Imersão tóxica



Um artigo interessante no Economist.com (ler Online Gaming – Worlds Without End, 2005-12-14) aborda uma nova realidade que está a nascer no mundo dos jogos online. À medida que se vão implementando os chamados massively multiplayer online role-playing games (MMORPs), eles vão-se estabelecendo como plataformas de interacção virtual entre milhões de pessoas, possibilitando-lhes experienciar vivências simuladas com uma forte componente emocional. Para muitos destes jogadores o espaço virtual passa a ocupar uma parte significativa da sua rotina diária. Mergulhados em universos fantásticos, dão vida a personagens imaginários e enfrentam batalhas, combatem monstros ou partem em grandes aventuras onde constroem a sua riqueza e o seu poder.

A tese inovadora que o artigo do Economist.com aborda é a forma como, no mundo dos jogos online, está a nascer toda uma nova economia. À medida que os jogadores vão mergulhando nestas paisagens sintéticas, todo um mercado interno ao mundo dos jogos tem vindo a florescer. No mundo real, os jogadores transacionam monetariamente, em espaços como o Ebay, objectos do jogo: espadas, ouro, poções e até personagens já desenvolvidas. Para dar a noção das proporções deste fenómeno, os autores apresentam o exemplo de uma transação realizada no jogo online Project Entropia, em que um jogador comprou uma ilha (do reino virtual) por mais de 25.000 dólares, tendo reavido o seu dinheiro vendendo caça e direitos de exploração mineira a outros jogadores.
Será isto um jogo, ou antes uma nova realidade de contornos imprevisíveis? Para alguns críticos de títulos como Project Entropia, estes produtos tratam-se de sorvedouros de dinheiro que exploram o fascínio por uma forma de alienação. Imersão tóxica é o termo avançado para definir a crescente tendência de muitos jogadores que dedicam parte significativa do seu tempo a uma experiência interactiva cuja base é ficcional, ao ponto em que as suas vidas virtuais tomam precedência sobre as suas vidas no mundo real. Numa altura em que se começa a tornar possível “ganhar a vida”, vivendo e trabalhando no mundo virtual, o apelo da imersão tóxica é bem capaz de se tornar uma perigosa realidade.

Dois anos

A Barriga De Um Arquitecto completa hoje dois anos de existência. Não é um grande feito, só por si. Muitos blogues desta vaga continuam activos; outros ficaram pelo caminho. Mas em dois anos, a blogosfera mudou alguma coisa.

Poucos meses antes, quando um amigo me alertou para este novo fenómeno que se estava a criar, eu respondi desinteressadamente. Os blogues pareciam-me uma variação sobre a infeliz ideia de página pessoal: olá cá estou eu, diz-me o que pensas, tudo bem carregado de gifs animados e uma tentativa desesperada de existir.
No entanto, aquele impulso fez-me começar a olhar para alguns blogues e, com eles, a ser seduzido para esta viagem.
Aquilo que mais me apelou foi a plataforma, o modelo de registo de dados livre e acessível. Nessa altura a blogosfera era mais feia, mais tosca, mas era como hoje um espaço de custo zero onde qualquer um se podia aventurar. Comecei o meu caminho nesse mundo, sem audiência e sem saber bem para onde ir, mas com vontade de registar muitas ideias sobre temas que me interessavam. Assim se abriu esta subscrição para o fio da minha consciência, uma plateia para os filmes projectados na minha mente, enfim, o que lhe quiserem chamar...

Penso sempre que as melhores coisas que escrevi estão algures nos primeiros meses de vida deste blogue. Sem linha editorial, sem pressão nem expectativa, no maior desconhecimento de amigos e quase sem audiência, registei algumas das ideias que circulavam na minha mente à procura de lugar.
Sou suficientemente crítico para saber o chão que piso, mas aceito bem as minhas falhas. A Barriga De Um Arquitecto não é, nem alguma vez foi, tão bom como eu gostaria. Um blogue verdadeiramente genial exige um enorme compromisso pessoal. Não se iludam os que por essa blogosfera portuguesa se acham muito notáveis: falo de um Binary Bonsai, um desaparecido 1976 Design, a Jen Gray, o maravilhoso Antipixel, um The Nonist; ou em português uma Rua Da Judiaria, a Vitriolica (not really), a Quinta do Sargaçal ou o oficialmente fechado Epiderme (esse sim, o melhor blogue português de arquitectura), entre outros que felizmente estão por aí.
Hoje olho para o percurso desses dois anos e encontro muitos erros pelo caminho. Muitas coisas que já não escreveria daquela maneira, que teria revisto com mais cuidado, outras ideias pouco consolidadas que de todo não registaria. Mas sei apreciar esses erros, gosto de reconhecer essa aprendizagem e como, com todas as mudanças que esta Barriga já sofreu, ficam os registos dos velhos passos como as marcas que carregamos connosco e, mesmo ocultas aos olhos dos outros, as sentimos.

Recordo, quase com saudade, o alargado tempo em que recebia uma média de trinta visitantes por dia. Achava aquilo fantástico, um incentivo a escrever algo ainda melhor para interessar e envolver esses trinta dígitos anónimos do contador de páginas. Recordo também o cansaço ao fim do primeiro ano. Durante alguns meses arrastei-me com esforço por aqui, até que um segundo fôlego me envolveu e, com ele, um novo desprendimento para tornar o blogue algo mais próximo daquilo que desejava...
Hoje, mais um ano passado, volto a renovar esse desejo. A Barriga De Um Arquitecto não é um blogue de arquitectura. É um blogue escrito por alguém que estudou arquitectura e que, por isso mesmo, vê a vida pelo prisma deformado de quem reconhece certas coisas e a quem escapam muitas outras. Eventualmente escreve-se aqui de arquitectura ou de urbanismo, mas continuará a não ter linha editorial e a não exibir a intransigência implacável dos génios insuflados que por tudo e por nada redigem um manifesto.
Ah, é verdade que hoje tudo isto parece tão diferente: uma média de 285 visitantes por dia e um total de 85000 desde o seu início com 125000 visualizações registadas; e ondulando algures na segunda metade do top 100 do blogómetro nacional - o recorde foi 62. Não vos direi que me é indiferente; que não vou lá ver os números de vez em quando e que não são fonte de um orgulho que faço por esconder. Mas, acima de tudo, este será um espaço que, se tudo correr bem, se tornará cada vez mais específico e pessoal. Aqui caberá um rascunho feito num guardanapo, uma velha fotografia ou um abraço a amigos distantes. Eventualmente, podem aparecer textos grandes, mesmo que isso esteja “out”. E vão cometer-se alguns erros. Enquanto valer a pena.
Obrigado a todos.
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Chega assim ao fim o ciclo de imagens de capa gentilmente cedidas por Fernando Guerra, autor do sítio web Últimas Reportagens. Em especial para ele um grande agradecimento e os votos de que o novo ano seja propício a muitas e cada vez melhores experiências.
Um grande abraço.
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Referências e comentários:
La Force des Choses, Quase em Português, Zarp, Os (In)separáveis, Quinta do Sargaçal.
O Meu Piu Piu, Fotoben, O Despropósito, Irasshaimase!, O Arrumário, Matarbustos, desNorte, Alecrins no Canavial, postHABITAT, Welcome to Elsinore, Obvious, Ma-Schamba, Parallel Lines, Atuleirus, Apenas Mais Um, Bioterra.
Contra-Indicado, Anjos e Demónios.
A todos, um reconhecido obrigado!

Das Cercas dos Conventos Capuchos




...como em valles baixos, se achão abundantes frutos de boas obras: dos elementos da terra e o mais baixo, porém o mais seguro: alto está o ar; e mais alto o fogo, porém nenhum delles dá fruto: as fragosas serras, e outeiros altos não são de proveito, os humildes valles são os que se lavrão, e os que se estimão.
Frei Manuel de Monforte - Chronica da Provincia da Piedade (1751).

Não é possível falar deste pequeno livro sem falar um pouco sobre o seu autor que tenho o prazer de conhecer. O António Xavier é um daqueles homens que cativam à primeira vista pela humanidade que encerra no olhar. Mas é a sua voz que verdadeiramente seduz os que o escutam; uma voz de contador de histórias na alma de um amante da História. Com o alento jovem de investigador de coisas que a sedimentação do tempo persiste em esconder, aliado à sua sensibilidade de paisagista, Xavier compõe neste seu ensaio Das Cercas dos Conventos Capuchos uma visão sobre a instituição da espiritualidade no território e abre a porta a uma reflexão sobre parte importante da construção da Paisagem em Portugal.
Nele vamos descobrir o importante património cultural que encerram as cercas conventuais como importantes manifestações da arte paisagista portuguesa. Fazendo um percurso pelos Conventos Capuchos da Província da Piedade (território continental a sul do Tejo), faz o retrato urgente de um bem grandemente exposto ao abandono e à ruína, ameaçado tanto pela acção do tempo como pelo esquecimento e a ignorância.

O percurso dos frades Capuchos em Portugal nasce na sombra da perseguição. A sua busca pelo ascetismo espiritual levou-os ao refúgio em lugares distantes, no interior do Alentejo e no Algarve. A sua devoção encontrava eco em ambientes obscuros, encerrados e por vezes insalubres. O vale surgia como a imagem dessas virtudes de convergência entre o solo terrestre e a água celestial; o encontro humilde da alma humana com a graça divina.
Apesar da sua adopção por uma vida de isolamento, os Conventos Capuchos dispunham de normas próprias à sua localização que dependia da aprovação do Capítulo Provincial. Deviam assim ser pobres, pequenos e recolhidos, mas situar-se em lugar não demasiado distante de uma povoação, idealmente pequenos centros urbanos. A excepção é feita pelo Convento de São Vicente do Cabo, caso particular justificado pelas notáveis características do ermo promontório.

António Xavier mostra-nos como, no decurso do tempo, os Conventos Capuchos se foram aproximando das povoações que lhes serviam de auxílio, por um conjunto de razões. Na maioria dos casos, é a consolidação da ocupação do território e o desenvolvimento urbano que vai fazer integrar os edifícios conventuais, tornando-se parte da estrutura das novas aglomerações urbanas. Os conventos, apesar de fundados em meio rural, estabeleciam com a urbe uma relação de dependência e orientavam a expansão urbanística nessa direcção. Acentuavam eixos viários que permitiam sustentar novas malhas construídas. Os espaços conventuais marcariam assim o urbanismo das cidades portuguesas, muito para lá do tempo de vivência das Ordens que lhes deram origem.
Neste ensaio podemos conhecer um pouco da tipologia e simbologia subjacente à origem das cercas dos Conventos Capuchos, e o seu profundo significado enquanto determinantes da religiosidade no espaço e todas as suas implicações. Manifestações de uma cultura íntimamente mergulhada na Natureza, as cercas são também uma reminiscência importante para compreender as raízes da nossa cultura espacial e a forma como nos relacionamos com o território. O tempo, nas suas muitas vagas, trouxe o esquecimento sobre essas ideias, esses materiais, essas soluções tradicionais que foram a génese do nosso fazer urbano. É contra esse vazio de conhecimentos que o pequeno livro de António Xavier se vem erguer, como marca de uma forte esperança em recuperar essas raízes culturais e assim fazer renascer um novo interesse em investigar, conhecer e proteger este património escasso e inegavelmente valioso.
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O livro Das Cercas dos Conventos Capuchos de António Manuel Xavier é uma publicação da Casa Do Sul Editora em colaboração com o Centro De História De Arte Da Universidade De Évora, podendo ser comprado ou encomendado na Livraria Som Das Letras.

Casa Do Sul Editora
Apartado 2181, 7001-901 Évora
casadosul[arroba]hotmail.com

Livraria Som Das Letras
Rua João de Deus, 21 1º Esq., ÉVORA
somdasletras[arroba]mail.telepac.pt

Fio de luz



A Fio De Luz produz velas artesanais com um grande sentido de criatividade e design, adoptando matérias primas cuidadas a um delicado processo de composição e fabrico. Para além disso, ostenta um belíssimo sítio web que é também o ponto de partida para futuros vôos na área da bijuteria e joalharia. Vale a pena ficar à espera por novos conteúdos enquanto nos deliciamos com as suas velas que podem encontrar um bom lugar lá em casa ou compôr uma alegre prenda de Natal.

As velas podem ser vistas e compradas na Livraria Som Das Letras (Rua João de Deus, 21 1ºE, Évora, próximo da Praça do Giraldo), entre outros pontos de venda distribuídos pelo país.

Últimas reportagens



Tenho o prazer de anunciar em primeira mão que o sítio web Últimas Reportagens produzido por Fernando Guerra acaba de inaugurar uma nova fase de vida. Aquele que é o primeiro e único banco de imagens de arquitectura contemporânea em Portugal de livre acesso apresenta agora novos conteúdos, reunindo um total de 55 reportagens fotográficas sobre algumas das mais notáveis obras arquitectónicas e um principal destaque para projectos nacionais.

Com um interface muito acessível, o Últimas começa a tornar-se um projecto ambicioso com enorme potencial para crescer. O dossier em torno da Casa Tóló, projecto da autoria de Álvaro Leite Siza Vieira construído ao longo de uma encosta, é um bom exemplo dos caminhos que se poderão seguir para desviar a percepção pública dos habituais lugares comuns com que por vezes julga esta actividade e sensibilizá-la para o que de mais belo e erudito tem a arquitectura. O trabalho de Fernando Guerra é uma boa porta de descoberta para esse mundo, de forma e linguagem acessíveis e um olhar sensível a todos os que o procurem conhecer com emoção. Uma visita imprescindível.

Para todas as novidades em torno desta nova fase do Últimas Reportagens recomendo a leitura da sua mais recente Newsletter, disponível online.