do que contemplar a paisagem arruinada do rio, agora praticamente morto.

O Estado Brasileiro accionou entretanto um processo judicial sobre a empresa responsável pela exploração mineira de Mariana, a Samarco, propriedade de dois gigantes da indústria de mineração: a brasileira Vale e a anglo-australiana BHP Billiton. Em causa está uma indemnização que poderá ascender a 5.2 mil milhões de dólares, destinada a ressarcir as vítimas e compensar o esforço de recuperação ambiental necessário para minimizar o impacto da extensa vaga de poluição. Certo é que os efeitos sobre o ecossistema ribeirinho do Rio Doce e na vida marinha da zona oceânica atingida serão devastadores.



A tragédia do Rio Doce ficará como um aviso aterrador dos efeitos da exploração predadora dos recursos naturais pelo Homem. Em causa está, por um lado, o predomínio de influência de grupos empresariais multinacionais sobre o poder político – tão rápido a ignorar os riscos em benefício da miragem de ganhos de curto prazo. Na verdade, consórcios como aquele que detém a Samarco estabelecem-se pressionando os poderes públicos a assegurar um enquadramento legal favorável, blindando-se juridicamente de responsabilidades perante as consequências de um eventual mas previsível acidente.

A isto somam-se as fragilidades das estruturas de supervisão estatal, demagogicamente rotuladas de custo injustificável, num tempo em que ascende uma agenda agressiva em prole da auto-regulação dos agentes económicos. Tal doutrina mais não tem favorecido do que a desregulação de normas de salvaguarda – por exemplo, no domínio do licenciamento ambiental – a preceito de uma suposta eficiência e um crescimento mais rápido da economia.
Eis a lição trágica que fica do desastre ambiental que assolou o interior de Minas Gerais; um caso que nos confronta com as fragilidades de um modelo de desenvolvimento que ignora, tantas vezes, os finos equilíbrios do meio natural em que vivemos, e os pesados custos que tal pode fazer recair sobre todos e, como sempre, em particular, sobre os cidadãos mais pobres e mais vulneráveis.

Referências:
1. BBC: Brazil dam toxic mud reaches Atlantic via Rio Doce estuary;
2. The Guardian: Arsenic and mercury found in river days after Brazil dam burst;
3. The Guardian: Brazil dam burst: environmental crisis reaches Atlantic – in pictures;
4. The Guardian: Brazil to sue mining companies BHP and Vale for $5bn over dam disaster;
5. The Atlantic: Photos of the Red Sludge That Smothered a Town in Brazil;
6. The Atlantic: Red Sludge From Brazilian Dam Collapse Reaches the Atlantic;
7. O Tempo: Um Adeus Ao Rio Doce;
8. O Tempo: Nascentes Da Esperança;
9. O Tempo: O Desastre De Todos Os Tempos.

A tragédia do Rio Doce (1/2)



No passado dia 5 de Novembro duas barragens de contenção de resíduos de uma exploração mineira situada na região de Mariana, município do estado brasileiro de Minas Gerais, colapsaram, libertando 50 milhões de metros cúbicos de lamas contaminadas que se espalharam ao longo de mais de 500 quilómetros da bacia hidrográfica do Rio Doce – o quinto maior do Brasil.
O verdadeiro tsunami criado pela enxurrada descontrolada de resíduos provocou estragos incalculáveis e ceifou um número ainda incerto de vidas humanas.


Vídeo: Expedição documenta desastre ambiental em Mariana (MG). Via Greenpeace Brasil.

Para os habitantes de muitas povoações ribeirinhas situadas na extensão da bacia do Rio Doce, a única solução é o abandono. Em Bento Rodrigues, a vila mais próxima das estruturas colapsadas, as lamas movediças consumiram casas e colheram vidas humanas, deixando atrás de si um rasto de devastação sem fim à vista.
Segundo vários geólogos e engenheiros do ambiente, os danos causados por um evento desta magnitude poderão levar muitas décadas ou talvez mesmo séculos a serem revertidos. A perda de biodiversidade e a extinção de algumas espécies endémicas é já uma certeza. Trata-se do maior desastre ambiental da história do Brasil.



Fontes oficiais referem que as lamas resultantes da produção de minério de ferro não apresentam nenhum elemento químico perigoso para a saúde, sendo compostas principalmente por óxido de ferro e areia. No entanto, a Greenpeace Brasil e outros especialistas independentes vêm denunciando que se tratam de resíduos contaminados por metais pesados como o arsénio, mercúrio e chumbo, altamente nocivos para o meio natural e para o homem.
Certo é que a contaminação do sistema hidrográfico da região deu já origem a uma situação de emergência sem precedentes, estimando-se que mais de meio milhão de pessoas estará sem acesso a água potável. É a morte de um rio e, com ele, de todo um modo de vida.


Vídeo: Rompimento da barragem de rejeitos da Samarco em Mariana-MG.

Perante um crime ambiental desta magnitude importa interrogar como foi possível conviver com tamanha bomba relógio de poluição, com a complacência dos responsáveis políticos e das autoridades do país. Mas notícias mais recentes dão conta da existência de outras estruturas de contenção de resíduos semelhantes, igualmente em risco de derrocada, podendo antecipar um desastre de dimensões ainda maiores do que aquele verificado até agora. Será possível?
Ficam, abaixo, várias ligações a artigos que dão conta do enquadramento desta terrível catástrofe ambiental, incluindo diversos vídeos com o testemunho directo do sucedido.



Referências:
1. The Guardian: Brazil's slow-motion environmental catastrophe unfolds;
2. Reuters: Brazil mining flood could devastate environment for years;
3. Jornalistas Livres: Tsunami de Lama, Drama Invisível;
4. Jornalistas Livres: Entre o luto e a saudade: um panorama do maior desastre ambiental do Brasil;
5. Jornalistas Livres: As Minas destruíram Gerais;
6. Jornalistas Livres: Minas de tristeza;
7. Deutsche Welle: Full impacts from Brazil's largest environmental disaster still not known;
8. The Ecologist: Tailings dam breach - The assassination of Brazil's fifth largest river basin;
9. Wikipedia: Rompimento de barragens em Bento Rodrigues.
10. YouTube (vídeo): Desastre ambiental em Mariana (MG) - pt II (Greenpeace Brasil);
11. YouTube (vídeo): Desastre Ambiental: Barragem Soltando Milhões de Litros com Lama;
12. YouTube (vídeo): Enxurrada de Lama Destrói Mariana a Barragem Rompeu!;
13. YouTube (vídeo): Rompimento da barragem de Mariana-MG Rio Doce;
14. YouTube (vídeo): Testemunho de Everton Rocha (Engenheiro Ambiental).

E por falar em cagarras…



Vale a pena descobrir o novíssimo sítio web do Atlas das Aves Marinhas de Portugal criado para a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves pelos nossos amigos da we are boq.
Este belo atlas online dá a conhecer as espécies de aves marinhas e costeiras que habitam as águas portuguesas, compilando informação muito completa quanto à sua distribuição e movimentos migratórios, bem como das características dos seus habitats e das principais ameaças que se colocam à sua presença.

O Atlas das Aves Marinhas de Portugal é o resultado de um extenso trabalho de investigação e apuramento de dados recolhidos ao longo de oito anos de embarques para realização de censos marinhos (a bordo) em toda a ZEE nacional, cinco anos de censos costeiros em pontos estratégicos da costa continental (pontos RAM), e um censo nacional de aves costeiras invernantes na costa não estuarina portuguesa (Projeto Arenaria). Este projecto, que envolveu mais de 150 observadores, aborda a situação de 65 espécies de aves em meio marinho de forma pormenorizada e para a totalidade do território nacional.



Para as 50 espécies consideradas como principais, o presente atlas reúne informação detalhada sobre a sua distribuição, movimentos e fenologia; abundância e evolução populacional; ecologia e habitat e ameaças e conservação. Para estas espécies são apresentados mais de 500 mapas de modelação ou distribuição de espécies por época do ano e região geográfica.
A presente obra compila ainda informação sobre aspetos históricos da ornitologia marinha em Portugal e conservação deste grupo de aves no nosso país, apresenta por linhas gerais a composição e dinâmica das comunidades de aves marinhas nidificantes e não nidificantes em território português, suas colónias de reprodução, e refere alguns aspetos sobre ecologia deste fascinante grupo de aves.


Um testemunho do trabalho de investigação levado a cabo pela ornitologia marinha portuguesa que é, de igual modo, uma forma de dar a conhecer esse universo fervilhante de vida que constitui o azul oceânico do mapa, ricamente povoado por incontáveis seres vivos em movimento ao longo das estações, e que incessantemente nos maravilham.