A Barriga De Um Arquitecto completa hoje dois anos de existência. Não é um grande feito, só por si. Muitos blogues desta vaga continuam activos; outros ficaram pelo caminho. Mas em dois anos, a blogosfera mudou alguma coisa.
Poucos meses antes, quando um amigo me alertou para este novo fenómeno que se estava a criar, eu respondi desinteressadamente. Os blogues pareciam-me uma variação sobre a infeliz ideia de página pessoal:
olá cá estou eu, diz-me o que pensas, tudo bem carregado de gifs animados e uma tentativa desesperada de existir.
No entanto, aquele impulso fez-me começar a olhar para alguns blogues e, com eles, a ser seduzido para esta viagem.
Aquilo que mais me apelou foi a plataforma, o modelo de registo de dados livre e acessível. Nessa altura a blogosfera era mais feia, mais tosca, mas era como hoje um espaço de custo zero onde qualquer um se podia aventurar. Comecei o meu caminho nesse mundo, sem audiência e sem saber bem para onde ir, mas com vontade de registar muitas ideias sobre temas que me interessavam. Assim se abriu esta subscrição para o fio da minha consciência, uma plateia para os filmes projectados na minha mente, enfim, o que lhe quiserem chamar...
Penso sempre que as melhores coisas que escrevi estão algures nos primeiros meses de vida deste blogue. Sem linha editorial, sem pressão nem expectativa, no maior desconhecimento de amigos e quase sem audiência, registei algumas das ideias que circulavam na minha mente à procura de lugar.
Sou suficientemente crítico para saber o chão que piso, mas aceito bem as minhas falhas. A Barriga De Um Arquitecto não é, nem alguma vez foi, tão bom como eu gostaria. Um blogue verdadeiramente genial exige um enorme compromisso pessoal. Não se iludam os que por essa blogosfera portuguesa se acham muito notáveis: falo de um
Binary Bonsai, um desaparecido
1976 Design, a
Jen Gray, o maravilhoso
Antipixel, um
The Nonist; ou em português uma
Rua Da Judiaria, a
Vitriolica (not really), a
Quinta do Sargaçal ou o oficialmente fechado
Epiderme (esse sim, o melhor blogue português de arquitectura), entre outros que felizmente estão por aí.
Hoje olho para o percurso desses dois anos e encontro muitos erros pelo caminho. Muitas coisas que já não escreveria daquela maneira, que teria revisto com mais cuidado, outras ideias pouco consolidadas que de todo não registaria. Mas sei apreciar esses erros, gosto de reconhecer essa aprendizagem e como, com todas as mudanças que esta Barriga já sofreu, ficam os registos dos velhos passos como as marcas que carregamos connosco e, mesmo ocultas aos olhos dos outros, as sentimos.
Recordo, quase com saudade, o alargado tempo em que recebia uma média de trinta visitantes por dia. Achava aquilo fantástico, um incentivo a escrever algo ainda melhor para interessar e envolver esses trinta dígitos anónimos do contador de páginas. Recordo também o cansaço ao fim do primeiro ano. Durante alguns meses arrastei-me com esforço por aqui, até que um segundo fôlego me envolveu e, com ele, um novo desprendimento para tornar o blogue algo mais próximo daquilo que desejava...
Hoje, mais um ano passado, volto a renovar esse desejo. A Barriga De Um Arquitecto não é
um blogue de arquitectura. É um blogue escrito por alguém que estudou arquitectura e que, por isso mesmo, vê a vida pelo prisma deformado de quem reconhece certas coisas e a quem escapam muitas outras. Eventualmente escreve-se aqui de arquitectura ou de urbanismo, mas continuará a não ter linha editorial e a não exibir a intransigência implacável dos génios insuflados que por tudo e por nada redigem um manifesto.
Ah, é verdade que hoje tudo isto parece tão diferente: uma média de 285 visitantes por dia e um total de 85000 desde o seu início com 125000 visualizações registadas; e ondulando algures na segunda metade do top 100 do blogómetro nacional - o recorde foi 62. Não vos direi que me é indiferente; que não vou lá ver os números de vez em quando e que não são fonte de um orgulho que faço por esconder. Mas, acima de tudo, este será um espaço que, se tudo correr bem, se tornará cada vez mais específico e pessoal. Aqui caberá um rascunho feito num guardanapo, uma velha fotografia ou um abraço a amigos distantes. Eventualmente, podem aparecer textos grandes, mesmo que isso esteja “out”. E vão cometer-se alguns erros. Enquanto valer a pena.
Obrigado a todos.
_
Chega assim ao fim o ciclo de imagens de capa gentilmente cedidas por Fernando Guerra, autor do sítio web
Últimas Reportagens. Em especial para ele um grande agradecimento e os votos de que o novo ano seja propício a muitas e cada vez melhores experiências.
Um grande abraço.
_
Referências e comentários:
La Force des Choses,
Quase em Português,
Zarp,
Os (In)separáveis,
Quinta do Sargaçal.
O Meu Piu Piu,
Fotoben,
O Despropósito,
Irasshaimase!,
O Arrumário,
Matarbustos,
desNorte,
Alecrins no Canavial,
postHABITAT,
Welcome to Elsinore,
Obvious,
Ma-Schamba,
Parallel Lines,
Atuleirus,
Apenas Mais Um,
Bioterra.
Contra-Indicado,
Anjos e Demónios.
A todos, um reconhecido obrigado!